No dia primeiro de setembro, Coral acordou e ficou encarando o teto; ele era preto como a noite e decorado com estrelas que estavam todas no exato lugar que estão no céu. Coral passara a infância decorando os nomes de constelações e estrelas; Hércules, Escorpião, Órion, Andrômeda...

Coral levantou-se e trocou de roupa, tentou pentear o ninho de rato que estava em sua cabeça e saiu do templo.

- Porque demorou tanto para acordar? – perguntou Atena e continuou sem esperar a resposta de Coral – Não importa. Eu já organizei seu malão, separei os livros pela ordem alfabética dos nomes dos autores e...

- Ordem alfabética? – perguntou Coral – Que ridículo! Eu sem sei os nomes dos meus livros, você acha que sei o nome dos autores?

Atena parecia verdadeiramente empenhada em fazer Coral ser bem sucedida em Hogwarts, porque estava ignorando-a totalmente.

- Então, agora você vai tomar um café da manhã rápido e depois vou te levar para a Estação King Cross. Eu fiz alguns cálculos e eles apontam que se nós fomos rápidas o bastante, podemos...

- Atena, cale a boca. – resmungou Coral.

Infelizmente, essa foi a única coisa que Atena escutou.

- CALE A BOCA? – gritou histérica – EU ESTOU TE AJUDANDO! EMPENHANDO-ME EM FAZER VOCÊ TER UMA BOA IMPRESSÃO NA ESCOLA!

- E desde quando filhos de Hades conseguem boas impressões? – perguntou Coraline – Atena, não se esqueça que ninguém pode mudar uma personalidade.

- Estudos indicam que...

- ATENA!

- Tudo bem...

Coraline tomou um rápido café da manhã antes de Atena gritar que estavam atrasadas e a levar para a tal Estação King Cross.

Praguejando mentalmente, Coraline agarrou o carrinho, com o malão e o seu gato dentro, que Atena havia lhe empurrado.

- Muito bem – disse Coral – Onde está? Ou estou cega ou não á nenhum trem escrito Trem Mágico para Hogwarts.

- Você tem que atravessar o portal – disse Atena como se fosse a coisa mais óbvia á fazer.

- Que portal?

- O portal.

- Que portal, Atena?!

- Aquele ali, caramba! – exclamou a deusa apontando para a parede entre a Estação Nove e a Dez.

- Você está chapada? – perguntou Coral.

Atena levantou a sobrancelha.

- Provavelmente não – disse – Não sei oque Hermes põe na comida do Olimpo...

Coral encarou a parede e respirou fundo.

- Bem – disse tentando raciocinar – O bilhete diz Estação Nove e Meia, e a minha hipótese é que esse muro é mágico e que eu posso atravessá-lo?

Atena sorriu.

- Veja que minha benção ainda funciona em você – disse orgulhosa – Agora, vamos.

Coral correu confiante contra a parede. Não que ela confiasse em Atena, mas porque ela confiava em sua inteligência, ou então, confiava que as pessoas achariam normal uma menina jogar-se contra uma parede.

E quando chegou á parede, sua hipótese estava correta. Coral atravessou a barreira e chegou numa plataforma diferente. Pios de corujas e vozes ecoavam por todo lugar, o sol iluminava todos ali e lhes davam uma aparência feliz e sorridente.

E isso irritou Coral.

As duas caminharam até estarem perto do trem. Atena virou-se para a abençoada.

- Você vai querer passar o natal na escola? – perguntou a deusa.

- Vou – respondeu Coral sem muita animação. Mas a verdade era que ela estava transbordando animação e ansiedade por dentro.

- Tudo bem.

- Então, até mais.

- Até – disse Atena.

Coraline abraçou Atena antes que perdesse a coragem, depois se afastou, pegou o malão e disse:

- Vai me escrever?

Atena sorriu.

- Se eu não escrever, quem vai?

Coral permitiu-se á um breve sorriso e entrou no trem. Procurou cabines por todos os lados, até ouvir:

- Ei! Garota lacônica!

Coral virou-se e riu internamente; Hermione Granger havia a achado.

- Olá – disse Hermione sorrindo simpaticamente – Coraline, não é?

- Hãn ham — confirmou

- Posso te chamar de Coral? – perguntou.

- Não, Hermione – respondeu Coral – Você acabou de me conhecer, não tem o direito de me dar apelidos.

Hermione revirou os olhos e disse:

- Tudo bem, Coraline. Quer ir se sentar comigo? Já tenho uma cabine.

Coral concordou com a cabeça e seguiu Hermione. Elas chegaram á cabine vagão, Coral colocou seu malão na prateleira e sentou-se.

- No dia em que nos vimos na loja – começou Hermione – Você disse que Ares lhe deu o mesmo tratamento que os romanos recebiam. Isso... Isso significa que você conhece Ares? Quer dizer, o Ares? O deus da guerra?

- Exato – disse Coral – Sou uma semideusa grega. Filha de um deus grego e uma mortal, ou no meu caso, filha de um deus grego com uma bruxa.

- Isso é mentira – disse Hermione descrente.

Coral não argumentou, simplesmente levantou a mão e o ar da cabine abaixou em vários graus, depois apontou para uma sombra. Hermione ofegou quando dali saiu um pequeno esqueleto de rato do campo.

- Seu... seu pai... – começou a falar assustada.

- Hades – confirmou Coral fazendo o rato voltar para as sombras e a temperatura voltar ao normal – O deus dos mortos e Mundo Inferior.

