Meet the Huntar'z

11 A N D Y N N E


A N D Y N N E

deusa aranha

Andy é uma figura muitíssimo peculiar.

Por saber que ela poderia muito bem estar escondida nas sombras de algum dos cantos da casa, ou nas frestas dos cômodos, ouvindo as conversas, prestando atenção em cada movimento, não posso simplesmente supor que devo ir ao seu quarto para a próxima entrevista. Em verdade, conhecendo-a como conheço, consigo muito bem imaginar que ela está agora mesmo no teto de meu quarto, esperando por minha chegada para que me leve, em uma cestinha feita com suas patas de aranha, ao seu lugar especial, seja lá qual for.

Assim sendo, antes de supor qualquer coisa, vou até meu próprio quarto depois de meu treino, na intenção de perguntar a Luksifer onde ela estava, quase na esperança de que ela realmente esteja lá. Talvez, a partir da minha pergunta, ela simplesmente aparecesse com seu fator surpresa, sorrindo e se mostrando pronta para falar muito mais do que qualquer outro em sua entrevista.

Depois de trocar algumas palavras com Luksi, questiono-o sobre a localização de Andynne e ele me responde que ela está sim em seu quarto. Surpreendo-me mais com isso do que me surpreenderia com sua chegada “inesperada”. Tento não demonstrar nenhuma dessas emoções enquanto me despeço dele com um beijinho e volto aos corredores do Castelo, deixando que os numerosos feixes de luz dourada me guiem.

Dessa vez não presto muita atenção no caminho, porque minha mente está repleta com as possibilidades dos tópicos que iriam surgir diante daquela conversa, que eu tenho certeza desde o primeiro momento que será a maior delas.

Andy gosta de oportunidades para falar. Não apenas sobre si mesma, mas sobre qualquer coisa. Então consigo imaginar claramente ela passando grande parte do nosso momento juntas apenas falando, falando e falando, como uma metralhadora de conhecimentos, como uma grande arma da comunicação.

Estou torcendo para que não fique muito cansativo e que consigamos algumas informações verdadeiramente úteis no processo quando chego ao quarto, feixes finalmente se juntando em um grande aglomerado dourado em forma de uma porta do que parece ser madeira rústica.

Não me demoro antes de bater na porta, imitando o som, como de praxe:

— Toc toc?

— Pode entrar! — a voz dela responde lá de dentro, então abro a porta e entro no cômodo, um sorriso gentil no rosto.

— Oi, filha. Tudo bem com você? — indago, tanto em cordialidade, quanto em preocupação genuína. Não preciso que ela me responda para sentir a agitação dentro do cômodo, como se tivesse muita coisa acontecendo ao mesmo tempo por ali.

— Eu tô bem! Só acalma um pouquinho. — ela diz, confirmando minha teoria com seu tom inquieto e levemente apressado, acompanhado com um: — NINA, DESCE DAÍ! TU VAI CAIR!

— No no. — responde uma voz infantil em um tom presunçoso, e eu sigo o som, tentando identificar ao menos onde está a figura diminuta com o corpinho de animal peçonhento, supostamente grudada em lugar alto o suficiente para cair.

Consigo visualizar a forma da criança, rabo de sua espessura, pequenas patinhas saindo dele como se fosse uma lacraia, pendurada acima de algo que não consigo verdadeiramente identificar por não produzir energia própria como ela. Suponho ser uma estante, pelo formato que o corpinho dela toma enquanto se pendura ali.

— Nina… — diz Andy, calmamente, mas num tom levemente ameaçador.

E é como se, apenas dizendo o nome da filha em um tom tranquilo de advertência, ela tivesse o poder de fazer as coisas acontecerem, porque logo vem o grito e o som de algo caindo:

— AAAA. — solta Nina ao tentar escapar da estante, realmente se espatifando de costas no chão, fazendo um barulho tão oco que faz meu rosto se contorcer em agonia imediatamente.

— Tadinha, ai. — solto baixinho, ainda com uma careta de dor por empatia estampada em minha face. Nenhuma delas presta atenção ao meu comentário.

— Ai, filha… Vai brincar lá fora… — consigo visualizar a energia vermelho sangue de Andy se aproximando da energia um tanto mais escura de Nina e se abaixando- para dar um beijinho na testa da filha. Há um nível de condescendência e carinho ali e deixo que o momento se esvaia um pouco antes de acenar para a menininha, que já começava a se movimentar novamente, subindo pelas paredes.

— Oi, Nininha!

— Tá. A Babá! Tiau! — ela acena de volta, de uma maneira animada e igualmente apressada, e corre, firmando-se com as patinhas na superfície lisa e vertical do quarto, saindo pela janela.

— Tchau, Nininha! — digo, um tantinho mais alto, quando vejo os últimos vestígios da sua energia colorida em forma da cauda de lacraia deixando-nos ali.

— Ela é muito peralta… — comenta Andy com orgulho contido naquelas reticências que deixava naquele quase suspiro. E então se volta para mim, tom informativo, como o seu natural. — Tem uma almofada do lado da parede. Do lado esquerdo. Já viro. Deixa eu terminar de arrumar a Amber.

— Okay, meu bem. — respondo e viro-me para a esquerda, girando levemente seus calcanhares, apontando para a direção com a mão direita apenas para fazer uma gracinha. Então vou em direção à almofada, levando a mão que apontava à minha frente para simplesmente não bater na parede.

Mesmo que os feixes dourados da energia viva do Castelo ainda me mostrem os limites do quarto, é sempre bom ter certeza de quando eles estão realmente mais próximos do que minha mente e meus olhos problemáticos fazem parecer.

Desço a mão até onde imagino que esteja a almofada, apalpando o chão até encontrá-la, e me sento nela. Já acomodada e esperando até que Andy termine de cuidar de outra de suas filhas, abro a gaveta invisível com rapidez e tiro de lá o caderno cor de rosa, repleto de memórias das meus próprios bebês, e Pinky, deixando-os em meu colo.

Sinto-me uma criança animada e agitada com a expectativa enquanto a espero. Se estivesse sentada em uma cadeira e não ajeitada numa almofada no chão, estaria balançando as pernas tal como um infante faria, material pronto no colo.

— Pronto. Agora você pode parar de gritar comigo, tá? — há imenso carinho em sua voz enquanto fala com a neném, e eu abro um sorriso gigante e orgulhoso. Nunca sei identificar se fico assim por achar fofa a relação mãe e filha, ou por ser a deusa da maternidade e isso sempre ser algo essencial e sagrado para mim. — Já tá com a roupinha que gosta. — termina, beijando a testa da filha e deixando-a no berço para vir em minha direção, atenção totalmente voltada para mim.

Sorrio para ela enquanto vejo sua forma colorida se aproximando, tendo um tanto de dificuldade para identificar onde suas patas de aranha se localizam, energia ululante as modificando de posição a cada instante.

— Bem vinda ao meu quarto, mãe. — ela diz, e eu consigo sentir seu sorriso. — Eu quero te dar uma experiência singular sobre meu quarto. Posso?

Não consigo nem ao menos imaginar que tipo de experiência seria essa, mas abro um sorrisão, super animada com a perspectiva de algo novo.

— Mas é claro! — respondo na hora.

Ela toca minha têmpora, com gentileza, gerando uma ilusão perfeita da visão de seu quarto. Tenho que me segurar um instante, olhos leitosos arregalados enquanto ela descreve o que eu, milagrosamente, consigo ver.

— Este é meu quarto. É tudo feito em madeira bruta e o Alec vive o descrevendo como um estábulo. Eu gosto de camas feitas de palha. — declara, e eu tento segurar as lágrimas que conseguir enxergar o ambiente realmente parecido com um estábulo traz aos meus olhos. — As caminhas da Nina e do Vlad são em beliche, ficam no lado esquerdo do quarto. Os berços são esses três e ficam ao lado da cama deles, no sentido longitudinal. — é inevitável que meus olhos comecem a lacrimejar, quando consigo ver os bercinhos de Amber, Agoor e Argus ao lado do beliche que ela descreve. — Do outro lado fica minha caminha, mas raramente a uso, já que durmo no teto. Tem almofadas por todo o quarto e o chão é forrado com tatame. Entre a senhora e minha cama, está minha estante de livros e fórmulas. Se eu puxar o quarto livro, terei acesso a minha mesa alquímica. Nela tenho gavetas com os elementos químicos que utilizo. — ela exprime cada detalhe como se estivesse narrando um filme ou um sonho e eu me sinto em um, sem conseguir simplesmente me expressar por bastante tempo.

— Uau. — solto finalmente, em um sussurro extasiado com a realidade daquilo tudo. Pisco várias vezes seguidas, tentando espantar as lágrimas, tentando voltar ao escuro, tentando voltar à realidade do preto com eventuais cores fortes de energias vivas, tentando voltar ao caos com a pitada de vida.

— Vou a deixar com essa imagem ilusória do quarto e vou sincronizar nossa entrevista com ela. Aproveite. — ainda embasbacada, percebo parte da imagem se obscurecendo um pouco quando a forma rubro-sangue dela aparece em minha frente e se senta diante de mim, como uma sombra tomando parte da ilusão. Um finíssimo fio de energia, quase invisível, mas que não foge aos meus olhos acostumados a ver apenas esse tipo de coisa, nos conecta, de sua têmpora para a minha.

Consigo ver o quarto, mas não consigo vê-la. Não me sinto nem na posição de reclamar, porque já estou emocionada o suficiente por poder ver os berços, o formato dos bebês dentro, as caminhas de palha, o chão com tatame e as almofadas por toda parte. É muito mais do que eu poderia pedir.

