Meia Alma

16 Capítulo 15 - Iniciado o movimento


Notas iniciais
Geente, esqueci de agradecer a recomendação do Matheus Felipe capítulo passado D= Dane-se se está atrasado DEIXA EU TE DAR UM BEIJO SEU LINDO! - não acho q ele vá gostar, kkkkk
Deixando isso de lado, espero que gostem!

Estava escuro.

Sentia claramente o cheiro de sangue, e havia algum tipo de líquido que chegava até o meio de minhas panturrilhas, que retardavam meus movimentos. Estava tão frio que mesmo sem ver, sentia o vapor formando de minha respiração acelerada, e era apenas isso conseguia reparar naquele local. Minha respiração era imensamente barulhenta, ecoando pelo largo corredor, e o som da água, ou o que quer que fosse, devido aos meus passos. Tateava cegamente as paredes de pedra, tentando encontrar, embora a aquela altura sequer mais sabia se ela estava viva ou não. E aquilo me agoniava. Sentia uma dor, mas uma dor diferente. Não sabia se ela vingaria ou se apenas era o fantasma de algo para acontecer.

Então senti dor de verdade.

Pareceu que mil agulhas de ferro em brasa foram picadas em meu corpo e caí de joelhos, meu rosto mergulhando na água. Pelo gosto, imediatamente senti que não era água, e sim sangue. Um rio de sangue. Levantei o mais rápido que pude, mas algo pisou em minha cabeça, obrigando-me a manter-me abaixado, numa posição quase que humilhante.

— Quer encontrá-la? – a voz num tom de um sussurro sibilante disse.

Escutei claramente o som de uma arma sendo desembainhada.

— Encontrem-se no inferno. – disse com o metal cortando o ar em direção a minha nuca.

Senti uma picada que me lembrava uma agulha, e foi o suficiente para que eu me desesperasse e sentasse de uma vez na cama, até escutar uma risada alta, percebendo que minhas orelhas estavam doendo – e muito.

— Mas o q... – passei minha mão pela orelha que mais doía e percebi que havia uma agulha a perfurando. Alma estava um pouco mais atrás, tapando as mãos para não demonstrar que estava rindo. – Alma!

— Hoje é o dia de Annuräh! Dia também de furar as orelhas das crianças! – disse puxando a agulha da minha orelha de uma vez. Doeu. – Por que você dormiu sem camisa?

— Talvez por que estivesse com calor quando fui dormir? – perguntei num tom irônico.

— Calor... Uhum, sei. – deu um sorriso sacana.

— Ora, vamos lá Alma, sem perversões.

— Tudo bem, tudo bem. Vou furar de novo as orelhas de todo mundo que os furos já fecharam! – Deu uma risada maligna e saiu do quarto.

Resmunguei algo aleatório e sem sentindo, esfregando minhas orelhas. Como tudo mundo, elas eram furadas, mas nunca me importei de por nada, então obviamente os furos fecharam depois de alguns anos. Meu pescoço e meus ombros doíam, minha cabeça parecia pesar uma tonelada. Eu sempre tinha pesadelos, mas esse fora assustadoramente real. Achei que iria morrer de verdade. Percebi que minha respiração estava pesada, e também estava suado e trêmulo. Amaldiçoei internamente minha mente que sempre me fazia ter pesadelos e escutei uma espécie de gritinho vindo de outro quarto, este sendo feminino.

Joguei minhas pernas para fora da cama, tentando me firmar um pouco e esfregando meus olhos. Talvez Alma tenha feito bem em me acordar. Parecia que aquele pesadelo fora tão real que se o que seja lá tivesse me atacado, ele poderia me matar de verdade. Fui buscar a camisa que vestira na noite anterior e saí do quarto terminando de vesti-la. Na sala, percebi Raiden esfregando as próprias orelhas.

— Sua incrível noite no sofá foi terminada com agulhadas nas orelhas? – perguntei.

— Hã... Bem, sim. – fez uma careta.

