Mein Herz ist auf dem See
6 Para tudo há um propósito
Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os seus propósitos.
Romanos 8.28
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Já era quase meio dia quando Ernest decidiu deixar o palacete, guardas o acompanhavam, o Governador os viu.
– O que significa isso, homens? — protestou o Governador.
– Foram ordens do Alferes Robert, Excelência. — respodeu um deles.
– Estão dispensados, cavalheiros. O Sr. Diefendorf não é nosso prisioneiro.
Os guardas se retiram, Ernest seguiu fora pelas ruas enlameadas, entre a melancolia fria e cinzenta dos velhos edifícios, entre o movimento lento e continuou das pessoas e carruagens. Estava frio, uma garoa fria, apesar do casaco que lhe fora cedido, Ernest ainda sentia frio. Não havia muito o que se ver naquela cidade pacata. Ernest se dirigiu ao porto, um porto pesqueiro, o píer um tanto sujo e cheitando a peixe ante o mar cinzento, ele desceu até a praia.
Ernest retirou suas botas e pisou descalço sobre a areia macia, sentindo os cristais de úmidos e gelados roubando o calor da sola de seus pé. Respirou fundo, o cheiro da brisa salgada do mar invadia seus pulmões e o som das ondas se quebrando invadia os seus ouvidos. Haviam enormes pedras na beira do mar. Ernest sentou-se sobre as pedras frias e negras e observou as ondas, a imensidão cinzenta. Ele só conseguia pensar em sua querida Mina.
Ernest e Mina caminhavam de mãos dadas pela relva do pequeno povoado, voltando da fonte secreta que descobriram. Suas faces moças traziam sorrisos francos e meigos. Frieda os observa da varanda de sua casa com um olhar apaixonado, Sophie surgiu.
– Oh, Sophie! — disse Frieda — veja as nossas crianças!
Sophie sentou-se ao lado da amiga, observando as duas crianças. Eles caminhara até a praia e sentaram sobre as pedras, observando as ondas do mar. Eram um dia quente de verão, as rochas estavam mornas, de forma que o contato com a pele era agradável. Ernest deitou-se sobre as rocha morna, Mina deitou pousando a cabeça sobre o seu peito, ele acariciou suas costas e beijou o topo de sua cabeça, sentindo o toque suave de seus cabelos lisos e sedosos em seus lábios, junto a um aroma agradável.
– Eu amo você, Ernest. — disse ela.
Ernest sentiu uma estranha sensação, algo novo e agradável, lembrou-se do beijo que tiveram a pouco. Ele abraçou com mais força e disse:
– Eu também te amo.
Ernest abriu o seu diário, o folheou, a carta de Mina estava lá.
Mina... pensou. Ele precisava respondê-la, embora não houvesse como enviar, queria apenas escreve, entregaria depois. Ernest tomou o diário e o carbono e escreveu:
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Minha querida Mina,
Nem ao menos sei como poderei te enviar está carta, mas ainda sim preciso responder. Sobrevivi aos momentos mais assustadores da minha vida, momentos em que estive na eminência de nunca mais ver o seu rosto novamente. Perdi meus homens e o meu navio. Em meus momentos de aflição, tive minha vida salva por uma intrigante criatura: uma sereia. Sei que parece difícil de acreditar, mas se não fosse ela, nem vivo eu estaria para te escrever. Neste momento estou na Grã-Bretanha, esperando por uma longa viagem de volta. Meu coração anseia por você, minha querida. Após esses eventos, decidi levar uma vida serena junto a ti. Nada de aventuras, nada de viagens. Jamais te abandorei, estarei ao seu lado e tu nunca se sentirás sozinha.
Seu amado Ernest.
°
– Intrigante?
– Pallas!? — Ernest fora surpreendido por Pallas, que estava deitada de bruços sobre a grande pedra, sustentando sua cabeça com os antebraços.
– Sim? — respodeu inocentemente.
Ernest a olhou com um certo estranhamento.
– Como sabe o que eu estou escrevendo?
