Melodia para a Morte
1 Único
As cortinas de veludo vermelho se abriram, a plateia estava praticamente vazia. O único assento utilizado era o da Morte, que aguardava calmamente pela apresentação. Sua postura ereta e os pés juntos e firmes ao chão, suas mãos ao colo magro, e a caveira sem olhos, como se fosse uma máscara, havia em toda a Morte um ar de mistério. Pois é isso o que a Morte é: um mistério, mas não tão grande quanto a própria Vida. E um pedaço desta, um pequeno humano vestido de vermelho, se apresentaria a instantes, pela última vez.
O homem caminhou vagarosamente até o centro do palco, observou o cenário vazio de gente, mas naquela única vez não se frustraria; o importante era o convidado de honra, aquele para quem a composição seria tocada. Avistou a Morte, e ele esboçou um sorriso: ela parecia um boneco, sentada imóvel daquele jeito. Mas a verdadeira marionete era o próprio rapaz, e em instantes ele perceberia.
Antes de sentar-se ao banco, jogou em direção à ela a rosa que pendia no bolso superior de seu fraque, e algumas pétalas foram deixadas pelo caminho. A Morte pegou a flor e inclinou a cabeça para o lado, estava ele tentando se livrar de um elemento morto que trazia consigo? Ou devolvia algo que pertencia a mesma? Ela não entendeu, talvez fosse apenas uma gentileza. O homem a olhou, de repente sua figura parecia tão grande. “Por isso temos medo da Morte”, pensou, “ela é tão majestosa, implacável... E até bonita”.
A Morte não costumava receber elogios, podia ser que ela estava se divertindo com aquilo. A rosa que pousava sobre sua mão logo desfez-se em pó, e os minúsculos fragmentos transpassaram pelos ossos que compunham seus dedos. A morte definitiva de uma flor, o nascimento de milhares de bactérias e micro-organismos que a transformariam em energia. Tudo é um ciclo, a natureza é tão bela...
Ele ajeitou-se no assento e encostou levemente em algumas teclas do piano, apreciando o tato de suas mãos, sentindo o relevo de cada nota. A Morte o observava, já era hora.
O pianista iria tocar sua última música para ninguém menos que a Morte, e assim que o som acabasse, o que restava de vida dentro de si seria levado pela mesma. O silêncio reinaria, e assim tudo chegaria ao fim.
Quanto tempo levaria a apresentação, cinco minutos? Duas horas? Uma vida inteira? Não importava, pois o Tempo era ausente naquele momento. Apenas a Morte estava lá, e faria com que nada o interrompesse.
O rapaz aqueceu as mãos esfregando-as uma na outra, e começou a dedilhar. Seria sua melhor apresentação, não poderia decepcioná-la. Os dedos da destra lançavam notas em harmonia com a outra, e ele deixava que todos os seus sentimentos fluíssem, no mesmo ritmo do som.
E, ao passo que a música soava, era como se o seu passado o envolvesse, invadindo sua mente, abraçando-lhe a alma. E seus dedos pareciam fora de controle, fazendo o som por si só, com auxílio dos pedais. Ele abriu a boca inconscientemente, erguendo a cabeça para o alto. Seus olhos apontavam para o teto, mas enxergava outras coisas.
Estava vendo ambas as mãos, tudo estava escuro. Resolveu perambular por aquele lugar obscuro que parecia não ter começo nem fim. Seus passos não chegavam a lugar algum, foi então que decidiu correr. Mesmo assim, não via nada além de escuridão. Parou, ofegante. Apoiou as mãos sobre os joelhos, e a única coisa que conseguia ver era ele mesmo. Foi então que teve a ideia; para quê olhar ao redor? Ele deveria analisar a si próprio. Quando as pessoas o fazem, encontram coisas que não desejariam. E ele em breve veria todas as entranhas de seu coração, e segredos que jamais se lembraria se não fosse por aquele momento.
Então, ele sentou-se em algo que não sabia ao certo se poderia chamar de chão – parecia flutuar sobre a escuridão –, e começou a observar a si. O que encontraria, não fazia ideia. Tinha certo receio, pois sabia que havia algo que escondia. E fechando os olhos, deparou-se frente a um porta-joias em forma de piano. “A caixinha de música da minha mãe...”, refletiu. Abriu-a, e uma música tocou. Era a música que ele apresentava!
