Meia Alma
17 Capítulo 16 - Jahun
Notas iniciais
Espero que gostem! =D
Já avisara para Raquel que demoraria em média uma semana em nosso passo para chegarmos à cachoeira. Obviamente seria mais rápido se corrêssemos, mas preferia evitar a fadiga.
- E o que iremos encontrar? — perguntou ao fim do segundo dia.
- Hm... – joguei um graveto na fogueira improvisada – Já ouviu falar em Jahun?
Ela me olhou com uma expressão de dúvida, então olhei para o teto da caverna. No fim não fazia mal, não era uma lenda suficientemente conhecida. Talvez apenas conhece-se devido ao fato de meu avô adorar revirar contos e lendas que ninguém nunca vira – ou a maior parte das pessoas ao menos — no fundo do baú. Comecei a tentar lembrar um modo que pudesse contá-la.
- Ele é filho de Nititer, O deus da eternidade e Revidenclacia, a deusa da clarividência. – apoiei meus braços em meus joelhos. – Ele é descrito como um homem colossal coberto de joias, que vive numa espécie de biblioteca auxiliado por seres dos elementos. Ou seria a natureza? Enfim, não me lembro.
- E o que ele faz? Para viver numa biblioteca e... Que você tenha que ir atrás dele e tudo mais? – indagou, mexendo no próprio cabelo para soltar os nós que estavam se formando. Somente agora percebia o quão brilhante e macio ele parecia.
- Ele guarda os segredos de tudo. Passado, presente e futuro. Creio que é por isso. Daichi da última vez falou algo, mas esqueci. Ou ele me fez esquecer, não sei. Talvez ele queira dizer algo... Por uma fonte mais confiável. – suspirei — Mas ele só me dá meias respostas, ou mais perguntas. Tudo o que falei quanto ao que pode ser o motivo de irmos para lá são apenas suposições.
- Coisas estranhas adoram acontecer com você, não é? – suspirou.
- Demais. Sendo que eu só o vi duas vezes. — Concordei e deitei contra o colchão. – Mas tenho medo de contrariá-lo. Parece que ele pode me matar com um abano da mão.
Fechei os olhos. Não por estar cansado, mas sim devido ao fato de estar por algum motivo estar apreciando a conversa o suficiente para não querer fazer qualquer coisa para que ela terminasse. Era uma estranha habilidade de Raquel.
- Aconteciam algumas com Yudai... Mas não pareciam ter a ver com criaturas mitológicas e eram tão pequenas que ele nem dava importância.
- Você se importava porque era humana – Sussurrei.
- Bem... Sim. Mas quando o encontrei antes da missão de Mars, ele estava estranho.
- Eu estava enchendo o saco dele com assuntos referentes à virgindade e passado negro. – ela me olhou com uma expressão estranha – Longa história, apenas digo que ele foi atacado por uma garota quando tínhamos 14 anos e... Bem. Continuando: realmente havia acontecido algo estranho antes de você o encontrar – meu peito doeu e respirei fundo – Mas não vi tudo.
Ela assentiu e abaixou o olhar, antes de se deitar em seu colchão.
- Boa noite – disse apenas, sem pedir nenhuma informação a mais, antes que nos dois dormíssemos.
Como sempre, eu tivera pesadelos, mas em assuntos referentes a caminhar, caminhar e caminhar, a convivência com Raquel não era difícil. Talvez eu só me dera conta disso agora porque antes eu estava fixo demais na dor que estava sentido ou por que sabe-se lá como eu voltara a me importar ao menos um pouco com as coisas.
No fim do quinto dia chegamos à primeira cachoeira. Era grande, mas não tanto. Uns cinco ou seis metros, pois eu chegaria até o topo sem esforço com um único salto.
Quando faz uma semana que estávamos viajando, com o sol tinindo por ser depois do meio dia, começamos a escutar a rugir da água, tão alto que dominava o local. Nos entreolhamos antes de apertar o passo. Uma hora ou pouco mais depois, pensei ter visto uma criança de cabelo rosa saindo correndo, mas foi realmente rápido, portanto poderia ter sido apenas impressão. Enfim, chegamos á beira do rio.
Essa cachoeira era realmente gigante. Seu topo chegava a desaparecer dentre as nuvens, com também vários metros de extensão.
- Não tem como não ser essa, certo?- Raquel perguntou o assombro presente em sua voz.
- Certo. – Afirmei e dei uma olhada por através da água, vendo que não havia rochas por trás dela – Acho que teremos de atravessar a água.
- Tem certeza?
- Não, melhor eu ir ver. — murmurei tirando a sacola de minhas costas – Segura para mim?
Ela assentiu, pegando-a, então entrei na água, que estava tão fria que chegava a doer e a água batia até meus joelhos, mas à medida que avançava em direção à queda d’água eu ia afundando. Mergulhei e, submerso, escutei quando passei pela cachoeira, e vi que o solo se nivelava.
Sai andando da água e vi que a queda d’água caia uns dez metros distante da encosta, coberta por outra cortina de água. Cerrei os olhos, vendo dessa vez que havia pedras atrás da água. Virei-me para a esquerda por ser canhoto, sem saber realmente para onde ir. Percebi que a pedra sumia após alguns metros. Pus apenas até meus ombros sob a água e deparei-me com um estreito caminho, pelo qual a água lentamente.
Deveria ser aquilo, então voltei, pulando na água e nadei até onde Raquel. Ela estava sentada debaixo de uma árvore, com as duas sacolas.
- E então?
- Tem uma cachoeira por dento dessa, e um caminho. – respondi, pingando água, enquanto sentava na margem. – Talvez leve a algum lugar – Tirei minhas botas, girando as e tirando a água. – Acho melhor deixar as sacolas, senão vão molhar. Mas antes pode tirar um bracelete de ouro daí?
- Você não acha que alguém pode aparecer? – questionou enquanto mexia na minha sacola enquanto me empurrava de volta ao rio. Ela balançou o bracelete em suas mãos, verificando o peso. – É pesado!
- Talvez, mas de qualquer modo, vamos deixá-las aqui. – respondi e quase sorri quando ela me entregou o objeto, pondo-o em meu braço. – E sim, ele é.
Ela sentou e tirou as próprias botas, antes de escorregar para dentro da água. Nadamos para passar da primeira cachoeira, e a escutei murmurar algo, então tive de procurar novamente onde era a “entrada”.
- È seguro? – perguntou quando entrei na frente dela.
- Não sinto nada – falei de volta, mas hesitantemente segui em frente.
