Melancholy

2 Capítulo II: Glow


Notas iniciais
o/ enjoy ~

– Aomine Daiki?!

– Sim! Mãe, presta atenção, não pode ser um engano, certo? Eu conheço aquele endereço _a voz ansiosa não deixava Ruth responder, a ruiva começou a ficar tão nervosa quanto ao ser cortada pela segunda vez _o Theo é filho do Daiki, mãe!

– Taiga, se acalme pelo amor de Deus! Não acha que está exagerando? Vocês têm a mesma idade, é óbvio que o Daiki pode ter filhos e... ah, foi uma grande coincidência sim, mas... mas... dear, tem algo estranho?

– ...por que ele mandaria uma carta no seu antigo endereço? Por que ele mora com os pais ainda? Ou... será que aconteceu alguma coisa?

Ruth repousou a xícara sobre a mesa e alcançou as mãos grandes do filho, ela sorriu minimamente tentando acalmá-lo.

– Meu amor, você deixou de falar com seus amigos há tanto tempo. Insisti tanto para que não perdesse o contato.

– Sei que a culpa é minha _olhou para os lados fugindo da verdade.

– ...não é isso que quero dizer _disse amável _entendo que a fama e a distância foram fatores de peso e não o culpo. O Daiki-kun... lembra como ficou chateado quando voltou para Los Angeles? Ele não atendeu seus pedidos para vir até aqui nenhuma vez.

– Sim.

– E você também não voltou ao Japão nenhuma vez. Pelo menos não para visitá-lo.

Ele balançou a cabeça num gesto positivo. A história com Daiki começara depois da winter cup com sua vitória sobre o moreno, após esse episódio começaram a sair, se conheceram melhor e o rolo veio de forma natural. Não era nada sério de verdade, uma transa aqui, um enrosco ali, não era compromisso ao ponto de chamar de namoro, mas os sentimentos eram profundos demais para ser apenas um caso. No terceiro ano Daiki chegou a se declarar dizendo que o amava de verdade e que se fosse possível, gostaria de ir para a mesma faculdade e viver algo sério, Taiga infelizmente tinha outros planos.

Foi um entendimento mutuo, Kagami voltou para Los Angeles se desculpando por não gostar do outro da mesma forma, o remorso durou quase dois meses inteiros e as mensagens chegavam constantes até tudo esfriar e acabar caindo no esquecimento. Quinze anos depois não tinham contato algum mais, o ruivo mal se lembrava de Daiki no seu cotidiano, porém aquela novidade mexeu consigo chegando a tirar seu sono: se não se importava, então qual o motivo de todo o rebuliço? Estava claro para Ruth que seu filho ainda gostava muito do moreno, razão pela qual acabou solteiro até hoje. Não era como se ele fosse correr de volta para o Japão e se declarar, entretanto mandar uma mensagem não ia ser o fim do mundo...

– Sabe o que fazer.

– Mãe... ah mãe, mas eu... acho que estou envergonhado por isso. Por ter deixado alguém como ele cair no esquecimento.

– Ele fez a mesma coisa, não?

– ...tem razão, bom ele também nunca mais entrou em contato _cortou sua terceira fatia de bolo _está certa. Pode ser que isso tudo seja um sinal para voltarmos a sermos amigos.

– Muito bem, agora me ajude a tirar a mesa e chega de bolo! Vai engordar.

O ruivo riu de forma discreta, um homem de 32 anos, bem sucedido tirando a mesa do café da tarde para sua mãe... ainda afirmava categoricamente que era feliz com tudo aquilo, mas sua idade não o impedia de continuar a viver energicamente e agora aquela noticia o fez ter vontade de sair da sua área de conforto e caminhar em passos falsos. A saudade de Aomine Daiki bateu em peso no coração, não só dele, de todos os outros também; se arrependeu por nunca se lembrar – e ao mesmo tempo também não se culpou – bastaria voltar ao Japão para uma rápida visita.

