Mehr als je zuvor
1 OneShot
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Mais do que nunca
O rangido parecia mais distante do que de fato estava. O vento gélido invadia o cômodo e debatia-se contra as paredes verdes. A janela estava aberta demais para um castelo pertencente à nobreza.
“Elsa...”, soprou Anna sozinha “rainha Elsa de Arendelle”.
Mas a frase lhe soava estranha.
Definitivamente deveria se acostumar com a ideia de que sua irmã mais velha era rainha e governadora de todo um povo. Expectativas, compromissos reais, uma imagem a zelar. Difícil imaginar tamanha responsabilidade para uma garota que fora mantida por mais de dez anos trancafiada e negligenciada em seu quarto tenebroso e frio. Anna custava acreditar no cárcere da loira e sempre que pensava no caso, sentia seus pelos da nuca ouriçarem.
Como mágica, a imagem de Elsa brotou em sua mente: não mais uma criança fechando a porta do quarto, com um brilho de mágoa nos olhos; Elsa havia adquirido curvas invejáveis, possuía um olhar penetrante e era respeitada.
Assim como também era temida.
Anna suspirou e rolou pela cama de casal, dando as costas à janela. Mesmo depois de pouco mais de um mês, a garota ruiva conseguia sentir as lágrimas culposas de Elsa em seu pescoço, além das unhas apertando seu ombro de forma possessiva, em um abraço doído.
Deve ter sido uma cena triste de se assistir...
Como uma sequência de filme, Anna repassou a continuação da cena em sua memória. O sorriso sincero de Elsa quando viu a garota ruiva de volta à vida. Anna sentia-se fraca e com frio, mas acima de tudo uma chama há muito apagada de seu coração voltava a brilhar. Naquele momento não viu Hans, Kristoff, os camponeses ou embaixadores, só conseguia observar os olhos escuros e vermelhos de Elsa, que finalmente parecia tê-la enxergado e recuperado a razão.
Anna decidiu que não conseguiria pegar no sono, que já lhe parecia um conhecido distante. Caminhou até a janela, observando o jardim e alguns poucos vagalumes alegres. Depois de vários dias nublados, o céu dera um descanso a si próprio. Era possível enxergar a lua e poucas nuvens escuras encobriam as estrelas que Anna tanto admirava.
Eu poderia visitar Elsa... Mas ela pode não gostar e fechar a porta na minha cara como sempre aconteceu. Oras Anna, que pensamento pessimista! Elsa sabe que pode contar comigo e que não precisa mais se esconder por trás daquela maldita porta. Foi tudo uma brincadeira amarga do destino...
A garota abriu a porta do corredor e espiou rapidamente. Teria problemas se alguém a pegasse fora de sua cama, a considerar o quão tarde era. Bateu a porta do quarto com um baque abafado e estampou no rosto um olhar de vitória.
Mesmo após a coroação, Elsa havia por decidido permanecer no mesmo cômodo, mantendo o quarto real e as memórias de seus pais intactos. Qual não foi a surpresa de Anna ao sentir um peso familiar na boca do estômago ao encarar a porta branca do quarto de Elsa? Havia se sentando tantas vezes ali, conversara tantas vezes com aquela porta que já tinha perdido as contas.
Com a garganta seca, Anna sentia-se entorpecida. Excitada com o perigo e a ideia de se aventurar em terras proibidas. Encostou a ponta dos dedos na maçaneta dourada e redonda.
É a maçaneta mais gelada que eu já peguei na vida, meu deus...
Com a coragem do sangue nórdico que corriam suas veias, Anna girou o pedaço de metal frio. Segurou um grito de felicidade ao de fato descobrir que a porta estava destrancada.
Mas a cama estava vazia.
Anna buscou rapidamente o quarto, até localizar a loira cochilando sobre um amontoado de papéis, numa mesa de madeira maciça mais ao canto do cômodo, ao lado da porta que levava à varanda. A mulher trajava uma camisa de cetim branca, deixando seus braços expostos enquanto seu robe azul escuro descansava sob o encosto da cadeira. O cabelo loiro bagunçado lhe dava um tom mais humano e menos soberano.
“Oh Elsa... Como senti sua falta”, Anna sussurrou com a mão no coração, encarando a cena como uma das mais belas já vista “Se bem que você parece pra lá de exausta...”.