Ar frio soprava, e olhando para cima do estreito caminho, via-se que estávamos em uma espécie de garganta. Tudo o que via era névoa, e aquilo chegava a me dar arrepios. A água que estava em meus pés era tão gelada quanto gelo derretido. Doía.
Chegamos a uma espécie de inclinação, que chegava a desaparecer na escuridão. Olhamos por um segundo, então o som de algo pesado despencando seguido por um imenso rugido de água chegou até mim, e com certeza a ela também. Viramos-nos imediatamente, mas tudo o que vi foi algo branco e furioso nos cobrir, para depois perceber que era água.
Não deu nem para correr, a água só nos arrastou como se não fôssemos nada de maneira tão rápida que quando me dei conta caí estatelado no chão. Respirei fundo e sentei, percebendo que batera a cabeça, mas... Tudo bem, acho. Escutei movimentação, percebendo que ela caíra alguns metros atrás de mim, provavelmente por ser mais leve. A água ainda corria, mas de maneira bem mais calma.
- Você está bem? – perguntei para ela, que se levantava, minha voz fazendo eco.
- Sim... – murmurou com os fios brancos colando-se em seu rosto e em seu corpo, seu cabelo de algum modo havia soltado na água. Ela olhou por cima de meu ombro, antes de continuar – Você viu alguma pedra solta ou algo que poderia ter ajudado... Nisso.
- Não vi nada e também não faço a mínima ideia do que pode ter causado isso. — retruquei completamente encharcado.
A situação não era muito boa, e percebi que havíamos caído em uma gruta, na qual a única saída visível era a ladeira por onde a água ainda corria. Olhei para meu braço, e o bracelete, graças aos deuses, não havia se aberto ou escorregado.
- Ainda está com seu anel?
Raquel ergueu a própria mão antes de responder.
- Sim. – sua voz fazia eco juntamente ao som da água corrente – Acho que está inteiro, mas não consigo vê- ló direito.
- Não use a visão noturna – alertei e ela me olhou – Poder ter alguma coisa o que e, convenhamos, olhos brilhando no escuro são bastante chamativos.
- Tem certeza? Se algo aparecer, estaremos mais vulneráveis... E talvez nossos nervos virem um caco.
- Acho... Que não.
- Simplesmente acho...
- Sem visão noturna. – cortei e ela me olhou indignada.
Poderia ter algo para nos ajudar ou teríamos de retornar e continuar procurando alguma coisa. Era claramente uma gruta profunda, então talvez fosse melhor dar uma... Er, vistoriada?
- Vamos seguir em frente ou não?
- O que você acha? – indaguei
- Acho que sim.
Assenti, antes de ir hesitante para frente. Para mim era um tanto agonizante não poder prever o que havia a frente, mas não ia dar o braço a torcer à Raquel.
A gruta já era escura, mas á medida que adentrávamos ela ia se transformando no mais completo breu. A coisa estava ainda pior porque tudo o que escutava era o som de nossas respirações e os passos leves na água.
Em algum momento escutei um ofego de Raquel, e ela repentinamente me agarrou por trás, com força. Senti meu rosto esquentar violentamente, por que... Fora realmente repentino. E com certeza eu não estava preparado.
- Ei, Raquel...
- A-Alguma coisa arranhou minha perna. – falou rápido num tom acusador e amedrontado.
- Alguma coisa? Não sinto nada de estranho ou... – Alguma coisa arranhou meu pé. – È- é tem alguma coisa aqui — murmurei, rodeando-a com meu braço para fazê-la ficar ao meu lado.
- H- Hideo... – ela me chamou, e notei o medo da voz dela. Percebi que seus olhos brilhavam — Olhe...
Suspirei e ativei minha visão noturna e... Deuses.
Tinha um imenso dragão dormindo a alguns metros de nós. Sua cabeça estava apoiada nas patas dianteiras, e só ela deveria ter quase nossa altura. Duas presas do tamanho talvez de meu braço saíam de dentro da mandíbula.
Sua cauda moveu-se, acompanhada por uma baforada de fumaça quente expelida de suas narinas que com certeza quase nos fez gritar. Parecia que bolhas haviam aparecido em minha pele devido ao mero contato com o ar quente. Apertei um pouco mais meu braço envolta de Raquel em resposta ao praticamente abraço que ela me dera. Era assustador sim. Até agora nunca tinha visto um Despertado capaz de nos torrar, então era melhor não acordar o dragão.
Resmunguei, fazendo Raquel me olhar repreensivamente e o dragão soltou um murmúrio adormecido, fazendo-me calar a boca e seguir em frente, olhando sobre meu ombro para certificar-me que o ser não despertara.
Quando – felizmente — o dragão ficava para trás, meus olhos começaram a lagrimar e pontos de luz apareciam nele. Percebi que provavelmente era devido a algum tipo de luminosidade. Desativei minha visão noturna e esfreguei meus olhos, amaldiçoando os malditos pontos.
Tirei meus dedos de sobre os olhos, percebendo que meu braço ainda estava envolta da cintura de Raquel. Mordi o lábio inferior e o tirei de lá, vendo por onde vinha a claridade.
Era o fim da gruta, iluminada por dois pratos ele pedra repletos de óleo acessos com chamadas que chegavam quase a vinte centímetros de altura. Posicionada entre ambas, estava uma grande estátua de mulher, indo até sua cintura. Seus dedos encestavam delicadamente seu rosto, esculpido com perfeição, os olhos fechados com lágrimas escorrendo. Seu cabelo parecia escorrer pelas costas e um vestido simples ligeiramente colado.
- Não tem mais nada – Raquel murmurou.
Olhei envolta, atrás de qualquer coisa.
- Pelo visto...
Um lamento começou a preencher o ambiente. Um lamento choroso e melodioso, insuportavelmente triste, o suficiente angustiante para fazer meu peito doer e o vazio dentro de mi parecer pior e insuportavelmente gelado. Esfreguei meu peito, olhando envolta, à procura de onde vinha aquele lamento.
- Hideo, a estátua. – Raquel me chamou.
Olhei para a estátua, surpreendendo-me ao ver que água de verdade escorria por seus olhos. Inesperadamente, ela se moveu, soltando um longo gemido de sofrimento, fazendo que nós dois recuássemos.
- Tristes são aqueles que procuram o conhecimento! – exclamou – tristes são aqueles que tanto sabem, pois menos ainda conhecem! O que vós fazeis aqui, jovem casal?!
Raquel me olhou, assim como eu, provavelmente estarrecida com as palavras e o fato de... Uma estatua estar viva. E ela estava claramente esperando que eu falasse algo.
