Melhor que O Esperado
13 Capítulo 13
Eventualmente, Varang se encheu de fúria e seriedade. A fúria, o peso do luto e a tristeza pela perda estavam escondidas no mais profundo do seu ser. A seriedade estava estampada em seu rosto, ela se ergueu com a postura de uma verdadeira guerreira.
Ainda assim, Miles conhecia em mais de um nível o que tinha por trás de sua façada. A dor da perda e a vontade de encarat tudo de frente, cumprir com seu dever como um leal soldado. Ele sabia que não deveria interferir na decisão dela. Apenas se afastou de seu caminho e deixou que ela inspecionasse seu povo.
Agora sozinho, Miles ainda estava pesaroso, pensando que tinha perdido a chance de fazer o que era certo pelo passado que ele tinha, pelo sangue em suas mãos.
Ficar ali só o fazia se lembrar do momento derradeiro da perda da criança, então disposto a buscar respostas, ele fez uma caminhada silenciosa até a Árvore das Almas. Se conectou com os ramos, agora mais preparado para receber as vozes e mensagens em sua mente.
As mesmas imagens de antes apareceram em sua mente, mas agora focadas em tristeza, a maneira como Spider o abandonou no meio do nada, a esposa ensanguentada chorando em seus braços.
—Eu sei porque tá fazendo isso... — ele murmurou, esperando que Eywa o ouvisse, considerando-se um pouco tolo — eu destruí sua criação, eu destruí seus filhos... mas Varang é sua filha, ela já sofreu o bastante e agora está lutando por sobrevivência, então deixe que ela tenha o que quer de bom, ela merece ter uma criança, infelizmente ela me escolheu como marido então vai ter se contentar comigo como pai, Grande Mãe, dê outro filho a Varang, não por mim, mas por ela.
Uma imagem clara e forte se passou pela mente dele, Varang calma e tranquila, risonha, o provocando despretensiosamente, como sempre fazia, como deveria sempre estar. Ele por sua vez, estava disposto a segui-la, acompanha-la em uma longa caminhada, para ouvi-la falar sobre seu dia, para ouvi-la falar sobre como a vida deles era agradável e perfeita, no entanto, uma terceira presença encheu a visão, agora estava mais clara a mudança no corpo de Varang, uma barriga protuberante de gestação, quase que nos estágios finais pelo jeito, outro filho, completamente saudável, crescendo, se desenvolvendo, prestes a vir ao mundo.
Num piscar de olhos, Miles sentiu um peso em suas mãos, uma criança na'vi, chorando de maneira alta e forte, com os braços e pernas tremendo em protesto, não querendo mais participar de sua própria apresentação. Quando Miles aninhou a criança em seus braços de novo, tudo sumiu num vendaval instantâneo, tão rápido quanto um piscar de olhos. Ele compreendeu bem o que tinha acontecido, seu pedido sobre a esposa seria concedido em breve.
O impacto da visão tinha sido tão forte que ele perdeu os sentidos, caindo de uma vez sob o chão, desacordado, com sua ligação neural ainda atada à Árvore das Almas. Podia ser amedrontador, mas estar ali fez Miles dormir pacificamente, como se suas dores fossem retiradas de forma delicada e bondosa, como feridas em seu corpo sendo limpas pelas cuidadosas e caridosas mãos de Eywa.
Quando Varang retornou mais tarde para casa e não encontrou o marido, as preocupações que já rondavam sua mente ficou ainda maior. Ela parou para pensar um pouco onde ele poderia estar. Mesmo se não o encontrasse no meio do caminho, andar um pouco poderia ser uma fonte de alívio.
Não o encontrou nas fontes ferventes, muito menos na pequena caverna onde um pouco da vegetação bioluminescente se escondia. Sua intuição a levou a ir até a Árvore das Almas. Assim como o resto do seu povo, sua revolta com Eywa tinha apenas aumentado. A deusa os tinha abandonado, a ponto de terem que se refugiar num lugar hostil, e agora tinha tomado seu filho amada sem explicação, a última coisa que Varang queria era ter que falar com a Grande Mãe, mas talvez fosse o que ela precisava fazer no momento.
Deixou seus pés a deixarem levar até ali, e então, a imagem do marido imóvel e adormecido a comoveu e a preocupou. Antes que chamasse pelo seu nome, Varang notou a conexão neural ainda feita e assim, desfez a ligação delicadamente.
O efeito do ato dela o fez despertar lentamente, abrindo os olhos para a imagem de Varang tomando forma aos poucos, claramente preocupada com ele.
—O que aconteceu? O que você estava fazendo aqui? – ela perguntou, enquanto ele se sentou lentamente, com a esposa o ajudando um pouco nesse processo.
—Eu... – ele baixou a cabeça, sentindo-se ainda um pouco sonolento – eu vim procurar respostas...
—E as encontrou? Eywa não tem falado comigo nos últimos tempos – ela declarou, muito emotiva e magoada.
—Eu não tenho mais dúvidas da existência dela, ela me respondeu da forma mais clara possível – ele disse de forma sensível, quase etérea, fruto da experiência que tinha acabado de ter – eu pedi a ela que te desse um filho, não por mim, eu ainda não me acho digno de ser pai, mas você não merecia esse sofrimento, você já sofreu demais, meu amor...
—Eu me questionei também, Miles... – ela suspirou – eu matei outros Na'Vi, eu travei guerras contra eles, em busca de território, talvez foi por isso que eu também perdi nosso filho.
—Não leva a lugar nenhum nos culpar, o que temos agora é um futuro, ainda estamos juntos, e isso não vai mudar – ele segurou a mão dela firmemente, certo de suas palavras.
—Obrigada por tudo – Varang o olhou da forma mais terna possível, cheia de amor e carinho.
Sem hesitação, ela o beijou e se apoiou nos ombros dele, Miles a envolveu num abraço apertado, não querendo que ela se afastasse ou se movesse dali. Ele estava contente e aliviado por ter sua esposa de volta. Ela demonstrou sua gratidão por ele conforme aprofundava o beijo e acariciava seus cabelos.
Tomavam os primeiros passos de um novo caminho, agarrando uma nova chance que se mostrava diante deles.
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