Melancholy
7 VII: Days
Notas iniciais
– Morar com aquele... homem? _a senhora de 57 anos crispou os lábios, só pode ter perdido a cabeça.
– Mamãe, precisa parar de me ver como criança _a jovem se levantou do sofá e pegou a bolsa esquecida sobre o mesmo _se o Daiki aceitar, então sim, iremos morar juntos.
– Tola. Pare com essas ideias infantis, tem 28 anos e agora me vem com mais essa... sua mãe está velha demais para passar por isso. Morar junto daquele japonês paralítico, meu Senhor.
O arrepio incomodo subiu pela espinha de Carry ao observar sua mãe erguer o terço para o alto pedindo que Deus colocasse juízo na cabeça de sua filha. Ela baixou os olhos e mirou suas sapatilhas: bege, de couro falso com detalhes em renda; ela odiava sapatilhas, assim como odiava seu vestido de seda rosado e os cabelos longos presos num coque. Odiava também o drama que sua mãe fazia cada vez que tocava no assunto, assim como seu preconceito mesquinho a respeito do homem que amava.
Carry, alguns meses depois de Theo nascer, estava em meio ao desespero e resolveu ir ao Japão pedir desculpas, se explicar; tinha medo de jogar tudo para o alto, mas precisava fazer alguma coisa! A senhora Manson, quando soube, caiu doente no chão de sua casa com febre e alucinações, dizia que não tinha culpa por ter uma filha rebelde, que estava sozinha no mundo e ninguém se importava com ela. Carry não pode suportar as lágrimas da única pessoa que cuidou de si a vida toda, trancou seus verdadeiros sentimentos dentro de uma máscara de ferro e seguiu a vida. Daiki por sua vez parecia ter desistido da sua, todos os acordos e reclamações que vinham do Japão tinha como porta voz seus pais, o senhor e senhora Aomine queriam a guarda, queriam o reconhecimento.
Sempre eles!
Suas forças para se libertar acabaram caindo no limbo, talvez se tivessem se apoiado um no outro teriam conseguido cortar as amarras de seus familiares... mas naquela época ambos estavam machucados demais para fazerem qualquer coisa. Depois de muito ser reprimida acabou desistindo.
O sorriso sumiu de seu rosto, nele apenas a expressão fechada de dor e ódio, ia e vinha do trabalho que, se antes era seu sonho, agora tinha se tornado pesadelo. Era carinhosa com Theo somente fora das vistas das outras pessoas, o garotinho entendia mais ou menos o que estava acontecendo ainda assim sentiu falta de uma família propriamente dita. Assim passaram 10 anos de sua vida, machucando sua mãe todos os dias mostrando o quanto era infeliz por ser sua boneca, se machucando com aquela vingança regada pelo orgulho.
Quando Daiki apareceu em Los Angeles a menina de 18 anos floresceu dentro de si mais uma vez, ele estava ali com Theo, rindo e o carregando no colo. Vontade de mudar. Vontade de tacar o foda-se. Vontade de ser egoísta.
– Vou fazer o impossível para que ele volte para mim _disse passando pela mãe que a olhou estática _você não se importa com a minha felicidade, então também não quero mais me importar com a sua.
– Você tome juízo!
– Tem quase 60 anos e ainda não aprendeu nada _ela engoliu em falso deixando as lágrimas fluírem mais e mais _é a droga da minha vida.
– Só vai dar valor quando me perder, eu perdi a minha e agora como sofro! Sua mãe está velha, tem mais é que casar com alguém decente e vir morar aqui.
– ...tenho nojo desse futuro.
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Flash Back – Aomine Daiki 22 anos.
– Senhor policial, ocorrência a dois quarteirões de sua localização. Um prédio em chamas.
– Sim senhor _respondeu Daiki sem animo na voz.
O jovem policial retornou o alto falante na posição original e ligou a seta com um toque rápido, viraria a esquerda fugindo do transito e ai...
O arrepio incomodo subiu por sua espinha, aquele não estava sendo um bom dia. Não mesmo.
