Meet the Huntar'z

5 G E O R G I N E


G E O R G I N E

deusa guerra / deusa brava

Estive hesitante em relação ao próximo passo de meu projeto de entrevistas por um tempo. Isso porque o próximo encontro seria com Georgine, e ela, num âmbito geral, sempre foi a mais complicada de nossas filhas, a mais difícil de se lidar.

Diante seu histórico de ciúmes, inveja, possessividade e grandes ações tóxicas para com a minha pessoa, ainda era difícil crer ou me posicionar sobre as notícias mais recentes sobre seus verdadeiros sentimentos sobre mim.

Em verdade, é sempre meio difícil me posicionar sobre quaisquer coisas que venham da Georgine. Ela é… peculiar. Não que isso seja verdadeiramente um problema, mas torna as coisas mais complexas.

Em algum momento, eu simplesmente engulo a minha hesitação.

Eu não posso resolver o que já nos ocorreu e ainda é muito cedo para eu entender de onde vinha aquela sua nova onda de afeição nada platônica. Se eu for parar por um momento para tentar compreender o que rolava naquela cabecinha em específico, eu provavelmente ficaria eternamente presa nisso e meu projeto logo seria engolido pelas traças. E isso não poderia acontecer; os outros já estavam esperando e se preparando para suas próprias partes.

Sentada na minha própria cama, abro a gaveta invisível em que guardo meu caderno e a caneta mágica, de uma forma tão natural, que fazia parecer que eu sempre tivera confiança o suficiente para simplesmente agarrar o ar e saber que algo estaria ali sob meu comando.

Agarro os materiais e os abraço por um instante, pompom rosa amassado contra meu rosto. Realmente parece que há algo de senciente nessa caneta, pois toda vez que a toco é um conforto delicado. Conto até dez lentamente, respirando com calma para tranquilizar a mente. Levanto no nove e saio do quarto antes de chegar ao dez.

Da porta para dentro, guio-me pelo instinto e pelo conhecimento pleno de cada objeto no meu espaço favorito. Da porta para fora, os meus guias são as paredes e os feixes de luz dourada, que pareciam se dividir e se multiplicar nos últimos tempos, iluminando por todas as partes os limites do espaço e as direções que eu deveria seguir para chegar ao meu objetivo.

Não demora muito até que eu chegue no quarto de Georgine. Mais uma vez sei que estou no lugar certo quando todos os feixes se reúnem, dançando no formato de uma porta. Por serem cada vez finos e numerosos, as formas que tomavam quando se juntavam pareciam ser cada vez mais detalhadas.

Tento não dar muita atenção para isso enquanto bato no vão da porta, imitando com minha própria voz o som que minha mão fazia.

— Toc toc?

Ela parece ocupada no momento em que chego, já que posso ouvir sua voz explicando, de forma até branda, para alguém dentro do quarto com ela:

— Então você só precisa mirar no ponto certo e balançar a clava no ângulo de quarenta e cinco graus para lançar… — se interrompe por um momento. — Pode entrar! — responde, autorizando minha entrada, com um tom de voz mais enérgico que o que usava anteriormente, logo voltando a sua atenção novamente para o que parecia ser sua mais nova aprendiz. — Você só precisa mover-se mais e bater com menos energia, okay? — continua, enquanto abro a porta e entro no quarto.

Não demora muito até que eu descubra quem era a pessoa que recebia suas explicações, porque sua voz infantil é instantaneamente reconhecível.

— LA-TO ETEDEU! — grita, animada e, quase como se tivesse sido puxada por um ímã, vira-se para mim. — VOVÓ! — grita de novo, parecendo ainda mais animada do que antes, se é que isso era possível. Meu rosto se ilumina imediatamente, um enorme sorriso cobrindo-o por inteiro.

— Olha só que surpresa boa! Oi, bebezinho! — digo, toda afeição e felicidade de vê-la estampadas na voz. Agacho-me no ponto em que estava, abrindo os braços para a netinha de cabelinhos naturalmente cor-de-rosa na intenção de abraçá-la. — Cadê meu beijinho?

Ela abre um enorme e apaixonante sorriso em resposta; um que até eu conseguia ver com clareza, pois aquecia todo o seu rostinho com amor.

— BABÁ! — chama, na língua Mao, correndo até mim e me abraçando com força. Envolvo-a com carinho, toda felizinha, voltando-me para olhar minha filha quando ouço-a dizer:

— Oi, mamãe. — já tinha ficado estabelecido que eu era a Mamãe e a Luci era a Mãezinha; em uma família com teoricamente três mães e um pai precisava determinar coisas assim para saber exatamente de quem se tratava.

— Oi, meu bem. — respondo, me levantando, trazendo a neta junto enquanto segurava-a no colo. — Vocês estão fazendo o quê? — questiono enquanto ajeito o peso da garotinha rosada em meus braços.

— La-to xá fai! Tiau! — ela fala muito apressadamente, saindo do meu colo rápida como um relâmpago, fazendo o meu esforço de ajeitá-la uma tentativa inútil.

— Oxi! — exclamo, um pouco assustada com a velocidade de sua partida, tentando por um segundo observá-la indo embora, mas sem muito sucesso. Ela já tinha ido. Então, volto-me novamente para Georgine, apenas para ouvi-la dizer:

— Eu estava a treinando. Ela é minha pupila…

— Sua pupila? — tantas coisas que eu não sei sobre as dinâmicas internas dessa casa… — Desde quando?

— Desde que ela ganhou a arma.

— Isso faz muito tempo? — tento não parecer muito surpresa ao perguntá-la sobre isso, mas meu tom de voz me trai. — Nem sabia que ela tinha ganhado a arma dela, já. — as linhas temporais eram tão confusas, no final das contas, que muitos dos eventos importantes para os membros de minha família ficavam perdidos no meio de centenas de anos de diferença de um plano para o outro. Eu perco muita coisa estando presa em um plano físico de matéria tão densa.

— Ela ganhou junto com seus irmãos. — Lightning, o nome da menininha cor de rosa que se chamava de “La-to” por não conseguir pronunciar seu apelido, Light, era apenas uma em seis crianças que nasceram de uma mesma gestação. — Eles tinham… Um ano e pouco? Estão com cinco já. — tento esconder a expressão de surpresa ao ouvir a idade atual dos sêxtuplos de Annie, mas também sem muito sucesso, já que meus olhos se arregalam instintivamente. Cada emoção sempre foi muito bem desenhada em meu rosto; não seria agora que isso mudaria.

— Deusa amada… Eu tô velha e desatualizada. — solto, maravilhada e assombrada com a mudança dos tempos. — Mas principalmente velha. — finalmente me chega a realização que os netos de uma das minhas filhas mais novas já têm cinco anos, e eu sinto todos os intensos anos de minha vivência pesando em minhas costas.

— Nah. O tempo passa diferente aqui, lembra? — alega Georgine, como se fosse a coisa mais trivial do mundo ter mais de vinte filhos e quase quarenta netos.

— Eu continuo sendo velha. — contesto, um pouco incomodada. — Velha o suficiente para vinte e um filhos e uma caralhada de netos, que eu não sei quantos. — nunca havia parado para contar quantos filhos meus próprios filhos tinham tido em suas jornadas amorosas, com pessoas de fora da família ou entre eles mesmos; apenas sabia que eram muitos.

— Não a vejo assim. — ela se opõe.

Na minha cabeça, pergunto-me sobre como exatamente ela me vê.

