Meia Lua: One-shots
3 Mauro em "Fênix"
Hoje vou entrar.
Eu consigo.
A mão direita dele segura leve a minha, me dando espaço pra decidir. Sei que posso dar meia-volta, sair daqui e o Cas não vai me julgar. Não falaremos nunca mais sobre isso, se eu não quiser.
Mas vamos embora, e preciso encerrar isso. Merda, há quanto tempo estou encarando essa porta? Vamos, Mauro, você consegue. Só uns passos. Respira fundo, abre a porta.
A porta não range como nos filmes de suspense. Cássio me segura um pouco. O que foi, Cas? Ele aponta pra baixo, e percebo que eu estou tirando os sapatos. Nem sei porque ainda me surpreendo, a maior parte do tempo o javali idiota parece estar na minha cabeça tanto quanto estou na dele.
Dessa vez não vou me esconder atrás do Lobo. Tenho que estar cem por cento aqui e ponho a mão do Cássio no ombro. Automaticamente ele acompanha meus passos, desviando da mobília revirada.
Eu quero olhar pra frente. Quero subir a escada e não olhar a sala, a cozinha ou os sinais de luta nas escadas, mas sinto a mão de Cássio me soltar.
Não quero. Não devo. Ainda assim, paro e me viro. Fixo os olhos em Cássio, fazendo uma reverência desajeitada pra uma mancha de sangue escura no chão. Depois virou-se para perto da porta e repetiu o gesto. Só então estendeu a mão, me procurando. Fui até o lado dele e fiz o mesmo. Pela milionésima vez, pedi desculpas, e disse que faria uma coisa melhor que o memorial capenga que eles tinham no laboratório.
Se eu sobreviver a toda essa merda. Se voltar a ter uma casa. Há uma montanha de ‘ses’ entre mim e um futuro, e eu evito prometer coisas que posso não cumprir. Principalmente para meus pais.
Subo as escadas, sentindo que a qualquer minuto meu irmão vai sair do quarto. Ou a multidão de obsessivos vai invadir a casa mais uma vez. Ouço a respiração do Cas se alterar em resposta à tensão, e me obrigo a relaxar. Cássio está comigo. Com ele do lado, poderia caminhar vendado por um tiroteio e ainda chegaria do outro lado.
“Me espere aqui. Vigia por mim” sinalizo pra ele, que franze a testa em resposta. O ciborgue é uma autêntica mãe galinha. O que é engraçado, considerando a dificuldade que tem pra manter os próprios membros. “Preciso fazer isso sozinho” penso, e o deixo ouvir. Tenho um nó na garganta que provavelmente me fará berrar como um cabrito, e mesmo que Cássio já tenha visto meu pior, ele não precisa assistir esse papelão.
Ele fica pra trás contrariado, enquanto eu entro cauteloso no quarto dos meus pais. Está tudo uma bagunça, minha mãe ficaria uma fera. Os ladrões levaram jóias e roupas, mas o que eu procuro está aqui. Escolho uma das fotos dos meus pais juntos. Acho outra, meio queimada, minha e do DC com a batian, e recolho essa também.
Não vou conseguir ficar aqui muito tempo, e passo logo ao quarto do DC. Começo procurando por armas, mais alguma coisa útil, até que vejo a capa. Está em cima da cômoda, como se meu irmão a tivesse deixado aqui no dia anterior. Segurei e soprei a poeira.
O palhaço e a panqueca, versão do diretor. Abro a embalagem e tiro a mídia. Nem um maldito risco. Poderia ter acabado de sair da loja, e a luz do sol reflete multicolorida pelo quarto.
Em outro dia, eu teria aproveitado. Mas hoje, rodeado das coisas destruídas do DC, exceto o CD nas minhas mãos, estou com uma raiva total e profunda do caralho. Da injustiça dessa história toda, das coisas nojentas e brutais que faço pra sobreviver, dos meus pais por sempre deixarem a maldita porta destrancada, do Maurício.
