Melancholy

1 Capítulo I: Magic


Notas iniciais
Sejam todos bem vindos a mais uma fic de Kuroko. Minha especialidade até então era MattxMello (Death Note) e... agora, depois de tanto escrever sobre AoKaga parece que descobri uma segunda paixão! uhauhauhauha. Alana te amoooooo, espero que essa fic te ajude a melhorar ♥ Até mais, enjoy ;*

— Ah dear, você prometeu almoçar comigo hoje _a voz manhosa e delicada fez Taiga abrir um pequeno sorriso _não me diga que ainda está na cama!

— Mum... _resmungou se cobrindo um pouquinho mais com a coberta macia _ainda está cedo. O almoço está pronto?

— Hoje é dia de receber novos alunos na academia, não se atrase.

“Potz!” Tinha se esquecido do compromisso, se estapeou mentalmente ao perceber que dormira demais num dia tão importante.

— Estarei ai num segundo, mãe. Beijo.

— Filho desajustado! _a menor riu se despedindo em seguida.

Taiga jogou o aparelho do outro lado da cama e bufou, seu dia tinha mesmo que começar? Estava tão bom ficar jogado na cama sonhando qualquer coisa. O friozinho do lado de fora não era nada convidativo, sua coberta quentinha proporcionava ao dono uma relação fiel e duradoura...

Kagami Taiga, 32 anos, jogador de basquete aposentado e atual professor numa escola para crianças. Depois de passar longas temporadas na NBA, saindo em capas de revistas e gastando seus dias num mar de prestígio, o atleta optou pela aposentadoria. Ele poderia jogar em algum pequeno time dando continuidade ao seu basquete, entretanto seu corpo pedia por descanso, seu corpo e sua alma; cansou de ser perseguido por paparazzis e nunca ter tempo para os amigos, além disso, nem mesmo parara para pensar em sua própria família – mãe, pai e tios – na época tudo era maravilhoso, agora nada sobrou ao seu redor. Morava sozinho no centro de Los Angeles, usufruía todos os dias de sua fortuna, tinha carros luxuosos, comida farta, o melhor vinho, a melhor taça. Tinha também as melhores mulheres e era vip em qualquer lugar.

E ainda dizem que a bosta do dinheiro não compra a felicidade.

Taiga era feliz num nível astronômico. Não tinha do que reclamar, sentia até falta disso para ser sincero. Se fosse para escolher uma única coisa que o incomodava, essa coisa tinha ficado no passado, e há quase 15 anos atrás diga-se de passagem. Bom, não se arrependia, além disso podia simplesmente ligar ou ir até lá. Então se fosse para reclamar seria de si mesmo e sua falta de vontade.

Assoviando Radioactive, (de sua banda preferia Imagine Dragons), tomou uma ducha rápida e se vestiu. Passou a mão nos cabelos arrumando os fios de qualquer jeito, colocou também os óculos escuros e ajeitou a corrente no pescoço. O gesto corriqueiro o fez se lembrar do irmão que a muito não via, Himuro estava ocupado com seus afazeres na América do Sul a tempo demais.

— Metido _disse a esmo como se o outro pudesse escutar.

Após sua formatura no colegial, optou por voltar aos EUA a fim de tentar a carreira de jogador de basquete, com a ajuda de Alex se deu putamente bem com o time base e logo estava escalado para o banco da seleção Americana. De lá para o sucesso foi apenas um pulo, fez seu jogo de estreia como titular aos 19 anos e arrancou aplausos da plateia. O fenômeno Kagami Taiga. O mundo queria sua velocidade e pulos sobre-humanos, contratos iam e viam na velocidade da luz todos os dias em seu escritório, ganhou mais dinheiro do que qualquer um dentro da modalidade.

Aos poucos seus velhos amigos foram substituídos por novos, quem não se deu tão bem quanto ele dificilmente pode acompanha-lo. Akashi e Kise foram os únicos que davam o ar da graça nas festas de revistas famosas entre outras, logo os encontros se tornaram corriqueiros; bons amigos que jogavam basquete em eventos de caridade. Quanta falsidade numa frase só! Apesar de serem relativamente próximos, tinham mudado bastante em relação ao colegial. Entre eles, quem era Midorima Shintaro mesmo? E aquele desengonçado do Murasakibara?! Mal comentavam sobre os antigos companheiros. O dinheiro muda as pessoas. Muda sim.