Porque durante anos ela me tratou como se eu fosse um grande empecilho para ela conseguir chegar onde ela queria, que seria no centro das atenções de seu pai, um que desejou como amante, melhor amigo, marido e pai de seus próprios filhos por muito tempo. Fez de tudo que podia para nos separar, até mesmo invadindo corpos alheios para conseguir realizar seus truques manipulativos. E, quando eu achei que estávamos bem acima disso, que tudo isso havia ficado para trás, há uma imensa reviravolta nos eventos quando, há poucos dias atrás, entre a entrevista de Maureen e a sua própria, sua declaração de amor havia chegado em mim.

Para além de ter desenvolvido um amor cego pelo próprio pai, ela acabou desenvolvendo também um amor por mim. Um do tipo nada maternal. Um que envolvia avanços descarados em tentativas de conseguir toques nada parentais. E, embora o incesto seja verdadeiramente comum em nossa família, essa parte já me parecia para além do que eu poderia lidar.

Já me bastava a Katerina sendo eternamente apaixonada por mim (também em uma maneira não-platônica), agora também tínhamos Georgine no mesmo problema. A diferença entre as duas é que, com a minha proximidade com a Kat, ela aprendeu a lidar com seus desejos carnais e sentimentos passionais por mim, enquanto Ginny parece intensamente interessada em colocar todos os seus papéis como filha de lado para participar do nosso trio já bem fechado entre eu, Luksifer e Lucith.

De onde isso havia surgido, eu ainda não sei. E talvez seja melhor eu não ficar tentando ir muito a fundo no que ela pensa sobre mim, pois talvez eu não goste da resposta ou não queira lidar com ela. Eu já não sei lidar com o “complexo de Édipo” de uma, imagine de duas.

— Isso não me tira os meus trilhões de anos. — me oponho, com um tom mais sério, mexendo bem levemente a cabeça como se quisesse retirar os pensamentos de dentro dela. Não quero que fique estampado na minha cara que estou em conflito interno por conta dela, então faço um esforço para suavizar meu tom de voz e brincar com ela. — Só porque meu corpinho terrestre tem vinte, você tá achando o quê?

Ela parece não notar que há pelo menos duas versões de mim gritando dentro do meu próprio cérebro, no desespero de nunca saber muito bem lidar com Georgine. Isso porque, enquanto isso ocorre em minha mente, ela mantém uma postura despreocupada, puxando um cigarro de uma carteira de metal repleta deles e acendendo-o com serenidade.

— Só quinze. A senhora é novinha ainda. — contesta ela novamente. Eu tento não ficar brava quando ela diz isso, porque sei que ela não está falando por mal. Mas a forma como ela fala mexe com um nervo dentro de mim; eu já tinha quinze trilhões e alguns mirrados de anos quando ela nasceu (teoricamente) de mim.

Faço esforço para não demonstrar que estava irritada com alguma coisa, a voz da Destruidora soando nervosa enquanto me pedia calma para prosseguir. Para esconder, solto uma risada que parece apenas levemente desconfortável e concordo com ela, para não ir mais a fundo nesse assunto.

— Sim. — concluo, depois da risada.

— O que a traz aqui? — questiona ela, fazendo com que seguíssemos para o nosso objetivo de uma vez. — A entrevista?

Aproveito essa fração de momento para prestar maior atenção nela, em si. Já estamos falando dela, Georgine Huntar’z é uma mulher de estatura mediana, magra e com uma boa musculatura para seu corpo pequeno, de pequenas curvas. Por ser um demônio, sua pele é originalmente vermelha, mas por várias vezes você pode vê-la transmutada com a pele branca, quando se sente desconfortável com seu tom rubro natural. Seu cabelo é loiro e segue um corte que mescla o rebelde com o militar. Seus olhos são de um tom específico esverdeado que parecia gritar um aviso a todos para que tomassem cuidado, pois algo que venenoso poderia ser visto ali. Aos meus olhos, ela sempre tivera uma aura de tons tóxicos de verde ao seu redor; isso parece ter mudado de alguma forma, pois agora até estar perto dela é mais tranquilo, mesmo que bastante confuso.

Uma boa forma de descrevê-la seria uma garotinha padrão que visualmente parecia fofa e inofensiva, mas que, ao abrir a boca, produzia uma vibração completamente diferente da que se imaginava para uma mulher como ela. Se ela mesma fosse uma arma, ela provavelmente seria uma daquelas faquinhas que abre e fecha cor de rosa, com uma Hello Kitty estampada.

Não consigo vê-la muito bem, mas posso ver a fumaça subindo de seu cigarro, quase que desenhando seu rosto em formato de coração aos meus olhos. Pisco uma vez, depois outra, antes de respondê-la.

— Sim. A entrevista. — digo, então meneio a cabeça em sua direção. — E esse cigarrinho aí. — há algo em ver alguém fumar que torna irresistível a vontade de acompanhá-la no fumo também. — Me dá um. — faço um biquinho, tal como criança pidona; admito que até eu me acho fofa agindo assim.

— Eu fumo, oras. — ela diz, como se eu apontar para seu cigarro com a cabeça fosse um pequeno julgamento. — Quer um? — é óbvio que eu quero um; ela oferece a carteira de metal para mim e eu pego um, acendendo-o rapidamente com o indicador da mão direita. Se Destruidora é fogo e eu sou eletricidade, sua mão de ação é mestre em simplesmente atear chamas nas coisas. Não é tão difícil acender um cigarro ou um baseado com dedos mágicos e energéticos.

— Eu não perguntei. — respondo, tragando-o longamente. Talvez seja bom fumar durante essa entrevista. Meus nervos ficam verdadeiramente à flor da pele quando se trata da Ginny; eu nunca soube exatamente o que fazer com ela, depois de anos de negação do meu amor materno por parte dela. — Eu disse que foi ele quem me trouxe aqui. — é mentira, mas é bom saber que, na pilha de hesitação que eu carregara comigo até ali, eu tinha um pequeno alívio, mesmo que fosse apenas nicotina.

Trago mais uma vez antes de ajeitar meu caderno, trocando-o de braço, em um movimento ansioso e desconfortável que eu torcia para que ela não soubesse ler.

— Você conhece o processo? — pergunto, voltando ao ponto principal.

— Não. — sua resposta é serena enquanto ela continua fumando, olhando diretamente para mim, em um fervor silencioso que pareceria sutil se eu não estivesse tão preocupada com o que ela estava pensando sobre mim.

— Eu chego. E aí você descreve pra mim onde a gente tá. Porque né… — mexo a mão que carregava o cigarro na frente dos meus olhos, conseguindo enxergar só a pontinha dele queimando, acesa, sem ver nem ao menos o movimento que minha mão fizera na frente de meu rosto. Isso serve apenas para lembrá-los que sou cega; mesmo sendo mãe deles, eles costumam esquecer ou agir como se tivessem esquecido. — E aí a gente vai pras perguntas.

Puxo meu caderno, tirando a caneta cor de rosa com o pompom na ponta de dentro dele, indo diretamente para a página de perguntas.

— Depois que a gente terminar, eu vou pegar tudo o que a gente conversou e escrever sobre no meu ponto de vista. — é um projeto literário, no fim das contas; um projeto pessoal e literário para que eu (e todos que se interessarem) conheça melhor dos meus queridos filhos.

(Sim, porque até mesmo Georgine é uma filha bastante querida, embora seu histórico seja confuso e eternamente diversificado. Sua complexidade e surpresas são parte do que ela é e, mesmo eu não sabendo muito bem como agir diante disso, eu ainda a amo como amaria qualquer um de meus filhos.)