— Todo mundo pode ou descrever ou gerar sinais energéticos complexos que servem como chamariz. Eu posso fazer isso. Assim, quero que minha entrevista tenha minha cara. — é simplesmente impressionante, mas não consigo expressar isso de forma alguma. Pelo menos, não de forma convincente, não de forma que demonstre minha real gratidão, meu real fascínio.

— Isso é… — hesito um pouco, buscando as palavras, muito perdida na sensação de finalmente conseguir ver meu mundo, depois de trilhões de anos infernais andando por ele apenas guiada por sinais da existência de vida.

Pisco várias vezes novamente, forçando as pálpebras com mais força em uma das vezes, fechando-as com tudo e ainda assim enxergando. É uma ilusão, diretamente no seu cérebro, é claro, então não tem nada a ver com meus olhos deficientes. Tento não me sentir muito abatida por isso, mesmo que a tristeza venha por um instante, deixando-me ser levada inteiramente pela sensação maravilhosa de finalmente ver.

— Incrível. — termino, em um suspiro.

— Podemos começar? — ela diz, abrindo um sorriso gentil, sentada no chão, com as patinhas recolhidas ao lado do corpo.

Eu quase respondo que sim. Mas, ainda consigo visualizar mais do quarto, da madeira, do tatame, do que dela em si. Ela é apenas um borrão ininteligível ainda, apenas a cor comum de sua forma, que modifica-se a cada movimento, como sempre foi. Imagino que seja por ainda não conseguir compreender o que vejo em si, ainda mais quando estamos lidando com uma mulher-aranha dessa forma.

— Eu tô tendo só um problema. — admito. — Minha mente nunca consegue compreender o que está vendo quando te vê. — no geral, quando a imagino, na verdade. — Ou compreender de verdade como eu te descreveria, entende? — ela é uma mulher aranha, okay, mas como funciona essa transmorfia que é natural dela? De onde saem suas patas? Até que ponto ela se parece um ser humano e até que ponto é uma aranha?

— Mãe… — ela começa, com um tom condescendente, ensaiando em sua mente por um instante como ela me explicaria isso. — Eu mantenho uma imagem ilusória na mente de todos. Cada pessoa me vê de uma forma. — isso explica um pouco o fato de sua forma, mesmo só na energia rubra, dançar tanto aos meus olhos. — Vou procurar a dar um exemplo concreto.

— Tá. Mas e como é seu corpo de verdade, então? — indago antes que ela possa fazer qualquer coisa, apenas na pressa de conseguir vê-la tão bem quanto consigo ver o resto do ambiente. — Porque consigo visualizar “barra” imaginar seus traços, suas partes humanas, mas na hora que entra na parte aranha, fica meio complexo.

Andynne Huntar’z, em sua parte humana, é uma garotinha de corpo pequeno e magro, com seios pequeninos e uma bunda colossal de tal grande, totalmente desproporcional com o resto de si. Sua pele é amarela e seus olhos amendoados são enormes e muito arredondados, como se fossem os de um personagem de anime, aqueles desenhos japoneses provenientes do planeta Terra, transformados em realidade. Seu cabelo repicado e originalmente castanho claro cai em ondinhas abertas por seus ombros.

Essa parte, porém, é relativamente tranquila. Meu cérebro consegue entender isso com uma descrição básica; consegue visualizar isso com um pouco de esforço imaginativo. O que eu não consigo entender é de onde saem suas oito patas de aranha e como elas se posicionam. Sendo essa uma parte importante dela, que é, em si, a Deusa Aranha, é complicado entendê-la sem entender isso.

Então pergunto:

— As patinhas saem das suas costas que nem o Octupos lá do Homem Aranha? Mas tipo… de verdade? Ou você tem uma bunda aranha de que saem as patinhas?

— Sim. Elas saem de dois pontos diferentes. Do meio e entre “as asas”. — responde, o tom indicando que ela está um tanto envergonhada por meu questionamento. Não entendo muito bem o motivo até que ela pergunte. — E podemos deixar o tamanho anormal das minhas nádegas de fora disso? — seguro a risada, porque, mesmo que seja engraçada a forma que ela disse isso, sei que é algo que a incomoda de verdade. — Ah! Meu cabelo está rosa, hoje. Eu pintei.

Okay. Então seu cabelo é rosa agora, e não castanho claro como originalmente.

— As asas? Você diz as omoplatas? Ou você tem asas mesmo? — indago, tentando imaginá-la com asas também, para além das patas, e falhando miseravelmente.

Porém, eu não preciso fazer esforços para imaginar sua forma por muito tempo mais, porque ela projeta perfeitamente sua forma normal em minha mente, com suas expressões contorcidas em vergonha por falar de partes de seu corpo.

— E… Meus olhos são bem arredondados. — ela comenta, como numa continuação de sua descrição, antes de travar por um instante, focando na minha pergunta e esquecendo completamente como que falava anteriormente. — Exatamente. Mas minhas patinhas podem ser minhas asas. Explicarei melhor no ponto adequado da entrevista. — fico me perguntando se ela vai conseguir se lembrar disso, com o tanto de informação a mais que terá de me dizer, mas espero que sim. Espero que eu consiga me lembrar também, mas pessoalmente duvido.

— Ah, entendi. Acho que entendi. — sussurro a última frase, me adequando à imagem que ela projeta em minha mente a partir de sua ilusão, agora sim a silhueta energética dando lugar aos detalhes que eu só conhecia por descrição de outrem. — Perfeito. — solto, em um suspiro, muito mais maravilhada agora do que anteriormente, finalmente conseguindo ver uma de minhas crianças.

Pisco novamente, ainda sem conseguir acreditar realmente que estou vendo-a, sem conseguir verdadeiramente entender a perfeição dos detalhes, da visão, da ilusão, muito real, muito próxima. Só volto a falar quando o efeito entorpecente de percebê-la, de tê-la ali, de finalmente conseguir enxergá-la, passa.

— E essa é sua forma normal ou também é um jeito que eu te vejo? — se cada um vê uma ilusão diferente de sua forma, é possível que essa também seja só uma ilusão feita só para mim e não seja quem ela é realmente.

— Essa é a minha forma real. — declara. — Tirando as proporções, as pessoas me veem de acordo com o que conseguem assimilar como mais interessante. Faz parte dos meus dotes de caçadora. — imagino que não seja muito interessante assimilar a parte aranha dela, na maior parte das vezes. — E meus olhos não são de esclera branca e íris colorida. Minha esclera é negra e minha íris é rubra, assim como minha energia.

— Deve ser meio assustador ser caçado por você. — admito, deixando-me, por um instante, imaginar como é estar na posição do ser humano caçado, correndo pela floresta com toda a sua adrenalina pulsante, tentando escapar das garras de Andynne. Só de imaginar, sinto o arrepio correr por meu corpo.

— Na maioria das vezes, a pessoa morre sem saber que foi caçada. — ela me corrige, tirando de mim a possibilidade de imaginar essa fuga frenética toda. — Explico melhor isso depois, mas para que tenha uma noção: eu seduzo as vítimas e, quando vou comê-las, as coloco numa ilusão. — já não sei o que é pior: morrer depois de fugir ou morrer sem saber que morreu. — A ilusão em que ficam as fazem ter parada cardíaca e então posso comer em paz. Não como ninguém vivo, salvo em casos específicos. — consigo ler em seus olhos rubros e negros que esses “casos específicos” são os casos em que as pessoas, por alguma razão, merecem sofrer um pouco antes de morrer.

Resolvo que é melhor não entrar em detalhes.

— Deusa é mais! — exclamo, no meio de uma risada nervosa, sem conseguir segurar, já que minha mente agora vai na expressão de choque das vítimas ao se perceberem mortas, espíritos vagando, almas esperando para serem levadas embora pela Morte, apenas observando seu corpo sendo devorado por uma deusa transmorfa.

— Por conta disso caço com a Nico. — afirma, sem que eu diga nada. — Eu como o corpo e ela a alma. Assim, nenhuma alma carrega o trauma. — não dá para esconder meu espanto ao perceber que provavelmente ela não precisa que eu diga alguma coisa.

— Você tá lendo minha cabeça? Eu num disse nada! — pergunto, apenas para materializar meu assombro de finalmente perceber isso.

— Obviamente. — e ela responde como se realmente fosse óbvio.

— Isso é efeito dessa conexão? Você lê minha mente em troca de eu ver isso tudo?

— Mãe. — e aquele tom meio condescendente volta, como se eu não estivesse percebendo algo verdadeiramente banal. — Minha magia faz com que isso seja a base da conexão. Eu preciso ler perfeitamente sua mente para poder estabelecer a sincronia.

— Deusa, ó minha Deusa, — solto aos céus, sem nem ao menos saber com que Deusa estou falando — isso vai ser um tanto mais difícil que eu imaginei.

Se não dá para esconder coisas dela, porque ela vai ler minha mente, talvez eu tenha que controlar mais meus pensamentos em relação a partes específicas dos meus sentimentos. É um controle que eu sempre achei muito complicado.

Eu posso controlar minhas palavras, minhas ações, tentar esconder, na camada plena de transparência em meu rosto, minhas emoções, mas não consigo controlar meus pensamentos. Se ela consegue ouvi-los com precisão, isso pode ser um problema. Torço por um instante para que nada em meu cérebro seja capaz de ofendê-la.

— É… Num se pode ter coisas tão boas assim sem um contra, né? — rio. — É a vida. — dou de ombros, achando graça real de não conseguir controlar minha mente que, para tentar silenciar os outros pensamentos, começou a xingá-la com palavrões mentais não direcionados e reclamações silenciosas de “pára com isso”, embora não realmente quisesse que parasse. Só é inevitável de sentir um tanto invadida quando sabe-se com certeza que alguém está dentro de sua cabeça, ouvindo seus pensamentos.