-... Viemos atrás de Jahun — Respondi.
Ela soltou um lamento tão alto e agudo que meus ouvidos doeram.
- Tantas maldições e justo essa! A sabedoria jamais vem sem preço! Para permitir vossa passagem necessito de um tesouro! Nada de joias e ouro, algo precioso em seu valor!
Olhei para Raquel pedindo por ajuda, que estava claramente interpretando as palavras da estátua. Sua expressão iluminou-se por um instante, mas pareceu hesitar logo após.
- O que houve?
- Ela quer um tesouro pessoal... — disse – Algo que normalmente não tem valor, mas é precioso para quem possui – Me olhou – Não tenho nada.
Entendi imediatamente o que ela quisera dizer.
- Absolutamente não! – exclamei.
- Está negando a busca do conhecimento? – a estátua perguntou, vertendo tanta água pelos olhos que pareciam duas pequenas cachoeiras – Só poderá passar com este pequeno sacrifício.
Pequeno sacrifício uma ova! Estávamos falando do símbolo do Yudai!
- Então viemos até aqui para nada?- Raquel indagou baixinho.
Aquilo me deixou irritado. Por que ela falara aquilo? Eu não sou nenhum tipo de babaca que joga qualquer esforço ao vento para o alto. Se fosse por mim, não teria saído do Norte, ou melhor, nunca teria saído nem da Ordem, e sim de Deditio! Preferiria ser um humano magrelo e desprotegido pensando em conseguir dinheiro pra comer do que estar numa situação como a que estava agora. Mas resumi tudo o que estava sentindo a duas coisas. Olhei para Raquel com raiva, fazendo-a recuar ligeiramente. Falei sem pensar:
- Vou te matar.
- Sinto muito, mas é a verdade! – exclamou, mas vi uma sombra de mágoa aparecendo no fundo de seus grandes olhos vermelhos, quase fazendo com que voltasse atrás e pedir desculpas.
Ainda com raiva, peguei o símbolo de Yudai. Olhei-o e vacilei, não queria entregá-lo. Era a única coisa que ele tinha e eu me permitira pegar. Lancei um olhar gelado à Raquel antes de transformar o símbolo numa espada e me aproximar da estátua.
- O que é isto? – questionou
- A espada do meu irmão morto. – respondi tentando ao máximo não esboçar sentimentos em minha voz ao menos, já que minhas mãos trêmulas me traíam completamente.
Ela moveu- se, me assustando e pegou a claymore pela bainha, e pareceu examiná-la. Quase pedia para que ela o recusasse, mas a pedra absorveu a espada, lentamente, até sumir de vista. Respirei fundo, tentando me acalmar, e ela disse.
- Passem.
A estátua tremeu e pareceu que pedra por pedra, ela foi se dividindo ao meio, deixando transparecer uma escadaria de pedra com reflexos de água ao fundo.
Desci as escadas, escutando os passos de Raquel atrás de mim, mas recusei o impulso de virar para vê-la, enquanto o estrondo atrás de nós indicava que a entrada fechara-se atrás de nós. Ao último degrau havia um extenso lago ligeiramente iluminado. O suficiente para perceber que precisava nadar para continuar.
Continuei resignado em não olhar para Raquel, então apenas pulei na água. A parede ao fundo abria-se em um arco submerso. Passei sob ele, com o fundo nivelando-se. Sai e depois que sequei um pouco meu rosto antes de perceber que havia alguém a minha frente. Ou melhor, uma mulher já que usava saia.
Ergui o olhar, deparando-se com uma moça de cabelo... Violeta. Extremamente escuros, presos varias vezes em cada mecha com ramos verdes e tulipas que se misturavam com seu cabelo. Sua pele era ligeiramente amarelada e seus olhos eram verde folha. O vestido era lilás, as mangas presas aos cotovelos com ramos e caindo soltas nos antebraços, o vestido solto a partir de sua cintura, com um cinto de folhas.
- Olá. – disse com um sorriso doce — Conseguiram vir até aqui... – continuou como se fosse algo impossível. — Quais são seus nomes?
- Hideo. – respondi ligeiramente seco, mesmo estando completamente encharcado. Escutei a movimentação de água atrás de mim.
- Raquel.
- Pois bem. Precisarão trocar essas roupas... Impróprias – Hã?! Como assim impróprias?! São absolutamente normais! – e poderão ir ao encontro de Jahun — däzh.
Ela indicou algumas coisas ao fundo da parede e sumiu no aparente extenso corredor de pedra que se abria diante nós. Fui até lá desconfiado a respeito das roupas, então voltei e sentei de frente para a parede e de costas para Raquel, que entendeu a deixa e depois só escutei o som de tecido se arrastando, indicando que ela trocava de roupa.
- Pronto. – ouvi-a hesitante. Olhei-a o suficiente para apenas ver se estava de costas. Ela estava e distraidamente penteava o cabelo com os dedos.
As roupas que me entregavam era obviamente típicas – a última vez que usara uma dessas fora há no mínimo dezoito anos. Era simplesmente uma túnica sem mangas, longa até os joelhos aberta nas laterais e uma calça branca até as panturrilhas. Ironicamente... Era preta. Não havia sapato ou sandália à vista, então permaneci descalço.
- Pronto. – falei sem muita emoção para Raquel. Sim, ainda estava chateado.
Fomos pelo corredor. Era grande, mas não tão longo quanto parecia. Ao fundo, na frente de um portal imenso de madeira escura e quadrados dourados e pedras preciosas incrustadas aleatoriamente, estava a garota de cabelos roxos.
- Estão bem mais apropriados assim. – disse rapidamente.
Apropriados uma ova, gostava muito mais das minhas antigas roupas. – pensei, mas mantive-me quieto.
- Qual seu nome, afinal? – Raquel indagou.
- Tharsilea. – respondeu ainda com seu sorrisinho que estava começando a me dar nos nervos. – Deusa das Tulipas.
Acho que em tempos anteriores meu queixo teria caído, mas me limitei a encará-la. Uma deusa?! Sério? Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela abriu a porta, nos levando para dentro.
-... Uau. – murmurei. Era gigante. Havia prateleiras cobrindo todas as imensas paredes, com mesas e poltronas gigantescas, com enormes rolos de pergaminhos jogados sobre eles e dentro das prateleiras, tanto de papel quanto de tiras de madeira.
- Alguém novo? – uma voz extremamente alta e trovejante questionou, e pareceu que o ar vibrou com a altura.