O almoço com sua mãe fora rápido, um beijo na senhorinha de quase 50 anos e saiu para o centro esportivo. Não demoraria mais do que 20 minutos na Ferrari conversível, gostava de impressionar as crianças com o carro, era divertido vê-las pedindo para levar a todos num passeio até a sorveteria. Ligou o som a procura de uma boa musica, mudou a estação de rádio uma vez e o som animado de Avicci, ainda que abafado pelo vento, fez seu coração dar um leve solavanco. Músicas antigas remetem a sentimentos antigos. Bom ou ruim, (tanto faz), se eles ainda existem é porque algo ainda faz parte de si. Engoliu seco por um momento, Taiga tinha a impressão que algo espetacular estava para acontecer naquele dia normal.

Deixou para divagar outra hora, assim que estacionou deixou a chave com o manobrista e passou pelas portas de vidros. Cumprimentou, ao longo do corredor, um ou dois conhecidos, seu sorriso aumentou deixando os caninos a mostra à medida que se aproximava do local marcado, crianças eram sua paixão tardia. Assim que viu o bolinho de pessoas, se aproximou iniciando uma leve corrida, não pode conter a voz pela ansiedade.

— Boa tarde crianças!

— Taiga!!

Seu nome foi chamado em coro e todos vieram ao seu encontro com as mãozinhas estendidas. Os pequenos tinham cerca de 10 anos, sete meninos, sendo que entre eles apenas dois eram irmãos. Tirou a lista de chamada do bolso do calção e começou a conhecê-los um a um; seria uma tarde muito agradável.

Um bom jogador, em qualquer esporte, deve ter uma boa base. Esse foi o ensinamento dado por Alex, quando o próprio tinha 10 anos e era nesse conceito que trabalhava no momento: as crianças corriam em volta da quadra quicando uma pequena bola de basquete. Alguns mais rápidos, outros com passos desajeitados, mas iam relativamente bem. Taiga sentou no chão admirando seus alunos quando o último da fila começou a se cansar.

— Theo! Se esforce, estão quase no fim _acenou para o moreno de olhos escuros.

— Não se preocupe, professor! Eu consigo _gritou em resposta, ainda que ofegante.

— Professor, isso é muito chato _lamentou um segundo aluno, parando o exercício e puxando todos para o seu lado _podemos arremessar? Quero aprender a arremessar...

— Ainda é cedo para isso, precisam de um bom... bom... _coçou a nuca, um pouco desconcertado, ao ver o rostinho de desapontamento de todos _como está quase na hora de sairmos, acho que não tem problemas.

A comemoração tomou conta do local por alguns segundos, Taiga esperou que todos se acalmassem para continuar.

— Amanhã iremos completar os exercícios, certo? Ótimo, façam uma fila.

Um a um eles iam arremessando conforme as instruções do ruivo, claro que ele não esperava grandes acertos, mas novamente o ultimo da fila lhe chamou a atenção: Theo jogava a bola a esmo sem noção do que fazia.

— Erga mais os braços... use o pulso pa... espere, assim, o pulso _ajeitou o braço de seu aluno _agora arremesse.

O fiasco ficou evidente para todos, entretanto ao contrario do que uma criança faria, Theo simplesmente sorriu.

— Mas é monte mesmo _resmungou o ruivo sorrindo também.

— Eu ouvi isso, Taiga! _o menino socou de leve sua barriga _me ensine mais uma vez, por favor!

Às vezes as coisas acontecem em nossas vidas sem grandes explicações. Hoje estamos entediados fuçando qualquer coisa no trabalho, amanhã achamos algo maravilhoso que muda o rumo de tudo; assim de repente ou não tão de repente. Destino? Palavra bonita para se explicar e usando desse significado que a história de Kagami Taiga começou a mudar de verdade. Não foi a fama, não foi o talento no basquete, não foi os anos no colegial, de tudo o que aconteceu, pode-se dizer que aquele arremesso desajeitado fora o mais importante.

