Melodia Mortal

2 Círculos de Balbúrdia


Notas iniciais
Para esse capítulo, eu gostaria de pedir paciência, porque ele está mais focado nas características da investigação. Quanto a ação, ela só virá nos capítulos posteriores quando o mistério já estiver melhor analisado,não vamos fazer nada sem pé nem cabeça né gente.

POV FRED

No dia seguinte, eu e a turma nos reunimos na cozinha as 7:00 da manhã. Salsicha e Scooby desceram resmungando por serem acordados tão cedo, mas é necessário, esse caso pede pressa e precisão. Tomamos nosso café da manhã o mais rápido que podemos (o que ainda é devagar para Salsicha e Scooby).

Quando todos já estão satisfeitos, eu me levanto e ergo uma mão pedindo atenção.

– Pessoal, dessa vez estamos lidando com uma situação bem delicada, não só já existem vítimas desse louco, seja lá quem for, como é tudo bem estranho e ilógico.

– E quando nos deparamos com uma situação com sentido, cara? – diz Salsicha bocejando

– Teve aquela vez que... não, acho que nunca. – diz Scooby contando com os dedos

– Rapazes, sinceramente, vamos trabalhar o mais seriamente possível neste caso, desta vez não estamos lidando com bandidos tolinhos– diz Daphne

– E o que te leva a pensar isso? – pergunta Velma

– Um pressentimento, Velms, um pressentimento – diz Daphne franzindo o cenho – Madelyn disse que os jovens desaparecidos quase sempre não eram de famílias notáveis...

– Aí é que está, ‘’quase’’ – eu respondo – Temos que investigar a situação de cada família dos jovens desaparecidos, e também precisamos analisar os arredores da praia, onde ao que tudo indica, estão ocorrendo os sequestros.

– Verdade, nesse ‘’quase’’ em que alguns podem ter uma situação financeira notável, o sequestrador pode ter em mente apenas um ou dois jovens de boa condição e sequestrar outros como alarme falso e distração.

– É, mas se fosse mesmo isso, porque então a essa altura nenhum contato foi feito com as famílias das vítimas? – insiste Daphne levemente irritada.

– E é por isso que é preciso falarmos com as famílias, quem sabe algum contato foi feito? – eu digo a olhando fixamente.

– Sem comunicar a polícia? – ela diz unindo as mãos embaixo do queixo e me fitando desafiadoramente.

– Sequestradores fazem ameaças, Daphne, não é segredo que alguns exigem sigilo – eu digo entrando no jogo dela.

– Numa cidade dessas, Fred! Uma cidade calma, monótona, sem muitos históricos de crimes desses... sabe qual foi a última vez que teve um sequestro aqui? Me poupe, tem algo estranho aí!

– Ora, isso é o que descobriremos então – diz Velma num tom conciliador – As duas possibilidades são válidas, Daphne, a situação realmente é bem delicada e coisas bem mortais podem estar passando despercebidas, Fred, já lidamos com coisas mais do que ‘’esquisitas’’ antes, então sim, tudo é possível.

Daphne se levanta e me encara com o olhar ainda desafiador, me controlo para não sorrir.

– Então porque estamos perdendo tempo? Vamos tirar nossas conclusões só depois de investigar então, vamos Velma...

– ‘’vamos Velma’’? – eu pergunto – Quem é que faz as separações aqui?

Daphne revira os olhos.

– É sempre a mesma coisa – ela diz

– Não mesmo, mulher – responde Salsicha – Não lembra daquela vez que o Fred me separou do Scooby?!

– É, e ainda por cima deixou a gente naquele hospital – Scooby responde para Daphne.

Eu fico vermelho de irritação, eu sou ainda o líder dessa turma? Que chato!

– Mas dessa vez não vai ser assim, a senhorita vem comigo investigar a praia – eu digo sorrindo para Daphne e ignorando os olhares de curiosidade do resto da turma. – Velma, você vai com Salsicha e Scooby falar com as famílias das vítimas.

– PARA TUDO! Então quer dizer que eu e o Scooby NÃO vamos investigar a área mais perigosa dessa vez? – Salsicha pergunta radiante.

– Não – eu respondo.