Parece que ela estava realmente falando sério.

— Cadê a Alma? – Susana apareceu do alto da escada, os cabelos cacheados ainda meio desarrumados. – Eu vou matar ela!

— Provavelmente furando as orelhas de algum coitado. – respondi e imediatamente escutei o que pareceu um grito baixo de Diego.

— Hoje é algum dia especial ou coisa parecida? – Raiden perguntou timidamente atrás de mim quando Susana sumiu.

— Dia de Annuräh. – respondi.

— É um deus feminino ou masculino e de quê mesmo?

— É a deusa da infância. Furam-se as orelhas das crianças hoje também, para as joias e tudo mais, caso elas vão usar no futuro. – revirei os olhos. – E dão presentes também.

— Já percebi. – murmurou, esfregando as orelhas, então me dirigi à cozinha, desviando das poucas coisas quebradas no caminho, mexendo nas coisas até encontrar algo que me parecesse bom para se comer num café da manhã. Não que dois pacotes de biscoitos recheados fossem a coisa mais saudável do mundo, mas dane-se. Comi-os sozinho sentado sobre a bancada da cozinha e estava procurando mais comida quando Diego e Raquel apareceram na cozinha.

— Acho que o garoto lá da sala vai morrer de fome. – comentou. – Ele não come desde ontem.

— Talvez por que tenha vergonha? Não vai ser eu que vou oferecer comida pra ele.

Raquel suspirou e saiu da cozinha, o que me deu uma pequena pontada de culpa, mas sentei na bancada novamente e peguei o terceiro pacote que encontrara e comecei a comê-lo.

-... Você comeu esses dois?

— Ahan.

— E está no terceiro?!

— Basicamente.

Ele me olhou como se eu fosse algum tipo de bicho ou ser estranho enquanto Raquel voltava com Raiden, e apenas continuei a comer aqueles biscoitos, encarando meus próprios joelhos, antes de levantar da bancada e resolver sair. Não sabia se era impressão ou efeito do pesadelo ou estava quente mesmo, mas para mim não estava nem um pouco agradável. Diego foi mexer no armário que estava debaixo da bancada em que estava sentado e franziu o cenho, antes de olhar pra mim.

— O que foi?

— Acho que você está emitindo calor, sei lá.

Dei de ombros antes de levantar. Já havia passado uma semana desde que, de certa forma, Raiden entrara no grupo, então seja lá que equipamentos estivessem fazendo no centro de pesquisas, bom... Estavam quase prontos, desde a última vez que encontrara Farx, que estava novamente sendo arrastado por seu cachorro castanho que me odiava. Eu havia voltado ao orfanato três vezes graças à Elizabeth, que dissera que as crianças perguntavam por mim. E talvez eu tivesse que voltar novamente antes de sair para sabe-se lá onde.

Levantei e quando ia saindo da cozinha puxei uma Raquel que estava levantando porque tinha terminado de comer.

— Hideo?

— Não quero ser o único a ser atacado por crianças hoje. – respondi enquanto já abria a porta, fazendo-a rir.

Raquel já havia ido lá uma vez, e a atenção das crianças fora desviada para ela. Parecia que as meninas tinham alguma fixação pelo cabelo dela, se bem que também tinham pelo meu por ele ser vermelho, enfim.

Quando chegamos lá, havia uma imensa mesa no jardim do orfanato com todo o tipo de comida que de cara dava para ver que era gostosa. Ainda mais pelo cheiro que exalava. Tinha crianças correndo pra todos os lados obviamente, mas várias estavam sentadas com pratos amontoados de comida e imensos copos coloridos de suco que me davam o pressentimento que mais tarde haveria muita gente com dor de barriga. Assim que nos viram, houve gritaria e segurei Abby pelos braços quando ela veio correndo em minha direção com os dedos melados de caramelo e chocolate. Ela era uma das melhores dali, tendo uns quatro anos, com o cabelo castanho preso em nos dois lados do topo da cabeça com uma franja reta e infantil. Ela dava risada enquanto tentava me sujar. Quando levantei o olhar, algumas crianças já haviam levado Raquel até um banco, ao lado de Alice com um lenço rosa bebê na cabeça, vestindo um suéter cinza com a gola de renda, lembrando o fecho dos vestidos mais antigo, estampado de rosto de gato, e uma saia rosa claro pregueada com babados na ponta.