Depois de se despedir de seus alunos, dois meses após do primeiro dia de aula, a senhora Manson foi requisitada para uma pequena conversa com o instrutor. A mulher loira de olhos estreitos não parecia passar da casa dos 30 anos, nas mãos o Iphone sempre ligado prendia sua atenção, sapatos de salto e a saia justa denunciavam seu status. Uma executiva sem tempo para a vida. Ela entrou na sala reservada um pouco ansiosa por ficar sozinha com Kagami, o encontrou do outro lado da mesa, confortável em sua cadeira.

— Fique a vontade, senhorita Manson _indicou a cadeira de estofado branco.

— Theo fez algo de errado? _cruzou os braços crispando os lábios em seguida, o semblante fechado não era nada convidativo. Uma pena, a mulher era realmente bonita.

— Muito pelo contrário, aceita um chá?... achei que não _completou mediante a falta de resposta_ Theo é um garoto amável e esforçado. Está jogando basquete pois ama jogar, diferente de alguns alunos que já tive. Fico agradecido por não estar forçando ele a isso.

A mulher o mirou com olhar de tédio e esperou que continuasse.

— ...como posso dizer... essa escola surgiu para selecionar jogadores mirins com talento superior. Estamos em busca da geração dos milagres _a frase soou de forma nostálgica para si _meus alunos passam por provações durante os meses e assim ficam os escolhidos. Theo é um garoto maravilhoso, mas não vai conseguir acompanhar os outros.

— E de quanto precisa? Ele gosta de ficar aqui e ele aqui não me atrapalha.

Kagami ponderou a resposta. Sempre que precisava dispensar um aluno se sentia frio e sujo, dizer que uma criança não era boa o suficiente para jogar pela seleção mirim soava tão... infelizmente o propósito daquela escola era descobrir novos talentos e aceitou o cargo sabendo das responsabilidades. Theo não evoluiu em nada mediante sua primeira semana, era lento, sem reflexo nenhum, suas mãos pequenas não tinham força; ainda assim seu sorriso contagiante deixava Taiga numa situação nunca vivida antes. Não queria que o garotinho fosse embora, sentia nele algo nostálgico e bom, algo que não conseguia explicar.

Mais uma vez ele olhou para a mulher a sua frente, quem era o frio agora? Dizendo que pagaria para deixar o filho jogar e assim ficar em casa sem empecilhos. Por que esse tipo de mãe existia afinal? Sua própria nunca lhe desprezou, sempre cuidou com carinho de sua cria mesmo a distância e não era raro vê-la implorando por companhia.

— Vou mandar quitar a quantia de sua mensalidade _disse por fim batendo a ponta da caneta na mesa de madeira.

— Ótimo. Mais alguma coisa?

— ...quero também a liberdade de treiná-lo além do tempo limite, me encarrego de levá-lo para casa. Ele vai precisar melhorar um pouquinho mais para ficar.

— Estará me fazendo um grande favor.

E então ela sorriu. Era um sorriso lindo, sim, e quase tão cruel quanto suas próprias palavras.

— Até mais, senhorita Manson _estendeu a mão que foi prontamente aceita, sentiu a pele macia tocar a sua lhe provocando um leve arrepio.

— Deixo Theo aos seus cuidados, obrigada.

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— Professor onde estamos indo?

O menino perguntou ao ter sua mão capturada pela maior no final do treino. Taiga o puxava em direção à saída já com sua jaqueta e bolsa em mãos. Theo ergueu o pescoço ao máximo para olhar para o homem ao seu lado, com seus quase dois metros de altura se assemelhava a um gigante de cabelos flamejantes e a imagem surreal o entretinha sempre.

— Tomar sorvete, gosta de qual sabor? _perguntou sem real interesse pescando as chaves do carro dentro do bolso.

— ...morango, mas e a minha mãe?

— Te levarei para casa depois, ela não te disse nada?

— Por que sempre responde com uma pergunta?