Ele e e Scooby começam a pular de alegria, antes de Velma os pegar pelas orelhas e os arrastar para a porta.

– Nos encontramos na sala de estar ás 13:00. – eu digo e partimos para nossos destinos.

Daphne e eu andamos pela parte da praia onde os desaparecimentos se concentraram, a Baixa Maré, área onde o mar é cheio de rochas e o vento é forte, para a irritação de Daphne, que tenta controlar seu cabelo.

Ela finalmente vira o rosto para mim e fala.

– Porque está bancando o cético dessa vez?

– Não estou ‘’bancando’’ nada, apenas quero estudar melhor uma situação que parece bem criminosa...

– Freddie, você sabe muito bem que já passamos por esse dilema uma vez, não tem porque fazer vista grossa e só acreditar no último momento.

– O problema, querida, é que não há nada para ver! – eu digo com um tom irônico abrindo os braços para a praia vazia a nossa frente.

– Acontece, querido, que há sim, a questão é: você quer ver, Fred Jones? – ela pergunta em um tom perigoso. Daphne aponta para as pedras no mar – A área é rochosa, sabe o que você deveria concluir com isso, Fred? Cavernas! Eu fiz uma pesquisa, há centenas de cavernas submersas por aqui!

– Verdade, ótima área para um sequestrador...

– Não ouviu o que eu disse, Fred? Submersas!

– Então você está dizendo que....

– Teremos que chegar mais perto daquelas rochas se quisermos concluir algo lógico – ela diz desistindo de discutir e se afastando. Para o meu espanto, Daphne começa a entrar dentro do mar, de roupa e tudo e ir até as rochas mais próximas.

– Ei! Espere aí! – eu digo a seguindo e a agarrando – Perdeu a noção?

– A maré está baixa, Jones! Ou você acha que eu entraria no mar com o MEU vestido? – ela diz rindo e se soltando.

Eu a sigo e nós subimos nas rochas. Caminhamos por um tempo, procurando alguma falha ou entrada para uma das cavernas submersas.

– Nada de nada! – Daphne exclama irritada.

– A questão é: você quer ver? – eu digo a imitando e rindo enquanto me ajoelho e analiso as rochas úmidas.

– Porque parece tão satisfeito? – ela diz colocando a mão em meu ombro e se abaixando tentando ver o que estou vendo.

– Nem tente, eu fiz aquele curso de armadilhas que você considera inútil lembra? Acontece que aprendi a detectar um espaço frequentado por humanos ultimamente, e esse aqui parece bem usado, veja os fragmentos de rochas soltas, vejas como algumas algas estão soltas e amassadas...

– E se não há nenhum louco além de nós para andar por aqui... – Daphne conclui meu pensamento.

Eu me levanto e a beijo, feliz com nossa pequena descoberta.

– Então estamos próximos de algo importante, Daph, só precisamos ver melhor .

POV SALSICHA

Que sensação estranha essa. Pela primeira vez, vamos fazer a parte mais fácil no mistério,parece até um sonho e eu não quero acordar tão cedo dele.

Saímos da casa da Tia Thelma e fomos a caminho da casa das vítimas desaparecidas. Essa cidade é tão diferente,sem Velma aqui e o GPS de seu tablet,nos perderíamos em menos de um minuto. Meio difícil imaginar que,num lugar lindo como esse,possa haver casos como esse que estamos envolvidos.

Velma está andando na nossa frente,Scooby e eu estamos distraídos,com a cabeça nas nuvens.

– Salsicha,será que podem andar mais rápido? – Velma para e vira pra nós. – Ou será que é necessário que haja vampiros e zumbis na nossa cola para que aconteça?

– Nem pense nisso,Velma – digo com a aflição voltando a tomar conta de mim.

– É,nada disso – Scooby cruza os braços em seriedade.

– Aliás,como você conseguiu o nome e endereço dos jovens? – eu pergunto.

– Esses aqui são os mais próximos da casa da minha tia,aqueles que ela tinha conhecimento sobre.

– Se esses são os mais próximos,não quero nem imaginar os que ficam longe. Minhas pernas já estão doendo de tanto caminhar,não sei se aguento – eu disse com um tom dramático.