– Eu... Apenas sei...
Ernest fechou o diário e pôs de lado.
– Bem... O que fazes aqui?
– Não sei, apenas senti que devia vir aqui. — Pallas sentou-se ao lado de Ernest e abraçou-lhe o braço. — Espero que não se incomodes.
– Não! De maneira alguma! — Disse ele, claramente constrangido. Pallas riu.
O tempo correu lentamente enquanto eles observavam as ondas, sentiam a brisa fria e os salpicos do mar.
– Sabe, Ernest, — disse Pallas — Estou feliz por você.
– Obrigado. Acha que ainda nos veremos de novo?
Pallas se desvencilhou de Ernest, ajoelhou-se diante dele e segurou suas mãos, havia uma fina película entre seus dedos, algo que Ernest não notara, sua curiosa anatomia o surprendia cada vez mais. Ernest olhou no fundo de seus olhos fendidos.
– Não sei dizer-te, Ernest, mas sinto que sim, até que seja cumprido meu propósito.
Ernest se surpreendeu.
– Que propósito? — perguntou.
– Não sei...
– E como sabes que há um propósito?
– Eu apenas sei.
Ernest ficou maravilhado com a personalidade profunda da sereia, sentia que sua percepção de mundo era muito mais complexa que a dos mortais.
– Então, acreditas que tudo isso tem um propósito?
– Não acredito, eu sinto.
– Como aprendeu a fazer isso?
– Não aprendi, isso vem naturalmente de mim.
– E como sabes o que sente.
– Eu apenas sinto.
Nem a própria Pallas compreendia a sua própria essência, aquela inocente criatura, inocente e misteriosa.
– Apenas sentir? — disse ele — Eu... Não compreendo...
Pallas tomou uma concha e com ela, espetou a mão de Ernest.
– Ai! — gritou — Isso dói!
– Como sabes o que sente? — Pallas sorriu. Ernest sorriu de volta.
– Bem... Acho que entendi, mas ainda compreendo...
– Entendo...
– E também... Estou com medo...
Ernest sentiu os dedos lisos e gelados de Pallas tocarem o seu rosto, acariciando-o. Ela olhava em seus olhos com uma expressão compassiva.
– Eu também estou, Ernest, — disse ela — e também não compreendo, mas confie em mim, para tudo há um propósito, eu sinto que tudo dará certo no final.
Ernest acariciou as costas da mão de Pallas.
– Pallas... — disse ele.
– Não tenha medo...
Ernest abraçou o seu corpo delgado, sua pele úmida e gélidas. Em meio à tormenta, ela o confortava. Sentiu seu coração se acalmar, sentiu o de Pallas bater, sentiu seu aroma oceânico de sal e alga marinha.
– O que é isso!? — Disse Pallas ao se desvencilhar dos braços de Ernest e olhar para as escadas que levavam à praia.
– Algum problema? — Ernest olhou, nada viu.
– Shhh.... Tenho que ir agora, não se esqueça, tudo dará certo para você.
– Para mim? E quanto a você?
– Não se preocupe comigo. — disse ela, virando-se rumo ao mar.
– Pallas! — Ernest a agarrou pelos braços, olhou no fundo de seus olhos — Só quero saber...
Pallas olhou em seus olhos, uma expressão triste se formava em seus rosto. Finalmente disse:
– Não posso prometer nada! — Ela empurrou Ernest e correu.
– Pallas! Espere, Pallas! — chamou, mas ela já havia saltado no mar.
Ernest caiu sentado, sentiu seu coração apertar, sentiu que o medo de Pallas. Pelo menos ela era bem forte.
Uma lágrima correu pelo rosto de Mina.
– Sentirei saudades. — disse ela.
Ernest a abraçou.
– Eu também...
Era Setembro de 1736, Ernest tinha 18 anos e Mina, 16. Eles estavam no movimentado porto de Hamburgo. Ernest trajava um uniforme naval azul-marinho, Mina usava um belo vestido branco e dourada, luvas e um extravagante chapéu florido. Passaram muito tempo abraçados em meio a agitada multidão em movimento.