O ruivo olhou para baixo mirando o topo da cabeça de Theo, os cabelos curtos agora grudados pelo suor pareciam menos macios do que o normal, ainda assim os afagou.

— Porque você é uma criança e crianças gostam de perguntas.

— Você tem sobrancelhas estranhas _tirou a mão grande de seus cabelos encarando o outro em seguida _por que nasceram assim?

— Preciso mesmo que me responda, sua mãe não te disse nada?

Theo suspirou, não gostava de responder apenas de perguntar.

— Disse que treinaria e que ela estava pagando por isso, suponho que não deveríamos estar indo tomar sorvete...

— Vai contar a ela? _suspirou, abriu a porta do carro e o ajudou a colocar o cinto de segurança.

— Não _disse hesitando por um momento, não que estivesse com medo apenas receio por esconder algo da figura materna.

— Ótimo, então vamos tomar sorvete de morango. E minhas sobrancelhas nasceram assim por puro estilo.

Achou melhor prestar atenção nos carros ao redor e se concentrar para esconder o riso, infelizmente não conseguiu disfarçar a tempo levando um tapinha na cabeça.

— Hey! Pare de tocar na em mim _revidou o menor inflando as bochechas.

— Seu metido! Lembra muito alguém que conheço... _e como se já esperasse pela curiosidade continuou _tenho um amigo que mora na América do Sul, ele detestava que eu bagunce seus cabelos. É metido como ele.

— Aposto que ele tem o cabelo melhor do que o seu, por isso ficava o irritando _cruzou os bracinhos desviando o olhar para os lados _seu cabelo é muito vermelho, suas sobrancelhas são divididas e seus olhos são estreitos.

— E você tem cor de pano sujo _revidou estalando a língua no céu da boca _seu cabelo é tão preto que parece azul!

— ...maneiro _se olhou no espelho _sempre disse isso a mamãe. Sempre.

— Sua mãe é loi... ah _barrou seu comentário a tempo, afinal Theo poderia ter problemas familiares e não queria mesmo entrar naquele assunto _chegamos. Vamos pequeno.

— Sorvete!

A senhora Manson era uma executiva de sucesso, a loirinha transformou sua vida aos 18 anos, quando tudo começou a dar errado por um deslize. Aquela viajem ao estrangeiro trouxe a si uma tremenda responsabilidade, desde o começo só queria voltar e seguir com sua faculdade. Foi o que fez, se esforçou para subir na vida não deixando ninguém dizer uma palavra sobre suas conquistas, mesmo sem ética alguma, o importante era glamour. Theo cresceu na melhor escola, sempre teve as melhores roupas, fez todos os cursos que quis – e como era aplicado! – ao contrário de qualquer criança, o garotinho adorava ficar sozinho e usufruía das oportunidades para se tornar cada vez mais esperto. Sua mãe era nada mais do que uma figura superior a si que tinha por obrigação por comida na mesa, como uma governanta ou uma babá; ainda assim entendia que o amor um dia viria a surgir entre eles. Seu pai sempre muito ocupado não tinha tempo para vir visitá-lo, se falavam por telefone e recebia presentes magníficos. E assim como mãe, a palavra pai não tinha grande significado. Uma criança excepcional.

Taiga passou de treinador para irmão. Na vida de Theo, ter pessoas como ele era tão normal quanto amigos, aceitou bem passar seus fins de tarde em sua companhia e se divertiam pra valer. Chegou a conhecer a o senhor e senhora Kagami num almoço animadíssimo, a ruiva pequena ficou brincando com ele como se fosse seu neto. Ela sabia que seu filho, homossexual desde a adolescência, dificilmente teria filhos biológicos, mas apoiava um casamento estável e a adoção de uma linda criança. Infelizmente a fama não deixou que Taiga pensasse em relacionamentos até aqueles últimos anos, quando se aposentou; agora poderia ser uma boa hora.