É tão errado, tudo tão injusto. Nunca fui um guerreiro. O DC era uma porra de atleta ninja, pelo amor de Deus! Em que mundo faz sentido pessoas como ele ou a Mônica serem mordidos no primeiro dia e eu durar tanto? Como o idiota podia pensar que era uma boa ideia se sacrificar pra me salvar?
Quero destruir tudo. Botar abaixo esse quarto, cada memória e toda essa porra de mundo invertido que não tem lugar pra pessoas boas como meu irmão.
Estive furioso com ele todo esse tempo, e negava a raiva. Como podia justificar estar tão puto com alguém que salvou minha vida? Meu lobo, que não se escondia atrás das minhas desculpas esfarrapadas, sabia a resposta, e eu soube também.
— Eu não merecia, DC.
Como eu suspeitava, minha voz está tão quebrada quanto eu. É isso: Eu não mereço. Se o Maurício tivesse me deixado pra trás, com certeza ele estaria vivo.
“Mau?”
Por que essa nota de insegurança na mente do Cas? Olho pra ele parado na porta. Então percebo o quarto ao meu redor. Caralho, eu fiz tudo isso? Antes estava revirado, mas agora parece cenário de um desastre natural. O estranho é que ainda tenho raiva, porém me sinto melhor por saber disso.
— Nunca te agradeci, não foi?
“Pelo quê?”
— Pode falar, Cas.
— Agradecer pelo quê?
— Você matou o DC no meu lugar. Sou tão frouxo que teria deixado o cara me devorar. — Te vejo fechar a cara. Você caminha tropeçando pelos destroços, até chegar bem perto. Perto o suficiente pra meu coração começar a dar cambalhotas no peito.
— Não comece de novo. Se você fosse covarde como fala, eu estaria morto há anos.
— Mas eu... — Lógico que você vai tentar me animar, mesmo sendo mentira. Nunca me senti valente nem nada do tipo. Nem sou como o meu irmão ou você, que fazem o que precisa ser feito. Você puxa minha mão e a empurra contra o braço esquerdo, entre a pele e o metal.
— Foi assim quando o sarnento do Garm me mordeu, e depois com esse braço. Não é algo ruim você não gostar de matar.
Deixo o disco de lado e olho com atenção. Nunca mais tinha encostado no seu braço esquerdo, mas deixo a mão onde está, sentindo a pele irregular de cicatrizes acima da prótese. Deus, tivemos muitos dias ruins, um monte deles horríveis, mas aquele... foi um dia de merda.
Tínhamos dormido numa casa arruinada, descansando um pouco depois de esvaziar a despensa da casa de alguém. Fomos dormir de barriga cheia pela primeira vez na semana, e apaguei feito pedra.
Acordei pouco depois do estrondo, todo embolado e apertado. Entrei em pânico, e comecei a me mover como louco pra me livrar. Estamos soterrados, pensei, até meus olhos se acostumarem com o escuro e eu sentir que o teto daquele espacinho minúsculo era você. Então ouvi os passos. Estava sangrando, você parecia morto e ouvia obsessivos por todos os lados.
Eu mal ousava respirar, sentindo aquelas coisas passando por cima das telhas. Levou um tempo pra perceber que aquele sangue todo não era só meu. O telhado e parte da parede tinham desabado em cima de nós, e de algum jeito você escorou o pior dos destroços com o corpo. Você me salvou de novo, e tudo que eu podia fazer era esperar os desgraçados irem embora pra te ajudar.
Quando os obsessivos finalmente saíram, cavei meu caminho pra fora e comecei a te desenterrar também. A cada estalo das telhas, eu congelava, mas graças aos céus nenhum voltou. Aos poucos você reaparecia, e por cinco minutos inteiros pensei que tínhamos escapado mais essa vez. Sua prótese estava quebrada, mas Fred podia consertar aquilo.
— Cas, pode me ouvir? — Tudo que tive de volta foi um gemido, mas fiquei feliz pra cacete. — Fica calmo, eu já vou nos tirar daqui. Luca, tá ouvindo?