Fora o primeiro a chegar ao local do incêndio. Muitas pessoas ainda corriam apavoradas sem noção da dimensão do perigo. Daiki sabia que a estrutura era forte, mas o fogo lambia o térreo e o primeiro andar inteiros deixando todos apreensivos. Ele saiu da viatura com um rolo de fita de isolamento em mãos, rapidamente afastou os curiosos e traçou uma marca segura. Ele tinha certeza que era seguro mesmo se o prédio viesse abaixo.
Mas Aomine Daiki tinha deixado um pequeno detalhe escapar, um detalhe de meio metro e bochechas rosadas... a menininha curiosa com as cores vivas das chamas passou correndo pela multidão e adentrou a faixa de segurança, o policial que já havia se afastado enxergou a criança com o canto dos olhos e seu corpo se moveu antes de qualquer outra pessoa. Pegou a menina no colo e devolveu para a mãe que a esse momento também havia ultrapassado a faixa. Novamente aquele cala frio. Ele berrou para que todos se afastassem, olhou preocupado ao redor temendo pela vida dos cidadãos.
Pena que se esqueceu da sua própria.
A estrutura veio abaixo, toneladas de concreto, vidro e aço despencaram a poucos metros de si, ele só teve tempo de pular. Pular como faria num jogo qualquer de basquete, rezando para que nada lhe acertasse.
Afinal ninguém está realmente preparado para morrer, nem mesmo os policiais.
Sentiu os entulhos caírem sobre suas costas e então algo o prendeu no chão. Uma dor alucinante tirou sua visão de foco e fechou sua garganta deixando preso seu grito de socorro, depois disso não soube mais o que de fato aconteceu.
Passaram três dias até que voltasse abrir os olhos, mas o peso ainda continuava com ele, seu corpo não se movia, a cabeça parecia explodir. Preocupado com tantas dores, se forçou para cima conseguindo sentar na cama macia do hospital, mas dali para o chão fora um baque só. Desabou sobre o piso frio, como se mil facas fossem enfiadas em sua coluna. Ele tentou de novo e de novo sentindo apenas a dor aumentar. Por que? O que está acontecendo? Perguntou para si mesmo entrando em pânico, as enfermeiras logo adentraram o quarto pedindo calma, porém era tarde demais. Aomine Daiki gritava desesperado por respostas.
Respostas que ele já sabia.
Seu choro incontrolável doeu nos corações dos presentes, pais, enfermeiras, medico e amigos, ainda assim tudo ao seu redor era apenas escuridão. Fora tragado para dentro de um mar gelado, desconhecido, cheio de ódio e rancor pelo destino ingrato.
O moreno ficou sete dias internado, se recusando a falar ou ouvir. Seu corpo se movia mecanicamente satisfazendo suas necessidades diárias, mas o coração havia se partido para sempre; a noticia que Carry não queria mais sua companhia veio e passou como a mesma importância de seu café da manhã. Claro, o que mais poderia dar errado? Primeiro a vida lhe tirou Kagami Taiga, depois os movimentos de suas pernas, agora Theo... o que mais esperar? E então de seus lábios podia-se ouvir duas únicas palavras: morte e... Taiga.
Na lucidez dizia preferir morrer, durante o sono, embalado por sonhos antigos e braços quentes, chamava pelo amigo. Pelo amante. Pelo amor. E graças ao passado gentil o moreno pode aos poucos trocar a dor pelos sorrisos, ainda que tímidos, ainda que falsos mesmo assim sorrisos.
Flash Back – fim
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– Yoho! _o loiro sorridente acenou animado.
– E ai, Kise _Daiki estendeu o punho para um toque rápido, sem perder o costume do basquete _fez boa viajem?
– Sim, vim acompanhado por um astro do rock, foi divertido! Com licença estou entrando _tirou os sapatos no hall de entrada e segurou a cadeira do amigo. Daiki não se importou, estava acostumado com tal atitude que acabou virando habito entre eles _ finalmente férias, espero conhecer seu filho, quando ele vem para o Japão?