— Está tudo bem. Eu estou… acostumada. — não sei se isso é sobre as pessoas xingando-a mentalmente quando descobrem que estão sendo lidas, mas não me dou o trabalho de perguntar sobre.

— Tá tudo bem. — respondo, apenas. — Só não me julga se a imagem mental de um dos seus pais pelados te aparecer. — e então, como se fosse um chamariz, eu visualizo Lucith e Luksifer nus por um instante. — Porra, velho. — reclamo, ao perceber que, ao dizer para ela não me julgar, acabei fazendo exatamente o que não queria fazer. Minhas bochechas bem arredondadas ardem, corando, a vergonha me tomando dessa vez. — Eu fiz pra ser uma piada, não pra te mostrar isso mesmo!

— Eu já vi isso sem a ilusão. — declara, muito calma, como se fosse corriqueiro.

A minha única reação é cair na gargalhada, riso alto e incontrolável.

— Acho que vocês se empolgam bastante. — ela continua, e eu rio mais, muito mais, sentindo vergonha e êxtase ao mesmo tempo, como se estivesse chapada com as informações, sua piada, sua fala, sua ilusão.

— Eu tô meio drogada com esse tanto de coisa. — confesso, sentindo meu cérebro ainda tomado pelo deslumbramento. — Eu nunca vi tanto na minha existência verdadeira. — essa é a minha existência verdadeira: aqui, com minha filha, com minhas crianças, no Castelo que criei para mim, preocupando-me apenas com pensar ou não nos meus amores, e não encarnada num planeta em que tudo é caos e horror. É bom demais estar aqui. É bom demais poder ver o que há aqui.

— Melhor evitarmos essa parte. — ela diz, corada também, ainda falando sobre nosso assunto anterior, já que, no meu encanto, eu simplesmente comecei a devanear.

— Ver as coisas é sempre material de sonho… — continuo no devaneio, por instante me lembrando que estar na Terra é sempre como um sonho, nada parece muito real, principalmente pelo fato de conseguir enxergar. Enxergar é algo que faço em sonhos, nunca na realidade. Ver é sempre uma ilusão.

Então pisco três vezes para me tirar desse pensamento, voltando ao assunto anterior, olhos esbranquiçados focando em Andy novamente.

— Ah, você tá falando de eu com seu pai ou a mãezinha? — rio novamente, alto, me divertindo, lembrando de ela falar que nos empolgamos bastante quando juntos. — É. É bastante empolgante. — admito, sorriso levemente malicioso nos lábios. — Mas enfim! — bato palmas, tentando mudar de assunto, porque acho que minha vida sexual com meu marido e minha esposa não entram no caso aqui.

— Os dois casos. Vocês transam como se fosse a última vez. — minha mente dopada com a quantidade enorme de informações e pensamentos tem de escolher entre continuar com a malícia e me envergonhar. Meu rosto cora novamente, mas meu sorriso permanece. — Acho vocês extremamente lindes. — sussurra, numa confissão envergonhada. E depois se corrige: — Não que eu repare… — eu rio. — AH! ENFIM! — grita, contagiada pela vergonha.

— Alerta de voyeurismo. — digo, imitando a voz de um robô, pausando de leve em algumas sílabas, rindo logo depois.

— Não é intencional. — se defende.

— Em certos casos, realmente é a última vez. — comento, voltando um pouco antes da piada. — E nós somos lindes mesmo. — geralmente eu só diria que elus são lindes, não me incluindo nisso. Mas meu bom humor, depois de todas essas gracinhas, me impede de fazer comentários depreciativos, então só aceito o elogio e prossigo. — Enfim. Depois falamos sobre o que é ou não intencional nisso aí. Podemos começar? — volto para meu caderninho, ainda em meu colo, e abro-o, tirando Pinky de dentro dele manualmente, e escrevendo o nome de Andynne no topo da próxima página em branco antes de soltar a caneta rosa com o pompom no ar, deixando-a pronta para a entrevista.

— Não vou falar das últimas experiências com a senhora parecendo um desenho de hentai com olhos virados e a língua pra fora durante dupla penetração. — ela diz, continuando com as piadas, mas como se, novamente, não fosse nada. E então me responde, fingindo que não disse nada demais: — Vamos.

— Meu Deus amado. — comento, abaixando a cabeça, vermelha como um tomate, sendo pega completamente de surpresa por esse último comentário, rindo de puro nervosismo.

— Começa logo! — pede, exasperada, enquanto ainda dou risadinhas nervosas.

— Você fala que não vai falar e FALA! — tento parar de rir, passando a mão por meu rosto também em exasperação.

— Não responde que eu dou a tréplica automaticamente. — isso diz muito sobre ela, para ser bem sincera. — Só ignora.

— Então tá! Para agora. — jogo as mãos para o ar de forma impaciente e volto-me para o caderno, finalmente começando com a entrevista. — Vamos só tentar seguir a ordem, okay? Pode se animar, mas pra tópicos que mantenham-se na ordem. Você conhece a ordem. — e eu a conheço bem o suficiente para saber que esse aviso é necessário, diante sua falação interminável. — Mas deixa eu perguntar antes de você sair falando, também. — finalizo o aviso, olhando para a página só para ver – realmente ver, pela primeira vez, com detalhes e muita clareza – onde Pinky iria começar a escrever. — Nome. Títulos.

— Sim? — ela muda de feição, ficando extremamente séria por um instante, antes de começar a ditar, em um ritmo mediano, sua incrivelmente longa lista de títulos, na intenção de não exaurir Pinky logo no início.

❝Andynne Huntar'z.

Deusa da Sabedoria, Deusa da Alquimia, Deusa da Ciência, Deusa da Caça, Deusa da Arquearia, Deusa-Mãe dos Monstros, Deusa Aranha, Deusa da Comunicação, Deusa da Vingança, Deusa do Medo, Deusa da Estratégia, Deusa mensageira, Deusa-Ghoul, Deusa Vampira, Deusa das Bestas, Deusa da Retribuição, Deusa do Karma, Deusa Matriarca das Artes Psíquicas, Deusa da Fauna Mística, Mandamento da Verdade,❞

— Tem mais um monte, mas nunca lembro tudo de cabeça. São muitos títulos. — admite, depois de alguns segundos, quando a caneta já terminou de transcrever sua fala. Antes que eu possa comentar mais alguma coisa, ela continua: — Sim, sou a Deusa com mais títulos. Parece até que eu era pra ser a última. — então ri, como se fosse uma piada antiga, uma brincadeira muito sincera.

— Não. Eu sou a última. — sussurro, com um sorrisinho de leve, achando que ela está falando da entrevista e não de qualquer outra coisa. — Não tenho tantos, mas eu vou ser a última. — nada mais que justo, eu acho. Mas não me demoro muito nesse pensamento, porque logo volto à nossa conversa. — São muitos. Muitos mesmo. — olho para a folha do caderno, um tanto impressionada, dando uma atenção maior para o último título citado.

Enquanto viro as páginas para ir até a lista dos Mandamentos no final de tudo, na intenção de marcar seu nome ali, digo:

— Não vou pedir para você ir me dizendo o que for lembrando, porque esses estão bons por enquanto. — se essa é a lista que ela consegue lembrar, não sei quantas linhas dariam se ela citasse absolutamente todos.

Terminada minha fala, já tenho o Mandamento da Verdade riscado, com seu nome na frente, e observo a lista por um instante, admirada por vê-la se completando aos poucos, enquanto ela me responde.

❝MANDAMENTOS

1. Piedade (Meliriodas)

2. Paciência (Maureen)

3. Amor

4. Reticência

5. Descanso

6. Fé

7. Verdade (Andynne)

8. Altruísmo

9. Pureza (Georgine)

10. Pacifismo (Roserade)❞

— Falo dos meus irmãos, mãe. — volto meu olhar para ela. — Parece que socaram tudo o que sobrou até então pra mim. — realmente como se ela fosse a última deusa possível no panteão e o Universo a tivesse escolhido para ser responsável por absolutamente todas as funções que sobraram até ali.

— Ah. Entendi. É… Parece meio desigual, mesmo. — concordo, porque provavelmente nem Luksifer teria uma lista tão grande de responsabilidades divinas, e eu já o achava poderoso demais para seu próprio bem. — Mas eles têm outros que não dizem, não têm? Que os mortais nos chamam. — os mortais de Costa e Alfa e Beta Marine, no caso, os planetas em que somos as principais divindades.

— Ah. Têm. Mas eu não me ligo muito nisso. Como o caso do Esc de ser o “Forjador de Estrelas” e tal. — cita, apenas como um exemplo, já que realmente não parece se importar com os títulos de outrem quando tem tantos para si mesma.

Lembro-me de ela uma vez ter me listado uma quantidade até grandinha de títulos que seus irmãos tinham, mas que eles próprios não utilizavam no dia a dia; títulos utilizados por nossos adoradores, por aqueles que vivenciam verdadeiramente do nosso poder e sentem nossa energia e presença ao nosso redor tanto quanto os terráqueos sentem de seus inúmeros deuses e demônios.

Mesmo com toda a minha organização meticulosa, eu perdi essa lista em algum lugar. Xingo-me mentalmente por isso em um instante, porque realmente seria legal ter essa lista adicional. Mas deixo passar, no fim das contas, porque já é passado mesmo.

— Entendi. — assinto afirmativamente. — Bem… Continuando. Espécie, raça. Gênero, pronomes.

— Eu sou bem complexa, mas posso ser definida como um Ghoul intersexo, e que usa pronomes femininos. — ah, então esses eram os termos que ela utilizava para isso.