Enquanto colocava o leite na geladeira teve uma ideia momentânea, com o olhar travesso para a menor que lavava a louça, anunciou o que faria em breve.

– Vou para o Japão.

– ...se é isso mesmo o que quer, então vá _deu os ombros sem muito se importar.

– Vou tentar rever meus velhos amigos. Dizer ao Daiki que sou melhor amigo do filho dele, encontrar o Kuroko e a Momoi.

– E o que mais?

Ela esperou pela resposta que não veio. Taiga começou a traçar seu plano de viajem no caminho para casa: iria viajar no final de semana num avião particular, passar no seu antigo apartamento (e bota antigo nisso!), alugar um carro e visitar as casas que ainda lembrava o endereço. Tinha certeza apenas que Kise e Akashi não moravam mais no país, os outros quem sabe com um pouco de sorte. Teve que rir de si mesmo, o impulsivo Kagami Taiga! Bom, viver a vida daquele modo era bem mais interessante afinal.

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Japão 12:34 – Narita.

– Boa tarde, Kagami-san! _o comandante se despediu de seu passageiro ilustre com um largo sorriso no rosto e o bloquinho de anotações em uma das mãos _e obrigado pelo autógrafo.

– Foi um prazer.

Acenou deixando suas malas para o assessor e tentou passar o mais rápido possível pelo saguão. O Camaro preto estava a sua espera do lado de fora, com boné e óculos-escuro foi fácil se camuflar entre as pessoas e chegar sem nenhuma interrupção até o veículo. Quanta nostalgia! A última vez que passara por aquele aeroporto estava sozinho, com 10 dólares no bolso e uma mala exagerada para a ocasião. Depois disso nunca mais desembarcou como um passageiro normal, estava sempre acompanhado pelo time e muitos seguranças, sentiu falta da liberdade.

Dentro do carro também estava um celular preparado para ele e uma caixa de bombons, gostou da surpresa tomando em mãos o aparelho e rindo da imagem de fundo: sua própria foto num jogo qualquer pela NBA. Infelizmente não tinha o contato de ninguém para avisar de sua chegada repentina. Dirigiu até o apartamento como em seu roteiro, ainda sabia de cor o caminho e não demorou mais de 30 minutos para adentrar no bairro em questão e encontrar o endereço certo. Estacionou do outro lado da rua.

Finalmente em casa.

O prédio azul e cinza ainda tinha a mesma fachada, o porteiro obviamente não era o velho Mori e algumas das arvores agora estavam imponentes no jardim. Deu o primeiro passo em direção ao portão e como se já esperasse pelo assedio, acenou discretamente ao porteiro novo.

– Kagami-san! Quanta honra recebê-lo hoje, aqui está a chave de seu apartamento _o homem de estatura mediana lhe estendeu um par de chaves pela janelinha da guarita _espero que não se incomode de me deixar um autografo.

– Claro que não, obrigado por me receber _tomou nas mãos uma caneta e um papel rabiscando rapidamente seu nome _morei aqui há muitos anos atrás... _comentou para si mesmo _não mudou nada.

– As coisas pouco mudam no Japão, Kagami-san. Quando telefonou para cá, achei que era um trote.

Seus olhos brilhavam a cada movimento do ídolo, Taiga percebeu e apertou mais uma vez a mão do homem.

– Depois mandarei algo para o senhor, por favor mantenha a discrição.

– Com certeza. Até mais tarde!

Kagami retomou sua caminhada subindo os degraus de pedra, passou direto pelo elevador – seria um incomodo encontrar alguém agora! – e subiu os lances de escadas até o apartamento 27. Suas mãos suaram ao tocar na maçaneta, quantos anos! Ainda era moleque quando entrava e saia desse cubículo mil vezes por dia, sozinho ou acompanhado. O interior não estava ruim, anualmente mandava alguém para limpar e cuidar de outros detalhes, apesar disso jazia vazio apenas com os armários da cozinha e o sofá coberto por plástico. Entrou na cozinha sentindo o cheio de poeira, fechou as portas de madeiras que ficavam abertas evitando assim mau cheiro e abriu a torneira da pia lavando as mãos.