– Sem exageros,Salsicha – Velma me repreende. – Já estamos bem perto,é aquela casa azul ali da esquina – ela aponta.

Lá estava a casa azul,uma casa bonita,mas nada muito grande e chamativo. Keeley Franklin,que desapareceu há duas semanas,reside nela com sua avó materna. Rapidamente avistamos a senhora sentada na varanda da casa numa cadeira de balanço. Aparentemente, pegou no sono vendo o movimento (o que é aceitável,já que o movimento é quase nenhum).

– Sra. Franklin? – Velma tenta acordá-la com um tom calmo,balançado o braço da velhinha.

– Eu... – ela acorda rapidamente do seu cochilo. – Acho que peguei no sono,me perdoem. O que os jovens desejam? – Ela acaricia o braço de Velma com intimidade,que se afasta discretamente.

– Bem,Sra. Franklin,nós somos detetives. Queríamos saber se a senhora poderia nos dar informações sobre sua neta,Keeley – Velma esclarece tudo.

A tristeza visivelmente toma conta do seu rosto e sua voz afetada quando tocamos o nome da neta. Então ela diz:

– Bem – resgata uma lágrima a cair do seu rosto. – Tudo que ajudar a encontrar minha neta,eu vou contribuir. Mas não vejo o porquê de ficar aqui fora.Entrem,o que acham de uns biscoitos de chocolate?

Posso sentir meu estômago fazendo a festa aqui dentro,então Scooby faz coro junto a mim:

– SIM! – pra minha surpresa,Velma também aceita. E então,entramos na aconchegante casa.

– Esses biscoitos são uma delícia,Sra. Franklin – digo de boca cheia. – Incrível essa combinação de crocante e macio.

– Ah,obrigado. Que avó seria eu se não soubesse fazer essas guloseimas? Eram os preferidos da Keeley.

– Keely,a senhora poderia nos falar mais dela e sobre o acontecimento? – Velma conclui a frase levando um biscoito a boca.

– Bem,Keeley sempre foi uma boa garota na escola e em casa. Tudo isso mudou quando perdeu seus pais num acidente de carro há 2 anos e eu comecei a tomar conta dela. Estava cada vez mais ausente em casa, suas notas estavam ruins e se misturou com as piores companhias possíveis – ela responde cabisbaixa e toma uma xícara de chá.

– Sobre a última vez que a viu,o que você lembra? – eu pergunto,meio sem jeito,triste com o estado da mulher.

– Conversamos pouco,acho que ela estava indo encontrar o namorado.Não sei se é isso mesmo,hoje em dia os relacionamentos dos jovens duram cada vez menos.O nome dele era Kevin ou Liam.Ou será que era Brendon? – ela tenta resgatar da memória – Bem,não me lembro qual,ela já teve tantos. Que tal um suquinho pra molhar a garganta?

Scooby abre um sorriso,que já é interrompido por Velma.

– Não,não podemos aceitar,temos que ir.Mas antes,uma última pergunta: Alguém entrou em contato,talvez pedindo uma recompensa ou algo assim?

– Não. Não tenho nenhuma notícia dela desde aquele dia. E não vejo o porquê de sequestrá-la. O dinheiro aqui em casa não falta,mas não é o que se pediria num resgate. Pra mim, isso é algo maior que um sequestro – ela encara a foto da neta que está sobre a mesa de centro.

– Precisamos ir. Sinto muito pela senhora,Sra. Franklin. Faremos de tudo para achá-la e avisaremos à medida que progredirmos. – Velma se despede da senhora e,logo em seguida, nós também fazemos com compaixão.

Parece que isso não foi tão fácil como imaginei que seria. É triste ver o jeito que Keeley age, que parece passar despercebido aos olhos da velhinha,que não vê a indecência da neta. Precisamos resolver isso.

...

Chegamos de volta ao casarão Dinkley e, logo, nos deparamos com Madelyn à nossa espera com os braços cruzados,séria sentada no sofá. Ela se levanta ao nos ver.

– Por que não me chamaram? – Ela diz irritada. – Eu posso ser útil,posso fazer mais que ficar o dia todo presa nessa casa!

– Nós sabemos,Madelyn,mas pode ser perigoso – Velma tenta confortá-la. – E gostamos das coisas do nosso modo tradicional.