Akashi também conheceu o pequeno Theo, chegou curioso à escolinha achando que Taiga enfim tinha encontrado um prodígio. Se decepcionou. O basquete era péssimo, ele aprendera a arremessar e driblar, porém nunca alcançaria nenhum de seus ex-colegas de times; poderia chegar a ficar no banco de reservas talvez. Um jogador comum. O ruivo de olhos bicolores se tornou em pouco tempo o ídolo do menor, ele sabia fazer coisas incríveis arrancando aplausos: Taiga sentiu uma pontada de ciúme dizendo que ele e seus saltos eram bem melhores. Akashi ficou encantado, prometeu que apresentaria Kise para Theo e então teria um amigo da mesma idade mental para brincar. A maldade estava sempre em seus lábios.

Depois que quase quatro meses de convivência, Taiga e Theo passaram da relação professor aluno e tinham se tornado bons amigos. A senhora Manson aprovou a tal aproximação ficando bem conceituada no mercado de trabalho pela fofoca corrente que ela estaria namorando o ex-jogador. O que nenhum deles sabia era que naquela tarde de Outono as coisas mudariam totalmente de figura. Era como se o ano todo o destino e sua travessura estivessem preparando Taiga para aquela cena, o auge da mudança que começou lá atrás no arremesso todo errado.

Theo chegara atrasado para sua aula de basquete, ficou o tempo todo desanimado errando os passos de forma grotesca e em seu rosto tristeza. Preocupado, o ruivo naturalmente fora conversar com o pequeno e depois de muito insistir, variando entre fazer palhaçadas e falar sério, descobriu a verdade. Uma carta havia chego no dia anterior e por ter uma observação escrita em outra língua, ele não pode entender, sua mãe também não quis traduzir dizendo que era apenas besteira.

— Me mostre, posso tentar traduzir para você _disse pela terceira vez estendendo a mão na direção de Theo.

— Não... _fez um bico amável apertando a alça da mochila com força.

— Achei que confiava em mim.

Os olhos cor ônix brilharam pela tristeza que aumentou ao ouvir tal declaração, era óbvio que a criança confiava no ruivo mais do que tudo. Ele segurou as lágrimas tomando coragem para continuar com o assunto.

— Confio, mas... é complicado. É uma carta do meu pai e não quero que leia...

— ...tem vergonha do seu pai? Sabe, o meu ficou longe de mim por bastante tempo assim como o seu. Só voltamos a nos encontrar depois que terminei a escola e comecei a ser famoso. Quando eu conto isso para alguém, me sinto constrangido por não ter um pai que se importa de verdade com o Taiga.

— Então por que conta?

— Porque me sinto bem melhor.

O sorriso contagiante fez Theo sorrir também deixando as lágrimas caírem, rapidamente ele as limpou e tirou a folha de papel do bolso externo da mochila. Taiga desdobrou o papel amassado e começou a ler seu conteúdo rapidamente, estava num inglês bem formal e quase infantil; falava que a pessoa em questão estava bem e que iria num jantar de gala em breve, avisava sobre um presente que não demoraria a chegar e se desculpou duas vezes pela falta de presença em sua vida.

Típico. Pensou Taiga ao se lembrar das próprias mensagens que recebia do Senhor Kagami quando menor.

Logo abaixo a observação e para sua surpresa estava escrito em japonês, com kanjis difíceis e caprichados. Uma letra quase...

— Quase... nostálgica

Murmurou lendo a frase: Seu pai te ama e fará o impossível para te trazer para o Japão em breve, Theo.

Não havia assinatura, o ruivo mirou mais uma vez os ideogramas e devolveu a carta, ainda confuso.

— Seu pai é japonês?

— Sim! Mamãe me ensinou japonês, ele sempre escreve uma coisa ou outra em hiragana, mas dessa vez mandou uma frase difícil e ela não quer traduzir...

Mas Taiga não ouvia o que ele dizia. Seus pensamentos foram tomados pelo passado, se lembrou do colégio, dos jogos na escola, dos amigos; daquela época já a tanto esquecida nas profundezas de seu coração. Kuroko era o único que tinha a letra bonita, se lembrou do menor instantaneamente ao ver os ideogramas, ainda assim não era isso que lhe cutucou a consciência. Tinha mais alguém.

Tinha Aomine Daiki.

