Miles tinha lembranças confusas na mente, enquanto sentia o corpo todo queimar, como se tivesse mergulhado em fogo.

Naquele dia, o recombinante tinha subido até os vulcões para a caça, onde os pássaros nativos dali serviam como alimento. Trazer um deles com as próprias mãos era o que um jovem deveria fazer se quisesse ser considerado adulto.

Mesmo temendo pelas temperaturas que certamente o corpo dele não aguentaria, Varang entendeu o motivo dele escolher se provar daquela maneira e não feriria o orgulho de guerreiro dele. Acreditava que ele não morreria, mas estaria pronta para cuidar de seus ferimentos mais uma vez.

Foi cambaleante e ardente que Miles retornou dos vulcões e, enquanto podia sentir o toque da esposa em seu corpo, de forma pouco consciente, sua mente delirante o levou ao primeiro encontro dele com Varang.

Quando Spider o abandonou, não teve outra opção a não ser vagar pelos céus em busca de um abrigo. Bridgehead estava a quilômetros de distância e tanto ele quanto seu ikran estavam cansados demais após a batalha. A fumaça dos vulcões fez os olhos de Quaritch arderem, o distraindo do controle e fazendo com que seu ikran pousasse.

Os guerreiros prontamente o cercaram, seus olhos laranja brilhantes no meio da escuridão intimidaram o soldado em território desconhecido. Quando agarraram sua mão inspecionando seus cinco dedos, ele afastou o braço de forma brusca e rosnou para eles, o que o fez ser imobilizado e levado como prisioneiro.

Chegando à vila, o campo de visão de Miles foi preenchido pelo caminhar regular e requebrante de uma mulher. Seus quadris balançavam enquanto se mexia, o que o fez a olhar dos pés à cabeça, notando os cordões sobre o peito e o arco laranja proeminente na cabeça. Suas tranças eram estranhamente curtas e o olhar curioso dela se cruzou com o dele.

—O que temos aqui? — Varang tocou o queixo dele, o fazendo olhar para cima, o inspecionando — quem é você? Qual o seu clã? Foi expulso?

—Eu... me perdi do meu povo — Quaritch não era tolo de evitar as perguntas e disse o que ela queria, reconhecendo sua derrota — sou do povo do céu, nascido entre eles.

—Então fez dos Omaticaya seus inimigos — ela rebateu, conhecendo bem a história de uma grande batalha entre os dois povos.

—Eles são, seu líder é — ele completou a informação.

Interessada no guerreiro e nas vantagens que ele poderia trazer, Varang decidiu agir.

—Cuidem das feridas dele, não toquem na sua montaria, e depois que ele estiver alimentado, o tragam até mim — ela ordenou categoricamente.

Depois de ter suas instruções seguidas, Miles veio até ela, tentando manter a pose orgulhosa de guerreiro, mas claramente receoso com o ambiente ao seu redor e a pessoa na frente dele.

—Qual seu nome? — ela questionou novamente, olhando diretamente para o seu rosto.

—Miles Quaritch — ele disse em tom sóbrio.

—Miles será mais fácil — percebeu ela — eu sou Varang, líder do clã das cinzas. Pelo seu porte e ferimentos, e o pouco que contou, você era um guerreiro do povo do céu.

—Isso, minha missão era matar Toruk Makto — ele contou em poucas palavras.

—Uma missão louca, no intuito de se vingar pelo que ele fez com o seu povo? — Varang questionou — bom, vocês são os invasores aqui, eles estavam se defendendo.

—Queremos... garantir o sustento do meu povo, precisamos de Pandora e é por isso que estamos lutando por isso — ele confessou no que acreditava, o que o motiva a lutar ainda.

—Eu preciso de Pandora também, meu povo precisa — Varang usou parte do argumento — e eu tenho lutado por terras melhores assim como você, mas os outros clãs nos isolaram aqui e tivemos que nos adaptar. Pelo que entendo, você sabe de formas mais eficazes de luta que as nossas, então diante disso, eu quero lhe fazer uma proposta.

—Diga — ele demandou, achando melhor apenas ouvir, reconhecendo que não estava em condições de exigir nada.

—Eu quero que seja meu aliado, ensine o que sabe ao meu povo e terá meus guerreiros e a mim ao seu serviço — Varang explicou.

—Isso me parece muito bom, mas você quer que eu faça algo além disso, você quer algo de mim — ele declarou o que deduziu.

—Precisamente — ela confirmou suas suspeitas — é tradição do meu povo honrar acordos importantes com cerimônias importantes. Um acordo assim deve ser selado com um casamento.

—Casamento? Quer se casar comigo? Um completo desconhecido? — Quaritch conteve uma risada, achando a ideia completamente absurda — você não acharia mais vantajoso casar com alguém do seu povo ou de outro clã?

—Já disse que não convivemos bem com outros clãs — Varang reforçou a informação — você aparecer aqui é a melhor oportunidade que eu vou ter e acredite, no seu caso, não sairá vivo daqui por conta própria, eu sou o melhor que você tem para sobreviver aqui.

Notando o quão persiasiva ela podia ser junto com seu instinto de sobrevivência, sem contar que não havia mais nada para Quaritch além de vencer de uma vez por todas o conflitos entre humanos e na'vis, ele fez sua escolha.

—Eu aceito sua proposta, me caso com você — ele assentiu, sabendo que o que estava fazendo era loucura.

Até então, os momentos que passaram juntos trouxeram alívio e uma paz inexplicável aos dois. E agora, esperando a recuperação dele, tudo que Varang queria era que ele abrisse os olhos e falasse com ela.

—Não morra, por favor... — ela murmurou, debruçada no peito dele, chegando a derramar algumas lágrimas.

O som baixo da voz de Varang foi o suficiente para puxar Quaritch de volta à realidade.

—Varang... — ele a chamou com a voz rouca, tocando as costas dela, o que a fez levantar o rosto e olhar diretamente para ele.

Aliviada, ela sorriu e o beijou suavemente, para ter certeza de que ele estava ali.

—Vá devagar, tudo está doendo... — ele pediu, ainda falando baixo.

—Eu achei que morreria — ela confessou, segurando seu rosto — não poderia viver se não sobrevivesse.

—Eu estou aqui, não vou a lugar nenhum — ele garantiu, comovido pela consideração dela.

Uma pequena parte esperançosa dele reconheceu aquilo como um pouco de amor, embora Quaritch tivesse consciência da criatura desprezível que era.

Tudo que tinha feito na sua vida era lutar e matar, muito sangue pesava em suas mãos, era tudo que tinha como motivação e propósito de existência. Até que conhecesse Varang e ela lhe mostrasse uma nova vida, talvez até mesmo um novo propósito. O pouco de consciência que ainda tinha o culpava de não ser digno das lágrimas dela.