Tharsilea se dirigiu até um imenso chifre branco, cuja a parte maior deveria ter uns dez metros de diâmetro e a menor menos que sua cabeça.
- Jahun – däzh.
O chão começou a tremer, com o som de algo maciço vindo a nossa direção. Algo gigantesco caiu no chão, fazendo a poeira subir e percebi que era um pergaminho gigante, antes de um homem maior ainda aparecer. Era a maior coisa que vira na minha vida. A pele dele era tão branca que chegava a reluzir, com um cabelo negro e comprido até os ombros, liso e repicado; gigantescos brincos de argolas de ouro e uma gargantilha com diversas correntes com pedras preciosas dando voltas em seus ombros. Usava uma toga azul elétrica e calças negras com enormes sandálias de tiras negras. Ele nos olhou com olhos com heterocromia, um da cor de sua toga, outro de um verde extremamente claro.
- Hã? – ele se ajoelhou e se apoiou no chão, olhando diretamente para nós, e com um estalo percebi que eu era do tamanho de seus olhos. – Você se parece com Daichi, mas seu cabelo é vermelho.
- Ah... Meu nome é Hideo.
Ele pôs a mão na orelha indicando que não escutara, então fiz um megafone com as mãos e gritei:
- Meu nome é Hideo!
- Ah tá. – disse. – E o que faz aqui?
- Daichi me mandou. – gritei novamente.
- Ah, Daichi. – ele coçou a cabeça e apontou um pequeno buraco. Ou parecia pequeno, pois estava literalmente a quilômetros de distância. – Ele fez aquilo na primeira vez que veio aqui, há uns... Dois mil anos. – Fechou a cara. – Espero que não saia depredando minha biblioteca como ele e aquele irmão sem graça dele, pois tudo que eles tocavam parecia se quebrar.
Assenti e ele olhou para Raquel com uma expressão que claramente indicava que se perguntava por que ela estava ali comigo.
- E por que ele te mandou? Quer dizer, vocês?
- Não sei. Ele só me deu isso – indiquei o bracelete. – e disse para ir atrás de você. A Raquel veio comigo. – minha garganta já queimava de tanto gritar. Jahun pôs a mão no queixo ligeiramente arredondado, pensativo.
- Tinha uma coisa para ele e o irmão dele. – falou. – Quer dizer... Não exatamente eles, mas, enfim. Eles disseram que preferiam deixar para mais tarde. Você tem um irmão gêmeo, idêntico de preferência, rapaz?
Quase engasguei com a pergunta, e senti o olhar de Raquel sobre mim. Respirei fundo ignorando o latejar do fundo do meu peito para responder.
- Er... Tinha. Ele morreu há sete anos.
- Perfeito. – disse, me pegando de surpresa e estendeu a mão. – Vou ter que procurar então. Subam aqui que lhes levarei a um local mais elevado.
- Acho que vou precisar de ajuda com esse vestido. – ouvi Raquel murmurar ao meu lado, com uma ligeira pontada que senti ser direcionada para Tharsilea, fazendo com que eu me virasse para vê-la.
Admito que fiquei impressionado. Raquel era naturalmente bonita, mas ao menos em minha opinião a deixava ainda mais. Ele era de um tom vibrante de vermelho, longo com alças finas e franzido na frente. Havia um cruzado de fitas roxas um pouco abaixo das laterais de seus quadris. E... Bom, todo aquele tecido não iria ajudar mesmo.
Subi na mão de Jahun, então me virei em direção a Raquel. Ela me estendeu a mão, pedindo ajuda, mas me abaixei e a peguei pela cintura, erguendo-a, e vi seu rosto corando. Jahun levantou e começou a andar, fazendo com que eu me abaixasse para evitar uma queda. Raquel se abaixou e percebi que aquele vestido era aberto nas laterais, fazendo suas pernas ficarem a mostra. Desviei o olhar rapidamente. Dão um vestido desses pra garota e ainda dizem que as roupas que usávamos antes eram indecentes.
Jahun se dirigiu a uma imensa mesa que sobre ela parecia que havia miniaturas de casas e móveis, mas sabia que eles eram na verdade, de um tamanho próprio para pessoas normais. As casas eram feitas de ramos e galhos trançados, formando cabanas geométricas com telhados de folhas e flores. Havia também poltronas, cadeiras, liteiras e todo tipo de coisa, e havia várias pessoas como Tharsilea lá.
Jahun repentinamente virou a mão dele, fazendo com que caíssemos antes que pudéssemos fazer qualquer coisa. Consegui pousar de pé. Na verdade, agachado, mas pelo menos não levei uma queda linda. Quando levantei o olhar, vi que Raquel já estava de pé, ajeitando a saia daquele vestido.
- Você viu alguma coisa? – perguntou.
- Hã? Não. – respondi, sem entender.
- Ótimo. – disse com simplicidade.
Uma garota se aproximou. Ela era alta, magra e fina – bem reta na verdade. Chegava a incomodar com uma olhada rápida. -, com uma pele verde como um caule de planta. Suas roupas eram feitas de pétalas de flores brancas, uma blusa de frente única e uma saia meio curta na perna direita. Havia um chapéu daquela flor, copo de leite, que se misturava com seu cabelo, e seus olhos eram amarelos. Sim, ela era absolutamente bizarra.
- Vocês estão bem? – perguntou então lançou um olhar fulminante à Jahun, que já estava de costas, se afastando de nós. – Normalmente humanos quebram alguns ossos se caírem dessa altura.
-... Tudo bem. – respondi. – Não somos exatamente humanos.
- Corpalea! – Jahun chamou.
- Estou indo! – gritou esganiçada correndo em direção à borda da mesa, e copos de leite começaram a aparecer em seu caminho para que pudesse seguir pelo ar.
- Nossa. – Raquel murmurou.
- Como assim não são exatamente humanos? – me assustei quando Tharsilea apareceu na borda da mesa sentada sobre uma tulipa gigantesca.
- Somos híbridos. – falei simplesmente e dei de ombros. – Já fomos humanos, mas não somos mais completamente.
- Aquela coisa patética que os humanos fazem para se proteger de monstros? – um cara de amarelo de cabelo castanho perguntou sarcástico e sua boca se encheu de margaridas, fazendo-o se engasgar como um condenado. Ele usava roupas verdes e marrons.
Não respondi, apenas fiquei encarando a cena bizarra. Parecia que quanto mais ele cuspia, mais margaridas apareciam em sua boca.
- Ignorem Sor. – Tharsilea pressionou as têmporas e balançou a cabeça reprovadoramente. – Obrigada Daria. Ensine-o a ter educação.