– Cara, que sentimento estranho.

Falou como se alguém o acompanhasse, olhou discreto para o balcão, mais precisamente para a parte de baixo: gozara na porta branca do armário uma vez e a mancha nunca mais saíra por completo. Bons tempos.

Rumou então para o quarto acendendo a luz do corredor no trajeto, deu uma olhada no banheiro, lavanderia, e sua visita ao apartamento chegara ao fim. Não achou que seria tão rápida e normal, quase tediosa. Sem os amigos ali nada daquilo fazia real sentido, era somente um lugar vazio. Voltou para a sala ajeitando o cachecol e se preparando para sair, iria fazer o que tinha em mente o quanto antes, a solidão – pela primeira vez – estava se tornando desesperadora.

O primeiro endereço seria de Midorima Shintaro. Por que? Vai saber, ficou curioso para descobrir o que aquele homem tinha se tornado. Se bem lembrava, Midorima e Takao namoravam no colegial e tinham planos de faculdade em Tóquio como médico e sabe-se-lá-o-que respectivamente. Depois de ficar perdido acabou encontrando a construção enorme no bairro ao lado do seu, na plaquinha o sobrenome da família. Ficou a observar o movimento da rua ainda de dentro do carro, chegar de surpresa na América era até normal, mas no Japão isso não era exatamente educado; talvez alguém saísse da casa...

– Ah foda-se! _deixou o veículo e tocou o interfone.

Demorou alguns segundos para uma voz fraca e lenta soar perguntando quem era.

– Sou um velho amigo do Shintaro-san, meu nome é... Ka-Kagami Taiga _disse com uma pontada de ansiedade na voz, ele era estupidamente famoso agora! A probabilidade de acharem que aquilo era um trote era quase 100%

– ...Kagamichin? Aquele Kagamichin?

– Murasakibara?! _Taiga respondeu no susto, em seguida o portão deu um leve estalo e se abriu.

Ele não entrou, esperou que a porta de entrada fosse aberta e dali acabou vendo Midorima, Takao e Murasakibara olhando todos curiosos para fora.

– Mentira! Aquele Kagami?! Não acredito nanodayo.

Então eles riram. Não teve nem tempo de reparar como envelheceram ou perguntar como estavam, foi um abraço sem jeito e coletivo, Taiga foi arrastado para dentro e quando se deu conta já estava sentado no sofá.

Kagami Taiga, que até ontem estava em Los Angeles, aposentado e com 32 anos, agora estava sentado no sofá da sala de Midorima, no Japão, voltando a ter seus 17 anos.

– Comece a se explicar _exigiu o dono da casa enquanto enfiava uma xícara de chá em suas mãos.

– Bom... eu... fiquei com saudades e vim pra cá, é isso.

– Simples como uma rocha _riu o menor de todos _não mudou nada!

– Quem não mudou... bom, acho que agora a única diferença é que temos rugas nos cantos dos olhos.

Todos concordaram com Kagami, Midorima e Takao não estavam diferentes daquela época – Midorima em particular não tinha mudado nem o hábito de enfaixar os dedos! – Takao já mantinha os cabelos ligeiramente mais curtos, ainda assim se comportava como sempre: animado e falante. Bara por sua vez agora tinha as madeixas curtas e escovadas para trás, achou estranho a princípio, mas parece que ninguém se importava com tal fato. Os amigos ainda moravam pelas redondezas e estavam passando o final de semana juntos, por acaso a filha de Bara tinha ficado doente e o pai fora até a casa do amigo buscar um remédio; imagine o susto ao atender o interfone. Tomaram chá e comeram biscoitos até dizer chega e ainda não foi o suficiente para todos contarem as novidades e acontecimentos da vida. Taiga por exemplo soube que Midorima morou um tempão na Austrália com Takao e agora pretendiam voltar para lá, soube também que Kise os visitou há pouco tempo atrás trazendo uma modelo super famosa junto. As novidades claro não pararam por ai, Kuroko e Momoi casaram e tinham gêmeos, os meninos eram duas pestes influenciadas pelo comportamento do padrinho – Daiki – ele os deixava fazerem tudo o que tinham vontade. A família morava num bairro afastado, mas que sempre vinham para visitá-los.