Se eu não fosse sua mãe e não tivesse vivenciado ela saindo de meu útero, eu provavelmente não me daria o trabalho de entrar nesses detalhes.

Mas essa era uma dúvida que eu sempre tive: que termos utilizar para a situação sexual de Andynne, já que ela nascera com as partes baixas tão lisas quanto as de uma boneca Barbie. “Assexuada” nunca seria o termo certo para qualquer ser vivo que não fossem plantas, mesmo que a pessoa realmente tivesse nascido literalmente sem sexo.

Ela desenvolveu um sexo depois de um tempo, após ter vivenciado a frustração de desejar alguém sexualmente e simplesmente não ter nem ao menos com o que sentir isso objetivamente. Não entra ao caso o que ela escolheu ter, acredito.

— Seria invasivo eu te perguntar como assim complexa? — questiono, preocupada com a possibilidade de incomodá-la com essa pergunta.

— Mãe, eu sou uma Ghoul que tem Vampirismo e é Transmorfa. Ah. Eu sou a Deusa-Mãe dos Transmorfos, também! — diz, se lembrando de mais um. Abro um sorrisinho brincalhão, com a leve sensação de que isso aconteceria mais vezes; ela lembrando de outros títulos que não havia mencionado anteriormente. — Vamos dizer que seja uma aracnotransmorfia. — ela termina e eu assinto positivamente, dando um pensamento organizado para que Pinky copie no caderno, logo depois de ter adicionado o outro título na lista anterior.

❝Deusa-Mãe dos Transmorfos.

Ghoul transmorfa (aracnotransmorfia) com vampirismo

Intersexo

Pronomes femininos (ela/dela)❞

— Entendi, entendi. — afirmo com a cabeça, prosseguindo. — Sexualidade, status de relacionamento.

— Eu sou pansexual e namoro com o Alec. — me responde e o meu sorrisinho se alastra em meu rosto, lembrando-me dos pensamentos que eu tivera no dia da entrevista do Alec. É bom ver que as coisas estão dando certo para eles.

❝Pansexual

Namorando com Alec❞

— Esse namoro ainda é uma das coisas que eu acho que foram as mais imprevisíveis de ter acontecido na história das coisas que aconteceram. — declaro, ainda rindo de como as coisas simplesmente acontecem a esse ponto. — Mas fico muito feliz por vocês. — e realmente fico, porque se amar alguém consegue dar energia o suficiente para o Pecado da Preguiça sair mais da cama para trabalhar mais e com mais fervor naquilo que gosta, é porque o amor é muito, mas muito, bom.

— Eu também não esperava. Só veio e essa é a melhor parte. — ela parece sentir o quão bom é, só pelo tom apaixonado em que diz essa última fala.

— É. É realmente muito bom quando acontece assim. — confirmo, meneando a cabeça de forma positiva, lembrando de tempos já muitíssimo passados, em que as coisas entre Lucith e eu só aconteceram, em que as coisas entre Luksifer e eu não eram nem ideias plausíveis em minhas fantasias. — É a melhor parte, na verdade. Quando só vem. — meu tom é de puro devaneio, porque as lembranças são muitas neste momento.

Não estava nos nossos planos nos apaixonar quando Luci vinha me visitar escondida depois das várias sessões de tortura física, sexual e psicológica por quais Sammael me fazia passar. Não estava em nossas mentes nos aproximarmos tanto quando Luksi pegou em minha mão pela primeira vez, ansioso com o que teria de fazer em seguida, naquela sala do trono repleta de observadores esperando por um ataque certeiro da “máquina de matar do Inferno”.

Mas, de alguma forma, há trilhões de anos atrás, aconteceu.

Não estava nos nossos planos ficar tanto tempo juntos a ponto de construir um panteão inteiro de deuses a partir da materialização dos nossos amores em crianças. Mas, de alguma forma, aconteceu.

Balanço a cabeça para me tirar dos pensamentos e focar novamente ali.

— Enfim. Continuando. Qual a sua arma mágica? — indago, e ela não demora absolutamente nada para responder, disparando um grande amontoado de informações enquanto gesticula, muito animada, Pinky fazendo seu melhor para acompanhá-la.

❝Minhas armas são os Kin'ko Harrit/Arcos Duplos Harrit.

São dois arcos que são feitos puramente de energia condensada. Funcionam em três modos específicos: Assault, Sniper e Double-Cast. O Modo Assault é o modo de disparo rápido, onde posso fazer chover flechas de tão rápida sucessão. O Modo Sniper é o modo onde ambos arcos se fundem "em X" e não importa onde, num raio de três planetas de distância, eu vou acertar como um míssil teleguiado. E o Modo Double-Cast é um modo onde disparo flechas diferentes de cada arco, cada uma com um efeito diferente. Não são rápidas como o Assault, mas tem muito mais potencial de controle.

Inclusive, apesar de a senhora só ter visto eu usando o Sniper e ele ser meu favorito, eu tenho as três formas. E eu posso atirar tanto puxando a corda com as mãos quanto com minhas patinhas. Pelo menos no Assault e no Sniper. O Double-Cast só consigo puxar com as patinhas.❞

— E como são as suas flechas? — questiono, verdadeiramente curiosa. E Pinky volta a copiar sua fala no caderno, porque são dados preciosos.

❝Eu posso colocar meu poder nas minhas flechas. A partir disso, posso gerar diversos efeitos não letais diretamente na alma de quem for o alvo. Pode ser um efeito de blackout do sistema nervoso ao ponto de gerar um desmaio até uma flecha que force a pessoa a me dizer o que eu quiser saber numa hipnose profunda.❞

Por alguma razão, antes dessa explicação, eu imaginava que a capacidade dela de apagar as pessoas, ou de fazê-las dizer a verdade, ou de prendê-las em ilusões, era relacionada a suas flechas, em si, e não ao seu próprio poder inserido nas flechas. Não foram poucas as vezes que eu a vi simplesmente desacordando alguém com uma flechada, achando que era uma arma específica para causar sono.

— Entendi. Então é parte do seu poder e não parte das flechas em si. — adiciono, apenas para materializar meu pensamento na conversa.

— As flechas são energias condensadas com meu poder. Eu não consigo machucar fisicamente ninguém com isso. — então é como se elas nem ao menos existissem; elas só se materializam quando ela condensa parte de seu poder no formato de uma flecha, para poder utilizar com seu arco duplo.

Assinto de forma positiva, entendendo tudo, finalmente.

Agora tudo faz mais sentido, porque eu simplesmente não conseguia imaginá-la carregando uma aljava repleta de flechas com códigos de cores para cada tipo de ataque que ela faz, para cada tipo de reação dada em quem recebe a flechada.

— Já que estamos falando disso, qual a sua relação com seus poderes e peculiaridades? — ela parece ter muitos poderes e muitas peculiaridades, então deve ter relações diferenciadas com cada um deles.

Ouço Pinky soltar um suspiro mínimo, como se a caneta pudesse ofegar, balançando seu pompom, cada vez mais vivo, na tentativa de se recompor para o que virá em seguida. Ela se põe a postos. E Andy começa:

❝Eu já tive muita dificuldade pra lidar com minha fome e sede, mas hoje sou bem mais tranquila com isso. Eu adoro meus poderes e como sou capaz de seduzir as pessoas a se tornarem meu alimento sem um pingo de violência. Isso é muito impressionante e sou muito feliz por saber lidar de forma tão graciosa com isso.

Eu tenho muitas designações, e atender todas elas é um trabalho muito complicado e que me requer foco total. Eu vivo andando pelos planetas para caçar e também para vingar as pessoas que são maltratadas ou violadas. Eu faço questão de colocar em muito sofrimento quem é maldoso de verdade.

Além disso, tem toda a questão de ser a Deusa da Sabedoria e, como sempre, entre minhas viagens, desenvolvo estudos e jeitos diferentes de pensar as coisas. É algo muito interessante. Também tem o fato de eu desenvolver a Ciência como um todo, nas mais diversas áreas. Menos a de tecnologia. Essa parte é com o Reg. Eu faço desde mudanças em elementos químicos de forma a gerar remédios até bombas. Confesso que explodir as coisas é divertido.❞

Ela parece estar se divertindo muito com seu relato, então não a paro nem por um segundo. Se ainda houvesse espaço para a dúvida depois de tudo isso, eu a questionaria depois que ela terminasse.

❝Enfim! Juntar tudo isso com manter o ciclo natural místico é bem complexo e, de vez em quando, tenho que intervir. Como foi em uma vez que vampiros queriam transformar todo mundo em vampiro. Tive de intervir.

Além de tudo isso, tenho meu Mandamento. Nele, quem mente diante de mim cai automaticamente na minha habilidade e fica presa até se redimir consigo da sua falha moral.

Minha habilidade é a Invasion. Eu posso invadir livremente a mente dos outros e, desde ler mentes, até gerar ilusões tão complexas quanto essa de agora. Tenho um raio de alcance de dois metros e por isso o Arco é muito útil.

Apesar de eu ser uma arqueira, me saio perfeitamente bem em combates físicos, graças as minhas habilidades naturais. Estas são originadas pelas minhas células especiais. Chamo-as de Mutagênicas R.C, ou em tradução pra língua portuguesa: Desordem Celular. Essas células desordenadas geram padrões únicos de DNA que as tornam multiplicáveis como Vírus, mas que em contato com o ar, geram uma espécie de quitina parecida com as escamas dos demônios que são extremamente duras, mas extremamente articuláveis. Essas células são as mesmas que Transmorfos possuem e elas permitem a mutação.