— Bem… Meu quarto não é tão legal quanto dos outros. — ela começa, não perdendo muito mais tempo em me fazer perguntas, apenas seguindo a linha que eu tinha. — Ele é bem parecido com o que tem na Terra como templos japoneses. Não tenho uma cama em si, mas tenho uma espécie de colchonete que uso pra dormir. Gosto mais assim. Tem também o altarzinho que deixo minha arma e alguns pergaminhos. — tento visualizar isso, mas é mais apenas a minha imaginação funcionando do que realmente a visão. — Aquele boneco de treinos eu uso para artes marciais. — diz, apontando para alguma coisa à minha esquerda. — E tem algumas almofadinhas para sentar, caso eu receba visita. — aponta para as almofadinhas, praticamente me guiando até elas. — Pode se sentar, a propósito.

— Hm… Almofadinhas… — digo, um pouco admirada com a suposta estética de seu quarto, uma que eu nunca imaginei para ela ou seu espacinho. Logo me sento no lugar indicado, tomando um cuidado dobrado para não encostar a chama do cigarro em nada, levando-o novamente à boca enquanto terminava de me ajeitar. — Legal. — solto, soprando a fumaça e abrindo o caderno em meu colo, fazendo um leve carinho no pompom cor de rosa da caneta.

— É tudo anti-chama e anti-estática. Então não se preocupe. — ela comenta, percebendo minha cautela.

— Bem… isso é prático. E novamente, legal. — prático, porque se ela fosse treinar a Lightning, ela precisaria de material forte o suficiente para não lidar com os efeitos de suas correntes elétricas; e legal, porque é verdadeiramente legal ter um quarto a prova de fogo e eletricidade. É praticamente um quarto a prova de crises de Lolline e isso é algo que eu sei bem admirar.

— Agora… — continuo. — As perguntas.

— Pode falar. — declara, parecendo prontíssima para qualquer coisa.

— Eu tenho essa caneta. Ela tem um pompom. — pego a caneta e mostro para ela, brincando com o pomponzinho. — Ela vai copiar o que você fala, de acordo com o que eu e ela acharmos importantes. — no final, eu simplesmente acabei aceitando que a caneta é um ser de consciência própria, então vou apenas tratá-la assim.

— Ela é muito bonita, mãe. — comenta rapidamente, despreocupada.

— As primeiras são bem simples. — ignoro seu comentário, indo direto ao assunto. — Nome. Títulos.

A caneta não perde muito tempo, pulando da minha mão e começando a seguir as exatas falas de Georgine, marcando-as na próxima folha em branco no caderno, depois das páginas destinadas à entrevista de Maureen:

Georgine D. Huntar’z.

Mandamento da Pureza. Deusa da Guerra. Deusa protetora das Artes Marciais. Maior Deusa da Guerra entre todos os panteões. E Joker.

Ao dizer o último título, ela me mostra o anel herdado em seu dedo.

Eu conhecia esse anel, muito mais do que eu esperava conhecer. Este era o anel que dava o título de Joker à Lilifer, espírito e energia que agora são minhas e chamo carinhosamente por Destruidora. Como eu e ela somos uma só agora, não necessitamos de dois títulos.

Os títulos principais do Inferno eram os de Queen (Rainha), King (Rei), Jack (Valete) e Joker (Coringa). Esses são títulos herdados e representados por anéis de formatos idênticos e cores diferentes para cada um. Ser a Joker significa que se é o braço esquerda do King, enquanto ser a Jack significa ser a mão direita da Queen. Na monarquia Infernal, não existem coroas, mas sim os anéis, que, em algum ponto, deixavam de ser uma escolha para ser uma obrigação, uma missão, um destino. Nem mesmo se eu quisesse, eu poderia retirar o meu anel de Rainha.

Paro por um instante para olhar a lista de títulos que ela acabara de citar. Muitos deles não me pareciam certos; talvez algo tivesse simplesmente mudado de um dia para o outro. Provavelmente muita coisa havia mudado desde o início de seu tratamento contra si mesma.

Em minha mente, várias dúvidas. A curiosidade é alta e eu não consigo lidar muito bem com a torrente de perguntas que aparece em meu cérebro, então lanço-as todas de uma vez, esperando que ela tenha entendido o suficiente delas para me responder todas.

— Você não era um Pecado? Agora é um Mandamento? — o título que eu esperava que ela me dissesse, envolvendo a Serpente da Inveja, não foi nem ao menos citado. — Qual a cor do seu anel? O meu é rosinha. — digo, mostrando o anel de Queen para ela, com um sorrisinho orgulhoso. — E… Certeza que é a maior deusa da guerra entre todos os panteões? Ares não quer te comer na porrada por falar isso, não?

Eu me pergunto momentaneamente se fez algum sentido eu ter perguntado todas essas coisas ao mesmo tempo, mas ela não demora muito para me responder, recolhendo a mão que me estendera anteriormente para olhar para o próprio anel.

— Meu anel é colorido. Parece uma mistura das cores do arco-íris, como se tivessem sido jogadas aleatoriamente. — responde e eu, por instinto, mexo em meu próprio anel com o polegar da mão esquerda. Acredito que ela tenha mexido em seu anel também, mas não consigo vê-la para dizer se ocorreu ou não.

Ela hesita um momento antes de continuar.

— Eu era um Pecado até… ontem. — pressiono os lábios enquanto a escuto explicar, surpresa e um tanto impressionada com o estranho resultado de seu “tratamento comportamental”. — Foi quando a tatuagem da Inveja sumiu de mim e recebi a Marca da Pureza.

— Como assim? Como isso rolou? — não é choque que há em minha voz, mas uma surpresa contente e uma curiosidade praticamente insaciável. A forma com as coisas funcionam dentro de nossa família sempre me fascinam muito. E não é como se um dia fôssemos cair na rotina para que eu me acostume e deixe de me fascinar; é sempre um acontecimento novo, meio difícil de acompanhar. — Quem é o Pecado da Inveja, agora?

— Foi quando toda a toxina do meu corpo foi purificada e doada. — ela diz, como se não fosse absolutamente nada, numa tranquilidade que poderia parecer até mesmo estranha nela. — Assim que o tratamento acabou, isso aconteceu.

Estamos falando tanto desse tratamento que talvez seja importante eu citar algumas coisas sobre como isso funcionou. É complexo, e talvez você, leitor comum, não entenda muito bem como teria rolado. Mas o poder de Georgine acabou, com o tempo, tendo fortes influências sobre ela mesma, de forma que acabou sendo tomada pelo próprio veneno, fazendo intenso mal a si mesma.

Sendo o seu problema excesso de veneno no próprio corpo, colocamos Poison (a irmã roxinha da minha netinha rosada anteriormente apresentada) para mamar em suas tetas e se alimentar de todas as toxinas possíveis e imagináveis. Por tirar seu alimento exatamente de substâncias venenosas, Poison se alimentou por dias do que havia em Georgine. E, aparentemente, depois do fim de seu tratamento de amamentação, não havia mais nada nela, de forma a ter se tornado pura.

Assinto positivamente com a nova informação, porque faz bastante sentido.

Poison se alimentou com tudo, deixando-a completamente limpa, o símbolo da pureza – embora não tivesse mudado muito em sua própria forma de agir.

Nesse ponto, ambos nossos cigarros já tinham sido fumados e as bitucas, apagadas, cinzas e filtros no cinzeirinho que alguma hora apareceu ali.