Com o sol quase se pondo e ainda mal saindo da primeira parada do dia, Kagami ficou sem jeito ao dizer que precisava procurar um hotel para passar a noite – e que ainda não tinha parado para sequer almoçar – imediatamente Takao sugeriu um breve jantar. Convidariam Aomine e Kuroko para se juntarem a eles uma vez que os outros estavam fora da cidade; Taiga concordou, no dia seguinte daria um susto nos antigos companheiros de time antes de voltar para Los Angeles.

– Volto mais tarde então, vou dar um pulo no shopping para comprar algumas coisas... ah parem, odeio ficar de mãos abanando! Trabalho com crianças então sei que elas adoram presentes. Bara, sua filha tem quantos anos?

– ...três _disse um pouco hesitante _e os filhos do Kurokochin oito.

– E os seus pais, Shintaro?

– Estão fora do país faz cinco meses. Ah falamos tanto e ainda não contamos tudo, Kagami voc-

– Ainda temos a noite toda! _interrompeu o amigo já pegando o casaco deixado no hall de entrada _vou buscar as coisas para o churrasco, volto o mais rápido que puder... pessoal, obrigado.

Apesar de chegar sem avisar depois de 15 anos, não trazer nada além da cara lavada cheia de timidez e falar mais do que a boca cortando as pessoas, seu sorriso gentil fez com que seus amigos declarassem derrota: estavam muito confortáveis na presença do ruivo. Taiga era como um raio de sol depois de dias nublados e chatos, a rotina quebrada por algo espetacular sempre era bem vinda e isso fez todos o agradecerem de volta.

Mais do que depressa, voltou ao Camaro partindo rumo ao shopping. Não se preocupou em esconder o rosto, usou apenas seu fiel óculos-escuro e foi às compras. Presentes para crianças de oito anos, presentes para criança de três, presente para as mulheres, presentes para os donos da casa – presenteou até a si mesmo com uma camiseta nova e um perfume, estava com preguiça de voltar ao apartamento para trocar de roupa – em poucas horas iria rever Kuroko, Momoi e Daiki. Ficou sabendo muita coisa deles, Momoi se formou em arquitetura e Kuroko era professor de biologia na faculdade de Tóquio, se casaram com 22 anos logo após a colação de grau numa festinha privada. Dois anos depois os filhos, emprego estável... enfim uma família mais do que normal.

– Normal até demais _pensou ao escolher agora um colar para a amiga, tinha pequenos brilhantes na corrente e um pingente turquesa.

Sobre Daiki pouco teve tempo de perguntar, soube que entrou para a polícia e morava ainda no mesmo lugar. Midorima parecia desinteressado sempre que o assunto caia em Aomine, não pareciam ter brigado ou coisa do tipo, apenas se afastado um pouco – eles nunca foram amigos próximos afinal – ainda assim seria totalmente bem recebido em casa. Sua surpresa maior foi ver Murasakibara casado e dono de uma famosa confeitaria! Ele até participava de um reality show como juiz. Aquela pessoa enorme com olhos de peixe morto, quem diria que fora um excelente jogador de basquete em vidas passadas? Agora não se lembrava nem mais o peso de uma bola de basquete. Ao contrário do que parecia, a pessoa que mais detalhara sua vida fora o próprio Taiga, contou tudo sobre a NBA, os jogos, sua casa, sua família, seus alunos – ufa! – e sabia que repetiria a dose quando voltasse à residência; não se importou, estava se divertindo infinitamente.

E iria ver Aomine Daiki!