Odin ficou tão aliviado de nos ouvir que nos xingou por cinco minutos inteiros. Me orientou a encontrar e pressionar os ferimentos. Mais um pouco, e iríamos pra casa. Só que seu braço não saía. Não importava meu esforço, a maldita coluna não se movia.
— O que aconteceu? Por que não consigo mexer um braço?
— Parte da casa caiu em cima da gente. Teu braço esquerdo tá preso Cas, não consigo ver onde. Vou tentar puxá-lo daí. Tenta não gritar.
Você fez melhor: desmaiou. Quando voltou a si, tentamos de todos os jeitos, e nada. Me preparei para transformar os escombros noutra coisa, nunca tinha tentado com algo tão grande, até que olhei o resto da casa com o sol que nascia.
A coluna que prendia seu braço era a mesma que escorava a outra parede. Se eu a removesse, todo o resto cairia em cima de nós. Você também percebeu.
— Vá embora daqui.
— Inferno, não. Você vem comigo.
— Eu não consigo sair. Já tô morto. Sai daqui.
— Nem fodendo, seu imbecil. Odin, me ajuda. Como eu tiro essa mula daqui?
Expliquei, e Odin ouviu tudo tão calado que pensei que o fone tinha descarregado. Cas, você tentou me convencer de todo jeito a te deixar lá, mas eu não podia. Como iria continuar sabendo que abandonei de novo uma pessoa pra salvar minha pele? Ficamos ali discutindo até que você pediu pra Luca desligar o comunicador, e eu sabia que vinha merda.
— Escuta, seu cachorro burro: Meu braço tá fodido, minha perna também, tô fedendo a sangue, você não consegue me tirar daqui. Quando clarear de verdade, os obsessivos vão me encontrar. Você tem que estar longe quando isso acontecer.
— Não tô falando em japonês e você não é surdo. Não vou te largar aqui pra ser comido vivo.
— Me mata, então.
Levei um segundo pra saber que você estava falando sério.
— Puta merda, você bateu a cabeça? Não!
— Pensa, caralho! Alguém tem que voltar, ou os caras vão morrer de fome! Mesmo que eu pudesse me soltar, como eu voltaria pra casa? Voando, porra? Corta a merda da minha garganta e sai daqui!
Liguei de novo o comunicador. — Odin, me diz qualquer jeito de tirar essa anta daqui. E logo, tá clareando.
Mauro, você tem certeza?
— Odin, manda esse idiota voltar. Ele vai morrer por nada.
— Volto com você ou não volto, não tem terceira opção. Agora cala a boca, preciso ouvir o Luca.
Faz um torniquete com a mordaça, dá a outra pra ele morder. Pega uma faca limpa. Fez o que pedi?
Meu estômago virou um cubinho de gelo enquanto ouvia a descrição de Luca, o Estripador, de como e onde cortar. Merda, era ainda pior que eu pensava, porém eu não sairia dali sem você.
... deixe tudo que não for essencial e venha pra cá. Alguma dúvida?
— Não.
Boa sorte.
Olhei discretamente pra você, que fechou o olho e mordeu o pedaço de pano com mais força. Sem um protesto, só o suor frio descendo pelo rosto. Ninguém confiava em mim desse jeito. Quero dizer, meu irmão me amava pra cacete, mas acho que nem ele me deixaria fazer uma loucura daquelas sem reclamar. Porra, eu estava apavorado, como você não estava?
Concentrei, e senti o frio familiar suprimindo a tempestade que sentia. Eu, ou melhor, nós faríamos dar certo. A visão ficou mais nítida, o tremor passou.
“Preciso que nos deixe entrar na sua mente”
“Pra quê?”
“Não queremos descobrir se é possível morrer de dor. Vamos bloquear o que pudermos.”
Você parecia mesmo um javali bufando daquele jeito. “Ok. Só seja rápido.”