— Se eu te contar quem é a nova, estraga sua entrevista. Não posso contar. — implica ela, piscando para mim. E agora eu seria obrigada a continuar esse projeto nem que fosse amarrada para descobrir quem é a tal da nova Serpente da Inveja; a curiosidade me mataria se eu parasse em algum momento.

— Arrrrrgh. — reclamo. — Num quer me dar spoiler da vida. Que saco. — o tom de minha voz é de uma revolta brincalhona, como se estivesse brava e ao mesmo tempo feliz com o suspense. Não poderia negar que é uma boa forma de me fazer continuar.

Afinal, agora eu tenho listas para preencher, colocando o nome de cada um deles em cada Mandamento e Pecado possível. Lembrando disso, folheio o caderninho até a última página, onde está escrita a lista com todos os Mandamentos, e corrijo-a, cortando o Mandamento da Pureza e colocando o nome da filha da frente.

MANDAMENTOS
1. Piedade (Meliriodas)
2. Paciência (Maureen)
3. Amor
4. Reticência
5. Descanso
6. Fé
7. Verdade
8. Altruísmo
9. Pureza (Georgine)
10. Pacifismo

Confesso que ela é a última pessoa que eu imaginaria nessa posição, mas ela foi marcada pelo Mandamento e provavelmente sentia na pele as consequências da mudança. Conhecendo a forma como ela se sentia anteriormente com o peso de ser a Inveja, imagino que ela esteja feliz com a transformação e deixo por isso mesmo.

— Okay. Sobre o Ares… — continuo, voltando para a pergunta que eu tinha feito anteriormente, junto com todas as outras. — Maior deusa da guerra de todos os panteões? — essa é uma curiosidade válida, porque para além de uma garota venenosa, eu nunca havia imaginado ela como uma verdadeira representante da guerra. Não que essa parte não faça sentido ou que duvide dela, mas deve ter algo que comprove seu título; não parece muito característico dela contar vitória sem tê-la.

— Dei um pau nele com uma faca-borboleta. — me responde, desdenhando do deus grego da Guerra. — Isso há dois Conselhos dos Panteões. O último foi onde defendi o título. — eu me lembro de ter ouvido falar sobre esse tal Conselho, mas nunca soube exatamente o que era. A expressão de confusão no meu rosto parece gritar que há dúvidas dentro de mim.

— Uma faca… borboleta? — indago, apenas por curiosidade primeiramente, sem querer saber de verdade a resposta. — Conselho dos Panteões? — continuo, agora verdadeiramente interessada.

— Aquela faca de abrir e fechar que vivo fazendo malabarismo com uma. — ela responde, bem rapidamente, antes de partir para o ponto principal. — Conselho dos Panteões. A cada período de cem anos infernais, temos o conselho. É um evento onde os deuses se reúnem para conhecer novos deuses, aceitar novos panteões, disputarem os títulos dos maiores deuses em cada aspecto... É um evento divertido.

Eu já ouvira contos sobre as ações de Georgine em um desses Conselhos. O que havia colocado todos na nossa família na posição de deuses infernais, mais especificamente. Antes desse grande evento (no qual eu não tive nenhuma participação), os Huntar’z eram apenas a família dos futuros Rei e Rainha do Inferno; depois dele, assumimos a divindade, sendo esta reconhecida por todos os outros deuses – sejam eles gregos, nórdicos, romanos, egípcios ou quaisquer panteões existentes pelo Universo.

Eu abro um sorriso, imaginando Georgine batalhando com Ares apenas com uma faca-borboleta cor de rosa com uma Hello Kitty estampada, porque a cena é engraçada e a arma lhe parece bem colocada. Como eu havia dito antes, se ela fosse uma arma, ela seria uma dessas.

— Sorte das deusas mães eu nunca ter aparecido. — digo, voltando minha atenção para ela e o assunto atual, saindo de minha imaginação. — Eu ia juntar vocês tudo e falar “pronto, ganhei”. — acho difícil alguém conseguir me vencer na quantidade absurda de filhos que tinha.

— Seria bem hilário, — ela começa, sorrisinho pequeno no rosto, se divertindo. — mas perderia pra uma deusa dum reininho qualquer com quarenta e dois filhos. — eu quase engasgo com o número.

— Oxi. — solto, assustada. Se vinte e um já era difícil, eu não conseguia imaginar o dobro disso. Como ela se lembrava do nome de todos? Será que ao menos sabia o nome de todos? Eu confesso que tenho de olhar numa listinha quando não quero me esquecer de ninguém, mesmo com apenas metade dos dela. — Duvido que eles sejam tão legais quanto vocês. — faço uma carinha de brava ao falar isso, fingindo estar chateada por perder, antes de dar uma uma risadinha baixa.

— Exatamente. Ninguém é tão legal quanto a gente. — ela concorda.

Há um instante de silêncio depois disso, um confortável, enquanto eu tentava digerir tudo o que ela havia me dito até ali.

— Então a Poison sugou toda sua toxina e você não é mais o Pecado da Inveja. — declaro, um pouco admirada com o acontecido. — Se soubéssemos que era tão fácil assim, já tínhamos feito isso muito antes. — se tivesse me passado uma ideia assim pela cabeça, com certeza eu teria pedido para ela fazer o quanto antes; atingida por seu próprio veneno, só sabia fazer mal a si mesma e aos outros.

— Ninguém sabia. A Andy foi genial. — ela comenta e dá para sentir a admiração em sua voz; é algo leve, mas presente.

— Ela foi sim. — concordo, meneando positivamente por um instante. — Bem… Não é meio estranho a deusa da guerra não estar em total controle dos exércitos? Você não se sente estranha com isso?

Se eu conversasse com todos os demais deuses da guerra, eles provavelmente diriam que estar no comando dela é uma das partes mais importantes de seu trabalho. Não era o caso de Georgine, aparentemente, visto que quem comandava os exércitos era Meliriodas.

— Não. Eu não sou uma deusa como a Líder. Sou uma deusa da Arte da Guerra. A Arte da Guerra não envolve liderar em si, mas o combate, as técnicas, as lutas. — explica tranquilamente. — Melo é um Deus Líder.

— Entendi… — hesito por um momento antes de continuar. — Hm… Acho que são essas as dúvidas por enquanto. Sobre seus títulos. Qualquer coisa eu volto nisso depois. — volto o olhar para o caderno, percebendo que já havíamos conversado muito, mas que ainda havia pouca informação ligada diretamente com a entrevista planejada; a folha estava praticamente vazia.

— Continuando… Gênero, sexualidade, status de relacionamento.

— Sou uma demônio, fêmea, bissexual, solteira. — ela logo responde, a caneta seguindo-a com facilidade, copiando no caderno o que havia dito:

Demônio fêmea (mulher cis?)

Bissexual

Solteira

Novamente esse termo. Eu tento segurar o arrepio que tenho ao imaginar a reação de alguns leitores com isso. Mas, em uma sociedade completamente diferente da que os humanos construíram para si na Terra, onde o que vale é verdadeiramente o que você tem fisicamente e a sua força pessoal, não existindo hierarquia que não a da força e da violência, essas coisas de homem, mulher, papéis de gênero e sexo, perdem um pouco do valor que é dado em sociedades como as terrestres.