Como efeito colateral, nos Ghouls, elas causam uma aversão profunda a quase todo tipo de alimento. Eles ficam com gosto de excremento. Por conta disso, só conseguimos comer carne humana.❞

Ninguém acreditaria em quantas vezes tivemos conversas sobre como a comida simplesmente tinha gosto de merda; apenas carne humana a satisfaria. Mas não tem porque pensarmos nela devorando suas presas como os animais o fazem, comendo diretamente do cadáver, arrancando pedaços com os dentes. Ela é bastante delicada, na verdade, e chega a fazer uns pratos visivelmente apetitosos com esse tipo de carne. Mesmo sendo uma Ghoul, tem mais etiqueta à mesa do que quase todos os adultos da casa, comendo seu prato especial com garfo e faca específicos para isso.

❝Quando me transformo, fico com mais de cinco metros só das patinhas. Meu corpo é coberto pelas células e me transformo na aranha gigante que tanto falam por aí. Eu posso soltar as células em forma de teia rubra, mas só na forma de aranha. Essa é uma outra característica importantíssima.

As R.Cs são células que possuem uma cor diferenciada em cada indivíduo. No meu caso, são rubras. A Nina tem cores parecidas com algumas Lacraias. Essas células deixam as escleras negras e possuem um caráter altamente infeccioso. Os Vampiros possuem uma mutação dessa célula que fazem eles ter as características típicas de aversão ao sol e sede de sangue. Cada raça monstrificada tem sua variação.❞

— Alguma dúvida? — ela questiona, curiosa, ao terminar sua enorme explicação.

Acho que estou meio embasbacada com a quantidade de informações em que ela me lançou durante sua fala, porque demoro um pouco para processar tudo. Quando digo alguma coisa, digo apenas:

— Meu único comentário sobre isso é: queria eu ter a imaginação necessária para criar sozinha uma personagem como você. É o sonho de qualquer escritore ter esse tipo de imaginação. — eu verdadeiramente nunca conseguiria tirar alguém como ela de dentro do meu cérebro, projetá-la e criá-la apenas com o poder de minha mente. A sua complexidade, para mim, é mais uma das provas de quão real ela é. Isso só a torna ainda melhor em minha vida e em minha experiência.

Respiro fundo, voltando meu olhar para o caderno, então, para tentar visualizar alguma ponta solta que existiu, ou algo que poderia causar algum tipo de dúvida, tanto em mim, quanto em algum leitor em potencial.

— Deixa eu ver aqui. — passo os olhos por sua fala transcrita em uma quantidade considerável de páginas do caderninho. — Hm… — solto, ainda lendo, pensativa. — Qual a diferença entre você, a Merlin e a Rose nesse lance de Deusa da Sabedoria? — acho que esse é o único panteão conhecido que tem mais de uma deusa para a mesma coisa. — E tipo… Quando você mente, se você pudesse mentir, você cairia numa ilusão criada por si mesma? Tipo… Imagino que não possa mentir. Mas hipoteticamente.

Passo os olhos pela página novamente, ainda chocada por poder realmente enxergar minha letra contra o papel, o papel sobre o caderno, o caderno sobre minha coxa grossa, minha coxa dentro de uma calça preta, o contraste disso com a almofada colorida e disso com o tatame. Ainda é meio louco conseguir enxergar.

Eu geralmente consigo ver a energia e o aglomerado de pontinhos de coisas que criei, como se conseguisse visualizar os trilhões de átomos necessários para criar a densidade de um objeto. Mas ver as coisas completas, sem espaços no meio, sem serem apenas pontinhos de energia condensados ou coloridos, sem ser apenas a representação da vida que coloquei ali, sem serem apenas as palavras que criavam essa vida em meus olhos, é simplesmente impressionante.

Procuro nas palavras, visíveis e sem vida, escritas no caderno mais alguma coisa que poderia gerar perguntas. Quando não acho nada, ela começa:

— A diferença é bem simples. Vem do que nós somos e de área de atuação. — explica. — Merlin é sábia sobre magia. Rose é sábia sobre as “magias sombrias”. Eu sei sobre tudo. — acho meio pretensioso colocar que ela sabe sobre tudo, mas, com o tempo e a quantidade de títulos que ela tem como uma deusa imortal, não acho que eu deva duvidar de alguma coisa. — Merlin é a Maga. Rose, a Bruxa, e eu sou a Alquimista. Ah! Tem a Annie, que é a Feiticeira. — tá, agora ela me pegou. Antes que eu pudesse questionar qual a diferença entre cada uma delas, ela continua: — Magia vem dos elementos fundamentais. Água, Fogo, Terra, Ar… Rose mexe com maldições e coisas assim. Eu mexo com alquimia. E Annie é uma especialista em Feitiços do elemento Fogo. — então, simplificando, magia é sobre os elementos; magia sombria são maldições; alquimia seria como o conhecimento geral de tudo, como a estrutura das coisas; e feitiçaria seria a compreensão especializada de um dos elementos.

Okay. Acho que dá para entender assim, porque ela não me corrige. Pelo menos não imediatamente.

— Eu não posso mentir ou fico presa pelo meu Mandamento. — explica, o que eu já tinha imaginado. E então volta na pergunta anterior, para tentar esmiuçar melhor as diferenças entre cada tipo. — A Magia de Fogo se difere do Feitiço de Fogo, pois a magia requer canalizar a energia e manipular os elementos que já estão no ambiente para formar aquilo. O feitiço transforma a energia em elemento puro. Por exemplo: Merlin une o calor do ar com o oxigênio e usa a própria energia como combustível. A energia da Annie só é o fogo. Assim como a Light com os raios e etc. — assinto positivamente, tentando fazer minha mente funcionar tranquilamente pelo raciocínio.

Então Lightning é uma feiticeira dos raios; sua energia é apenas a eletricidade. Antes que eu possa questioná-la sobre onde estaria Flare nesse raciocínio, ela muda de assunto por um instante, como se tivesse ido no meu subconsciente, visto algumas das questões que eu tinha a fazer para ela, e voltado:

— E antes que pergunte: Eclipsis é o Pecado da Ira, Light, Mandamento da Fé, e a Flare, Pecado da Inveja. — não vai muito longe do meu pensamento atual, já que fala de Lightning e Flare também. Dou-me alguns instantes para ir até as páginas finais, onde estão as listas dos Pecados e dos Mandamentos e adiciono seus nomes, completando a lista de Pecados Capitais e faltando apenas cinco para completar a dos Mandamentos.

Enquanto escrevo o nome de minhas netas nas listas, riscando seus nomes com os títulos correspondentes, volto à pergunta que tinha em minha mente, sobre Flare:

— Então a Flare tem o mesmo poder básico que a Annie?

— Não. — responde, de imediato. — Flare é uma elemental. Ela é a encarnação do fogo puro. Annie produz o fogo a partir da sua energia flamejante. Flare é o próprio fogo. — então algumas das crianças de Annie eram feiticeiras, como ela, e outras eram elementais? Okay. Eu não entraria muito em detalhes. Perguntaria sobre isso para a própria Annie, em sua entrevista, que não está tão longe assim, já que é a próxima.

Andy parece perceber que esse assunto não nos levará a muito mais, já que já decidi questionar a própria feiticeira do fogo sobre isso e sobre seus pequenos filhos. Então se volta para o assunto que tinha parado antes da minha pergunta.

— Sobre os títulos das pequenas, além de Ira, Eclipsis é a Capitã dos Pecados, assim como Melo é o General dos Mandamentos. — ela termina, abrindo um largo sorriso, satisfeita com todas os novos conhecimentos que colocara a minha disposição.

Abro um sorrisão para combinar com o dela, abaixando a cabeça por um instante apenas para desenhar uma pequena estrelinha na frente dos nomes de Eclipsis e Meliriodas, marcando-os como líderes de seus grupos.

Dessa forma, as listas, quando no caderno, ficam assim:

❝PECADOS CAPITAIS

1. Luxúria (Katerina)

2. Orgulho (Escanor)

3. Gula (Merlin)

4. Inveja (Flare)

5. Ganância (Arthuria)

6. Ira (Eclipsis) ★

7. Preguiça (Alec)❞



❝MANDAMENTOS

1. Piedade (Meliriodas) ★

2. Paciência (Maureen)

3. Amor

4. Reticência

5. Descanso

6. Fé (Lightning)

7. Verdade (Andynne)

8. Altruísmo

9. Pureza (Georgine)

10. Pacifismo (Roserade)❞

Enquanto termino de desenhar a estrela do lado do nome de Melo, enuncio:

— Agora tudo ficou muito mais claro na minha cabeça. Parece que foi a aula de sistema mágico do século. Amei. — meus lábios ainda estão curvados em um sorriso satisfeito. Fico imaginando como eu poderia elaborar isso em livros futuros, onde escreverei histórias com início, meio e fim sobre contos dessa família incrível; como eu poderia explorar cada uma dessas magias, como descrevê-las, como diferenciá-las e diversificá-las ainda mais a partir de minhas palavras, minhas doces palavras. Só a possibilidade me deixa extasiada. — Sobre elas, está anotado no caderninho. — proclamo, batendo o dedo nas páginas com as listas.

— Obrigada. — ela diz, num tom levemente tímido. — Não tenho vocação pra docência, mas conheço sobre tudo isso.

— Eu achei muito bom. Você explica bem. — pelo menos para mim, que estou inserida dentro do contexto que ela está tentando elucidar, foi uma ótima explicação. — Pode não ter vocação para dar aulas pra muita gente, mas explica bem. — dou de ombros, sabendo que o que eu acho sobre explicações geralmente não é base para muita gente; para a maioria, na verdade. — Mais alguma coisa? — pergunto, ansiosa para continuar com as questões programadas. — Sobre isso? Poderes e peculiaridades e tals?

— Acredito ser só isso. — proclama.