Quando voltei ao normal, estava com uma dor de cabeça brutal, e você inconsciente de novo, mas solto. Fiz o pior curativo da história, te pus nas costas e nos cobri com o poncho que pude desenterrar. Muitas horas depois, Luca abria a porta. Você mal se mexia, e eu... era como se meu corpo não soubesse como se sentiria pior, então decidiu tentar várias coisas ao mesmo tempo. Frio, calor, enjoo, febre, tudo. Nunca mais consegui sequer assistir o Luca te cortar depois daquilo.
— Acho que comecei a te amar naquele dia.
Se você soubesse como é divertido te deixar sem jeito... Céus, você até fica corado. Mas se acalma e segura meu ombro.
— Não tem nada a ver com merecimento, você sabe.
Mas o que...
— Eu te ouvi.
Você me conhece melhor que qualquer outra pessoa, Cássio, mas ainda estou envergonhado.
— Eu sei, você tem razão, não deveria me sentir assim, é só que...injusto. Isso tudo é injusto demais.
— Eu sei.
Só preciso ouvir a sua voz, e tudo em mim se acalma. Mesmo o Lobo fica sossegado. Penso meu pedido, e você parece triste.
— Tem certeza, Mauro?
— Absoluta.
— Então me ajuda a levar os livros. E os quadrinhos.
— Sério?
Carregamos todos os livros pro laboratório. Ainda me sinto estranho aqui fora sem o poncho ou a máscara. Uma obsessiva se aproxima, faminta. Quando começa a correr, tropeça e cai. Em minutos, não passa de uma poça malcheirosa. Minha foice está na mão antes que eu perceba que a tirei do cinto.
— Que foi, Lobinho? Tá assustado?
— Ah, vai te danar. Tá muito convencido pra alguém que eu precisei descer do teto igual a um balão de hélio perdido.
— Ei, é difícil voar sem ver droga nenhuma!
— Me deixa lembrar, foram quantas vezes mesmo...? Ah, é. Dois meses inteiros.
— Vai te foder, seu vira-lata.
— Vou te arranjar um urubu-guia.
E continuamos nos provocando como sempre, até terminar a mudança. Ainda vieram outros, mas (e nunca vou admitir em voz alta, javali estúpido, seu ego já é bem grande) você realmente é bom nisso. Nosso plano maluco e pretensioso tem mesmo chance de dar certo.
Então estamos prontos, mochilas nas costas, olhando pra antiga casa dos Takeda.
— Última chance, Mau.
— Tenho certeza. Até o chão, Cas.
O desmoronamento é como um daqueles documentários de natureza, os tijolos virando pó diante dos olhos. Você começa a grunhir pelo esforço.
— Cerâmica... Por que todo mundo tem cerâmica? Essa merda é um saco pra degradar. E vidro, plástico... Porra, como eu odeio PVC. — Bufa uma vez. — Está feito. Você tem razão, Mauro. Eu deveria ter feito o mesmo muito tempo atrás.
E logo a sua casa já não existe mais. Você parece mais animado, como se tivesse desvendado um enigma.
— É isso, Mauro! Por isso ganhei tanto poder! Não sou só o fim dos obsessivos, posso ser o fim do lixo! Toda essa porcaria espalhada, todo esse maldito plástico... Posso fazer tanta coisa!
Deus do céu, o homem sonha alto pra cacete. Não bastam os obsessivos, quer destruir o lixo do mundo inteiro?
— Cara, você está falando de milhares de usinas, lixões, a ilha de lixo do Pacífico...
— Então mexe logo essas pernas! Temos muito pra fazer!
Olho um instante na direção em que minha casa ficava. Agora vou andar olhando pra frente, prometo. Não acho que vou acertar todas, mas vou continuar tentando.
— Tá esperando o quê, paspalho? Vem embora.
Adeus, pessoal. Tchau, DC. Descansem em paz.
— Tô indo, Cas.
— Enquanto você estava ali parado, já tive uma porção de ideias. Vamos passar na floresta da Nina, e...
Você fala e fala, elétrico, traçando mil planos, e eu só consigo pensar:
Vai levar uns duzentos anos pra terminarmos esse monte de coisas...
— Ei, tá rindo por quê, Mau?
— Rindo? Eu? Impressão sua...
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