Eu sinceramente fiquei com medo desse método de aprendizado, mas tudo bem.
- Todos aqui representam uma flor ou coisa parecida? – Raquel perguntou.
- Basicamente. – Tharsilea respondeu. – Ou alguma planta. Não estão todos aqui, apenas vinte e dois. Quatro masculinos e dezoito femininos. – ela indicou Sor com a cabeça e percebi um homem o observando cujo cabelo parecia uma frondosa folhagem verde escura que se misturava com sua barba, com a pele castanha. Suas roupas eram feitas de folhas. – Ele é o mais mal criado daqui.
Um imenso rolo de pergaminho apareceu voando e bateu na parede acima de nós, então começou a se desenrolar em direção à mesa. Ouve uma imensa comoção e todos saltaram com ramos, flores e madeira para evitar um completo desastre sobre as casas.
- Ele não me parece muito organizado. – Raquel sussurrou para mim e assenti enquanto o pergaminho era direcionado delicadamente para o chão. Percebi duas figuras muito menores que as demais correndo por fora da confusão. Era uma menininha de pele bem branca, mas havia um brilho como purpurina em sua pele, e seu cabelo parecia um frondoso arbusto rosa com a parte superior mais escura e a inferior mais clara, com um vestido de alcinhas feito com pétalas de flores como o seu cabelo. O outro era um menino que aparentava a mesma idade e tinha uma pele parecida, mas seu cabelo parecia lascas de madeira e usava um grande chapéu feito de uma imensa noz. Ele usava simplesmente uma toga marrom escura de mangas curtas. – Que fofinhos. – ela disse ao vê-los.
Não sei por que, mas algo martelava em minha mente que eles tinham cara de pestes. Apenas.
Mais alguns rolos saíram voando, mas batiam não batiam na mesa, só envolta da mesa ou nas pernas, fazendo todo o local balançar precariamente de um lado para outro. Após o quarto pergaminho numa das pernas, decidi que era melhor ficar sentado do que tentar me manter de pé.
- Carilo, vá reforçar as pernas da mesa! – uma garota com cabelo preto e roupas que pareciam pétalas de rosas de todas as cores exclamou. O cara de cabelo e barba verdes e pele castanha saiu correndo um frondoso carvalho apareceu e ele pulou encima de um dos galhos e a árvore diminuiu, sumindo de nossa vista. Aproximei-me da borda para ver o que ele estava fazendo e percebi árvores subindo em uma das pernas da escrivaninha. Mas um pergaminho bateu na outra perna, que quebrou e a mesa começou a vergar para frente.
Imediatamente me segurei na borda da mesa quando quase caí e todos soltavam um “Carilo!” em conjunto. Vi as duas crianças vindo escorregando em minha direção, rindo e batendo palmas.
- Yupiiiiiiii! – o menino gritou quando ia passando por mim e o agarrei pela perna e a garotinha se agarrou no braço dele, rindo. Tudo bem, ele ficou de cabeça pra baixo, mas não caiu. E uma casa estava vindo em nossa direção.
- Estou ajeitando! – Carilo gritou enquanto um carvalho envolvia a perna quebrada e a puxava bruscamente para baixo, mas não evitou que a cabana passasse voando por minha cabeça.
Quando a mesa se nivelou, Sor apareceu na borda da mesa, ainda com a boca cheia de margaridas, então indiquei as crianças risonhas que eu segurava. Ele revirou os olhos e estendeu a mão, então lhe passei o pé do menino antes de me içar novamente para a superfície e me arrastar por ela, que estava a mais completa bagunça. Eram plantas, casas e móveis para todos os lados, completamente revirados.
- Tudo bem? – Raquel perguntou para mim enquanto arrancava um girassol que crescera da mesa e estava enrolado em sua cintura. Aparentemente fora isso que a segurara.
- Tirando que quase caí de uns trinta metros de altura, tudo bem. – respondi, girando o braço que usara para me segurar. Estava doendo.
- Eu disse que ele não era muito organizado. – murmurou, puxando meu braço e me ajudando a me levantar.
- Sou obrigado a concordar. – respondi ajeitando minhas roupas e vi várias garotas marchando por cima de plantas em direção a Jahun. Pressinto um motim generalizado.
Vi várias pedras ovaladas e coloridas, completamente polidas, jogadas sobre a superfície, e um cara completamente verde como uma vagem seguia as recolhendo dentro de um imenso cesto.
- O que é isso? – perguntei, pegando uma pedra vermelha com gavinhas laranja.
- Ovos. – respondeu e pus a pedra contra luz, vendo então algo flutuando dentro daquilo, como água. Pisquei, parecia um filhote de cachorro. E cachorros não nascem de ovos. – Alguns desses são placentas petrificadas. – explicou. – Como esse lobo do fogo.
Entreguei-lhe o ovo que foi devidamente jogado na pilha de ovos na cesta e vi Raquel segurando um ovo completamente branco e brilhante. Ela o entregou e o cara o jogou na imensa cesta quadrada e a foi arrastando por sua correia, recolhendo os ovos restantes.
Ouvi garotas gritando palavras de repreensão ao fundo, e lembrei-me das que foram ver Jahun, então apenas me joguei no chão. Era melhor esperar sentado. As criancinhas passaram correndo em círculos com um ovo azul em mãos e o cara verde apareceu correndo e gritando atrás delas.
- Eu disse que elas pareciam pestes.
- Na verdade, não disse. – Raquel avisou, mas dei de ombros.
- Acho que vai demorar muito para sairmos daqui — comentei.
- Não seja pessimista. – disse, sentando ao meu lado.
- Não? Olhe quantos pergaminhos tem por aqui! – indiquei todas as prateleiras que cobriam as paredes com a cabeça. – Vai demorar séculos.
- Antes você não era tanto.
- Eu era, só tentava não desanimar quem tava ao meu redor. – falei rapidamente e percebi que ela estava me encarando.
- Minha infância foi uma mentira. – Disse se levantando.
- Ei, volta aqui. – Puxei-a pelo braço para que voltasse a se sentar. – Tá, nesse quesito sua infância foi uma mentira, mas... Corre!
Um pergaminho vinha voando na nossa direção, e esse era de madeira. Apenas agarrei a mão dela e dei o fora pouco antes do pergaminho bater contra a superfície da mesa com tanta violência que escutei o som de madeira rachando e caí com o impacto e Raquel acabou caindo por cima de mim. O cara verde estava a alguns metros de nós, abraçado possessivamente no cesto de ovos envolto por uma imensa vagem de ervilhas.