— Okay. Então, continuando. Como são seus treinos? — vou para a próxima questão, e ela me responde de bom grado, aparentemente muito animada, Pinky voltando a acompanhar sua fala, percorrendo os espaços em branco das folhas de papel.

❝Eu treino durante o dia e durante a noite, mas é separado.

Eu faço meu próprio treino e, num geral, é sobre precisão. Tem um exercício que faço todo dia que é ficar de costas pra um alvo, usar o Sniper e atirar pra fora do planeta. Meu objetivo é acertar o centro do alvo. Sim, eu atiro pra fora de Alpha-Marine, passa pela órbita de Beta-Marine e Costa pra, com a gravidade, fazer todo percurso de volta até entrar na atmosfera de Alpha-Marine e acertar o alvo. É bem difícil e tenho que fazer milhares de cálculos pra acertar o trajeto. E isso não foi hiperbólico.

Depois disso, eu treino os disparos com as outras formas do Arco. Vez ou outra treino combate de curta com o Melo e controle mental com a Rose. Só que cheguei num ponto que faço esse treino extra mais pra não enferrujar.

Treinar durante o dia e à noite é importante pra afiar a visão. A pressão do ar muda e a trajetória, no escuro, tem de ser mais precisa. ❞

— Curta, de curta distância, você diz? — indago, curiosa com o termo.

— Sim! Chamo assim porque o Melo usa esse nome. É uma simplificação verbal. — nesse caso, seria nominal, mas eu entendo o que ela quer dizer, então não verbalizo minha correção; apenas assinto.

— Entendi, meu bem. — declaro, esperando um segundinho antes de continuar. — Agora, a última pergunta. Uma memória base, que você acha que é essencial e formativa para o que é hoje. — essa acabou se tornando minha parte favorita da entrevista, então, antes que ela fale, me curvo um pouco para vê-la e ouvi-la um pouco melhor.

Não porque é comumente o momento em que eles puxam sardinha para o meu lado, não, mas porque é bonito vê-los identificando momentos importantes de suas vidas, percebendo as mudanças, e encontrando naquelas memórias alguma coisa incrível para sua formação. Eles são incríveis por terem passado por muito mais coisas que aquelas memórias simples, ou que essa entrevista estruturalmente fraca, poderiam contar. Mas ouvi-los contando, usando suas próprias vozes, indo em lugares que muitas vezes não seriam os comuns para qualquer narrativa que conta histórias como as deles, é simplesmente extraordinário.

Volto um pouco o corpo para deixar espaço para Pinky continuar escrevendo no caderno em meu colo, mas ainda estou curvada na direção de Andy, olhos brilhando de animação, quando ela começa, a caneta lhe acompanhando:

❝Ah, mãe...

Eu sempre fui muito insegura comigo por ser sempre tratada meio mal por ser, literalmente, um monstro canibal. A senhora sempre falou muito disso e eu não conseguia me ver como algo diferente disso. Eu era muito popular porque era filha da senhora, mas não tinha amigos na escola. Quando fiquei mais velha, estava cheia de gatilhos e magoada.

Eu não sabia lidar com isso tudo e um dia, numa conversa com o Velho, ele me disse uma coisa muito especial: "Nós dois somos monstros para os outros. O que é mais importante: Ser o monstro que querem que sejamos ou sermos melhores que isso? Se dê tempo e se respeite.". Depois dessa conversa, a senhora brigou com a casa toda porque me viam como monstro.

Vocês dois me ajudaram a trabalhar com isso. Vocês dois me salvaram de mim. Eu estava na beira do abismo e cada um me deu uma mão. Eu mudei completamente. Eu parei de acreditar que ser o monstro era tudo o que eu era e ter pais maravilhosos assim me salva de mim todos os dias. Eu sou tão feliz hoje, com minhas crianças, com o Alec, com minha família. Eu finalmente entendi o que é ser da família e isso me salvou, literalmente.❞

— Isso foi lindo. — digo, um sorriso enorme no rosto, mas uma ponta de dúvida nos olhos. Sei que ela consegue ler a pergunta em minha mente, mas mesmo assim a faço. — Mas… — hesito um pouco, meio incomodada com o pensamento de que eu, por alguma razão, talvez tenha a dito que ela era um monstro de alguma forma. — Desculpa, eu não entendi uma parte. Você disse que eu sempre falei muito disso. Disso de você ser literalmente um monstro canibal? — eu não me lembro de ter dito isso alguma vez na vida, mas eu não me lembro de muitas coisas e, como eu bem sei, eu não sou perfeita, então algo pode ter acontecido.

— A senhora sempre falou que eu não era um monstro. E eu posso provar. — então ela faz a ilusão de uma montagem de cenas em minha mente, um amontoado de memórias, de todas as vezes em que, desde criança, eu a disse essa frase.

E eu consigo me ver, pelos olhos dela, a dizendo que ela era boa e muito mais do que achavam que ela era, quase sentindo de forma palpável a tristeza dela se dissolvendo depois de me ouvir. Tantas e tantas vezes em que ela chegava para mim, olhos molhados com lágrimas que teimavam em não fugir, perguntando-me se ela um dia seria algo mais que um monstro assustador que amedrontava as pessoas. Desde a infância, quando ela começou a ir ao Instituto (o antigo, não o de Maureen), até dias mais recentes, quando sua aparição repentina perto do corpo carbonado de seu pai assustou com força a garota que estava com ele no momento.

A sensação me preenche. Os meus olhos queimam e eu sei que estão marejados, uma pocinha de água brilhando com o branco de meus orbes.

— É… muito… — sussurro, por entre os flashbacks, enquanto outras memórias vão se sobrepondo às outras. Pisco uma vez e as lágrimas teimosas descem. Passo a mão por meu rosto para limpá-las.

Consigo me lembrar do meu desconforto naqueles momentos.

De saber que para sempre Andynne seria vista como assustadora para muitos, de que ela realmente seria entendida como um monstro, de entender que, se fosse eu no lugar de um estranho, eu também ficaria amedrontada com a visão de uma mulher-aranha ghoul e vampira. Mas de também saber que ela era e sempre seria muito mais do que apenas isso. De compreender plenamente que ela não poderia ser diminuída a um monstro, porque, mesmo sendo a figura monstrificada que é, existem muitos humanos milhões de vezes piores do que ela. De que não dá para culpá-la pelo corpo em que nasceu, pelas tarefas que adquiriu como deusa, pelo o que ela é, quando seus esforços para ser boa sempre foram muito maiores.

Eu já sabia que o meu esforço, como mãe, de fazê-la entender isso fora constante. Mesmo assim, ter todas essas lembranças ao mesmo tempo, como uma enxurrada, principalmente a partir do olhar dela, vendo a confusão e o carinho em meu rosto enquanto lhe falava que ela não era ruim, que ela não era um monstro, que ela nunca seria apenas isso, é arrebatador.

Balanço a cabeça para tentar me recuperar da quantidade exagerada de emoções.

— Não é nada mais do que a verdade. — declaro, por fim, voz um pouco embargada pela comoção. — Você não é um monstro. — repito o que já lhe disse milhares de vezes. Abro um sorriso e me estico para colocar a mão sobre a dela. — Eu amo muito você e a sua jornada, filha. Muito mesmo. Você é simplesmente incrível. Excluir todas as suas partes incríveis só pra te colocar como um monstro, é excluir toda você. — asseguro, enquanto faço força para que meus olhos não se encham de lágrimas novamente.

Há um momento ali e nós nos seguramos nele. Há carinho nela e em mim, e eu o materializo com uma carícia leve em sua mão.

Depois de um tempo, solto-a e volto para a minha posição anterior na almofada, me acomodando de uma forma mais confortável para perguntá-la sobre outras coisas que não têm necessariamente a ver com a entrevista.

— Mas tô aqui lembrando de umas perguntas que eu quero te fazer também. — menciono, pegando Pinky no ar para balançá-la um pouquinho. A caneta não se incomoda e o pompom balança de leve, como se, na verdade, estivesse gostando de um pouco de mudança nos ares. — Você tipo… Vê tudo, não? Conhece tudo que conhece nessa casa e muitos dos meninos te chamam te fofoqueira por isso. Como é isso?

Eu juro que, se eu pudesse ganhar um real a cada vez que uma das crianças vem reclamar que a Andy é bocuda, X-9, fofoqueira e derivados para mim, eu estaria muitíssimo rica a esse ponto. As histórias de brigas que ocorrem acidentalmente por conta de segredos que ela conta para outrem sem saber que são segredos são numerosas. Assim sendo, sim, essa pergunta é importante.

Tento esconder minha expressão de divertimento ao me lembrar de todos esses ocorridos, esperando pela resposta dela. Essa expressão se desmancha quando ela fala:

— É porque eu acabo não conseguindo conter minha língua. Eu escuto o pensamento de todos meus irmãos, filhos e sobrinhos. Da senhora e da mãezinha, eu evito por respeito, mas bloquear tanto é doloroso. — perceba aqui que ela não cita Luksifer nessa jogada, porque ela sempre sabe tudo o que ele pensa; o saberia mesmo que esse não fosse seu poder, já que, como Katerina é comigo, a ligação de Segunda Guardiã a permite ouvir tudo em tempo real. — Aí escuto até demais. E sempre acabo falando como se fosse dito verbalmente. — ela se encolhe, envergonhada, e então sussurra: — São acidentes…

Sinto-me levemente culpada por ter me divertido com as memórias, agora. Parece errado rir de algo que acontece às custas dela, assim.

— Ah, tá tudo bem, filha. Eu tô só perguntando. — verbalizo, me desculpando mentalmente. Eu não tinha falado que era divertido, então não peço desculpas com a voz, mas, como pensei nisso, peço desculpas por pensamentos. Como ela lê absolutamente tudo, acho importante fazer esse movimento.

