Mel amargo
1 Café
Notas iniciais
Meio adolescente esse amor a primeira vista... É meio intenso porque é a memória do personagem principal, misturando o que sente hoje com o que sentiu quando se conheceram.
As aulas de literatura sempre foram alvos do meu desprezo. Então, um dia, vi um estranho sentado próximo à parede. Um aluno novo entre os milhares de rostos que deveriam ser conhecidos, mas nunca fiz questão de nota-los.
Os dedos do desconhecido deslizavam pelo papel. Seu olhar baixo preso nos livros em suas mãos até que, não sei quanto tempo depois, senti uma parte de minha alma morrer pela primeira vez. Porque a cada olhar seu meu eu anterior morre e nasce um novo ser em mim. É assim hoje, é assim sempre... Foi assim desde aquele dia em que te vi.
A cor doce que sempre gostei me encarava... Viscoso, brilhante, profundo... Era o mel que banhava aquela parte de seu rosto com uma doçura estranha. O sabor que sempre amei estava estampado naqueles olhos que pesadamente recaiam sobre mim, me sugando e prendendo... Melado e pegajoso como aquele néctar das flores.
Em um mar desse doce natural, quando tocamos e submergimos nossas mãos, será o mel que gruda em nos ou nos que grudamos nele? Tão atrativo que criamos a apicultura apenas para produzi-lo, os insetos o desejam, os humanos o querem... E ele apenas está lá, com aquele brilho singular e sedutor, atraindo-nos com esse aroma e aparência. Aquela simplicidade densa e pesada... Orgulhoso.
Essa cor profunda encara o cinza morto de meus olhos e me incomoda esse contraste tão nítido entre os nossos olhares. Sinto em minha mente esse gosto amargo e viciante que apenas seus olhos conseguem provocar.
Amarelo flor... Amarelo sol... Amarelo dourado... Mel. Gosto forte e dominante, densidade pesada, amargura excêntrica. Oferenda dos deuses, digna apenas dos seres além dos humanos. Valioso e importante, demonstrando isso em suas orbes de cor doce com esse olhar café.
Se a menta é suave, assim como o chá que sempre bebo, deslizando leve por minha boca e despedindo-se nostalgicamente de minha língua com a promessa de retornar em breve; Então o café amargo desce pela garganta, quente, invadindo suas papilas gustativas com esse sabor forte e aroma marcante. Invade com sofisticação, explode em um sabor único e te abandona com um gosto saudosista que te acompanha pelo resto das horas que se seguirão... Ah, esse saudosismo português.
O café que ele sempre bebe pelas manhãs, a literatura que habituou-se a ler com devoção, o sotaque estranho europeu e brasileiro... Os olhos âmbar brilhantes e mortos que te sugam, mesmo que no interior, é você que quer submergir neles... A cor doce e orgulhosa em seu olhar desinteressado... Esse olhar que esquenta meu rosto, esse olhar amargo, café. Mergulho em seu olhar, sentindo em minha boca esse gosto peculiar e almejando senti-lo o mais profundamente possível com minha língua.
Produto caro de preparo delicado. Um mistério tão sublime por traz dessa bebida tão penetrante e simples... Quente e obscuro, como se puxasse sua atenção, obrigando-te a encarar seu próprio reflexo no liquido negro. Plantado, colhido, ensacado, torrado, moído, filtrado... Uma produção tão meticulosa com um passado desconhecido mesmo por quem o aprecia. Não foi o culpado pela escravidão, mas capaz de fazer alguém escravizar outro apenas para tê-lo? Sua existência é cruel, pesada... Eu não escravizaria os outros para conseguir um gole, mas venderia meu próprio ser para conseguir tê-lo em meus lábios...
“Estar-se preso por vontade”? Sim, provavelmente. Sete anos de pastor eu serviria, apenas contentando-me com ver-te... Como pode para tão longo amor tão curta a vida? As poesias da língua de Camões que você tanto ama são bonitas, todavia esse seu lado ainda brasileiro permanece... A mão que te afaga é a mesma que te apedreja. Ah, te amaldiçoo, Anjos...
Notas finais
Se eu continuasse alguém leria?
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