Okay... Vim até aqui! E o que você queria mesmo, Anna? Quando éramos crianças eu tinha esse costume, mas não posso acordar a rainha para construir um boneco de neve hoje.
Anna não pode deixar de imaginar a situação e a cara de confusão da mais velha. A garota mordeu o próprio polegar para não correr o risco de rir e acordar Elsa. Após alguns momentos de reflexão, Anna tomou a sábia decisão de ir embora.
Porém.
O destino era sádico e gostava de colocar Anna em situações constrangedoras.
Ao mudar o caminho de seus passos, Anna deu de cara com um temido criado-mudo e um copo d’água vazio. Para a infelicidade de Anna, ambos foram mais rápidos que ela, que esbarrou na gaveta aberta. O Som do vidro estilhaçando-se contra o chão deixou Anna em estado de alerta, buscando rapidamente a porta entreaberta.
“Anna?”
Travada na porta, com os ombros encolhidos Anna choramingou internamente, pensando o quanto era estúpida. Não havia mais volta, tinha que falar com Elsa ou parecer uma eterna estranha que espiava a própria irmã no meio da noite.
“Elsa” sorriu e se virou de forma tão rápida que foi inevitável a batida da sua testa contra a porta. Uma dor latente e instantânea rodeou Anna, que levou ambas as mãos à cabeça, gemendo baixinho. Ao se agachar pode sentir Elsa levantando, caminhando em sua direção.
“Cuidado com os cacos de vidro, Elsa...”.
“Está tudo bem contigo?” a loira perguntou com um tom gentil, quase como o de alguém que conversa com uma criança que caiu na bicicleta.
“Só bati a testa” Anna encarou sua irmã, que tinha algumas poucas olheiras “Elsa, eu...” claramente envergonhada com a situação, a ruiva coçou a nuca e se ajeitou para deixar o quarto.
“É tarde, Anna. Se veio até aqui é porque precisa de algo. Aliás, venha e sente-se, enquanto pego um pano limpo”.
“Eu...”
Hey Elsa, eu não conseguia dormir e resolvi dar um passeio! Estou um pouco carente, sabe? Se importa?
“Eu não conseguia dormir e achei que podíamos conversar um pouco. Descobri que era uma má ideia só quando cheguei aqui” confessou Anna, pegando o pano que Elsa acabara de congelar e lhe oferecia, indicando a testa da garota. Anna teve um sobressalto ao sentir o pano gélido contra sua pele quente.
“Oh Anna, eu adorei a visita, mas agora você está com a testa machucada”, Elsa sorriu, se aproximando e beijando a testa da irmã. Instantaneamente Anna sentiu o sangue lhe subir às bochechas.
Anna deixou seu pensamento vagar até o período da manhã, quando o médico real bateria em sua porta para verificar a princesa e então veria um novo hematoma. Ele havia recomendado repouso por, no mínimo, quatro semanas depois da confusão provocada por Hans. Anna, porém, sabia que estava ótima, com dois hematomas e o coração levemente derretido de amores pela rainha do gelo.
Nada muito grave, ele terá que entender...
Anna se atirou na cama arrumada da irmã, exalando um dos cheiros mais nostálgicos e antigos que tinha armazenado em sua mente.
“Vou dormir aqui, Elsa”.
“Como?”, Elsa sorriu divertida, erguendo as sobrancelhas.
“Isso mesmo. Estou machucada e sem condições de ir até os aposentos da princesa”.
“Ah claro...” a loira respondeu. Com uma baixa rajada de vento fechou a porta do quarto e sorriu “Mas hey, Anna, aqui pode ser um pouco frio” e dito isso, lançou mais uma rajada de frio por uma abertura dos cobertos que Anna havia se enrolado.
“Elsa!” gritou Anna, protestando.
A mulher mais velha se acomodou na cama, cutucando o braço da irmã.
“Não queria conversar?”
“Hm...” Anna ponderou, se ajeitando na cama. Se permitiu encostar suas pernas às de Elsa, mas por um breve momento se afastou.
“Oh meu Deus, Elsa, como você é gelada!”
Elsa riu um pouco mais.
Óbvio que ela está fazendo isso pra me sacanear, que droga. Ela é adorável quando se deixa curtir um pouco.