Ela estava tomando suco em um copo azul com bolas e estrelas vermelhas, amarelas e verdes, que parecia grande demais para ela, sua cadeira de rodas fechada encostada a uma árvore. Abby deu um jeito de pegar em meu rosto, fazendo-me praguejar enquanto ela caía na risada e saía correndo, e passei a mão no rosto sentindo o grude nele. Levantei, lambendo o meu dedo com gosto de chocolate, sentando entre Raque e Alice, pondo a mão sob o copo ao perceber que ele estava escorregando de suas mãos magras.

— Como está?

— Bem. – disse e olhei para o suco que ela estava tomando. Era espumoso e de um claro tom de laranja, com um cheiro doce.

Olhei para a casa da árvore, percebendo que fora repintada, as paredes estando rosas e azuis, com as janelas amarelas e o telhado verde. Dava para ver claramente grandes sacolas brancas lá dentro, e as crianças corriam maior parte do tempo envolta delas, parando perto da escada e tentando espiar. Era claro que eram os presentes do dia de Annuräh.

— Ansiosos para os presentes? – perguntei a crianças que estavam falando com Raquel.

— Sim!

Como o esperado, aliás. Peguei um lenço na mesa pra tentar tirar um pouco do chocolate do meu rosto. Parkin, o garoto que fora socado na primeira vez que o vira tentou subir na casa, mas a gritaria começou e a Sra. Miriã apareceu correndo, e ele se soltou, levando também uma bronca.

— As meninas ainda implicam com você? – perguntei para Alice.

— Não muito. – disse, pegando um doce que estava no prato, e eu peguei o copo de suco.

— Eu nunca brinquei muito com outras pessoas quando era criança. – Raquel comentou, trançando o cabelo loiro de uma menina.

— Você não teve infância. – falei.

— Eu não tinha nenhum irmão ou primo. – rebateu, o que me fez ficar quieto, só bebendo o suco doce mesmo.

— Ei, ei! – Abby apareceu novamente, mais suja do que antes.

— O que foi Abby? – Raquel questionou.

Ela pôs as mãos atrás da costa.

— Você e o Hideo são namorados?

Cuspi o suco e engasguei, fazendo as crianças rirem. Sério que ela uma garota de quatro anos perguntou isso?!

— Ah... Não Abby.

— Mas vocês vivem juntos na rua!

-... Só andamos juntos. – disse me passando qualquer coisa para limpar o suco derramado.

Abby estava me olhando com uma cara sacana. Quando eu tinha a idade dela, eu era tapado o suficiente para não pensar nada disso, ou ela era uma miniatura de Alma. Será que ela estava visitando o orfanato?

— Crianças, é hora... – Miriã chegou, porém começaram a gritar e correram até a casa da árvore, já subindo as escadas. -... Bom, é isso.

— O de todo mundo está lá? – perguntei a Alice, que olhava para a casa.

-... Sim.

— O meu também! – Abby exclamou, pois era claramente pequena demais para subir.

Levantei e fui até a casa da árvore. Não precisava de escadas, apenas subi e vi que dentro dos sacos havia os mais tipos de pacotes embrulhados em papel de presente, com o nome da respectiva criança nele. E era claro que era só um para cada. Não foi difícil encontrar o das duas e saltei da janela.

— Abby. – Lhe entreguei o pacote azul, e ela saiu correndo para abri-lo. Peguei o rosa. – Alice.