– Fräulein!– gritou um cocheiro em sua carruagem — Sua carruagem aguarda, minha senhora.
Mina sinalizou para ele e depois se voltou para Ernest, elea se olharam nos olhos.
– Obrigada por tudo, Ernest, — disse ela — foi bom o tempo que passamos juntos.
– Não diga isso, no veremos novamente e nunca mais ficarmos longe um do outro.
Uma lágrimas escapou do rosto de Mina.
– Promete? — disse com uma voz chorosa.
– Sim, eu prometo.
Ernest acariciou sua bochecha e a beijou, um beijo longo, quente, húmido em seus macios e doces lábios.
– Lebewohl, meu querido — disse ela
– Lebewohl...
Mina subiu na carruagem e se foi, dando uma última olhada para o seu amado homem. Mina estava indo para Viena para estudar música, e Ernest ia para a Escola Naval.
– Kavalier!– chamou outro cocheiro. Ernest embarcou, sentou-se no banco de couro rubro e olhou perdidamente pela janela, observando o movimento lento e contínuo das pessoas lá fora. Lembrou-se do sorriso meigo de Mina... Sentiu uma alfinetada no coração. Será saudades? Ou medo... Medo do que sentia pela sua amiga. Esses pensamentos o afligiam.
De volta ao palacete, Ernest fora convidado para um jantar na casa do Governador. Dentre os convidados, o Alferes Robert, o Almirante, e alguns oficiais da Cavalaria e Marinha. Todos discutiam em inglês, Ernest fingia não entender.
– Notícias sobre os piratas, Sr. Almirante? — Perguntou o Governador.
– Segundo ao nossos informantes, Vossa Excelência, parecem mercenários contratados pela Marinha Francesa. — Respondeu.
– Esse ratos sujos! — Resmungando um dos oficiais.
– Temos nomes? — perguntou o Governador.
– Sim, temos, o nome do navio é Le Lament de la Veuve, comandado pelo Capitão Jean Vaucaire. Seu objetivo, é simplesmente pilhar nossos navios e cidades portuárias. Aparentemente eles ficam com todos os espólios e ainda recebem armamentos e anistia de todos os seus crimes contra a Coroa Francesa.
Robert esmurrou a mesa, derrubando a taça de vinho de Ernest.
– Isso é um ato de guerra! — gritou ele.
Só pode ser piada... pensou Ernest, por que o colocaram ao lado daquele troglodita? Ernest manteve-se frio e serviu outra taça.
– Sem forçar, Sr. Robert, — Repreendeu o Almirante — não são informações concretas.
– Como não? Baseado no ocorre no Novo Mundo neste exato momento!
– Cavalheiros! — Repreendeu o Governador — Todos estamos cientes das tensões de nossas colônias, mas a guerra não é a resposta! Por hora, são apenas criminosos que atuando nesta área, guerra ou não, isso cabe à Coroa decidir.
– Por enquanto, o Capitão Robert irá conduzir uma busca a esses malfeitores. — disse o Almirante.
Capitão? Ernest ficou perplexo, mas se esforçou para não deixar transparecer.
– Muito grato, Almirante, — disse Robert — ser da Cavalaria é muito entediante quando não se está em guerra. Estarei ansioso para pisar em meu navio.
Navio? Só me faltava essa! Pensava Ernest.
– E quando o Sr. Vaucaire for levado à Justiça, — prosseguiu o Almirante — nós consideraremos lhe conceder exílio no Novo Mundo caso ele confirme a conspiração francesa, sua vida será poupada.
– E ainda teremos o garoto nos acompanhando. — disse Robert.
Ernest engoliu a seco, quase se engasgou com o lambari que comia.
– Não é, rapaz? — Robert deu-lhe um tapa nas costas, quase fazendo-o cuspir o que engolia.
– Ja, ja! Das ist wunderbar!– Respondeu ele sorrido como um idiota, fizera papel de bobo.