– Não tenho certeza, ainda está em aulas... _olhou para cima mirando o rosto relaxado do outro _artistas não envelhecem mesmo uh?
– Milagre da tecnologia, posso? _indicou o corredor.
– Lógico. E que milagre seria esse?
– Maquiagem, mas no meu caso são bons genes mesmo _piscou divertindo-se com a situação.
O loiro deixou sua bolsa no chão e se dirigiu ao toalete, Daiki por sua vez pegaria algo para beberem na geladeira. Separou dois copos e o chá de pêssego preferido do loiro, caçou também algumas bolachas de massa folhada no armário. Quando voltou para a sala, Kise já tinha se desfeito do colete incomodo e dobrado a barra da calça social até a panturrilha, metade de suas joias estavam espalhadas sobre a mesinha de centro assim como o chapéu.
– Como está o trabalho? _deixou que o mesmo tirasse a bandeja de seu colo voltando a sentar no sofá em seguida.
– Hum... _bebericou o liquido gelado sorrindo em seguida _chá de pêssego! Está como sempre, fotos, viagens, desfiles, mais fotos... e Akashi _fez uma careta cômica _ele não tem o que fazer e fica comparecendo nas festas.
– Bad _largou a cadeira para se acomodar no sofá também.
– Pode vir comigo qualquer dia, sempre tem festas de sobra.
– Valeu... meu caralho! O Bulls esse ano vai perder de lavada _estalou a língua no céu da boca, mas Kise não via o jogo, estava admirando o pequeno apartamento com um leve sorriso nos lábios _ainda joga?
– De vez em quando, tem uma quadra em casa _respondeu distraído _mas já não uso o perfect copy a muito tempo... depois do jogo contra a Seirin...
– Qual? _seus olhos acompanhavam o camisa oito enterrar marcando outro ponto contra seu time.
– Meu tornozelo que estava machucado foi forçado ao máximo e não se recuperou. Nunca mais fui capaz de jogar o perfect copy _mexeu seu pé minimamente prestando atenção nos movimentos sutis.
A confissão não era para ser uma confissão de verdade, apenas uma espécie de desabafo com uma pitada chata de nostalgia. O moreno virou o pescoço tão rápido que sentiu o mesmo estalar, ficou estático tentando ver algum erro em sua interpretação.
– Kis...
– Já passou! _coçou a nuca encabulado _n-não influenciou em nada, logo minha carreira de modelo decolou eu ia abandonar o basquete de qualquer jeito.
– Por que não contou pra gente?! Você tinha... eu, o Kuroko... a Satsuk-
– Não tenho _suas bochechas ficaram rubras e as mãos perderam o rumo indo parar atrás do corpo _você e o Kagamicchi estavam sempre juntos, Midorimacchi com o Takaocchi, o Kurokocchi sempre ocupado com seus próprios problemas, enfim eu não... sempre fui sozinho, fiquei com vergonha de contar algo assim. Me desculpe por esconder isso.
Daiki abriu e fechou a boca sem saber o que responder. Ryota Kise sempre fora o intrometido, grudento, escandaloso e irritante. Estava sempre, sempre lá com seu sorriso enorme e era o último a ir embora. Pensando bem agora, ele partia sozinho e talvez por esse detalhe também era o ultimo a sair.
O loiro nunca abandonou ninguém e ainda correu de Paris até o Japão no mesmo dia quando soube do acidente... mas como ele soube? Daiki jamais se deu ao trabalho de perguntar, Momoi e Kuroko juram que não foram eles. De alguma forma, Kise estava lá.
Como sempre.
– Idiota _resmungou sem jeito afagando os cabelos macios de Kise _muito idiota.
– Hey que tal pizza? Estou enjoado de comida francesa, sério, a França é um caso sério para comida.
– ...claro, você paga _puxou o cardápio no Iphone de sua pizzaria preferida _marguerita e frango com catupiry?