A ansiedade era gritante, as mãos a todo o momento caçavam o celular para verificar o horário, seus lábios repuxavam para um sorriso lindo e espontâneo a cada vez que se lembrava de tal fato – tinha até comprado algo especial. O lance entre eles durou apenas um ano e pouco, saiam quase todos os dias para o mano a mano e terminavam as noites na casa do ruivo, mais especificamente na cama. Além disso, também reservavam um tempo para fazerem passeios que um casal normalmente faria: cinema, fliperama, restaurantes. Foi uma espécie de namoro liberal regado a uma ínfera dose de ciúme. Ele quase se arrependeu de ter ido embora sem convidá-lo para ir consigo. Quase.

Encontrar Daiki depois de 15 anos será mais do que agradável, não só seu coração, mas também o corpo estava com saudade. O calor, o aperto forte na cintura, os lábios macios. E mais uma vez um cala frio subiu por sua espinha.

Do lado de fora o sol já sumira totalmente do horizonte, entrava na penumbra e a temperatura caíra bastante em relação à tarde quente daquele Sábado. Passaria rapidamente no mercado para comprar os ingredientes e isso o deixava a poucos minutos do tão esperado jantar. Caminhou em passos largos para a escada rolante, ajeitou as sacolas nas mãos disfarçando seu nervosismo; as pessoas aos poucos começavam a olhar curiosas com sua atitude suspeita.

Afinal era impossível segurar o sorriso.

Depois de horas fazendo compras e tomando milkshakes, Kagami voltou para o carro e deu partida.

– Meu caralho!! _exclamou de supetão se referindo ao encontro, desistira de tentar limitar a felicidade.

Se ele soubesse que ficaria agitado naquele grau, teria voltado ao Japão muito antes! Mas o tal do destino parece que faz tudo ao seu tempo afinal, agora tinha tantas novidades... trouxera fotos de Theo, fotos com a senhora Ruth e mais alguns jogadores famosos no qual ele sabia que Daiki era fã. Não fora capaz de contar ao garotinho que conhecia seu pai – muito menos que estava viajando no intuito de encontrá-lo – ficou com receio da reação da senhora Manson, primeiro saberia exatamente o que aconteceu e depois, talvez, contasse a verdade. Era um recomeço lento com passos cuidadosos. A separação deles foi simples, um sorriso e um aceno na frente de seu apartamento depois da festa de formatura da Toou; sem ressentimentos ou brigas. Sabia que o affair ficara com o coração partido, impossível querer cobrar dele algum sorriso, mas tinham resolvido aquele assunto muito bem e trabalhado nele por quase três meses – tempo da declaração até sua partida. Kagami não fazia ideia se ele ainda sentia algo por si ou se seus próprios sentimentos mudaram nesses longos anos, só saberia ao encará-lo cara a cara.

– Theo! _se estapeou mentalmente e de tão perdido nos pensamentos, mal vira quando voltou a estacionar no portão de Midorima.

Daiki tinha um filho, então quer dizer que amou alguém. Pelo menos era isso que esperava. A vida enfim não era tão simples.

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– Isso parece delicioso _babou Takao na carne fritando na churrasqueira _quem diria que o Shin-chan aprenderia a cozinhar, não?

– Realmente! _concordou o ruivo virando o resto do chopp.

O friozinho do começo da noite criava um clima perfeito para o churrasco que fora montado nos fundos da residência, Shintaro se responsabilizou pela carne e Takao os acompanhamentos, Bara chegaria mais tarde com doces e sua família. Taiga olhou para o relógio mais uma vez imaginando que horas os outros viriam.

– Logo menos, Kagami, logo menos _respondeu Shintaro como se pudesse ler seus pensamentos.

– Bom, fazem 15 anos! É tempo para cara...mba _se corrigiu a tempo de não soltar um enorme palavrão.

– Oras Taiga, não precisa ser formal, ace-

Mas sua frase fora cortada pela campainha, Taiga sentiu o coração quase sair do peito e a caneca, novamente cheia, estremeceu em sua mão derramando parte do liquido.

