Melodia.
1 Melodia.
– Me promete? — não conseguia enxergar seu rosto com clareza, apenas seus lábios movendo-se e a voz suave adentrando em minha mente. A melodia de um violino toca enquanto ela fala, e como um anjo eu vejo seus dedos passando suavemente pelas cordas. É aquela pequena menina que produz som tão belo. E que muda de repente para algo estridente...
x
Acordei assustado, olhando para o despertador. Mais um dia acordando aquela maldita maquininha não me permite ouvir tudo o que iria dizer...
– Inferno! — resmungo comigo mesmo enquanto já estou com meu material em mãos. É realmente ótimo para mim, no meu primeiro dia de aula no conservatório, ficar me distraindo com garotas aleatórias com quem sonhei.
Sempre foi meu objetivo entrar ali. Lembro que desde os seis anos eu dizia que estudaria no conservatório e agora não consigo pensar em outra coisa que não seja uma menina que me aparece em sonhos.
Quem é ela? A paisagem do sonho me lembra de Tóquio em uma das minhas viagens quando era apenas uma criança.
Apressado, imagino o que eu prometi e por que só lembro-me disso agora.
Dezenas de estudantes passam ao meu lado uns preocupados com notas, outros sorrindo alegremente enquanto atravessam pelos portões da construção antiga. Mal posso acreditar que estarei finalmente nesse conservatório. Mesmo que comece no meio do ano, o que me deixa bem mais atrasado que os demais, eu estou feliz.
Dou três passos confiantes até esbarrar em alguma coisa.
– Ai! — ao menos não cai no chão, mas não posso dizer o mesmo da “coisa” que por sinal não é uma coisa e sim uma garota. — Perdão eu não queria, eu estava distraído.
De joelhos ela ergue os olhos, e vejo um sorriso constrangido.
– Daijoobu! Eu deveria estar olhando o meu caminho, também.
– Perdão mesmo, deixa ao menos que eu arrume isso aqui. — começo a recolher o material que eu derrubei e encontro um conjunto de cordas. Cordas de violino, que coincidência não? Começo a acreditar que esse instrumento me persegue. — Você toca violino?
– Ahn? Sim, você também? Er... tipo não sei o seu nome.
– YoungBae — podia jurar que ela se espantou quando disse meu nome, era como se me conhecesse – mas pode me chamar Taeyang se quiser. Não, eu toco piano, mas não posso dizer que sou bom nisso.
Ergueu-se e entreguei seus pertences, por um segundo nossos dedos se tocaram e eu senti uma estática.Vibrato.
– Bem, não devia dizer isso, mas tenho um palpite que toca bem. — virou para seguir seu caminho, passos firmes e um sorriso nos lábios.
Fui para minha sala, com isso em mente, a menina se foi tão rápido que nem cheguei a perguntar seu nome... Por alguma razão essa garota não me era estranha.
Meu primeiro dia não foi nada produtivo desafinei, levei broncas e minha cabeça ainda tentava associar de onde eu conhecia a garota da escola. Os dias que se seguiram foram melhores, mas não tornei a vê-la.
Sei que parece uma tolice, mas nessa semana de aula meus sonhos haviam mudado. Podia reconhecer agora facilmente as ruas de Tóquio, podia ver seu sorriso com clareza, sua voz doce agora me chamava por um apelido a tempos esquecido: SOL. Como a quarta corda de violino.
x
Já era sexta feira da minha segunda semana, começava a me adaptar melhor, meus amigos e professores costumavam dizer que eu tinha talento. Contaram-me muitas coisas sobre o local e suas historias. Muitos músicos famosos lecionaram e estiveram lá. Quando perguntava das outras turmas, me disseram que havia alunos maravilhosos, e quando perguntei sobre as violinistas, alguns riram dizendo que eu não perdia tempo.
Falaram muito das garotas, mas nenhuma das descrições era a da garota.
Caminhava pelos corredores de uma das alas mais antigas do conservatório, já passava do horário de aulas, eram umas 21 horas, ia afinar um piano a pedido de um professor e ir embora. Aparentava que ia esfriar. Estava perdido nesses pensamentos quase na sala indicada, quando ouvi.
A suave melodia, a mesma música dos meus sonhos. Por impulso ou instinto eu fui seguindo pelo longo corredor esperando encontra-la.
Me vi brincando em um parquinho claramente era em Tóquio, eu devia ter seis anos, ao meu lado uma menininha falava com um sorriso divertido enquanto me ensinava à música que agora ouvia.