– Nem sei porque ainda pergunta _se aproximou um pouco mais na intenção de roubar o colo do amigo e se deitar, Aomine fora obrigado a erguer o braço para deixá-lo tomar a posição desejada.
– E foi _concluiu o pedido _ chega daqui uns 40 minutos... _aproveitou para checar a rede social não encontrando nada de novo.
– E como você está com o Kagamicchi?
– Hum...
Perguntinha mais difícil era aquela, não sabia bem o que responder então apenas meneou a cabeça para os lados.
– Normal. Sabe, dois bons amigos.
– E a Cherry-chan?
– Carry _o corrigiu _foi aquilo que te contei, depois não conversamos mais. Ainda estou indeciso.
– Não precisa morar com a Cherry, apenas vá para a América e arrume um apartamento _brincou com os botões da camisa azul marinho de Daiki _vai acabar traindo mesmo. Pense no seu filho.
– Oe! Não farei isso _deu um tapa na mão do amigo _e pare de abrir meus botões.
– Não abri seu pervertido! Você é apaixonado pelo Kagamicchi, como vai resistir a isso?!
– ...saco, Kise, de que buraco você saiu? Estava tudo bem até começar com esse assunto.
O loiro fez um V com os dedos e sorriu.
– Só colocando juízo nessa sua cabeça.
– É o fim ouvir isso justo do Ryota Kise, onde fui parar?!
– Maldade _se lamentou voltando aos botões _você era gentil comigo no fundamental.
– Brigávamos o tempo todo.
– Ainda assim era gentil...
Aomine sentiu certo desconforto, algo nas palavras de Kise traziam a si uma lembrança a muito enterrada em seu passado. No fundamental, quando começaram no basquete, a rivalidade entre eles logo se transformou em amizade e talvez por isso – entre outras coisas – a curiosidade de dois adolescentes de 14 anos levaram ao primeiro beijo. Claro que nunca passou daquele estágio, porém o moreno sempre tinha a impressão de que a inocência nunca deixara Ryota Kise; mesmo ele já tendo a sua idade e mil mulheres pela vida, ainda era o garotinho sorridente que se deixou ser beijado pela primeira vez atrás da quadra de basquete de sua escola.
Depois daquilo os sentimentos do loiro não foram extravazados, ele percebera que o amigo jamais daria continuidade mesmo se tentasse. Daiki não sabia dizer ao certo por quanto tempo Kise fora apaixonado por si, mas era certeza que isso aconteceu. Ignorava ao máximo os olhares significativos de Kise apesar de nunca negar afeto.
– Conversa com ele, não custa nada. Vocês não têm mais 17 anos.
– Ao contrário de você _disse ríspido dando um peteleco em suas testa.
– Aominecchi! _o chamou com a voz chorosa.
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Sempre depois do mar agitado, vem a ressaca. Nenhuma onda significativa, era como se o mar, que sempre esteve ali, agora tentasse apagar sua presença diante o desastre da tempestade. Aomine Daiki não tinha muito a fazer em comparação com a semana que passou ao lado de Taiga, porém tinha 10 vezes mais no que pensar, o ruivo ficara em Los Angeles tentando sutilmente desaparecer da vida de todos mais uma vez – passava os dias trabalhando – infelizmente sua presença naquele curto espaço de tempo mexeu com a vida do moreno. Agora ele tentava concertar aquela bagunça mental.
Estava com o celular nas mãos pronto para discar o número deixado por Carry, ao mesmo tempo, esperava por Taiga no skype depois de alguns dias sem se falarem de maneira decente por culpa do trabalho de ambos. A clichê batalha entre a razão e o coração.
– Fuck, não consigo fazer isso _soltou o aparelho no sofá _mas preciso. É eu preciso, vamos Daiki.
O toque harmonioso e continuo no celular se assemelhava a algum método de tortura para Daiki. Assim que Carry atendesse conversariam sobre o tal futuro... se não fosse para morarem juntos, pelo menos que ela concordasse que ele fosse para lá ficar com o filho alguns dias da semana. Cara, aquilo era horrível, sentia borboletas no estomago e seu pé agora balançava de forma incontrolável.