Suas mãos percorriam com maestria sobre as teclas do piano, enquanto ele estava dentro de si, absorvido pelo passado. A Morte apreciava a doce melodia, que no momento parecia um pouco confusa, ou exaltada. Mas, em breve, o som da melancolia se estabeleceria, era certo, e ela aguardava.
O pianinho de sua mãe tocava, e o som oscilava entre alto e baixo; o homem sentiu-se um pouco triste, talvez nostálgico. Lembrou-se de ter se arrependido de não ter dito algumas coisas para ela, antes de ela partir. Será que a Morte lhe mostrara isso? Ele não queria que ela partisse com mágoa no coração, por sua culpa.
Dentro do porta-joias havia uma caixinha, ele tinha quase certeza de que não gostaria de abri-la. Entretanto, tinha ciência de que a Morte expulsara o Tempo de lá, e que cedo ou tarde deveria descobrir o que havia lá dentro.
Hesitante, retirou a pequena tampa acinzentada. E o piano que estava em seu colo caiu ao seu lado, derrubando alguns colares dourados e anéis de prata. Da caixinha, saíram infinitos fios coloridos que se esparramavam como tinta ao seu redor, e giravam em direção a ele. Vermelho, verde, azul, amarelo, vermelho, azul, verde... E o rapaz estava imergindo. Afogou-se.
De repente, abriu os olhos, olhou ao seu redor, escuridão total. O pequeno piano estava junto dele, e ele segurava uma caixinha cinza, vazia. Seu coração estava doendo, e lágrimas brotaram em seu rosto, lágrimas coloridas como tinta. Chorou até não conseguir mais, e depois disso, exausto, deitou-se. Suas lágrimas foram incorporadas àquele tapete negro ao qual se apoiava. A música soava baixinho. Ouvia também um murmúrio, um sussurro que parecia ser destinado a ele: a Morte dizia-lhe algo.
Após um longo intervalo, ergueu-se e ficou sentado. Seu coração voltava a doer; subitamente sentiu vontade de gritar, gritar como nunca havia gritado em toda sua vida. Abriu a boca, mas nada saiu de sua garganta. Tentou de novo, e de novo. Não conseguia! Ajoelhou-se, abraçando seu corpo, e suas tentativas eram falhas.
Do lado de fora, a Morte ouvia o embalo do som do piano, que exprimia uma mistura de raiva com tristeza, algo doloroso. Aquele som ela já estava acostumada, a canção do desespero. Era a melodia que existia em todos os humanos.
O rapaz guardara seus sentimentos dentro daquela pequena caixinha, e agora ela explodira. Tudo estava trancafiado dentro de seu coração por tanto tempo, que ele já não era mais capaz de libertar seus sentimentos, seus pensamentos. Mas ele fazia um grande progresso, fora capaz de chorar. Se livrava daquele sabor amargo aos poucos.
E, após um tempo, ele sentia-se pronto para partir. Não carregava mais nada que o prendia ao mundo que vivia. A escuridão de pouco em pouco começou a desvanecer como uma névoa, e quando se deu conta, estava sentado, no palco dourado, dedilhando a última nota da música.
Ele levantou-se e encarou a Morte. Ela permanecia na mesma posição de quando começara a apresentação, e finalmente ergueu-se. Não parecia tão grande assim, mas ainda era bela. Bateu palmas, e aquele som foi meio estranho, já que ela não possuía pele nem carne. Mas ele ficou feliz, e abaixou a cabeça em um gesto de reverência. Foi até a ponta do palco, a Morte o fitava, e seus pés começaram a virar pó. Olhou a Morte uma última vez, e fechou as pálpebras, sorrindo.
Em sua mente, ele segurava a mão da Morte, e faziam contato visual. Estava agradecido por ela, a adorável morte. Talvez seja sina dos artistas, ver beleza em coisas horríveis como a Morte. (Pobre Morte!) Sem mais, o rapaz começou a se sentir extremamente sonolento.
E o último grão de pó do pianista espalhou-se pelo palco, misturando-se com o aroma da rosa vermelha.
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