– Takao, por favor...?

O moreno acenou que sim e se dirigiu para dentro da casa, olhou sobre o ombro uma única vez capturando o semblante preocupado de Shintaro. Kagami não percebeu.

Silencio, a tortura durou apenas curtos cinco minutos, a primeira pessoa a aparecer no quintal fora uma mulher alta, com cabelos castanhos e longos, em seu colo uma menininha de bochechas vermelhas. Ela acenou animada para Shintaro e em seguida caminhou até Kagami.

– Parrazerr _seu sotaque saiu forte e logo suas bochechas ficaram carmesim _me chamo Cecile e essa é Charlotte _a pequena escondeu o rosto com uma das mãos.

– Encantado! Sou Kagami Taiga, olá princesinha.

Ele não precisou tocar no bebê ou fazer nenhuma gracinha, apenas seu sorriso gigante fora o suficiente para ela encará-lo e deixar a timidez de lado.

– Se ela se apegar a você, não vai sair nunca mais do seu colo, não é ‘Lotte? _Takao mal chegou perto e a menina estendeu os braços para ele.

– Sempre te vemos pela tv adorramos basque...te. Pardon, meu japonês...

– Eles se conheceram no curso que o Murasaki fez na França, faz quantos anos, Ceci?

Trois annes _respondeu em Frances.

Kagami concordou com um aceno, entendia minimamente Frances. Cecile era alta, mas muito magra, seus cabelos tinham cachos largos que emolduravam seu rosto fino. Parecia feita do mais fino cristal em contraste com Bara, um homem de dois metros de altura – literalmente – que comida doces feito criança.

– Yo Kagamichin _cumprimentou Bara que vinha com uma enorme caixa em mãos _’Lotte deixe Takaochin em paz.

A menina resmungou e apertou o abraço no menor, como se uma criança brincasse com outra, Takao riu e a apertou também. Morria de amores pela pequena. Ela era bem mais parecida com a mãe, mas tinha os cabelos lisos e bem claros como os do pai.

– Shin-chan precisa de ajuda?

– Não _resmungou fazendo uma careta para a menininha que caiu na gargalhada.

– Eles poderriam adotarr um petit _comentou com um sorriso no rosto.

– E por que não adotam? _perguntou Taiga agora sentado com Bara e Cecile à mesa.

– Eles estão pensando no assunto faz anos, acho que falta incentivo... bom, quando você conhecer os filhos do Kurokochin vai entender que eles são bem difíceis.

Kagami abriu e fechou a boca, ele quase contara sobre Theo, mas era melhor esperar. Não tinha certeza se era seguro tocar naquele assunto...

– E como eles são?

– Hum... dois Minechins de cabelos claros e olhos grandes... ah e não são pretos.

– O que o Kuroko fez para pagar um pecado desses?

A explosão de risos chamou a atenção de Midorima, se continuassem assim não ouviria a campainha. Seu semblante amaciou um pouco ao ver que o ruivo se divertia, ficara aliviado em poder entreter sua ilustre visita tão bem.

Os minutos passaram lentamente, minutos que se transformaram agora em quase duas horas. “Ele não virá?” Pensou deixando que a ansiedade voltasse formando um pequeno nó em sua garganta, Aomine sempre chegava atrasado, aquilo não poderia ter mudado mesmo depois de 15 anos?! Ou ele não queria vê-lo...? Bobagem, conversaram normalmente por vários meses depois de sua ida à Los Angeles, não tinha motivo para ressentimentos. Estava apenas atrasado mesmo. Simples.

– Quando irá voltar?

– Ah... bom, eu não sei, acho que na Segunda ou Terça _na verdade não tinha planejado a viajem de volta ainda.

– Hum, podemos ir a outros lugares, tanto tempo fora e ficar só aqui em casa é besteira.