– Vou desligar _disse para si mesmo num sussurro e deslizou o dedo para o botão central. Carry provavelmente ligaria de volta em breve. De alguma forma, a primeiro passo estava dado.
Aomine olhou sem animo para a tela do notebook, meio aliviado, meio tremulo, ele só desejava voltar a sua zona de conforto o quanto antes. Falaria rapidamente com Taiga e então iria dormir. Porque dormir é a solução de tudo na vida. Ele poderia dizer que estava novamente com 17 anos – ou até menos – por agir assim de forma tão imatura, mas entendam, era a primeira vez em 10 anos que alguma coisa estava por mudar em sua vida sórdida.
A campainha tocou estridente o tirando de sua espiral de sentimentos, deu um ultimo check-in no skype antes de se dirigir a porta de entrada.
– Já vou _resmungou ao segundo toque _ser impacien... te. Quem é? _perguntou mais alto agora com as chaves na mão.
– Pizza.
– Apartamento errado _girou o trinco para se certificar _eu não... eu sim! SIM!!
Claro que sim, ver Taiga parado na porta da sua casa segurando duas pizzas nas mãos não era algo costumeiro. O ruivo abriu um sorriso gigante e entrou, deixou as caixas sobre o aparador equilibrando-as porcamente enquanto ganhava um abraço desajeitado do outro.
– O que faz aqui?! Eu te esperando mil anos no skype.
– Vim cobrar meu chocolate quente _sua voz saiu abafada, aproveitou para morder de leve o pescoço de Aomine _estava morrendo de saudades.
– Taiga...
Seu corpo reagiu por instinto, tinha se levantando da cadeira assim que vira o amigo e continuava agarrado ao seu tronco não sabendo o que dizer ou como reagir. Era uma surpresa mais do que bem vinda e depois de passado o susto, agora ele sentia uma inconveniente inquietação no baixo ventre.
– Entre, va-vamos _com cuidado se afastou e voltou a se sentar na cadeira _me conte quando chegou.
– Agora mesmo! Vim direto pra cá. Amanhã preciso resolver algumas coisas no consulado, mas não é nada demais.
– Troque essa roupa desconfortável, vou pegar pratos e talheres... hey, mas antes abaixa aqui um instante.
E mesmo que ele não tivesse feito o pedido simples, teria ganho o beijo de qualquer forma. Beijo esse que deixou de ser um simples cumprimento e os levou ao quarto. Apressado? Talvez, mas a naturalidade entre eles era um fato que contribuía para aquele tipo de clima e em menos de quinze minutos de um encontro surpresa Aomine já se encontrava sob o ruivo o agarrando de todas as formas possíveis. Amor ou sexo, não importava o nome.
Debaixo da árvore onde a grama não cresce
Fizemos uma promessa de nunca envelhecermos
Você teve uma chance e arriscou em mim
E eu fiz uma promessa que não pude cumprir
Mágoas, corações partidos
Estes são os dias
Que estávamos esperando
Em dias como estes
Quem poderia querer mais?
Deixe-os vir
Porque ainda não terminamos
Estes são os dias
Que não vamos nos arrepender
Estes são os dias
Estes são os dias
Que estávamos esperando
Nenhum de nos sabemos o que esta reservado
Você apenas abre a sua janela
E coloca suas apostas
Estes são os dias
Que não vamos nos arrepender
Estes são os dias
Que não vamos esquecer
Exaustos, ambos deixaram-se cair no colchão, abraçados um ao outro.
– Taiga... _o chamou baixinho, quase num sussurro.
– Hum? _respondeu em meio ao sono.
Aomine apertou o abraço e esperou que o outro adormecesse.
– Amo você, mas isso já é banal para o tamanho dos meus sentimentos. Fica comigo... _confessou, ainda que para si mesmo uma vez que Taiga já não o ouvia mais _me leve com você.