Tudo bem, ver uma frase em japonês e se lembrar de Daiki. Qual a maldita relação? Nenhuma, claro, mas para um coração que a muito já foi acalentado pelo moreno, qualquer coisa se tornava desculpa para seus sentimentos se revoltarem dentro de si. Sentiu o coração apertar, há quanto tempo não se permitia pensar nele? A saudade tomou conta de seus sentidos e só voltou a si quando Theo deu um puxão em sua camiseta.

— Taiga! O que aconteceu?

— Me-me desculpe, eu... _olhou perdido para o garotinho que esperava por alguma resposta _você entendeu o que eu traduzi?

— Sim, entendi, obrigado. E você está bem? _a pergunta inocente fez o ruivo abrir um leve sorriso.

— Acho que fiquei um pouco desanimado, lembrei de um amigo e senti saudades.

— ...ai Taiga, você é tão transparente.

Ele abriu e fechou a boca sem conseguir responder. O cala frio percorreu seu corpo e por segundo viu o amigo dizendo a mesma frase para si. Theo não se parecia com Daiki em nenhum sentido, seus cabelos eram pretos como a lua ainda que ficassem num tom diferente no sol, os olhos ligeiramente verdes (quase mel) como os da mãe, o moreno de sua pele vinha basicamente da exposição à luz solar exagerada e por último, mas não menos importante, era infinitamente esperto para um alguém de sua idade. Ele tinha certeza que Daiki fora um colono, birrento e bobo, como qualquer criança, porém ouvir de seus lábios que era “transparente” fez se lembrar do homem já crescido que vivia insistindo que Taiga não sabia esconder nada de si.

— Minha mãe não quer que eu o encontre porque acha que ele irá me levar para o Japão e conseguir a guarda _explicou tentando trazer seu professor de volta a realidade _não entendo muito bem o motivo dela o detestar.

— Acho que você já é muito esperto por entender toda essa situação _se forçou a prestar atenção no assunto _gosta dele?

— Gosto, gosto da mamãe também. Ambos são gentis comigo.

— E você moraria em outro país?

— Como criança gosta de perguntas _suspirou retirando o envelope e enfiando de qualquer jeito o papel dentro dele _tenho medo de ir para um lugar que não conheço.

A gargalhada audível assustou Theo por um instante, Taiga o pegou no colo e afagou seus cabelos. A criança esperneou tentando escapar do ataque mas pela diferença de forças foi obrigado a se render.

— Já que sou criança...

— Criança grande _corrigiu Theo.

— ...criança grande, então quero ter o direito de fazer mais! Como ele se chama? Onde ele mora? O que ele faz? Quantos anos tem seu pai? Qual sua cor preferida?

Mais gargalhadas e agora uma leva de cócegas, quando Theo caiu exausto no chão, com lágrimas nos olhos e dor na mandíbula, entregou o envelope a Taiga assim respondendo a maioria das perguntas e o deixando entretido tempo suficiente para se recuperar.

Tanto no sol, quanto na chuva
Consigo lembrar daquele sorriso
As memórias estão remotas e desbotadas
Mas se eu procuro, seu vulto ressurge
Fazendo-me derramar lágrimas

Tanto na tristeza, quanto na alegria
Costumo lembrar aquele sorriso
Vou vivendo com esperança de reencontrá-lo

Mas ainda derramo lágrimas
Por sua falta
Derramo lágrimas
Por saudades de você

O endereço era conhecido, uma cidade mediana localizada aos redores da capital Tóquio, o bairro tranquilo tinha um nome complicado demais para pronunciar e o remetente... bom, o remetente não poderia ser mais conhecido.

De: Aomine Daiki

Para: Theo

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Notas finais
- Manson: baseado no serial killer Charles Manson, eu quis passar toda a frieza e egoísmo com esse sobrenome - me pergunto se exagerei auhauhauaha. — Theo: sua inteligência, vivacidade e bondade está baseado em Matilda, um filme de 1996. Não queria fazê-lo se parecer totalmente com os pais, pois eu mesma sou bem diferente dos meus... espero que tenham gostado dele s2. ty!