- Tem certeza que é uma boa ideia ficarmos na mesa? – Raquel perguntou.
- Estou começando a achar que não. – passei a mão por sua cintura, fazendo que levantasse comigo, então fui para a borda da mesa, vendo Carilo sentado num galho do carvalho pressionando as têmporas. Havia carvalhos envolvendo todas as pernas da mesa, e dava para descer por aquilo. Lembrei-me do vestido que Tharsilea fizera Raquel vestir e quase bati em minha testa. – Vem cá.
Ela se aproximou para olhar pela borda da mesa e me abaixei, jogando-a sobre meu ombro.
- Ei! – exclamou atrás de mim e senti suas mãos agarrarem imediatamente minhas costas. Conhecendo ela, não duvidava que seu rosto estivesse da cor do vestido.
- Esse vestido vai atrapalhar. – Avisei, já começando a descer por um galho. Não era difícil descer uma árvore só usando uma mão, já que fazia isso até quando era humano. Depois de alguns minutos, quando finalmente cheguei ao solo, tirei Raquel de meu ombro e ela estava absurdamente vermelha. Quase tive vontade de rir. – Viu, não tirou um pedaço.
Ela soltou um gemido e se jogou contra o tronco da árvore, escondendo o rosto entre as pernas. Escutei um estrondo sobre a mesa e agradeci que não estivéssemos mais lá. Sentei ao seu lado em silêncio, meio escondidos sob a mesa.
Quanto tempo passamos naquela biblioteca no final? Dois dias.
Isso aí, dois dias com rolos de pergaminhos voando para todos os lados e comendo comidas semi vegetarianas que aquele povo das flores fazia, quando um urro me fez acordar num dos meus primeiros sonos sem pesadelos em sete anos. Olhei envolta e senti a cabeça de Raquel em meu ombro, mas depois do urro, tudo ficou o mais completo silêncio.
Olhei para ela. Para quem passara sete anos isolados da civilização, seu cabelo era bem macio. E sua pele também. Soltei seu braço e olhei para minhas próprias mãos. Os dedos eram longos e finos, mas eram calejados e a pele era bem áspera. Olhei para as mãos delas que descansavam sobre as pernas. Estavam num estado que nem se comparavam com as minhas. O cheiro doce de baunilha que sua Aura exalava chegava a me levar a crer que também despontava de sua pele. Era ligeiramente entorpecente.
Ah, por que estou prestando atenção nesses detalhes?
Encostei minha cabeça contra o tronco da árvore, vendo a incrível visão da madeira da mesa acima de mim. Meu peito latejava, mas de maneira diferente. Não era exatamente dor. Não resisti a olhar novamente para Raquel. Sua expressão adormecida era bastante suave e calma. Seus cílios eram longos e espessos, e percebi que meu polegar estava distraidamente fazendo o contorno de seus lábios rosados. Afastei minha mão. Pare de fazer besteira Hideo.
Ainda olhava para ela quando alguém cutucou meu ombro. Olhei para o lado, então para cima, deparando-me com Corpalea, com um rolo de pergaminho dentro de uma capa de madeira com os tampos de ouro e pedras preciosas.
- Demorou, mas encontramos. – passou ela pra mim e rolou os olhos. – Precisamos organizar urgentemente essa biblioteca.
Quase falei um “É bom”, mas mantive-me quieto.
- Pode acordar ela? Jahun – Däzh quer falar com vocês. – disse simplesmente e foi embora.
Suspirei e balancei o ombro de Raquel, e ela soltou um gemido, claramente não querendo acordar.
- Ei Raquel, acorda. – Chamei e vi sua mão indo para os olhos, e ela se encolheu ligeiramente. Sorri e levantei, a puxando para ficar de pé, mesmo que ainda não estivesse muito firme. – Vamos, ele finalmente encontrou o que era pro Daichi.
Raquel esfregou os olhos com as duas mãos e piscou algumas vezes para se certificar que estava acordada. Estendi-lhe a mão e ela a pegou de bom grado e saímos de sob a mesa, indo ao lado das imensas prateleiras e desviando ocasionalmente de pergaminhos jogados ao chão, pelo caminho que vira Corpalea tomar. Virando uma prateleira, percebi que havia uma espécie de véu tênue e dourado, e vi uma biblioteca de tamanho normal, com uma cadeira normal e um Jahun muito normal sentado nela. Eu e Raquel nos entreolhamos. O que era aquilo? Ele estava sentado com uma das mãos apoiando o queixo, então nos olhou.
- Não passem por isso a menos que queiram sumir como pó das estrelas. – avisou e se levantou. Observei com um misto de espanto que ele deveria ter minha altura, talvez até uns poucos centímetros mais baixo. Ele estava segurando duas sacolas, uma em cada mão. Bem pequenas, tinham mais ou menos o tamanho de minhas duas mãos juntas, uma verde e uma de um brilhante tom de púrpura. – Você não é um humano de sorte. – continuou e jogou a verde pelo véu, indo para diretamente em minha mão direita, que peguei ligeiramente desajeitado, já que só tinha condições para segurar uma espada e olhe lá. – Trevas seguem você. E isso não é bom.
- Como assim?
- Esse lugar é como se fosse uma mistura do mundo dos homens e dos deuses, já que eu sou um deus. – Pôs as mãos no quadril. – Coisas do submundo jamais entrariam aqui, e as senti rodando este lugar como animais carniceiros à procura de carne desde que você chegou.
Senti Raquel olhar para mim e soltei um suspiro resignado.
- Você sabe por quê?
Jahun apenas deu um sorrisinho de canto.
- Claro que sei, mas você não pode saber. Ainda ao menos. – respondeu. – Lembre-se que eu sou o guardião dos segredos. Sei tudo sobre todos. Essas trevas entram na sua mente principalmente quando você dorme. – continuou. – Elas normalmente mostram os cantos mais obscuros de seu ser – seu maxilar se endureceu. – mesmo que não seja referente a essa encarnação. Elas podem mostrar o futuro também. As partes menos agradáveis, na verdade. Tem uma coisa no cinto aí dentro que vai te ajudar a mantê-las longe.
O que era isso, seriamente? Por que insistiam em me deixar com mais perguntas? Ao menos havia uma explicação para os meus pesadelos, mas não sabia ainda por que.