– Eu acho que Sr. Diefendorf não está nos entendendo, Excelência. — observou o Almirante.
– Ah, sim! Ele não fala em inglês. — disse o Governador.
– Vocês deixaram o garoto devaneando o jantar inteiro? — perguntou um oficial.
– Perdão, falha minha! Sr. Robert, depois diga ao nosso convidado que ele partirá com a sua tripulação na manhã seguinte, e assim que capturarmos os piratas, o deixaremos em Hamburgo.
Ernest sentiu o seu coração disparar, finalmente voltaria para casa.
De volta ao seu quarto, Ernest esperava pacientemente na cama pela manhã seguinte, voltaria para casa... Mas estaria face a face novamente com o Capitão Vaucaire. Ernest se levantou, se deu conta que corria risco de vida naquela operação, ainda mais sobre a liderança do incompetente Sr. Robert, tinha certeza que aquele insolente tinha coisas em mente. Por um momento ele lembrou da única pessoa da cidade que fora gentil com ele: o Governador. Ernest precisava falar com.
Em sua sala escura, o Governador contemplava o céu negro enquanto fumava um cachimbo, era uma negra noite de lua nova. Bateram à porta.
– Entre! — disse
Ernest adentrou e fechou a porta.
– Excellency, I need to talk to you.– disse Ernest, falando em inglês impecável.
– Filho? Como sabes...?
– Shh... Sim eu sei, — Sussurrou Ernest — sente-se, Excelência, eu explico tudo.
O Governador indicou um sofá para que Ernest se sentasse, depois serviu dois copos de conhaque, e ofereceu um a Ernest.
– Thank you, my lord– agradeceu ele.
Ambos tomaram um gole, o do Governador foi um pouco mais longo.
– Pois bem, sou todo ouvidos, rapaz.
– Não contei toda verdade, Excelência, omiti alguns fatos, pois tive medo.
– Não se culpe por isso, o medo é um sentimento natural.
– Obrigado por compreender, na verdade, eu sou um capitão.
– Já imaginava... — o Governador concluíra ao escuta-lo falando em inglês.
– Menti quando contei a minha história, — prosseguiu — nasci em Wangerooge, meu pai era um capitão como eu, ele e minha mãe ainda vivem...
– Sei. — ele ouvia atentamente.
– E eu... Tenho uma pessoa a quem amo...
O Governador nada disse, apenas escutou compassivo.
– O nome dela é Tamina Schneider, estamos separados a dez anos devido ao meu serviço...
– Compreendo o que sentes.
– Não sei se sobreviverei à missão, então, lhe peço um pequena favor.
– Diga, rapaz.
Ernest tirou um objeto guardado em seu casaco: o seu diário.
– Entregue isto a ela.
O velho governante fitou aquele livro de couro.
– Oh, céus! — ele ficou perplexo.
– São minhas cartas, se eu morrer nas profundezas do mar, que elas não se percam comigo.
– Veremos... Como podemos identificá-la?
– Não há como errar, ela é um pouco mais nova que eu, cabelos lisos longos e louro-claros, quase brancos, seus olhos meigos azul-acinzentados, face sardenta, pele rosada e pálida.
– E tens ideia de onde ela esteja?
– Baseado nas cartas que recebi, ela partirá na manhã seguinte de Amsterdã para Wangerooge... Onde ela iria me esperar...
Ernest ficou visivelmente abalado, o Governador percebeu isso.
– Não diga isso, filho! — O Governador devolveu o diário — Não irás morrer nessa missão, apenas tenha fé!
– Yes, Sir...
– Encontre a sua mulher, e entregue essas cartas pessoalmente, pois amanhã o senhor não morrerá.
Ernest sentiu um pico de fé em seu peito. Sentiu determinação. Precisava sobreviver. Precisava voltar para casa... E para Mina.
– Obrigado por me encorajar, Excelência.
– Não há, capitão. Esteja pronto amanhã às seis, sua jornada está quase no fim.
Ernest se retirou, com a semente de esperança plantada em seu coração, sua jornada estava no fim.
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