A questão é que, no Inferno, onde nossa família reina como divindades, não existe uma hierarquia entre os sexos. E os termos “macho” e “fêmea” talvez sejam apenas aproximações com os termos falhos que temos para descrever as coisas no planeta Terra. Na língua Mao, que é a língua original do Inferno, o que se tem de verdade é “makzi” e “matzu”, que significam, respectivamente, “ser com genital tipo a do Rei” e “ser com genital tipo a da Rainha”. A genital implica pouco na forma como você vai ser tratado, mas caso não se identifique com o gênero implicado na genital, o termo utilizado é aquele que você se identifica.

Resolvo nem ao menos citar o assunto na conversa; sei que ela vai me responder da mesma forma que Maureen havia respondido. Mas modifico no meu caderno, para minha própria consciência, caderno apagando sozinho a palavra que ela havia utilizado. Talvez usar dos nossos termos seja melhor do que usar os termos que fazem com que eu tenha arrepios dessa forma.

Demônio matzu (mulher cis?)

Não comento com ela sobre a mudança. Apenas pontuo outras coisas, para levar a sensação duvidosa embora, trazendo uma melhor.

— Recentemente solteira. — digo, em tom malicioso, sorrisinho brincalhão estampados na face. — Vai ter leitora gostando disso. Finalmente uma que ela pode babar sem problemas. — há uma jovem menina em minha mente, e meu sorriso se estende, agora mostrando orgulho e gratidão.

— Quero ninguém, não! — ela nega, com aparente fervor. — Quem eu quero não me quer. — tento segurar outro arrepio que me sobe nessa sua fala.

— Mas babar é só babar, mesmo. Não precisa ter de verdade. — a garota poderia sonhar; felizmente não se paga nada por sonhar. — E eu não vou entrar nessa discussão aqui. — eu não sei lidar com isso, eu não sei lidar. — A não ser que você queira explicitar aqui. Você quer? — se ela não falar diretamente, eu não vou falar diretamente. Espero que ela não consiga sentir o desconforto que sinto.

— Não tô afim, não, pô. — diz, diretamente.

A minha sorte é não poder vê-la olhando para mim. O desconforto seria ainda maior. Mesmo assim, não consigo direcionar o olhar para ela. Volto-me então para meu próprio caderno.

— Então tudo bem. Deixa eu ver aqui. — viro as páginas até a primeira, onde estavam as perguntas, tentando fugir do desconforto e voltar ao objetivo central daquele encontro, que era a entrevista. Eu não preciso olhar, mas preciso do tempo que isso me dá para tirar a sensação de mim. — Qual é a sua arma mágica?

Ou ela é muito boa em fingir que não viu ou ela simplesmente não percebeu a minha tensão. Porque ela simplesmente segue com a pergunta, sem um instante de hesitação. A caneta cor de rosa não tem muita dificuldade de acompanhá-la.

Maokwur'Zir. É um cabo sem lâmina, que pode ser tornar a arma que eu quiser, contanto que essa arma tenha um cabo minimamente semelhante ao meu. No caso, parecido com o da arma.

— Entendi… — assinto positivamente. — Então ela pode ser absolutamente o que você quiser? Parece legal.

— Sendo uma arma branca, sim. — declara.

— Entendi… — meneio de forma positiva novamente. — Qual a sua relação com seus poderes e peculiaridades? As que você teve e as que você tem agora, se puder…

Essa é uma das perguntas que eu sempre quis fazer para Georgine. Acho que a forma como ela compreende seus poderes fala mais sobre ela do que tudo. Afinal, sua própria capacidade tóxica é o que acabou lhe machucando. A forma como ela entendia isso poderia mudar absolutamente tudo em suas ações.

Ela também não demora para prosseguir com essa, eu mesma ficando presa em seu discurso, em uma admiração tranquila enquanto fala. E a caneta a segue, dessa vez de maneira frenética, tentando seguir todas as informações que ela lançava.

Eu sofri muito com meus poderes. Até hoje sofro.

Não os entendo completamente. Tenho que aprender muito sobre eles.

Tudo o que sei sobre meu dom é que ele se chama Plague. Eu possuo, dentro de mim, uma energia extremamente tóxica e virulenta que posso utilizar para embebedar armas e que também faz com que eu possa mudar de forma, como uma mutação de uma doença, só que isso me permite mudar a forma do meu corpo para outro corpo. Meu poder também faz com que eu seja vermelha mesmo na forma humana, então mantenho minha cor como eu me sentir confortável no dia.

Ter sido o Pecado da Inveja por muito tempo me fez sentir que aquilo era tudo o que me restava. Invejar. Invejava o amor e transformava o meu em ódio por não saber lidar com ele. Fui uma pessoa horrível na minha existência. Se fôssemos uma mera história, acho que eu seria uma vilã... Bem. Nesses últimos tempos tenho aprendido sobre amor e como ele realmente pode ser bonito. Isso fez com que eu me abrisse para um mundo de possibilidades novas, mesmo que quem eu ame não me veja dessa forma. E pensar que uma pessoa linda que nem eu consegue tomar três foras ao mesmo tempo.

Ela para um momento para rir de si mesma. Eu quase suspiro de alívio, mas o seguro. Abro um sorrisinho leve para ela, esperando que ela continue. Pelo menos ela ri disso; eu verdadeiramente não saberia lidar se ela se ressentisse disso.

Mas, aparentemente, ela já havia passado do tempo de se ressentir disso. Só pela sua fala dá para perceber que ela está, de alguma forma, transformada.

No fim das contas, eu não sei o que ser a Pureza me trará. Eu só sei que desde que recebi essa marca é como se eu não pudesse mais me infectar acidentalmente com meu poder. Isso me trará algo novo que parece ser bem promissor.

Eu disse que o nome da minha arma significa "Arma Magna de Guerra do Inferno"? Porque isso me dá muito orgulho dela. Ela é bem incrível. É muito legal ver que até minha arma se encaixa perfeitamente comigo... E muito profundamente...

Ao terminar, ela balança a cabeça, completamente envergonhada, corada com a lembrança (provavelmente sexual) que tentava afastar. Eu seguro a risada e o comentário, esperando que ela deixe claro que finalizou.

— Enfim! É isso! — ela declara e eu caio na gargalhada.

Ela disse coisas tocantes e bastante sérias, mas a forma como havia terminado era muito engraçada. É como se ela estivesse dando notícias emocionantes e de repente fizesse uma piada inédita sobre masturbação – que é o caso, no fim das contas.

— Eu tenho dois comentários. — levanto dois dedos, me divertindo com a expressão envergonhada dela. Isso porque, conhecendo-a como conheço, é engraçado vê-la com vergonha de falar sobre as suas ações sexuais consigo mesmo.

— RI NÃO, CARALHO! — ela grita, completamente envergonhada e eu seguro a outra gargalhada que se forma em minha garganta, abrindo apenas um sorriso tranquilo e brincalhão no rosto.

— Ei. Calma. Não estou rindo disso. É porque eu imaginei coisas.

— Não fala! — responde, rapidamente, completamente constrangida. Eu a ignoro completamente, apenas seguindo com o que eu tinha em mente.

— Os dois comentários são: Um. Você só levou três foras porque você escolheu logo as três pessoas que não conseguiriam te ver assim. — é meio irreal você pensar que todos aqueles que sempre te viram como filha iriam querer você ao mesmo tempo; não digo assim para ela, mas não deixa de ser. — Isso porque, mesmo sendo nossa irmã, assim como nós três somos irmãos, nós estamos fechadinhos entre a gente e nós sempre te vimos como nossa querida filha.