Ela pegou o pacote e procurou onde o abria, então tirou um cachorro de pelúcia branco de dentro dele, com uma das orelhas rosa com um laço brilhante e a outra roxa, uma mancha em forma de estrela azul em um de seus olhos verdes, com um vestido lilás. Era até bonitinho.

— Você gostou? – Raquel perguntou.

— Sim!

Raquel começou a falar algo sobre dar um nome pro bicho de pelúcia, quando vi um cara de toga e calça sentado encima do orfanato, e ele estava olhando para mim. Suspirei e fui até lá. Ele tinha o cabelo castanho e bem curto, caindo apenas um pouco sobre a testa, com um rosto bem semelhante ao de Djan, mas seus olhos azulados encaravam o nada, e havia um bicho estranho, minúsculo e cor de rosa em seu ombro. A cabeça lembrava a de um lobo, mas havia três pontos vermelhos em sua testa, os olhos eram completamente negros, tinha asas de borboleta e uma cauda bem peluda.

— Estava esperando ver se me percebia. – disse, encarando o nada e o bicho chiou.

— Foi mal. Quem é você?

— Hine. Sim, sou irmão mais novo do Djan. – franzi o cenho e ele sorriu. – Você ia me perguntar daqui a dez minutos, então melhor responder agora.

Ia responder alguma coisa, mas lembrei que a mãe de Djan era vidente, então, nunca se sabe. Ele poderia ter puxado a ela.

O bichinho chiou, e ele levantou.

— Essa é Inyx. Ela é os meus olhos.

Franzi o cenho e ela chiou para mim. Se ele diz...

— Ah é, o centro de pesquisas ia atrás de você daqui a uns cinco minutos, porque Farx esqueceu que tinha terminado os equipamentos, coisa e tal, então vim aqui. E se o Djan vier atrás de mim, eu não saí do templo, e ainda estou com Eisha.

Ele foi embora e olhei para baixo, e Raquel estava me olhando. Só falei um “já volto” que ela com certeza escutou e saltei, indo em direção ao centro de pesquisas. Não demorei muito a chegar lá, e quando cheguei lá, Farx começava a sair correndo.

— Hideo! Eu ia atrás de você agora!

— Um menino do templo disse para eu vir aqui.

— Menino?! Que menino?!

— O nome dele era Hine.

— Ah... Aquele garoto é um vidente também... Não faz mal. – ele imediatamente voltou para dentro do prédio comigo em seu encalço. – Onde está aquela garota bonita que quase sempre está com você?

— No orfanato. – respondi.

— Ah, depois peça para ela vir aqui. – disse. – Porque as coisas dela também estão prontas.

Usamos aquele elevador gigante de novo e havia uma sacola média ali, com algumas coisas. Ele abriu ela e tirou o que me pareceu um protetor que parecia uma luva só que com apenas uma parte dos dedos, conectada ao resto que deveria chegar até os meus cotovelos.

— Veja! – o jogou para mim. Era realmente muito mais leve que as armaduras que usava quando estava na Ordem. E só de tê-lo em mãos podia ver que era bem mais resistente. – O que acha?

— É bem resistente. – falei, forçando minhas mãos nele, que não cedeu de maneira nenhuma. Bom sinal.

— Queria ter aprontado mais cedo... Soube que você foi atacado naquele dia mesmo, não foi?

Assenti, pondo o protetor em meu braço e o examinando. Sua superfície era rígida, mas ao toque do dedo ele ondulava como água, dando um efeito bonito, mas o que valia mesmo era a resistência.

— Fizemos uma roupa com aquele tecido. – comentou. – E mais umas coisas que talvez sejam úteis, mas que... Bem, já estavam prontas, mas ninguém achava útil.

— Tipo...?

Ele pegou algo que me pareceu um pequeno tablete, então puxou a ponta. E de novo. E de novo. E de novo...

-... É um colchão?

— É!