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A noite mal começara quando o ruivo enfim despertou, não queria adormecer e perder seu precioso tempo ao lado de Daiki, nem ao menos perguntara se o mesmo tinha algum compromisso – estava um tanto mal educado ultimamente. Se levantou sem acordá-lo e abriu o guarda roupas, precisava de algo melhor para vestir uma vez que tinha chego de terno e gravata. Tirou uma camiseta com o símbolo do Imagine Dragons estampada e caçou uma bermuda também, apesar de estar frio preferia roupas mais largas.
Na cozinha, colocou as pizzas para esquentarem no forno, precisou abrir porta por porta até encontrar talheres e copos; tudo estava posicionado na altura de sua cintura praticamente então foi algo bem demorado. Ele olhou para a cozinha adaptada e suspirou, aquele homem não merecia tal acidente, por mais que pensasse não via a menor justificativa no destino cruel.
– Taiga? Fala sério, está bagunçando minhas coisas, sabe...
A voz rouca chegou aos seus ouvidos fazendo o mesmo se virar, deu um sorriso sem graça e recolocou os copos no armário.
– ...Taiga é brincadeira _rolou os olhos se aproximando _me desculpe.
– N-não foi isso, eu só... eu que devo desculpas. Estava pensando... sua lesão não tem cura? Mesmo?
O moreno desviou o olhar para o nada.
– Não.
– Entendo... ah bom, vamos comer? Coloquei as pizzas para esquentar _passou por ele em passos largos, apanhou os pratos que havia separado e rumou para sala _vamos ver um filme?
Daiki continuou parado com as mãos sobre o colo, sabia que por mais que o ruivo fosse extremamente gentil, Aomine Daiki nunca mais seria o mesmo e isso o fez ter medo. Medo de abrir os olhos e encarar a realidade.
E a realidade era que ele era um incomodo por estar preso em sua condição infeliz.
– Daiki? Copos e talher _o ruivo voltara à cozinha _você tem netflix?... Daiki?
– Me desculpe ser um incomodo _sussurrou escondendo o rosto entre os braços, se sentiu ridículo pelas coisas sem sentido, mas seu corpo todo estremeceu e não pode refrear a vontade de dizer tais palavras. Precisava ouvir daquela pessoa tão importante que estava tudo bem, que seria sempre consolado quando precisasse.
O ruivo não soube como agir de imediato, ao ver o amigo chorando de forma tão indefesa seu coração partiu. Ele ajoelhou ao seu lado e tentou abraçá-lo da melhor forma possível.
– Oe, sabe que está dizendo bobagem, certo? _não obteve resposta _Daiki, o que foi? Juro não disse aquilo por achar que você esteja atrapalhando ou algo do tipo! E-eu... eu só acho que... é muito injusto tudo o que aconteceu. Só isso.
– ...me desculpe _empurrou o ruivo gentilmente pedindo que se afastasse _já estou bem, foi só... não foi nada.
– Mas Daiki...
– Eu só precisava de um abraço gostoso, agora me sinto idiota _riu totalmente sem graça _eu... ah, vou ao banheiro. Desligue o forno.
– Espera, está tudo bem mesmo? Daiki?
– Está, está! _deu os ombros e se afastou _não foi nada eu juro! Já passou.
E ele fugiu. Daiki saiu com o rosto vermelho e muito confuso. O que tinha feito afinal? Seu coração estava tão despedaçado que não pode segurar um simples impulso? Riu descrente de sua própria reação. Era hora de se afastar de Taiga de vez ou sua depressão iria voltar ao invés de desaparecer.
Ele voltou à sala depois de alguns minutos, lavou o rosto e ensaiou um sorriso, estava sem graça pela bobagem de antes então não pode encarar Taiga nos olhos de imediato. Eles comeram em silencio com falsa atenção no filme de comédia. Quando finalmente descansaram os talheres, Taiga desligou a tv chamando assim a atenção do outro, deu um rápido beijo em seu rosto antes de começar a falar.
– Estou com medo _começou um pouco tremulo.