- E você. – Se virou para Raquel e lhe lançou a roxa, que ela pegou bem mais coordenada do que eu. – Eu não o conheço o suficiente para dizer nada, mas se eu for levar aos padrões que ele tem alguma relação com Daichi, você é corajosa, porque ele deve arranjar confusão muito rápido. – Não é como se ele estivesse errado. Sempre tivera facilidade de arranjar confusão. – Sei algumas coisas sobre você, mas como ele, é melhor me manter quieto. Só faça as escolhas certas.
- Como poderia saber se são certas? – perguntou.
- Se você as achar, vão ser. – respondeu simplesmente. – É bom serem sinceros com vocês mesmos. Os dois. Podem ir embora. Foi bom conhecê-los.
XXX
- Ótimo, saímos por um lado completamente diferente. – reclamei quando saí pela escada que Corpalea indicara como a saída. Era uma pedra no meio da água rasa.
- Ainda podemos ir para a cachoeira e pegar nossas sacolas. – Raquel respondeu com simplicidade, indicando a cachoeira não tão distante quanto poderia estar com a cabeça.
- E as roupas que deixamos para trás? – perguntei, antes de soltar um suspiro e por meus pés na água gelada. – Tá, deixa pra lá. Vamos pegar nossas sacolas e voltar pra Sacraelum.
Ela assentiu e entrou também, sem nem se importar se a barra daquele vestido iria se molhar. Fomos até a encosta e subimos até a terra, antes de voltar para a árvore em que as sacolas haviam sido deixadas. E ainda estavam lá. Peguei a minha, abrindo-a e então parei.
- O que foi? – ela perguntou.
Peguei as roupas que havia deixado para trás, indicando que minha surpresa. Raquel olhou-as então abriu a sua e tirou as roupas também. Parece que houvera uma devolução, não?
Depois de repetirmos o processo de dois dias atrás para trocarmos de roupa, pus o pergaminho e a pequena sacola dentro da maior preta, levantei, pondo-a nas minhas costas, e Raquel estava terminando de fechar a sua. Olhei para o céu. Estava escurecendo, e só havíamos acordado há alguns minutos. As coisas ficaram bagunçadas naquela biblioteca.
- Eu quero comer carne. – anunciei. — Ser vegetariano não é para mim.
Raquel riu, então entramos na floresta. Algumas horas mais tarde matei um grande lagarto para comer, e sim, estava muito bom depois de ter assado na fogueira.
- O que você acha de andarmos de noite? – Raquel perguntou. – Acordamos há pouco tempo, não conseguiríamos dormir nem se quiséssemos.
Balancei a cabeça, ponderando com a boca ainda cheia de carne. Engoli para conseguir responder.
- Tem razão. – Olhei-a por cima da fogueira e lembrei de como estava a observando enquanto dormia, então baixei o olhar tomado subidamente por uma onda de vergonha. -... Não é má ideia. – Terminei, dando uma grande mordida na carne para encher minha boca e me impedir de falar qualquer coisa. Não foi preciso olhar para cima para saber que Raquel me encarava sem entender minha reação.
Só parei quando estava empanturrado. Eu comera praticamente o lagarto inteiro sozinho, e eu via que Raquel me olhava impressionada com o tamanho do meu estômago, respondendo a ela apenas com monossílabos e balanços de cabeça enquanto comia. Limpei as mãos na grama e respirei fundo antes de levantar, com aquela sensação de que comera demais, mas era como se estivesse repondo o que não comera durante aqueles dois dias, então estava tudo bem. Joguei terra sobre a fogueira para apagá-la, e fiquei surpreso que o local estava muito bem iluminado com a luz da lua. Continuamos andando em direção a oeste durante um bom tempo.
Depois de dois dias caminhando, eu senti cinco Auras. Não, não era mal sinal. Sinalizei para Raquel se aproximar, e fomos sem barulho até a clareira onde eu escutava uma discussão alta e então alguém tentando falar enquanto sufocava.
- Não é o Ygor tentando matar o Larry? Que surpresa. – perguntei ao ver Diego com uma chave de braço no pescoço de Larry.
- Vão assustar alguém assim lá na... – Ele saltou, largando Larry que caiu no chão. Olhei envolta e vi Ygor, Raiden e Maurice. Olhei surpreso para ele. Não havia ainda considerando que ele era do grupo ou coisa parecida.
- O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei.
- Deixa eu ver...
- Vamos atrás das trilhas fantasmas. – Raiden disse.
O olhei como se fosse louco.
- São trilhas que os Aparições usam. – explicou. – Você pode cruzar o continente em três dias, pra ter uma ideia.
Sentei logo envolta da fogueira. Raquel também.
- Quando o Oito me levou para Sacraelum, ele usou, só que ele ameaçava que se decorássemos a entrada... – ele fez uma careta, lembrando-se do incidente da bomba e fez o movimento de um detonador com os dedos. – São túneis. Teríamos o risco de encontrar os Aparições, mas é mais rápido para se andar por aí. – Deu de ombros.
- Ah, e convencemos Anita a não sair de Sacraelum. – Ygor avisou. – Ela quis comer nossos fígados, mas a convencemos.
Franzi o cenho.
- É melhor, para não ter uma descentralização, por assim dizer. – continuou Maurice. – Assim, podemos ir e voltar pra Sacraelum e... Bem, vai ter alguém para nos direcionar.
A última parte saiu mais como uma pergunta. Mas conhecendo Anita como conhecia, por assim dizer, ela deve ter sido difícil deixá-la convencer-se.
— E você Diego? Também indo para lá? – perguntei.
- Não, eu e o Larry vamos ver como as coisas estão pro sul. – fez uma careta. Larry também.
- O que foi? – Raquel perguntou.
- A gente era de lá e... Tipo... – Larry balançou a cabeça. – Não era muito legal.
- A menos que você tenha uma fazenda. Aí é. – Diego completou. – Se você viver numa vila, se prepare que um dia você vai acabar virando um escravo.
- Vocês falam como se fossem.
Diego deu uma risada amarga e se encostou na árvore atrás de si.
- E a gente era. De onde vocês acham que eu conheço o Larry há tanto tempo? Nosso “dono” se cansou da gente e vendeu em troca de mais dinheiro. Graças aos deuses. – Bocejou. – Tá, não vemos nossas famílias, mas não temos que esfregar chãos até não sentirmos mais nossos dedos a peso de chicotadas ou outras coisas.
- Outras “coisas”. – Larry disse num tom sugestivo e Diego fulminou-o com os olhos, fazendo com que se encolhesse.
Tudo bem, não entendi nada, mas pela cara dos dois, eles não queriam falar sobre o assunto. Também não falamos nada sobre Jahun, quando perguntaram sobre para onde fomos, então somente ficamos em silêncio. Quando pareceu que todos dormiram, dormi também.