— Ótimo, se dormirmos em cavernas, ao menos não vai ser em pedra. – soltei com sinceridade. Os nove anos que eu passara dos meus onze aos vinte anos nessa situação haviam me traumatizado, já que eu não estava tão nas graças dos curadores, então eles faziam questão de não me dar sacos de dormir. Que também não eram tão confortáveis assim.

— Também temos uma garrafa térmica e um conservador de comida.

— E porque ninguém quer essas coisas?

— Não sei, mas... – pôs as coisas dentro da bolsa e lhe entreguei o protetor. – Faça bom proveito! Chame a garota!

— Tá bom. Obrigado Farx.

Saí de lá e voltei imediatamente, mas Raquel não estava lá.

— Hideo, que sacola é essa?! – Kaste, um menino de dez anos, loiro com sardas perguntou pra mim.

— Hã? Ah, bem, são coisas que vou precisar pra onde eu vou. – respondi.

— O quê, você vai embora?! – pareceu que várias falaram ao mesmo tempo, e soltaram um imenso “aaaaaaaaaaaahhh”, e vi Alice me olhando.

— Hã, bem, eu vou voltar, acho. – falei o “acho” bem mais baixo. – Cadê a Raquel?

— Ela também vai?! – outro “aaaaaaaaaaahhh”. Kaste as olhou, irritado.

— Djan veio atrás dela, ele disse algo sobre a mãe dele querer falar com ela. – Alice falou.

— A mãe dele? Acho melhor esperar... Tchau pessoal.

— Pra onde você vai?! – alguém gritou, mas eu já estava virando a esquina em direção ao templo. Chegando lá, vi Elizabeth e Eisha nas escadas.

— Aconteceu algo Hideo?

— Hã... Não. Estou atrás da Raquel. – respondi com simplicidade.

— Ela acabou de entrar pra falar com a mamãe. – Eisha anunciou, e percebi que ela estava com Inyx em mãos, que chiou ao me ver.

— Se eu fosse você esperaria sentado... – Elizabeth comentou, então foi o que fiz. Olhando para o mini lobo voador que Inyx era, comecei a me perguntar onde Moko estava... Só reparara agora que ela nunca mais aparecera para vir roubar meu travesseiro.

Inyx começou a voar e dava a estranha sensação de que seu corpo era pesado demais para as asas translúcidas, mas dava para ver que era firme o suficiente para não cair e apenas ficou rodopiando envolta da cabeça de Eisha, antes de planar até o chão.

— Hideo? – Raquel me chamou depois de mais ou menos meia hora, e me virei para olhá-la. – O que foi?

— As coisas ficaram prontas. – falei me levantando e virando-me para ela. – Farx pediu para que eu te avisasse.

Ela assentiu e olhou para o chão, parecendo pensativa. Franzi o cenho.

— Aconteceu algo?

— Hm, nada não. Estou indo! – avisou, descendo as escadas com velocidade. Preparava-me para segui-la, mas Elizabeth me chamou.

— O que foi?

— Você tem algum interesse nessa garota? – perguntou com um sorriso.

Sério mesmo que vão tirar hoje para ser o dia em que vão perguntar se eu tenho algo ou algum interesse com Raquel? Até Daichi havia perguntado sobre isso!

— Er...

Eisha estava me encarando, então decidi descer as escadas, escutando a risadinha sutil de Elizabeth. Voltei para a casa, sentindo que a maioria havia saído, só estava praticamente Raiden e Anita lá. Abri a porta e o vi em seu lugar fixo, o sofá, enquanto Anita saía da cozinha.

— Anita, posso falar com você? – questionei.

Raiden nos olhou, antes de levantar e sair pela porta da frente. Anita me olhou com curiosidade e assentiu.

— As minhas coisas ficaram prontas hoje, as de Raquel também. Tem algum problema se saíssemos já? É de manhã ainda, então talvez desse para que avançássemos bastante hoje.

-... Acredito que não faz mal, mas você é o único que consegue detectar Auras reprimidas aqui, então não sabemos se pode ter alguém espreitando além dos muros.