A história da gestação da Georgine é complicada. Mas, basicamente, embora eu achasse que era minha a filha que se formava dentro de mim, era na verdade de minha mãe, Lilith. Assim sendo, Georgine seria mais minha irmã do que minha filha. Isso, na prática, pouco importava, porque o título de sua maternidade sempre foi meu (e de Lucith, depois que oficializamos nosso relacionamento).

O incesto entre irmãos até que poderia funcionar, já que não é nada incomum de acontecer entre famílias ou panteões divinos. Mas, pessoalmente, eu traçava uma linha de impossibilidade quando se tratava de relacionamentos assim entre pais e filhos. Isso faz com que seja… difícil lidar quando uma ou mais de minhas filhas simplesmente aparece com declarações românticas.

Eu, Luksifer e Lucith já vivemos em um relacionamento há trilhões de anos. Nem sempre foi um relacionamento fechado entre nós três, como é hoje em dia, mas sempre me envolvi romanticamente com eles. Foi ela quem me ensinou a amar e foi ele quem me deu segurança para continuar amando. Nem mesmo que não a visse como filha, eu gostaria que ela entrasse no nosso trio já bem estruturado, com histórias conectadas que vão desde a nossa base estrutural espiritual ao que somos hoje em dia.

O fora não era por mal, ou por ela ser ou não bonita; era porque seria estranho. E nós três (eu e meus amores) concordamos com isso, em algum nível.

— Mas o segundo… Tudo bem. Eu deixo o segundo só para minha cabeça. — um sorriso malicioso dança em seus lábios, os olhos brincando com o sentimento. — Mas eu sei o que você fez com esse cabo aí, menina. — eu ia falar diretamente sobre como ela sabia que era o encaixe perfeito para ela, porque já havia tentado enfiar ele dentro de si. Em sua clara vergonha, prefiro não falar explicitamente, apenas rindo em silêncio de seu falso acanhamento.

(Falso, porque eu sei que, se ela não estivesse em uma situação que sabe que vem a público, ela não agiria assim.)

— É… Depois da entrevista me conta o segundo pensamento, tá? — ela diz, corada, tentando voltar para a seriedade.

— Tá com vergonha de terrenos, Georgine? Você já foi melhor do que isso. — brinco, sabendo que ela estava fugindo do assunto para não ter de comentar sobre. Ela não saberia se segurar muito de seus comentários; mesmo que fingisse não ser, ela sempre foi uma das filhas mais desbocadas.

— É que eu não tô afim de me expor, sacas? Nada além da entrevista. O que enfio em mim é algo restrito a esta casa. — ela solta com naturalidade, tapando a boca logo em seguida, ficando completamente vermelha. Por sua pele ser vermelha naturalmente, o seu corpo inteiro foi tomado pelo calor enquanto corava, bochechas assumindo um tom mais escuro do seu vermelho.

Eu não consigo mais segurar as risadas. Apenas caio em gargalhada novamente, achando sua fala muito boa e característica, e sua reação muito fofa.

— Era exatamente isso aí. Você fez o comentário sem que eu precisasse nem pedir. — eu não tinha dito que ela enfiava o cabo de sua arma mágica em si mesma, mas ela já havia se entregado, sem nem mesmo perceber que o fazia. Agora sim ela parecia mais a Ginny, como se estivesse se segurando até agora.

— PUTA QUE PARIU. CANCELA! — ela grita, afoita, sem saber onde enfiar a própria cara, quase explodindo de tanta vergonha. — CANCELA ESSA PARTE!

E as minhas risadas que já ressoavam pelo quarto ficaram ainda mais altas, mais longas. Meus olhos esbranquiçados começam a lacrimejar de tanto rir.

— Não cancelo, não! — digo, entre as risadas. — Todo mundo tem de ver o quão incrível você realmente é! — porque aquela era a Georgine que eu sempre conheci; não a que fica se segurando e dizendo que não vai comentar as coisas por vergonha.

— Vou falar pra mãezinha… — ela ameaça, emburrada, fazendo um biquinho de leve que imagino que ela nem ao menos perceba que está fazendo. Nesse momento, eu paro de rir. Ela meteu a Luci nisso; ela sabe que é o meu ponto fraco. Agora sim a coisa começa a ficar séria.

— Ô, meu bem… — faço um biquinho chateado, também, expressão mudando da graça para a preocupação praticamente de uma hora para a outra. — Você quer que tira essa parte? — indago, pronta para ouvi-la, mas não antes de falar o que eu acredito sobre sua timidez. — Eu acho que ficaria incrível. Como as pessoas poderiam te conhecer de verdade sem essas parteszinhas incríveis que sempre melhoram meu dia? — simplesmente não dava para conhecer Georgine sem entender que esses eram alguns de seus traços de personalidade.

— Você é desbocada e engraçada. E mesmo que não seja a Luxúria, gosta bastante disso. — continuo, sorriso levemente orgulhoso no rosto. Mesmo que tenhamos tido nossos problemas no passado, o meu carinho pelo jeitinho da Ginny é muito grande. Principalmente por essas partes que sempre me fazem gargalhar com naturalidade. — Os leitores também gostam. É só mais um fator para eles te amarem um pouco mais. E tentarem experimentar pelo menos um tantinho do amor que eu tenho por você. Não precisa de vergonha. — finalizo.

— Ah… Tomar no cu, viu… Tá bom. — desiste, como se estivesse jogando uma máscara de acanhamento fora. — Eu gosto porque é bom. Sou nenhuma doente de sexo, não. — admite, logo voltando-se para mim. — A senhora gosta pra caralho e ninguém fala nada. — sinto o calor subindo para minhas bochechas. — Grita tanto dando que faz os outros gozarem só com gemidos seus, sem nem as pessoas encostarem em nada. — comenta, não como se fosse uma declaração de si mesma, mas como uma confissão de outra pessoa. E então… — DEDEI, KATERINA! QUE SE FODA!

Por nossa conexão de protegida e Segunda Guardiã, Katerina tem acesso total aos meus pensamentos e eu aos dela. Por vezes nos bloqueamos, quando não queremos dividir alguma coisa ainda, mas não passa muito tempo até que saibamos. Nesse momento, ela está concentrada em mim e na conversa que eu tenho com a Georgine, então não demora muito para que a resposta dela ressoe pela minha cabeça e eu caia na gargalhada novamente.

Se fosse uma confissão de Georgine sobre isso, eu ficaria desconfortável. Como é uma exposição sobre a Katerina, e ela leva isso de uma forma totalmente diferente, eu apenas rio. E rio ainda mais com o irônico tom de “ô, eu não acredito que você disse isso” que Kat tomou ao falar em minha mente.

— Ela disse aqui na minha cabeça: “mas que absurdo”. — anuncio, utilizando do mesmo tom que ela usara em meus pensamentos.

Agora é a vez dela soltar uma gargalhada, o som parecendo a mistura de uma gralha gritando com a risada de um vilão de filme clichê.

— Enfim! Tem mais pergunta? Cabô? — questiona, se esticando um pouco para ver o que tinha no caderno. — O exposed vai junto, né? Principalmente esse último. — dá para sentir em sua voz a forma como havia começado a achar graça daquilo, como se realmente estivesse se divertindo.

Eu estou me divertindo, ao menos. Toda a tensão, que antes existia dentro de mim, havia se desfeito. Como se um nózinho em meu estômago tivesse se desenrolado e se acalmado.

— Não. O exposed rolou, vai me dar umas páginas de boas gargalhadas, mas a gente nem chegou na metade. — aviso, sorrindo.