“Sou a Rainha do Gelo, certo?” Elsa sussurrou contra a orelha da caçula, que sentiu o hálito quente de Elsa. Pela segunda vez naquela noite Anna sentiu sua nuca arrepiar e seu rosto quente.
“Sei... Mas aposto que posso derreter um pouco desse teu gelo!”
“Ora, temos um tom de desafio no ar!” Elsa sorriu “Vamos lá Anna, não consegue nem me deixar envergonhada”.
Diversas situações e ideias golpearam Anna, mas só uma podia ser infalível e a garota ruiva já a tinha visto em prática diversas vezes.
Um beijo.
Anna sentou na cama, encarando Elsa nos olhos dilatados devida a falta de iluminação; a lua estava a fazer seu serviço. Levou suas mãos ao rosto de Elsa, tocando a face da outra com a ponta dos dedos e logo em seguida com a palma da mão. Deslizou a mão direita para o pescoço de Elsa e em um piscar de olhos, sentiu os lábios de Elsa sob os seus. Um formigamento gostoso tamborilava em seu estomago, o calor, a maciez. Mais do que nunca Anna teve vontade de explorar o desconhecido e ver até onde poderia ir. Sorriu durante o beijo, deixando suas mãos cair, quando sentiu as de Elsa em seus ombros. Ao se afastar, a gloriosa vista de Elsa ruborizada e ligeiramente ofegante.
Anna cogitou se vangloriar, mas por algum motivo, o clima pareceu tenso. Ambas olhavam para pontos distintos do quarto quando Anna bocejou e voltou a se deitar. Fechou os olhos brevemente, perdendo o que Elsa cochichou baixinho. Decidiu puxar um assunto qualquer, que logo acabaria e então poderia dormir.
“É difícil ser rainha?”
A resposta demorou chegar.
“De certa forma. Todos esses doze anos que passei trancada no quarto tive lições de como ser uma boa governante. Li sobre formas de políticas, sobre como ser uma boa monarca, sobre como manter o povo feliz, ligações exteriores...”.
“Parece chato”.
“De fato é, Anna. Eu não queria estar nessa posição. Mamãe e papai eram melhores”.
Anna não soube o que responder. Ela só fechou os olhos e reparou que nunca a escuridão havia sido tão confortável.
Nunca o respirar de outro alguém foi tão confortável.
A manhã seguinte chegou com sol alto e forte. Um calor aconchegante envolvia Anna, que abriu os olhos surpresa. Demorou a se acostumar à visão nada comum e realista de Elsa abraçada a si, com a respiração calma e um semblante passivo.
“Eu te amo tanto, Elsa...” Anna não conseguiu conter o sorriso.
Era um sentimento estranho, mas se preservou no coração de Anna. Queria beijar Elsa e apertá-la entre seus braços.
Nunca mais deixaria Elsa sofrer.
Elsa se mexeu, até que enfim abriu os olhos. Parecia bastante incomodada com a claridade excessiva do quarto.
“Sua testa está roxa” disse a rainha, que se elevou os braços, se espreguiçando. Nesse curto período, Anna pode reparar nas poucas e claras pintas que Elsa possuía nos ombros “Tenho uma reunião agora. Vamos tomar café?”.
A ruiva não escutou o convite amistoso da outra, pois estava vidrada contando cada uma das pintas que salpicavam o corpo da outra. Elsa havia adquirido um tom de pele quase que impossível de se alcançar de tão pálido. Anna firmou em mente que sua irmã de fato necessitava de um banho de sol e que vitamina D faria bem à loira.
“Anna?”
“Hã?” Anna piscou, voltando à sua própria realidade.
“Café...?”
“Hã... Você quer tomar café comigo? Certeza?” Anna apontou pra si própria, com uma insegurança evidente na voz.
“Vamos Anna”, Elsa se aproximou, com um determinado olhar malicioso. Beijou o canto da boca da irmã mais nova e levantou-se, caminhando até seu closet.
“Claro...” a ruiva tocou com a ponta dos dedos o lugar no qual recebera o beijo. Um sorriso tão largo que poderia facilmente ir de orelha a orelha.
Tudo ficaria bem, pois estavam juntas.
Sempre estariam juntas.
E talvez mais do que nunca...
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