Pensei em alguma coisa rápido. Já havia se passado uma semana desde que Daichi aparecera, e eu não estava muito a fim de deixá-lo com raiva. Esperava que a demora não tivesse o irritado.

— Nós podemos ir até lá e retornarmos imediatamente. – falei, e ela me olhou com uma expressão de “quem garante que você irá voltar?”, mas acabou assentindo, então decidi subir para colocar logo os equipamentos.

Eles haviam feito uma espécie de macacão de mangas compridas e outro sem com aquele tecido, e como era leve, não esquentava muito, o que era bom. Consegui por o sem mangas com facilidade e fui ver o resto. Não foi difícil deduzir que eles optaram por nossa velocidade, pois não havia muita coisa. Apenas tornozeleiras, joelheiras, aquele protetor para os braços e ombreiras leves que se conectavam a eles. Havia também um cinto, e só então lembrei da adaga que pegara há algum tempo, então fui mexer no guarda roupa atrás dela, lembrando de pegar o bracelete que Daichi me dera. Coloquei-o dentro da sacola e só pus a parte inferior que consistia no cinto, joelheira e tornozeleira, e pondo também o símbolo de Yudai na sacola, que joguei sobre minhas costas e desci. Anita estava na cozinha, e percebi alguns pacotes de comida sobre a mesa.

— Separei comida. – avisou. – E Raquel já chegou, então falei com ela.

— Obrigado Anita. – Falei, pegando o que era reservado à comida na sacola, e quase tudo coube. O resto iria com Raquel. Peguei a garrafa e fui enchê-la, enquanto Raquel descia as escadas. Ela usava o macacão de mangas compridas, mas não tudo, assim como eu, só a parte inferior por enquanto. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, e ela pegou o resto da comida.

— Boa viagem. – Anita disse com um tom de ironia em “viagem”.

Saímos da casa e vi Raiden sentado no barranco, mas resolvi deixá-lo lá.

— Para onde vamos? – perguntou baixo.

— Para a maior cachoeira a leste.

-... Hideo, tem várias cachoeiras a leste...

— É a segunda. – ela me encarou. – Ora vamos, Raquel... Você acha mesmo que não procurei saber nada sobre as redondezas? – ela desviou o olhar. – Assim você me magoa.

— Você fez uma piada? Sério? – me olhou surpresa.

— Foi apenas um inocente comentário... – baixei o olhar. – Vamos saltar os muros, menos burocracia...

-... Com os soldados que nos odeiam. – completou.

— Exatamente.

Fomos em silêncio o resto do caminho e escalamos uma das áreas do muro, saindo rapidamente. Assim que pousei, comecei a verificar se não havia nenhum engraçadinho pronto para nos matar, mas verifiquei apenas alguns monstros normais, estes bem distantes. Olhei para o céu, vendo que o sol não havia chegado a sua metade. Era na direção dele que deveríamos ir então.

Foram necessários alguns minutos para chegarmos até a floresta, a cidade já distante atrás de nós, então perguntei:

— O que a sacerdotisa Teresa queria falar com você?

-... Ela me deu um anel. – estendeu a mão direita, mostrando um delicado anel que não vira antes. Era de ouro branco, fino formando duas linhas e com uma transversal ligeiramente inclinada demais incrustada com diamantes. No centro dele, com a linha passando ao lado tinha uma rosa de ouro branco incrivelmente realista com uma pedra vermelha no centro. Era ao todo um anel bastante bonito. – Ela disse que precisaria entender língua antiga e que isso me ajudaria.

— Muito mais discreto do que o que eu ganhei. – tirei a sacola das costas apenas para pegar o bracelete. – Videntes me dão medo. Mesmo que não tenho sido uma delas que tenha me dado isso.

— Eles sempre sabem o próximo passo que você irá dar, mas nunca avisam se você irá morrer.

— Exatamente. – concordei, percebendo que eles poderiam ter justamente dito alguma coisa sobre o que teríamos pela frente.