– Sol-kun, sei que vai entrar no mesmo conservatório que eu e que fará um dueto comigo, e vai ser essa música por isso é melhor aprender direitinho ok? Promete que não vai esquecer? Me promete?
– Deixa de ser bobinha! Eu prometo Chise que vamos tocar essa música juntos um dia.
– Arigatou.
Então era essa a promessa dos meus sonhos, finalmente encontrei de onde o som vinha. Reuni coragem e abri a porta com força.
Era uma sala como todas as outras, diversos instrumentos, pianos, trompetes, flautas, violoncelos e violinos.
Junto dos violinos uma pessoa tocava parecia estar ciente que eu estava ali, mas não saiu sequer do lugar para indagar o porquê de eu atrapalhar seu ensaio só abriu os olhos e sorriu para mim.
– Oi TaeYang.
Encarei incrédulo, ela apenas sorrindo sem jeito e num estalo eu me lembrei de 15 anos atrás. Era ela. A menina que conheci em Tóquio, que estava em meus sonhos, a que me ensinou aquela música.
– Chise...
– Finalmente você chegou Sol-kun....
– Perdão... — não deixou que eu terminasse a frase.
– Você sempre foi meio esquecido. Eu perdoo. Espero que não tenha esquecido o que me prometeu.
Dirigi-me ao banco do piano, e como se fosse à coisa mais normal do mundo, toquei ao seu lado.
– Pensei que tivesse, mas hoje tudo é claro pra mim.
Nosso dueto começou em sintonia perfeita me lembrava das notas como se as praticasse todos os dias e Chise as executava com tamanha doçura, que eu apenas sorria feito bobo, orgulhoso dela. Nós estávamos na mesma sala, ela e eu completamente mudados.
Terminamos. Levantei meio sem jeito e toquei suas mãos, mais uma vez senti aquela estática.
– Não sei como não percebi antes.
– Você sempre foi um bobo já disse e sempre se desculpando comigo, mas isso não importa. Agora eu posso ir embora.
– Mas já? Ir para onde, acabamos de nos reencontrar fique mais um pouco.
Ela não me respondeu. Saiu apressadamente e não consegui alcança-la. Para uma menina pequena ela corria muito rápido.
Naquela mesma noite sonhei uma ultima vez com ela. Vi Chise sorrindo para mim e agradecendo. Não consigo entender o que a levou a fazer isso.
Voltei àquela sala mais vezes e nada. Assim como antes não a vi na escola e quando perguntava sobre Chise, diziam que nenhuma menina com aquele nome estudava ali.
X
Tóquio. 21 horas do mesmo dia.
Os homens de jaleco branco passavam de um lado para o outro e a senhora de rosto gentil no auge de seus 40 anos, estava apreensiva enquanto bebericava seu café gelado. Aquilo era sua rotina.
Faziam três anos, desde o fatídico dia que sua pequena menina, tinha entrado em coma. Odiava pensar que ela havia ido para Seul por conta de um sonho bobo de reencontrar alguém. Um menino que vinha às vezes para perto da casa delas para brincar. Três anos, desde que sua pequena Chise fora atropelada por um bêbado.
Ouviu um barulho conhecido, vozes e mais vozes, médicos e enfermeiras entrando e saindo. E tudo de repente silenciou.
Um dos homens de branco seus olhos marejaram, sabia o que ele iria dizer, e seu coração se partiu.
– Sinto muito senhora Michiyuuki. Sua filha já não está mais conosco.
Pesadas gotas em uma mistura de dor e alivio caíram daqueles olhos. Depois de tantos anos naquela situação seu anjo agora estava no céu.
X
– Hei hyung é melhor se apressar ou vai perder a apresentação do Lee.
– Já estou indo.
Já se passaram alguns meses, desde aquele dia.
Não consigo acreditar que tenha sido minha imaginação. Embora todos me digam que provavelmente é.
Lembro-me dos dias da infância ao lado de Chise com bastante clareza. Lembro-me de seu sorriso quando me viu entrar nessa escola naquele dia. Aquilo não pode ter sido um sonho. Não importa o que digam, tenho a prova que ela é real e está aqui comigo. Aquela música é a prova.
FIM
Outono. Tema 9: cordas.
N/A: A fic era para desafio relâmpago do @lollipopfics, só que não consegui terminar a tempo. Faltou alguma coisa. Eu até tentei reescrever, mas não melhorou muito.
Enfim, criticas são aceitas, pois preciso delas pra melhorar.
;*
Fale com o autor