No dia seguinte, quando acordei, Raiden, Ygor e Maurice haviam ido embora, mas o resto ainda dormia – Larry com apenas a perna direita sobre o colchão. Sentei e comecei a arrumar minhas coisas e a procurar algo para o café da manhã. Diego acordou quando eu estava comendo um belo pedaço de pão – mentira, estava meio bolorento. Quando ele se sentou, enrijeci.
Uma Aura gigantesca.
Raquel acordou do meu lado e levantei com um salto. Diego bateu em Larry que ia começar a protestar, mas ele tapou sua boca, que percebeu tardiamente a Aura.
- Escondam-se atrás das árvores. – sibilei.
Raquel arrumou suas coisas num pulo, me escondi atrás de um grande pessegueiro com frutos carregados. Larry pulou atrás de uma árvore mais distante, mas conseguia vê-lo de onde estava. Senti o chão tremer, e depois uma voz resmungar. Nem precisei ir muito fundo em minha mente para descobrir quem era.
Marcus, o amante de Futoji, senhor do Leste.
Olhei ligeiramente e vi que ele andava como um imenso gorila. Ele resmungava algo sobre estar com raiva de alguém, que estava fazendo com que Futoji perdesse a paciência com ele. Raquel se ajeitou ligeiramente e um galho fez um som mais alto do que deveria. Todos congelamos.
- Quem está aí?! – Marcus berrou.
Pensei rápido e cortei um pêssego com minha Aura, que caiu estrondosamente no chão. O resmungo veio novamente e vi Marcus aproximar-se... Da árvore de Diego. Ele tapava a boca e o nariz com a própria mão para abafar o som da respiração, então Marcus se afastou.
Dei um suspiro de alívio e escutei um estrondo alto.
Pisquei, então vi a árvore em que Diego se escondera caída, e a enorme mão cinzenta de Marcus sobre ela. Ele a soltou, mas veio com outra coisa.
- Ora... Tinha um ratinho aí no meio, não? – perguntou com sua língua presa, vendo Diego preso em sua mão. Ele a apertou e Diego gritou. Escutei claramente os ossos estalando-se de modo insuportavelmente alto até pra mim. – Tem mais alguém aí com você? Futoji vai ficar feliz com mais gente no exército dele, desde que...
- Ei! – gritei. – Lembra de mim, cabeça de gorila?
Nota: Gritei isso quando já estava o atacando. E ataquei de modo semelhante ao que atacava antes só para fazer questão de que ele se lembrasse de mim. Acertei a cara dele, Marcus gritou, tentou me afastar como um mosquito, mas não deu exatamente muito certo. Saltei na hora e ele deu um tapa na própria cara, mas o desgraçado – pra não falar coisa pior. – não soltou Diego.
- Ah... Hum... – Ele entreabriu os olhos. – Espera, conheço essa cara! Você é um daqueles gêmeos – falou então num tom de profundo ódio. – que quase me matou. Por que seu cabelo tá vermelho? Que cheiro... – ele ergueu a mão em direção à árvore de Larry.
- Raquel, sai daí! – gritei, sentindo a súbita mudança de direção. Ela levantou-se num salto e correu. A mão de Marcus veio quebrando todas as árvores no caminho e Raquel saltou no exato momento em que ele iria acertá-la. Ele ergueu a mão para pegá-la e algo incrivelmente longo a puxou para trás antes que fosse acertada.
Ponto para Larry, apesar dela ter se batido no processo.
Saltei sobre sua mão e tentei puxar Diego pelos ombros, mas ele estava muito bem preso.
- Hideo, não querendo ser pessimista, mas... Olha pra cima! — berrou e uma sombra apareceu sobre nós. Olhei para cima e vi a outra mão de Marc vindo em nossa direção. Pensa rápido, pensa rápido!
Lembrei que Denis conseguira cortar Marcus de algum jeito, mas simplesmente esquecera. Como?! Voltei meu olhar para o pulso de Marcus. Isso! A parte interna! Usei minha Aura para cortar sua mão por dentro e ela caiu com estrondo no chão. Ele gritou e vi a mão esquerda se afrouxar. Diego percebeu sua chance e pôs as mãos pra fora, depois a perna esquerda.
Então, Marcus fechou a mão com força na única perna dentro ainda de sua palma. Diego berrou e escutei os ossos sendo triturados. Só tinha uma coisa a fazer.
- Desculpa por isso! – gritei, antes de cortar fora a perna de Diego na altura do joelho. Ele gritou, eu gritei e Marcus gritou. Diego caiu no chão, e estava perdendo muito sangue. Ele ainda não estava controlando sua frequência cardíaca, então não havia nada que eu poderia fazer. — Larry, pega ele e leva pra algum lugar que possa se regenerar!
- Como?!
- Faz ele usar Aura! – respondi e desviei de um soco direcionado ao solo, carregando Diego em meu ombro e praticamente o enfiei nos braços de Larry. – Corre babaca!
Ele saiu correndo a toda velocidade. Marc moveu-se atrás de nós e Raquel perguntou num tom desesperado:
- E a gente?!
Agarrei seu braço.
- Corre!
Saímos correndo enquanto um Marc muito raivoso vinha atrás de nós. Desviei de árvores e pedras, então minha cabeça começou a doer. Um latejar fino que fazia minha visão ficar embaçada. Depois, ficou difícil respirar. Minha visão começou a escurecer, e meu corpo a pesar. Era uma sensação estranha... Era quase como se... Era quase como se estivesse me acordando de um sonho ruim.
Então percebi que estava me afogando.
Arregalei os olhos. Espera aí, desde quando estava na água?! Comecei a me debater, e senti uma mão em minha nuca e outra em meu ombro, então as mãos me puxaram. Comecei a tossir e a cuspir água, antes de abrir meus olhos.
- Da próxima vez, vou deixar você dentro da água.
Arregalei os olhos ao escutar aquela voz. Então, vi meu cabelo branco. Até o queixo. Via-o em minha franja e o sentia grudado em meu rosto. O quê?
Lentamente, muito lentamente, fui me virando, com medo de ver quem estava atrás de mim. Mas era justamente...
- Que pesadelo horrendo você tava tendo hein? – Yudai me olhou feio enquanto arrumava sua mochila, espremendo o saco de dormir para dentro dela. – Tive que te acordar desse jeito.
Notas finais
Não me matem, hsuahsuahsuahsuhas
Acho que ninguém nunca pensou nisso XD
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