– N-não tudo bem! Acredito que tenham que trabalhar Segunda-feira e não quero mesmo atrapalhar.

– A casa é sua, Kagami, não se preocupe _deu os ombros se afastando finalmente de seus afazeres, Midorima colocou os óculos sobre a mesa e Taiga pode reparar em pequenas linhas de expressão em seu rosto _pode ficar aqui se quiser, seu apartamento está vazio, não está?

– Sim... ah _suas bochechas ficaram tão vermelhas quanto o cabelo _posso ficar num hotel. Obrigado.

Feito um minuto de silencio o celular de Takao começou a tocar incessantemente, ele desbloqueou o aparelho e atendeu a ligação, era Momoi, disse que estava quase chegando e precisava de ajuda com as compras. O moreno devolveu Charlotte para o colo do pai e correu porta adentro, Kagami queria ajudar, mas foi impedido por novas perguntas vindas de Cecile – ela era muito fã de basquete e mesmo com vergonha de seu sotaque insistiu para que o ruivo contasse um pouco mais sobre Kobe Bryant, jogador dos Lakers.

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– A casa do tio Midorima sempre vai ter essa cor brega? _perguntou um dos gêmeos que no momento estava no colo de Aomine.

– O que tem contra verde? É a cor da esperança, sabia? _sua mãe disse em bom tom repreendendo o menino _tem um significado bonito.

– Ele usava um uniforme todo laranja no colégio _comentou Daiki fazendo ambos rirem _parecia uma cenoura. Uma cenoura comprida.

– Dai-chan! Crianças!

– Chegamos _anunciou Kuroko alheio a bagunça dentro do carro, estacionou em frente ao portão branco tomando cuidado com a guia _meninos, peguem o que puderem no porta-malas e ajudem a sua mãe, Aomine-kun, só um segundo.

– Uhum... então, ele está ai _disse mais para si do que para o amigo, ainda assim ele respondeu.

– É ele está... vai ficar tudo bem.

Kuroko sorriu gentilmente e desprendeu o cinto, levara um susto gigante ao receber a ligação de Takao informando que tinham uma visita mais do que ilustre. Kagami aparecera depois de milhares de anos longe e sem dar notícias – ainda que o azulado perguntasse vez ou outra para Akashi – Momoi ficara encantada e seus filhos, fãs de basquete, não o deixaram em paz enquanto não entraram no carro horas mais cedo. Acompanhar a vida de Taiga pela mídia e falar com ele pessoalmente não se comparavam afinal.

Depois de passado o susto, faltava apenas mais uma pessoa para avisar, Daiki teve a mesma reação exagerada de Momoi ao saber que ele estava de volta; a lista de palavrões foi gigantesca. É claro que ele estava ansioso, porém sua ansiedade ia muito além de rever seu antigo amor.

Muito além.

Tinha milhares de coisas para contar, boas e ruins, como qualquer um deles – e sabia que o ruivo o faria esmiuçar tudinho – como diria ao grandão que tinha um filho? Parecia até piada, como a vida nos prega peças! Diante todas as confissões, tinha uma que ele não ia precisar abrir a boca para revelar e era justamente essa que pesava em seu âmago no momento. Como poderia explicar... se sentia envergonhado e ao mesmo tempo derrotado? Isso quase o fez desistir de ir ao jantar. Felizmente tinha Momoi, sempre ela! Sempre sua melhor amiga, o que seria dele se a menina não estivesse ao seu lado?

– Vamos? _Kuroko o tirou de seus devaneios.

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Kagami desistiu de ficar sentado, ele sempre fora transparente e mesmo que não fosse, seu corpo todo gritava uma única reação: ansiedade. Ao longe pode ouvir duas vozes animadas e quase no mesmo instante, duas crianças idênticas voaram para o seu colo.

– Taiga!! _disseram em conjunto _cara, ele é grande mesmo! _disse o da direita.

– O-olá crianças _pegou ambos no colo, um em cada braço arrancando aplausos dos pequenos _são parecidos mesmo com o Kuroko! Mas tem os olhos da mãe de vocês. Como se chamam?