— E eu sou a deusa da comunicação. — continua. — Eu passo todos os recados de todo mundo o tempo todo. Aí acaba fomentando o apelido. — um que provavelmente ela só aceita porque são seus irmãos; duvido que ela o faria caso fosse um de nossos adoradores. Existe um nível de respeito que se deve ter com seus deuses, e um deles é não chamar a Deusa da Comunicação de fofoqueira.

— Entendi, entendi. — afirmo. — Falando nisso, de comunicação, você consegue entender todo mundo, né? — okay, agora chegamos na parte mais importante, a qual eu tomo coragem para pedir para ela me ajudar com as entrevistas do mais novos, totalmente impossível sem o auxílio de alguém que entenda linguagem de bebês, dos balbucios aos gemidinhos. — Mesmo aqueles que não conseguem se comunicar verbalmente? — ela já tinha dito que ia me ajudar nessa parte, mas é sempre importante pedir por ajuda, oficialmente. Não existe momento melhor para isso que agora.

— Sim. — ela responde. — E eu vou ajudar. Só me chamar pra ir junto. — eu quase suspiro quando ela fala isso, porque eu realmente não sei como perguntar se ela pode me ajudar a traduzir os gemidos de zumbi de Sam, nem mesmo a linguagem própria de bebê da Florinha, sem me sentir uma péssima mãe por simplesmente não conseguir entendê-les. — Mesmo os nenéns têm pensamento complexo o suficiente para se expressar. Eu só… traduzo. — e é uma tradução muitíssimo importante, eu diria.

— É meio bizarro você me responder sem eu ter perguntado, — comento, dando uma risadinha — mas é legal eu não ter que pedir para você falar.

— Eu já falei que se eu tivesse nesse mundo todo mundo acharia que sou uma asiática dos olhos de anime? — ela indaga, mudando completamente de assunto. Ela não tinha dito ainda, mas Luksi já havia comentado sobre uma vez, e, lá no início, ela já tinha falado sobre como seus olhos eram arredondados. — Sim. Eu gosto de acompanhar a cultura dos carbonados. É… curiosa. — ela declara, meio divagando, olhos rubro-negros ganhando um brilho perdido em pensamentos, como se ela estivesse analisando todos os episódios de anime que assistiu como uma viciada nos últimos meses.

É engraçado imaginar ela incorporando no corpo físico de Luksifer e se deleitando com representações de personagem tão overpower quanto ela e seus irmãos, analisando absolutamente tudo que encontra de novo sobre qualquer uma das culturas variadas dos seres humanos terrestres.

— Só vai ser difícil acertar Éons… — então ela volta para o assunto das entrevistas com os bebês. — Elu apaga completamente o rastro.

— Isso quer dizer que você tem olhão grandão? — indago, apenas para entrar no seu devaneio, sorrindo. E então também volto para o assunto principal. — Ah, elu se comporta muito bem quando está comigo. É só estar no meu colinho. E aí a gente conversa. — Éons costuma se assustar com facilidade, simplesmente desaparecendo quando o faz, mas, quando em meus braços, por alguma razão, elu se sente segure o suficiente para, mesmo assustado, não sumir completamente, apenas ficando invisível.

Éons é ume bebezinhe muito especial, penso, abrindo um sorriso orgulhoso enquanto me lembro do processo de crescer internamente e espiritualmente, me entender melhor, e, então, gerá-le. Elu sempre será a lembrança do momento em que eu realmente percebi que era uma Deusa, e que, mesmo que minha mente me sabote com força, eu tenho poderes e que eu tenho, sim, que desenvolver esse meu lado. A prova material e viva dessa minha percepção.

— Mas vai ser tipo… meio doido perguntar pra um bebê. — comento, rindo novamente, lembrando-me de uma imagem muito engraçada que eu vi na Internet outro dia. Estar encarnada no caos que é a Terra é muito ruim, mas te dá coisas muito legais, como a filmagem de um jornalista realmente entrevistando um bebê recém-nascido como se ele pudesse responder qualquer coisa. — Vou me sentir meio estranha. — talvez eu me sinta reproduzindo esse meme na última das consequências.

— Sim. Grandão e redondo. E meus outros olhinhos de aranha são pititinhos. Todo mundo pensa que são pintas. — saio da minha própria divagação e volto o olhar atento para ela, finalmente percebendo as pintinhas em seu rosto, piscando todas juntas de uma vez. É, eu realmente não colocaria que seriam olhos. Se ela não disse, eu nem as colocaria como pintas. Pensei que fossem uma formação estranha de sardas.

— Entendi, filha. — digo, finalizando esse assunto. — Vamos ver como vai ser com os bebês. Vou me sentir meio boba perguntando pra um bebê, mas confio em você pra traduzir os grandinhos muito bem. — às vezes, entender os gemidos de dor de Lux é mais fácil que entender as falas meio compreensíveis dos bebês maiores. Tem horas que Flora fala e meu cérebro tilta com tamanha força que eu não consigo nem ao menos continuar as linhas de raciocínio.

— É só a senhora me perguntar. Eu traduzo pra complexidade deles e eles vão pensar sobre. Esse pensamento eu traduzo numa linguagem comum. — tento não rir do pensamento de “intérprete de bebês”, mas é meio inevitável. Um sorriso brincalhão se forma em meu rosto.

— Hm… Entendi. Okay. Então eu pergunto pra você e você pro bebê. Okay. Perfeito. — falo, meio apressada, quase rindo, mas também um pouco nervosa; espero de verdade que não caiamos no ridículo com isso. — Vai dar certo. Vai dar tudo certo.

— Vai sim! — ela exclama, animada. — O que mais quer saber?

— Cheguei tão longe… Já tô até planejando como questionar os bebês… — sussurro, mais para mim do que para ela, sendo tomada de uma vez pela sensação ainda muito nova e diferente de orgulho próprio. Eu nunca pensei que chegaria longe o suficiente para realmente planejar algo que não parece assim mais tão longe. — Bem. — digo, para me tirar do sentimento arrebatador de que talvez eu realmente consiga completar algo realmente bom nessa vida e voltar para o momento atual. — Não tem mais nada por agora. Você quer falar mais alguma coisa? — a última pergunta.

— Eu queria agradecer a esse projetinho da senhora, maravilhoso! — sorrio, não deixando a sensação de orgulho próprio me fugir. Sei que isso me dá um brilho diferenciado, algo que, em todos meus quase dezesseis trilhões de anos, só agora experimentei. — Quero agradecer aos seus leitores e aos adotados. Vocês são muito bem-vindos pra cá quando morrerem. — penso no grupinho de jovens amigos que juntei para mim e agora chamo de filhos, carinho correndo em mim porque carinho corre também em Andy. — E eu queria dizer mais coisas, mas não posso dar spoiler do plano carbonado. — não faço ideia do que ela quis dizer com isso, mas rio.

— Eu realmente não achei que chegaria tão longe. De verdade. — declaro, porque realmente não achei. — Mas é isso… Obrigada, filha. De verdade. Por participar. E por me incentivar a continuar. — talvez ela seja a única que realmente vai conseguir compreender pelo menos a ponta da minha gratidão, já que ela consegue literalmente ler minha mente. Mesmo assim, acho que escutar o que penso não seria o suficiente para que ela entendesse o quanto sou grata por ela existir e por estar aqui, comigo.

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— A senhora se esforçou muito pra chegar até aqui. Agora é continuar em frente. Estarei disponível para te ajudar daqui pra frente. — me assegura, com um sorriso.

— Perfeita. Simplesmente perfeita. — comento, balançando a cabeça negativamente, mais como um sinal de que não consigo acreditar em quão boa ela é para mim do que qualquer outra coisa. — Bem… É isso? Mais algo?

— É só isso. — responde. — E perfeita é a senhora.

Fecho o caderno, enquanto ela fala, pegando Pinky no ar e abrindo a gaveta invisível com um movimento rápido e fluido para colocá-los lá dentro novamente, antes de me levantar.

— Pffff, queria. — porque a minha busca pela perfeição talvez exista há mais tempo que eu, mas, mesmo com todos os meus avanços, ela nunca chegará. — Meu sonho, na verdade. — admito, do fundo do meu coração, porque, enquanto ainda tivesse a voz de Sammael em minha mente e alma, nunca deixaria de sonhar com a perfeição inalcançável. — Mas é isso. — termino, dando de ombros, meio que aceitando que é minha sina nunca ser o que eu espero de mim mesma, por mais que eu tente.

— Ah! — ela fala como se tivesse se lembrado de algo muitíssimo importante. — Segredinho. A Ginny tá com vontade de pegar a… — e então se censura, fazendo um som esquisito, que eu poderia caracterizar como o som de um asterisco, se é que asteriscos têm som. Ela pisca para mim de maneira sugestiva e eu rio levemente, porque sei exatamente quem é, mesmo que ela não diga. — Eu conto essa parte fora da entrevista.

— Okay. Conta sim. — digo. — Mas tô sentindo que vai ser proibido, porque a asterisco é menor de idade. — penso em minha pequena entusiasta, que é entusiasta ainda maior da Georgine e rio de novo.

Imaginar o caos que elas espalhariam no mundo só estarem no mesmo ambiente é algo divertido. Espero que um dia elas possam se conhecer de verdade. Seria deveras engraçado vê-las juntas, fazendo seus comentários extra-caóticos.

— Enfim. Vou indo, okay? — declaro, apenas para modificar meus pensamentos, afinal, não faço nenhum movimento real para levantar daquela almofada. Há uma sensação crescente de que, caso eu saia por essa porta, eu nunca mais vou conseguir ver minha casa, meus filhos, minha realidade novamente. Isso me assusta um pouco. — Obrigada, meu bem. Amo muito muito você.