— Porque tem mui–… — ela não espera muito tempo para começar de novo, no que eu sei que será um gracejo ainda no mesmo tópico, mas falha no meio do caminho, ficando completamente sem voz por um instante. — Melhor eu parar. — declara, quando consegue falar novamente, ofegante.

— O que houve? — indago, ao mesmo tempo preocupada e curiosa.

— Efeito colateral dos Mandamentos. Desculpe.

— Como assim? Efeito colateral dos Mandamentos? — essa é uma informação que eu provavelmente não posso perder. Lanço um olhar para a caneta, apenas para direcionar para ela que a resposta deve ser transcrita no caderno, junto com as outras. Talvez eu esteja ficando louca, mas vi o pompom cor de rosa assentir, confirmando que faria bem o seu trabalho. — Meu deus, tenho tantas outras perguntas, Georgine! — digo, ajeitando a folha de papel para a nova informação, de repente muito animada.

Ela então explica:

Cada mandamento é como se fosse uma regra absoluta. O da Maureen, por exemplo, faz com que todos que percam a paciência diante dela fiquem completamente paralisados.

E o meu, pelo que vi, sempre que falo algo com malícia e maldade por mais de três segundos, fico sem voz até mudar de assunto. E em combate faz com que todos que não tenham nobreza na luta desistam de lutar.

Meus olhinhos brilham com a expectativa. Isso muda algumas coisas. Ah, como eu queria voltar e conversar com Melo ou Mau-Mau sobre isso, perguntar a eles o que eles acham da influência de seus mandamentos. Mas não haveria tempo para isso. Não com todos eles esperando.

— Pode mandar. — ela diz, depois de um tempo, esperando pelas outras perguntas. — Eu respondo. — agora ela fala como se estivesse verdadeiramente querendo se mostrar na entrevista, igualmente animada com a nossa conversa.

— Que chique. Então agora você é pura? — pergunto, só para me certificar, sem precisar de uma resposta real. — Pura mesmo? — ainda não consigo acreditar. — Que estranho… — eu nunca poderia imaginar que ela, de todos em nossa família, seria a Pureza, mas engulo a ideia, obrigando meu cérebro a aceitar esse fato e seguir em frente. — Enfim!!! Como são seus treinos?

A caneta corre para acompanhá-la.

Meus treinos? Uso bonecos de treino para treinar golpes marciais e também para treinar a Lightning. Estou ensinando pra ela técnicas de luta para ela melhorar seu estilo de combate. Bem... Além disso, treino o estilo de luta que o papai me ensinou e que só nós dois sabemos. Aquele que uso para manifestar dragões-cobras de energia e golpear ou contra-golpear. Faço esses treinos diariamente antes de ir pro treino de combate da casa. Depois do treino de combate da casa, eu volto pra cá e treino só com minha arma. É bem técnico e específico, mas, por exemplo, treinei o estilo de Lança, até antes da Light vir para o treino teórico, mirando o ar. Eu projeto como se estivesse lutando contra alguém, e faço assim pois nada mais complicado do que golpear o vento. Depois do treino teórico da Light, eu janto e vou treinar meu corpinho. Faço séries de exercícios físicos e, só depois de acabar, eu pego uma banheirada pra relaxar o corpo e dormir.

— Cansei só de imaginar. — confesso.

— Eu tô com vontade de recomeçar só de contar. — ela contesta, parecendo animada, sorriso elétrico no rosto. — É muito foda pra mim. E eu adoro. Nossa. Como é bom treinar. — enuncia, extasiada apenas com a lembrança. — Não vou ser a melhor coisando com o meu corpo, — gesticula rapidamente com a mão, fazendo rápidos movimentos com o dedo médio, revelando que mais uma vez falava de masturbação — ou sendo preguiçosa com meus treinos.

— Agora senti que eu sou a própria representação da preguiça perto de você.

— Nem é, pô. — se opõe ela. — Todo mundo tem seu tempo. A senhora treina pacas, que eu tô ligada. — ela afirma e eu assinto, mas meus treinos nunca exigiram de mim fisicamente, assim não sendo em nada parecidos com os dela.

— Venho explodindo e recriando umas coisas por aí. É legal. — admito, antes de continuar a falar, com um tom divagante e fantasioso, como se estivesse falando da mais linda das imaginações. — Queria poder fazer isso com o sistema socioeconômico mundial da Terra. Ia ser lindo.

— Seria uma bosta. — me contradiz, trazendo-me de volta para a realidade. A queda do sonho ao real me deixa levemente irritada. — Ninguém na Terra aprende com os outros pegando na mão e resolvendo as merdas deles.

— Eu sei. Ninguém, em lugar nenhum, aprende assim. Mas que ia ser legal, ia. — eu não posso refazer a sociedade humana terrestre, porque quem deve refazê-la são os humanos terrestres, das suas formas e maneiras. Todavia, não consigo mentir que sinto prazer em imaginar eu mesma destruindo tudo e refazendo de novo, tal como ando fazendo no planeta que eu mesma criei. Se eu fizesse com carinho, talvez saísse melhor, de alguma forma.

— Talvez mudar uns conceitos culturais seria bala, — acho que ela está falando que seria bom — mas recriar as coisas parece bem merda pra mim. — nada é recriado da mesma forma depois de ser uma vez destruído; as bases para a reconstrução teriam de ser outras. — Poderia ser legal pra senhora. Mas vai que… — ela fala, tranquila, claramente bem mais leve que antes.

Mas dentro de mim, aquela tensão de novo.

Eu não gosto de ser contradita.

(Palavras difíceis de escrever, porque eu também não gosto de ter defeitos – “uma Rainha não deve ter defeitos” –, mas que fazem parte do sentimento do momento.)

Dá para facilmente perceber um tonzinho de irritação em minha fala quando, meio cansada da realidade e desejando piamente poder voltar para a fantasia de reconstrução mundial, eu respondo, para finalizar o assunto:

— Eu entendi, Ginny. — eu tento me controlar, mas sei que isso soa passivo-agressivo. — Todas as pessoas têm de construir isso juntas. Eu não posso fazer sozinha uma revolução mundial. — na prática, não; nos meus sonhos, sim. — Mas é um pensamento legal. Ver o circo pegando fogo e saber que eu posso arrumá-lo depois. Do jeito que eu quiser. — no passado, eu estive tão cansada dos mundos e seus ódios entre espécies, etnias, sexos e etc, que insisti em conhecer e evoluir o suficiente para fazer o meu próprio. Ter a capacidade de fazer uma coisa dessas e o controle do funcionamento inicial de tudo é extremamente satisfatório. — É uma sensação boa.

Eu nunca poderia controlar a Terra; nem para destrui-la, nem para reconstrui-la. Mas, em meus sonhos, eu imaginava como poderia ser se eu tivesse a chance, nem que só por um segundo, de mudar tudo ao meu belprazer.

Hesito por um momento, tentando fazer o pensamento ir embora.

— Enfim… — digo, afinal, quando sinto que os nós de tensão dentro de mim se desfizeram, caminhando para o fim da entrevista. — Eu tenho mais duas perguntas.

— Manda.

— Uma que entra na entrevista mesmo e uma que é mais pessoal. — explico, me mexendo na almofadinha, tentando arranjar uma forma de sentar mais confortável. — A que ainda entra na entrevista é: uma memória base. Que você acha que é essencial e formativa para o que você é hoje.

Ela hesita um pouco, pensativa, mas então responde de uma vez. O pompom cor de rosa segue ela rápida, mas tranquilamente, escrevendo as palavras na página:

Acho que... Foi um dia que eu morava com o papai em Beta-Marine.