– Perigoso,Velma? Imagino a adrenalina que é falar com velhinhas,cruzes – ela debocha. – Além do mais,já fizemos um bom trabalho juntos antes,não concorda Salsicha? – As duas me encaram,esperando uma resposta.

– Bem... – gaguejo. – Acho que...

– Chegamos,turma! – Fred diz ao passar pela porta com Daphne.

Ufa! Salvo pelo gongo,penso.

– Bem,encontraram coisas importantes? – Velma pergunta aos dois.

– Espera um pouco – impeço Fred de falar. — Deixe me adivinhar: vocês encontraram o monstro e começaram uma perseguição interminável. Não tô certo,Scooby?

– É,isso acontece sempre – Scooby concorda. – Já tá manjado.

– Não. Nenhum sinal de monstro,só uma longa e saudável caminhada pela praia,muito produtiva por sinal! – Daphne diz. Scooby e eu estamos nos quebrando por dentro,parece que a ação e o terror nos perseguem,isso é ruim.

– Isso significa que acharam algo? – Velma fala com um sorriso no rosto,empolgada com o mistério.

Fred e Daphne nos contam sobre as descobertas feitas. As rochas,as cavernas submersas e todo o resto. Um grande passo para o nosso mistério.

– E vocês,o que descobriram? – Fred pergunta a nós três.

– Bem,primeiro fomos a casa de Keeley Franklin,desaparecida há duas semanas – Velma começa. – Sua avó nos atendeu,uma senhora muito simpática. Pelo o que ela nos contou,a neta era envolvida com más companhias e tinha vários namorados pela cidade. A avó descarta a possibilidade de sequestro por recompensa,se baseando na sua situação classe média.

– Depois fomos a residência de Iselder Jyngl,desaparecido há 9 dias – eu continuo. – Quem falou com a gente foi seu pai,com quem ele mora. O pai disse que seu filho tem um comportamento estranho,depressivo e fechado. Não traz problemas,mas muito menos o contrário. Outra família classe média.

– E,por último,Dicter Muning...

– Já ouvi falar dele,só no tempo que estive aqui,já causou vários problemas – Madelyn interrompe Velma,que a encara com um ar de repreensão. – Desculpe,pode continuar!

– Desapareceu há uma semana. Falamos com seus pais e,como Mady disse,está envolvido em vários problemas: pichação baderna e agressão. Se junta as outras duas famílias na categoria classe média.

– Maus – Scooby comenta.

– Scooby tem razão – Daphne conclui. – Esses jovens são todos más influências. E se quem estiver por trás disso for um maluco metido a justiceiro ou algo do tipo,que quer acabar com tudo isso que eles causam na sociedade?

– Soa um pouco mórbido,não acha? — Velma comenta.

– Uma coisa podemos ter certeza: os sequestros não são por recompensa – Fred fala a todos.

Ouvimos a campainha tocar de repente, a tia de Velma vai apressada até a porta resmungando como essas visitas não a deixam ter sua siesta em paz.

– Ah! Achava que antes de te ver vivo outra vez veria o apocalipse, primo! — ouvimos Thelma exclamar.

Curiosos, vamos até o saguão ver quem chegou. Lá está um homem de uns cinquenta anos e com cara de poucos amigos. Mas quando o vê, Velma tira os óculos e os põe de novo, parecendo extasiada.

– Desculpe Thelma, trabalho, rotina, não tenho sido realmente um parente muito leal — o homem diz com voz seca — E esses jovens quem são?

– Saudações senhor — diz Fred e aponta para nós dizendo nossos nomes. — E o senhor quem seria mesmo?

Velma suspira e olha para Fred como se ele fosse uma criança andando de bicicleta pela primeira vez.

– Turma, esse é o Doutor Larkin Connor, renomado cientista e gênio — ela diz sonhadora.

O Doutor olha para ela e assente formalmente. Olho para baixo e fico surpreso ao constatar Scooby rosnando. Não posso nem dizer que não sei porque, esse homem não é nada simpático e é esquisito.

Por um instante penso ver uma sombra nos círculos castanhos de seus olhos, me arrepio,uma sombra de morte.