— Eu sei! Mas é isso. — fala, ainda sobre a questão da Ginny, então responde o restante da minha fala. — Eu amo você, mãe. Obrigada por ser maravilhosa.

Enquanto a percepção de que, acabada a ilusão, eu voltarei para o escuro com pontadas de vida vai escorregando por seu cérebro, vem com ela também a minha tristeza e a insegurança. No fundo, eu não quero que seja diferente, mas, também quero que o seja. Não quero perder a concretude de ver apenas a vida e os sinais da minha Criação, mas, agora que tenho a possibilidade de enxergar de verdade tudo ao meu redor, não sei se quero perder isso também.

Estou num impasse.

Caso eu me levante agora, talvez eu nunca mais veja nada dessa forma que vejo agora. Será que sentiria muita falta? Será que, depois disso, um dia eu voltaria a simplesmente aceitar o que sempre foi o normal? A simplesmente me abnegar diante do estilo de visão que trabalhei tanto para construir durante os anos?

Suspiro de alívio quando consigo ouvir algo líquido passando por debaixo da porta, voltando meu olhar para lá, vendo uma pocinha de sangue muito vermelha se movimentando sozinha pelo vão e então se materializando na forma de uma criança de no máximo quatro anos de idade. Um menininho. Mesmo depois de já ter entrado, diz:

— Poti entla? — “pode entrar?”; é fofo, mas talvez alguém realmente devesse parar de achar que é simplesmente fofo e corrigir essas falas. Eles não aprendem a falar sozinhos, sabe? Se não corrigirmos, eles sempre vão falar assim. Mas… dá para resistir a isso? A esse nível de fofura inegável quando se vê uma criança pequena falando errado? Não precisa me responder. Eu sei que dá.

Porém, como Deusa da Maternidade, é simplesmente irresistível para mim. É uma luta eterna contra meu útero para não correr em direção a Luksifer na hora e pedir por mais um. Acho que vinte e um já está de um bom tamanho, todavia. É melhor parar.

— Eu preciso vedar as portas… — Andy sussurra para si mesma, então volta-se para seu filho. — Pode, Vlad. Pode. — ela fala como se estivesse meio frustrada, mas sei que, no fundo, ela não se importa. — Não fica passando por aí ou alguém pisa em você.

— Itaí? O moito. — “e daí? Eu mordo.”; essas crianças de hoje em dia…

— Não pode morder. — ela repreende; ele finge que não escuta.

— Toti fomina. Telo mamá. — “Tô com fominha. Quero mamar”.

— É isso que vai falar? — não sei o que ela espera que ele fale, mas abro um sorrisinho, satisfeita de ter conseguido assistir isso acontecendo ao vivo e a cores.

— Afi. É. — sendo ele agora a figura de leve frustração, responde. Provavelmente, se fosse um adolescente, teria revirado os olhos. Como é só um bebê, não sabe o fazer ainda. Ou pelo menos se segura para não o fazer na minha frente.

Eu me levanto, por fim, batendo nas calças para tirar uma sujeira inexistente, na verdade protelando o momento de partida, preparando-me lenta e mentalmente para desfazer a ligação que Andy havia criado. Hora de voltar para a vida real, para a escuridão da cegueira com pontinhas coloridas de energia. Não era assim tão ruim.

— Vamos. Vou fazer sua mamadeira. — Andynne fala para o filho, parecendo se esquecer de mim por um momento. Sei que ela não o fez, mas quase agradeço por isso, porque não quero que ela veja minha expressão de tristeza e leve resignação. É quase como se eu tivesse saído da caverna de Platão, visto a verdade, ficado deslumbrada por ela e voltasse não por querer, como no mito, mas por pura obrigação. Não tem outro jeito; o meu lugar é vendo as silhuetas coloridas que fazem alegoria com as sombras.

— Não sei se quero sair daqui… — sussurro, muito lentamente, admitindo, mesmo que não quisesse admitir. Eu me acostumei com a cegueira. Quase dezesseis trilhões de anos infernais vivendo assim e eu não posso simplesmente me sentir grata por ter conseguido ter um momento diferente. Eu tenho que me derrubar com a sensação. É difícil não me sentir ingrata. Impossivelmente ingrata.

— Posso manter isso por um tempo, mas terei de tirar amanhã ou seu cérebro sofrerá danos demais. Mais que um dia é danoso. — ela explica, e é exatamente como eu imaginei: não tem forma de ser permanente sem que me machuque demais.

Embora eu seja masoquista e, nesses momentos em que a tristeza bate, pouco exista que eu queira mais que eu me machuque, ninguém naquela casa deixaria isso acontecer. Nem mesmo para eu enxergar.

— Sim, consigo reproduzir tudo o que veria, mas precisa deixar eu dar um tiro. — eu também imaginava que ela conseguiria, mas é melhor simplesmente tirar o curativo de uma vez. Fazer isso aos poucos, conseguindo ver Luksifer, o Castelo, algumas das outras crianças, só para ter isso retirado de mim logo depois, seria uma dor muito maior do que eu conseguiria aguentar. E eu já tenho dores demais para lidar.

— Não. Não posso ficar acostumada com isso. — meu tom é melancólico, mas conformado. — É melhor perceber a frustração da escuridão agora do que depois.

— Como quiser! — ela responde.

Acho que ela tenta não estender meu sofrimento comentando sobre isso. Sei que ela o percebe, mas o respeita. Vlad, por sua vez, também parece percebê-lo, mas, ao invés de aceitar minha tristeza como se nada fosse, ele me chama:

— Babá! — e eu me volto para ele, tentando sorrir. — Tá abaxo? — “Dá abraço?”; um sorriso de verdade se forma em meu rosto.

— Vlad… Se morder ela, eu vou te esbofetear. — ela não faria isso de verdade, afinal, ela é do tipo que bate com as palavras e não com as mãos, mas a ameaça permanece no ar enquanto o respondo.

— Dou, neném, mas sem morder. — aviso e então me abaixo, para dar um abraço apertado no pequenino, meu netinho que se materializa de uma poça de sangue.

— Moitê Babá nu poti. — “Morder Babá não pode”; e meu sorriso se alarga mais, enquanto ele me abraça forte, rindo. Ele é pequeno e novinho, mas seu amor é palpável.

— Isso. — Andy o congratula.

— A Nina tá la fola. Ela tá nu tetu. — ele avisa, depois de me soltar.

— Ela pode entrar depois. — sua mãe diz, como se falasse que sua prioridade agora é se despedir de mim, depois ela entra.

— Nina té abaxo. O xei. — “Nina quer abraço. Eu sei”; sério, tem como não derreter com uma lindeza dessas?

— Eu tô indo, já. Deixa ela entrar, pra eu abraçar ela também. — peço a ela, fazendo coro ao pedido de meu neto.

— Muito doce da sua parte falar isso, filho. — elogia e então vai até a porta, abrindo-a. Nina entra pelo teto, correndo, agarrada lá no alto e gritando:

— Ieba!

— Oi, Nininha. Abraço? — pergunto a ela, enquanto me levando, abrindo os braços para a garotinha com cauda de lacraia presa ao teto do quarto.

— É! — Nina exclama animada, saltando do teto e pousando com a cauda no chão, esticando-se nela para ficar da minha altura. — Isso! — essa palavra sai meio mecânica, como se estivesse a ensaiando há pouco tempo, e então ela me abraça. Eu a abraço de volta, sorrindo como se fosse um dos melhores momentos da minha vida, embora tenha plena consciência da melancolia dessa partida.

— Tiau. — ela diz, depois de me dar um beijinho na bochecha e se soltar, se agarrando à superfície plana das paredes e correndo por elas com suas patinhas para ir para sua cama, a de cima do beliche.

— Tchau, neném! — despeço-me, observando-a se afastar. E então volto-me para Andy e Vlad. — Tchauzinho, meus amores. — depois apenas para minha filha. — Vou indo, Andy. — anuncio, coração na mão.

— Até mais, mãe! — ela me responde, acenando, enquanto eu caminho em direção à porta aberta, me preparando mentalmente para sair.

— Até! Amo vocês! — exclamo, um pouco mais alto, enquanto saio do quarto, acenando, fingindo-me toda felizinha e sorridente, tentando transmitir a eles toda a sensação de orgulho e felicidade que existira ali naquele momento.

— Amo você. — Andynne me responde. E então a ilusão acaba, logo depois de sua fala; logo depois de eu sair de seu quarto e escutar a porta se fechar atrás de mim.

Quando volto ao meu estado normal de cegueira, há uma vontade intensa de chorar. É como se aquele raio da depressão percorresse por todo meu corpo novamente, aquela sensação enérgica a que estou tão acostumada a esse ponto da minha vida.

Mas, com os olhos quase vazando, decido que não há motivo real para chorar, porque, na escuridão, ainda há o Castelo, pura energia criativa vinda de mim, e os feixes luminosos que são tão familiares, meus e reais. Então, pela primeira vez em muito tempo, sorrio para o escuro, orgulhosa de ao menos ter os sinais de vida que construí para me guiar diante dele.

Eu não poderia viver numa ilusão.

Enxergar é coisa de meus sonhos, ou de lugares que parecem pesadelos. A vida real é essa escuridão com feixes coloridos me guiando ao progresso.

Agarro-me a isso com todas as minhas forças, deixando as lágrimas correrem por minha expressão orgulhosa e sorridente, e caminho, sozinha e eternamente acompanhada de mim mesma, de volta até meu quarto.

Talvez minha realidade não seja assim tão ruim no fim das contas.