– De...? _Daiki ergueu uma das sobrancelhas sem entender, temeu o pior por um segundo.
– Medo de... ah de tudo! De estar confundindo as coisas, de mim mesmo na verdade. Ok, está ficando confuso _respirou fundo _ eu quero que venha morar comigo.
O pedido foi um pedido meio desconcertado, o moreno preferiu não dizer nada, pois sabia que havia um porém. Seu coração entretanto não pode ser tão discreto e bateu feito louco dentro do peito.
– Porém não tenho certeza se vou conseguir te fazer feliz, tenho medo de que isso não dê certo... você já sofreu o suficiente, não precisa passar por mais nada entende?
– ...está com medo de se arrepender.
– Acho que sim _murmurou perdendo a coragem.
– Não é como se fossemos nos separar do nada, Taiga, se não der certo... sabe, ainda estaremos perto um do outro. Não precisa ter medo. Veja, está me contando tudo isso antes, então está tudo bem.
– Hn mas mesmo assim aceitaria?
Daiki fechou os olhos por um segundo, ele precisava mesmo dizer que sim? Seu coração que antes já estava descontrolado, agora parecia a beira de um infarto. Não quis nem pensar em dizer que antes conversaria com a Carry, na verdade nem queria pensar nela ou no que estaria certo e errado. Seus lábios foram enfeitados por um sorriso gigante.
– Sabe que sim _disse rouco _meu caralho, Taiga. Vai me fazer chorar pela milésima vez esse mês, é isso?
– Yes _comemorou com um soquinho no ar _não vai precisar se preocupar com nada! Vamos dar um jeito de arrumar a casa, pode deixar seu trampo chato, ah e po-
– Espera, espera! Vamos com calma. OK? Isso, com calma.
Aomine se ajeitou no sofá e respirou fundo. Estendeu a mão acariciando os fios macios que insistiam em cair sobre os olhos castanhos de Taiga, deu um selinho demorado sentindo a textura macia de seus lábios, cada movimento seu era acompanhado pelo olhar curioso do ruivo.
– Não é assim de repente, já pensou que sua vida vai mudar por completo?
– A nossa vida _corrigiu Taiga _não suporto mais ficar longe, não sei dizer que isso é coisa de momento, por isso estou com receio... mas se não tentarmos nunca saberemos.
– O Taiga de antes nunca pensaria em tudo isso.
– Não, tem razão... _meneou a cabeça para os lados _sabe onde está se metendo aceitando morar comigo.
– Claro que sei _uniu novamente os lábios num beijo cálido, naquele momento tudo entre eles beirava a inocência e tentavam por esse meio expressar seus sentimentos mesmo que parte deles ainda fosse confuso _me diga, por que está me propondo isso? Quero dizer, foi algo bem repentino.
O ruivo o olhava com as palavras presas a garganta, sentia a tremedeira lhe tomar todo o corpo, da cabeça aos pés. Não sabia explicar o motivo de fazer o convite, nada ia a favor daquele pensamento travesso: o deixara na adolescência, ficaram 15 anos sem o menor contato e agora, depois de um encontro que durou apenas 1 semana, estava pedindo que morassem juntos. Quase como se pedisse em casamento um alguém que acabara de conhecer.
Seu olhar perdido fez Daiki sorrir, quantas coisas na vida fazemos sem que tenha explicações? Afinal por que elas eram tão necessárias?
– Não precisa responder _murmurou _não precisa me dizer nada mais.
– Nós... bom nós nos conhecemos a séculos e nos damos infinitamente bem. A minha vida agora está nos eixos, a sua está quase lá... não vejo o porque de não tentarmos. Acho que é algo assim.
– Taiga _tapou seus lábios com as pontas dos dedos _amo você, prometa que nunca esquecerá disso?
O ruivo sorriu e concordou com um aceno, eles selaram a promessa com um beijo necessitado.
“A esperança é a poesia da dor, é a promessa eternamente suspensa diante dos olhos que choram e do coração que padece”.
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