Hermione recuou contra o banco e Coral deu um sorriso que julgou ser gentil.

- Não se preocupe – disse – Não farei nenhum mal á você... A não ser que você faça algum mal para mim.

Esse pareceu um bom acordo para Hermione, porque voltou ao normal e continuou fazendo perguntas para ela.

- Vou buscar alguns doces – disse Coral após algum tempo de conversa – Com licença.

Coral saiu do vagão e foi até a senhora com o carrinho de doces, ela tinha mais dois clientes no momento. Uma garota com cara de buldogue e um garoto pálido com olhos cinza e rosto anguloso.

A senhora dos doces estava atendendo a garota, então Coral ficou na fila atrás do garoto. O menino olhou para ela, estendeu sua mão e disse:

- Olá, sou Draco Malfoy.

Coral olhou para ele. Porque todos queriam falar com ela hoje?

- Sou Coraline Jacob – respondeu apertando a mão de Draco.

- Jacob? – perguntou erguendo uma sobrancelha loira. – Como Astrid Jacob? Você é filha dela?

Coral lembrou-se de que Hades disse para não comentar sobre sua mãe, mas quem liga para oque Hades diz?

- Sou – respondeu – Eu não a conheci, mas suponho que seja melhor assim.

- Muita coragem sua dizer isso – disse Draco – Eu teria curiosidade de conhecer minha mãe.

Coral deu um sorriso debochado.

- Sério? Mas não pedi sua opinião. Agora, será que pode andar logo com esses doces?

Draco devolveu-lhe o sorriso debochado.

- Pansy ainda está fazendo seu pedido.

Como se Malfoy tivesse dado uma ordem, a tal Pansy pagou seus doces e saiu andando. Draco olhou irritado para Coral e fez seu pedido, assim que pagou, olhou para Coral e disse:

- Aposto que vou te encontrar na Sonserina.

Atena fala-lhe sobre as casas de Hogwarts, e a Sonserina não tinha uma das melhores reputações.

- Então já perdeu a aposta – respondeu Coral – Eu vou para a Grifinória.

Draco fez uma cara que dizia Hãn ham, sei e saiu pelo corredor.

Algumas horas depois, Coral foi informada que estavam chegando á Hogwarts. A filha de Hades estava ansiosa demais, por isso ficou entrando e saindo das sombras, assustando Hermione.

- Pare com isso! – ela exclamou – É medonho.

Coral riu enquanto entrava numa sombra, quando saiu, disse:

- Se acha isso assustador, deveria visitar o Mundo Inferior. Nada gela mais o sangue do que escutar os gritos agonizantes das almas vindos dos Campos de Punição.

Hermione arregalou os olhos e Coral deu um sorriso brilhante, era exatamente essa primeira impressão que gostaria de deixar.

O trem parou. Coral agarrou seu malão e correu para fora do trem. Quando saiu para o ar da noite, sentiu-se imediatamente feliz e disposta; o cheiro da terra molhada e dos ventos da noite sempre a acalmaram. Mas então Coral viu um ciclope.

Quero dizer, Coral achou á principio que era um ciclope. Mas então notou que ele tinha dois olhos e não era tão alto; era somente um homem grande, barbudo e com uma aparência simpática.

- Aqui! Alunos do primeiro ano! – chamava.

Coral andou até perto do homem, mas tropeçou em alguém.

- Desculpe-me – disse, afinal, ela tinha um pingo de educação.

Draco Malfoy virou-se e deu novamente aquele sorriso irritante.

- Nos encontramos de novo, Garota da Grifinória – zombou.

- Exatamente, Garoto Que Perdeu a Aposta – disse Coral de volta.

Hagrid, o homem grande, os guiou através de uma trilha. Ele e Coral foram os únicos que conseguiram marchar com normalidade, todos os outros tropeçavam e caiam no caminho.

- Olá – disse Coral quando alcançou Hagrid – Sou Coraline.

- Olá – respondeu – Ansiosa?

- Muito – disse – Mas me diga uma coisa, como vamos chegar á escola?

- De barco – disse Hagrid.

Coral tropeçou numa raiz e quase caiu de cara no chão.

- De barco? – repetiu.

- Exato – disse Hagrid – Temos que atravessar o lago, não temos?

- É.

Coral esperava que Poseidon não causasse nenhum problema. Quando viraram numa curva, um lindo castelo se ergueu diante o grupo e ouviu-se um Oh! coletivo.

Mas Coral estava com os olhos arregalados fixos no lago grande e profundo diante deles. Draco Malfoy apareceu ofegante e olhou para Coral.

- Medinho de água, Jacob? – perguntou respirando fundo.

Coral lançou-lhe um olhar frio e Draco teve que fazer força para não correr chamando sua mãe.

- Calado, Malfoy – disse.

Todos os estudantes do primeiro ano entraram em barquinhos. Coral dividiu seu barco com Draco e dois gorilas com roupas de humanos chamados Crabbe e Goyle.

Durante todo o percurso no lago, Coraline tinha um mini ataque toda vez que o barquinho fazia um movimento estranho ou a água ondulava no lago. Quando chegaram á terra firme, Coral saltou para fora do barco rapidamente.

Hagrid bateu na porta três vezes e uma velhota atendeu:

- Professora Minerva McGonagall – disse – Os alunos do primeiro ano.

- Obrigada, Hagrid – disse severa – Eu cuido deles agora.