Estávamos andando disfarçados pela rua o dia todo, e quando chegamos em casa, eu estava bem brava porque ele perdeu o dinheiro outra vez pra um ladrão. Eu fui xingar ele e ele me disse que todo o tempo que aquele ser desesperado gastou para o roubar era fruto de seu desespero, e que tudo isso viraria flores no caminho dele, pois ele tinha um bom coração.

Eu entendi foi porra nenhuma na hora, mas muitos anos depois, quando comecei a me redimir das coisas que fiz de ruim, aquilo me voltou na mente como se eu fosse o ladrão desesperado e que tudo estava se preparando pra virar flor.

Ainda não virou. Estou com isso me marcando. É bem recente esse final, mas me marca de verdade perceber que está começando a florescer desde que reconheci que não sou plenamente ruim.

Um sorriso suave e orgulhoso se forma em meus lábios.

— Eu nunca consegui ver você como plenamente ruim. Nem quando você realmente estava fazendo papéis de vilã.

Admito que ela fez, sim, várias coisas que poderiam ser consideradas vilanescas para muitas pessoas, como entrar em corpos alheios para impedir que eu e seu pai ficássemos juntos. Mas, como ela disse, talvez ela só fosse uma ladra desesperada, que não via, naquela época, uma outra forma de agir. E na real, o que é ser vilão? Divago sobre isso em voz alta, com uma pressa maior do que antes:

— Que é um conceito falho, também. Porque, quem diz o que é ser vilão? Isso é bem relativo. — paro de divagar, para voltar à sua memória e a forma como havia contado sua história, agora falando com o meu conhecido tom maternal. — E é bom saber que está se sentindo florescer. Acho que todos nós conseguimos ver isso em você. Nas suas mudanças. Queremos que seja feliz.

— Obrigada. — agradece, um pouco acanhada.

— De nada, meu bem. — respondo, puxando sua mão direita para perto, dando-lhe um beijo na palma, sinal simples de afeto complexo. Ela fica instantaneamente corada, sem saber como reagir. Eu ignoro essa reação e continuo com o que queria falar, pois não é uma reação de filha com o carinho de sua mãe. — Agora a outra pergunta. É apenas curiosidade.

— Er… Tá. — solta, ainda constrangida.

— Por que a Maureen não fala com você? — se uma não explica direito, eu falo com a outra, simples assim.

— Porque ela me odeia. — isso eu já tinha entendido, mas não entendia porque.

— Ela disse que você não tem responsabilidade, e que não dá para trabalhar com você, ou algo assim, quando eu voltei depois da entrevista pra perguntar pra ela o porquê. — Maureen não queria deixar isso explícito em seu próprio registro, mas é uma curiosidade válida. Toda briga tem seus motivos e eu sou uma gatinha curiosa para saber o porquê.

— E ela me odeia porque, entre as coisas ruins que eu fiz, está incluso pegar o Meliodas fingindo ser ela. — é… esse lance de poder transformar seu próprio corpo em qualquer outro também já foi um problema em suas ações.

Eu não me surpreendo com essa parte. Mas não parece ser o verdadeiro motivo; ela teria citado isso se fosse essa a única razão para tão grande rancor.

— Fora que teve a vez que ela quis que eu tivesse uma pasta no Instituto. — ela continua e agora me parece mais um motivo real para a raiva de Maureen. As pastas são basicamente os diferentes tipos de cursos que o Instituto criado por Maureen disponibiliza para seus alunos; como diretora e educadora, ela leva cada uma dessas pastas muito a sério. — Eu estava bem loca e eu simplesmente fugi pra Beta-Marine e abandonei a pasta. Eu estava completamente surtada. — explica. — Mas o ego ferido dela fala mais alto. E ela não quer perdoar isso. Porque falhar com o Instituto e pegar o Melo do jeito que fiz é pior que estupro pra ela.

Faço uma careta de reprovação com sua fala. Não acho que seja assim; não de uma mulher que realmente foi estuprada (pelo ex-namorado da própria Ginny, falando nisso). Não comento sobre isso, apenas deixo minha expressão falar por mim.

— Bem… São bons motivos para ela não querer conversar com você. — eu também não conversaria por um tempo, no lugar de Maureen, em uma situação dessas. — Mas eu não acho que isso vai ser pra sempre. — eles sempre se resolvem, uma hora ou outra; faz parte da evolução.

— Pra ela é motivo pra ser pra sempre. — e não nego que seja, mas…

— Pode não se resolver agora, nem nos próximos meses. Mas somos imortais, vocês vão resolver isso. — adiciono, com muita certeza do que digo. Se eu consegui perdoar Sammael, Maureen pode perdoar Georgine.

— Ela é bem estática. — retruca.

— Não o será para sempre, também. — finalizo, apenas.

Espero um instante antes de continuar, digerindo todas as informações ditas até ali. Não foram poucas as coisas novas que aprendi durante nossa conversa.

— Bem… Matou minha curiosidade. — declaro, abrindo um outro sorrisinho, agora um intensamente satisfeito. — Você tem alguma coisa a adicionar? Acho que essas eram as perguntas.

— Não tenho nada a dizer por hora. — sua voz é muito tranquila ao me responder. — Eu agradeço bastante. Foi divertido.

— Foi bastante divertido. — admito. Mesmo com as tensões, os nós no estômago, a confusão e as hesitações que parecem ter virado naturais a mim quando se tratava de Georgine, fora muito prazeroso estar com ela para aquele momento.

Olho a quantidade de informação nas páginas, vendo que não era muito; mas, pelo tempo que havíamos passado ali, com certeza teria muito a ser narrado.

— Vai ser a maior até agora. — aponto, orgulhosa do meu próprio progresso. — Estou orgulhosa de você. Obrigada por se abrir comigo. — se tivéssemos feito algo assim um ano atrás, com certeza o resultado seria muitíssimo diferente.

— Eu quem agradeço. — solta. — Tenho muito orgulho da senhora. — e é a minha vez de corar e ficar sem muita reação.

— Iti. — digo, porque é a única coisa que consigo pensar agora, alegria dançando em meus olhos e lábios. — Muito obrigada. — toda a minha gratidão estampada em minhas palavras.

Ajeito-me para levantar, fechando o meu caderno com a caneta no meio das páginas, agora parecendo dormir em sua caminha de folhas amareladas.

— Eu vou indo. — anuncio, me levantando e logo dando-lhe um beijinho no topo da cabeça, para me despedir. — Tchauzinho.

Ela levanta o olhar para mim, prestando atenção até demais na minha pessoa.

— Bom trabalho! — deseja.

— Diga ao Escanor que é o próximo.

— Ele já sabe. — como se ele não soubesse sobre alguma coisa que falasse sobre ele; tudo para ele era ele mesmo. — Tchau!

— Então é isso. — concluo, já indo em direção à porta, com o caderninho debaixo do braço esquerdo. — Beijo!

— Não mande. Vem dar. — ela diz, levemente maliciosa e desavergonhadamente descarada.

A minha resposta é rir, apenas acenando da porta, antes de fechá-la atrás de mim e sair para o corredor, com um sorriso contente e orgulhoso no rosto. A sensação de estar fazendo um bom trabalho é mais importante do que o desconforto melancólico que sinto ao ouvi-la dizer, pouco antes da porta se fechar totalmente, em um sussurro mais do que resignado:

— Eu tinha que tentar, né…