Seus cabelos esvoaçavam às suas costas, acompanhando o ritmo dos passos apressados. Seus olhos estavam protegidos tanto do sol ardente como de olhares mais direto pelos óculos de sol caros e escuros.

Caminhar pelo centro da cidade ao meio dia de sábado era transtornante, mas ela adorava aquilo.

Gostava de poder entrar no meio da multidão e simplesmente sumir, como que engolida pelos corpos que se espremiam, para passar, para parar, para comer, para viver. Era um caos. Mas com começo e fim.

Ela levantou os óculos escuros por um segundo, encarando uma nuvem de cabelos negros curtos e cacheados alguns metros à frente, e sorriu. Ele viera, afinal.

Começou a andar mais rápido, tomando cuidado para não tropeçar naquela calçada traiçoeira. Sentiu-se grata por não estar de salto alto; mas preferiu baixar os olhos e mantê-los no chão sob seus pés, por precaução.

O que foi uma péssima ideia.

Não havia dado nem meia dúzia de passos quando trombou em alguém. Algo. Uma mochila, grande, cheia e dura, como se carregasse milhares de livros. Ou alguns cadernos e um notebook.

Cherry ergueu os olhos e encarou o rosto que a observava. Ela não se desequilibrara com o tombo, mas o jovem em sua frente lhe deu vertigem. Era, ela tinha certeza, o ser mais belo que já havia posto os olhos. Por alguns segundos, tudo o que pode fazer foi olhar. Para os olhos azuis, para a pele clara e limpa, cara os cachos dourados. Parecia um anjo, saído de seu livro da história da arte.

"Com licença." Uma voz indiferente em suas costar puxou-a de volta à realidade.

Cherry, então, notou que obstruía a passagem dos pedestres, parada como uma tola daquela maneira, e fez menção de seguir seu caminho, mas o anjo lhe impediu, puxando-a de lado e indicando um café. Ela assentiu, tarde demais se lembrando de Jay, agora muitos metros à sua frente, provavelmente à sua espera. Ela não demoraria tanto assim. Ele poderia esperar quinze minutos, não podia?Era, afinal,só um café.

O anjo lhe puxou para dentro do café, onde puderam, enfim, respirar propriamente. Sentaram-se.

"Desculpe. Por ter trombado em você. Mas você não devia ter parado, no meio da calçada, do nada."

Ele ergueu uma sobrancelha, enquanto lhe oferecia uma mão.

"Eu sou Isidoor."

Ela suspirou, tomando fôlego.

"Cherry."

Se ele pensou algo a respeito de seu nome incomum, não demonstrou. Talvez por que seu próprio nome não fosse tão normal.

"Desculpe-me. Não devia ter parado daquela maneira. Mas as pessoas geralmente caminham olhando para frente." Ele completou, sorrindo.

Eu estava com pressa, ela pensou em responder, mas isso levaria a por quês, que levariam a Jay, que a obrigariam a dizer adeus a Isidoor. E isso ela não queria de maneira nenhuma.

"O que você carrega em sua mochila?" ela apontou para o pano pesado que quase lhe derrubou. "Se não for impertinência minha perguntar."

"Minha vida." Respondeu simplesmente.

Ela franziu o cenho, tentando compreender.

Ele a abriu e colocou cada um de seus objetos sobre a mesa, com cuidado.

Uma câmera fotográfica profissional, Cannon, Cherry podia ver, um caderno, uma caneta, um notebook, e um tablet. Nenhum livro.

"É um fotógrafo?"

"E jornalista. Mas nada fixo. Só... Ando pela cidade em busca de uma boa foto. Na maioria das vezes elas têm historias para contar."

"Você estava fotografando quando eu esbarrei em você." Era uma afirmação, mas Isidoor respondeu de qualquer maneira.

"Sim." Ele abriu o caderno em uma página em branco, onde escreveu a data e a rua onde estavam. Depois, na linha de baixo, rabiscou: Inwell Cafe, w/ Cherry. "Posso tirar uma sua? Adorei seu cabelo."

Ela corou. Era o que todos sempre diziam. Ela tinha o nome perfeito. Seu cabelo era tão ruivo que parecia cor de cerejas. Cherry, de cabelos, bochechas e nome avermelhados.

Ouviu um click baixo e notou que Isidoor já estava com a Canon na mão, manejando-a com tanta facilidade que parecia parte dele próprio.

"Podia, não podia?"

Ela assentiu.

"Posso ver?"

Ele negou com a cabeça, explicando:

"Isso estraga toda a magia. Deixe-a em paz e ela lhe deixará perfeita."

"A foto?"

Ele simplesmente ignorou a pergunta, como se fosse algo óbvio, e ela fosse uma criança teimosa demais para aceitar que já sabia a resposta.

"E você, Cherry, o que faz?" Disse, um olho ainda ofuscado pela lente enorme.

Cherry hesitou.

"Eu trabalho em um restaurante. Mas fui formada em letras. E escrevo, quando tenho tempo. Não é tão glorioso, certo?"

"Só até alguém descobri-la." Ele replicou, encarando-a com os lindos olhos azuis.

Cherry segurou um suspiro.

Pediram café. Conversaram banalidades. Mas logo Isidoor olhou para o relógio, e, sobressaltado, disse estar atrasado. Desculpou-se e, da mesma maneira abrupta que entrou no caminho de Cherry, partiu. Não sem deixar uma lembrança vívida e marcante em sua mente.

Ela deixou o local logo após Isidoor, a caminho de Jaz, de volta a realidade, se recusando a andar de cabeça erguida. Torcia, com todas as suas forças, para que esbarrasse em seu anjo novamente.

Notas finais
Primeira historia que alguém, exceto minha pessoa, tem o consentimento para ler. Espero que tenham gostado