– Takeru _disse o menino do lado esquerdo

– Kaoru _disse o outro _mamãe mudou a cor das nossas camisas para não confundir o tio Midorima, ele detesta não saber quem é quem. Tio Taiga faça o Meteor Jam para nós! Por favor!!!

– Por favor!

– Takeru! Kaoru!!

A voz de Momoi veio alta e ela apareceu com o rosto vermelho, estava pronta para dar uma enorme bronca nas crianças quando foi pega de surpresa por um Taiga rindo com ambos nos braços, a cena era tão fofa que desistiu.

– Satsuki! Cara, eles são lindos!! Como você está?

– Tai-chan!

Sua voz foi abafada por um abraço desajeitado, Kagami ficou sem jeito com o afeto repentino e resolveu então ficar no silencio.

– Por que demorou tanto tempo para vir? Seu idiota _disse a rosada entre soluços.

– M-me desculpe.

– Mamãe solta ele _Takeru empurrou de leve a matriarca e assim que o ruivo se viu livre, colocou ambos no chão.

– Ah sinto muito mesmo, não sabia que... ah... eu faria tanta falta? _olhou perdido para todos, ninguém lhe deu respostas para a ação repentina da mulher.

– Não é isso, ai o que estou fazendo, me desculpe _enxugou as lágrimas na barra da camiseta _crianças, ajudem o Shin-chan, vão é uma ordem! O-olá Cecil, Bara-chan... Take-chan.

O silencio constrangedor foi quebrado por um resmungo de Murasakibara, de repente o clima ficou ligeiramente estranho, quase pesado, sem entender Kagami apenas esperou por alguma explicação. Kuroko fora a próxima pessoa a aparecer no quintal, cumprimentou a todos num aceno e se aproximou da esposa a abraçando pelos ombros.

– Quanto tempo, Kagami-kun.

– Sim! Caramba, vocês não mudaram quase nada _de fato Kuroko ainda tinha cara de criança, apenas o cabelo estava curto e espetado _lindos filhos! Sabe, como eu trabalho com crianças da idade deles, imagino o trabalho com gêmeos.

– São dois pestinhas _estendeu a mão para enfim cumprimentar o velho amigo _Takeru e Kaoru estão agitados desde que souberam que você estava aqui. Me desculpe pelo inconveniente.

– Não! Eu amei isso, vou jogar com eles, posso Midorima?

– Claro _apontou para o aro de basquete do outro lado do muro _ainda praticamos as vezes... Takao e eu.

Yes! _comemorou com um soquinho no ar.

– Onde está o tio Daiki? _Takeru veio correndo na direção dos pais, Momoi arregalou os olhos e segurou seu braço _o que foi?... ei, mamãe está machucando.

– Es-espere Take-chan, o Dai-chan está ocupado.

– Ele veio com vocês? _e toda a ansiedade, que fora esquecida pela chegada do casal, voltou numa intensidade ainda maior.

– ...Taiga, ele está te esperando na sala _Momoi apertou o enlaço no filho _poderia ir até lá?

Seu olhar era de confusão. Daiki queria pregar uma peça em si? Mas então por que todos tinham feito aquele silencio fúnebre de repente? Até mesmo os gêmeos ignoraram seu pedido de socorro quando os olhares se encontraram. Taiga atravessou a cozinha em passos largos, suas mãos agora suavam mais do que o normal e o calor subiu no rosto. Alguma coisa estava acontecendo.

Alguma coisa grave.

Alguma coisa idiota.

Mas alguma coisa.

– Daiki? _o chamou ainda no corredor, parou para respirar fundo antes de virar à esquerda.

Assim que entrou na sala localizou o amigo, seus lábios, prontos para dizer um caloroso olá, paralisaram e de repente não sabia mais como respirar.

Sentado numa cadeira de rodas, estava Aomine Daiki sorrindo timidamente para si.

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