Melancolia

5 Capítulo 5 - Verônica


Sei que não devia, mas no momento em que olhei para onde o Érico estava e não o vi, olhei para Nelson que me esperava na mesa e devo ter expressado algo muito verdadeiro que o fez virar o rosto após um sorriso triste e cheio de compreensão, por saber que eu estava pronta para sair do Cantaí e ir atrás do Érico.

Não, eu não fui atrás dele para fazer perguntas, cobrá-lo ou implorar algo. Fui atrás dele, porque meu coração me pediu para ir, mesmo sem saber exatamente a razão. A única coisa que sabia é que havia algo nos olhos dele que exigia minha atenção. Foi muito mais forte do que qualquer alerta da minha mente, que tentava – em vão – me privar de mais sofrimento.

Quando cheguei ao lado de fora, ele estava prestes a entrar no carro, então, o chamei.

Nos primeiros instantes ele apenas me olhou, como se estivesse vendo um fantasma e através de mim. Seus olhos ficaram nublados e percebi que meu peito se apertava em expectativa.

– O que você quer? – ele perguntou, a voz quase inaudível.

Me atrevi a me aproximar alguns passos e quando estava a menos de um metro, ele se colocou ainda mais perto do lado de dentro da porta, como se a usasse para se defender de mim.

A verdade é que não tinha uma resposta para aquela pergunta. O que eu queria? Por que ir atrás de alguém que já não quer saber de mim há tanto tempo?

– Eu te fiz uma pergunta – ele destacou com uma irritabilidade que me pareceu forçada.

– Você parece chateado, pode ser perigoso dirigir nesse estado – foi o melhor que consegui pensar.

Seus olhos se estreitaram como se quisesse ler palavras miúdas nos meus olhos.

– E desde quando isso te interessa? – de novo a falsa irritação.

– Algumas pessoas se interessam pelo bem de outras.

– Ah, claro, você é uma santa.

Antes que eu pudesse retrucar, ele abaixou a cabeça e levou as mãos ao rosto, esfregando-o como se buscasse lucidez. Cruzei os braços para conter a vontade de desviar daquela porta e abraça-lo.

– Percebo que não está bem, devia ir para casa, já que não precisa dirigir para isso.

Enquanto eu falava, ele erguia a cabeça e olhava ao redor, evitando olhar para mim. Então, afastou-se do carro e fechou a porta, trancando-a e ativando o alarme. Parecia ter aceito meu conselho e ia para casa. Logo me deu as costas e começou a se afastar, assim, sem dizer uma única palavra ou me lançar uma última olhada.

Senti vontade de ir até ele novamente, mas não havia mais desculpas e permaneci parada com os braços cruzados, estava tremendo, mas não era de frio. Um arrepio subia pela espinha e meus olhos arderam. Estava prestes a chorar. Depois de tanto tempo sendo firme, bastou alguns minutos para que tudo desmoronasse dentro de mim.

Uma chama de esperança de que todos os sinais enviados pelo Érico naqueles instantes significassem que ele sentia algo por mim, ainda ou novamente, começou a queimar dentro de mim e, embora tentasse apaga-la, tornou-se difícil demais para que pudesse aguentar. Então, sem me despedir do Nelson e de qualquer outro, entrei no meu carro e fui para casa.

Precisava dos sonhos onde o Érico ainda era o homem da minha vida, sonhos ainda frequentes, mesmo que os apagasse ao despertar.