A L E C

rei pedra / rei terrestre

Brigas e duelos podem ser coisas perigosas quando aqui em casa.

Não que essas duas atividades não sejam perigosas por si só, mas, quando falamos de criaturas mágicas super-poderosas (talvez o super nem seja o suficiente, talvez seja hiper plus ultra, como diria a Luci), vivendo em ambientes e situações de descontrole emocional, podemos esperar por lutas homéricas.

Lutas essas que, se viessem a acontecer na Terra, provavelmente extinguiriam por completo muitas cidades apenas com a força do impacto, apagando-as do mapa.

Caso a luta de ontem tivesse ocorrido no planeta carbonado, provavelmente o ataque de Alec direcionado a Nero teria estraçalhado não apenas cidades, mas destruído pelo menos um país inteiro, pedregulho de mais de um quilômetro de altura e diâmetro sendo levantado por metros e mais metros com a força de seu martelo, energia do seu poder, apenas para cair com tudo com a força da gravidade, quebrando tudo em um raio de quilômetros e quilômetros de distância, fazendo as placas tectônicas tremerem.

Não fosse por Nox me chamar correndo, ou por eu fazê-los parar de lutar com a Voz Divina da Criadora, ou pelo poder concentrado de energia pura da Destruidora, em esforço intenso para diminuir o ataque até quase não restar nada, não sobraria Nero para pedir desculpas pela briga, não sobraria Castelo para as crianças dormirem, não sobraria Lolline para contar essa história.

Mas, talvez, as perigosas lutas de poderes em excesso não fossem tão estranhas quanto os casais formados dentro da família, muitas vezes motivos das citadas brigas.

Até porque Alec só liberara tanto poder porque ficara bravo: fora atacado primeiro. E fora atacado primeiro porque uma crise incontrolável de ciúmes e desespero tomou o coração muitíssimo esforçado e aparentemente comedido de Nero, cegando-o completamente e tirando toda gota de moderação que trabalhara tão arduamente para conseguir manter.

Afinal, quando se está em um relacionamento aberto com uma pessoa há anos, tem-se três filhos com ela, deixa combinado entre si que a condição única para aquilo ser aceitável é o uso de preservativos, e sua companheira aparece grávida de um outro alguém, é um pouco difícil manter a compostura, mesmo que seja o certo. Ainda mais quando ela fala tão apaixonada dele, quando dá para ver em seus olhos o calor que ela nunca sentiu por você.

Essa era a situação de Nero com Andynne, que, depois de inventar de fazer um experimento científico e sexual com Alec, havia se apaixonado profundamente pelos carinhos, pelos toques e pela personalidade de um outro alguém, agora carregando um filho dele. A dor de um coração assim partido é insuportável e indescritível, uma potência cegante, capaz de eclipsar as melhores ideias.

Ainda não sei se o culpo por ter se deixado levar por seu descontrole e arranjado briga com um gigante que agora sabemos ser mais poderoso do que imaginávamos, ou se o compreendo por estar reagindo tão passionalmente a um problema não intrinsecamente emocional.

Só sei que, ao final da briga, depois de pedir desculpas ao Alec e à Andy, antes mesmo de ter sua resposta em palavras, teve sua resposta em ações. Porque enquanto Nero se desculpava, Alec caiu ao chão em dores, tapando com a mão o olho que havia sido cirurgicamente ali colocado ainda recentemente. Andy cortou suas palavras ao meio e correu até ele, gritando a Nero que tudo havia acabado ao ver o sujeito de sua ardente paixão ferido por seu último amor.

Nero foi embora, provavelmente sem plano de voltar. Andy e Alec assumiram um relacionamento, pouco depois do primeiro fugir.

Não sei o que mais me assombra: toda essa confusão ou imaginar as mecânicas sexuais necessárias para uma mulher-aranha e um gigante de catorze metros conceberem uma criança. De todos os casais que os Huntar’z poderiam ter formado, esse é o que eu menos esperava.

Caminho pelos corredores do Castelo, indo em direção ao quarto de Alec, na intenção de entrevistá-lo, enquanto penso sobre isso. Dou risadas de mim mesma enquanto tento imaginar o corpo aracnídeo de Andy perto do enorme colosso que é Alec em seu tamanho natural, sem se encolher ou qualquer coisa assim.

É muito engraçado tentar imaginar as dimensões deles lado a lado, quando nunca nem ao menos cheguei a vê-los. Sei que Andy é uma aranha, deusa delas, mas faço a mínima ideia de como é seu corpo; como não consigo imaginá-la, não consigo pensar em como seria para ela transar, quanto mais com uma criatura pelo menos seis vezes maior que ela.

Chego à porta do quarto de meu filho ainda achando graça da improbabilidade de certos amores naquela casa. Quando vejo todos os numerosos e finos feixes de luz se encontrando para formar uma porta, antes mesmo que pudesse terminar de bater nela, ela se abre. Quem sai por ela é Andy, cabelos bagunçados, sorriso malicioso e satisfeito no rosto. Tento não me assustar ou rir ainda mais com a ideia de que ela, naquela sua forma usual, provavelmente era pouco maior do que o membro dele em tamanho normal.

Ela provavelmente já sabia que eu vinha, mas ele não. Porque, quando entro no quarto, depois da autorização da garota que saía, Alec demora um pouco para perceber minha presença e, quando percebe, parece tão atordoado que nem ao menos sabe o que está acontecendo, completamente assustado com a minha aparição, tão súbita para alguém tão lento quanto ele.

Ao me ver, pôs-se a arrumar o quarto o mais rápido que conseguiria, mas ainda de forma bastante lenta, o que é de seu costume. Nossa conversa parece ser um bate-volta entre uma pessoa muito animada com a própria existência e uma pessoa sonolenta demais para querer existir.

Quando o pergunto, brincando, pela segunda vez sobre como funcionaria a mecânica daquela relação, ele se mostra verdadeiramente avoado e atordoado quando, depois de explicar como se encolhia para igualar ao máximo os tamanhos, ela sendo bastante ativa durante as relações, inocentemente, me diz que até poderíamos tentar depois, mas que não poderia ser hoje, pois queria dormir cedo. As implicações dessa frase me travam na hora.

Provavelmente sua mente está perdida demais na fadiga, na preguiça e no torpor pós-sexo para perceber que ativamente propôs a mim, sua mãe, que nos envolvêssemos sexualmente, caso eu tivesse curiosidade. Sua fala, muito tranquila para alguém que fala com real malícia, é o suficiente para arrepiar meus pelos e me deixar intensamente desconfortável, sensações horríveis engatilhadas, sentimentos ruins o bastante para me fazerem desejar desistir da entrevista.

E o meu humor, que até então estava ótimo, tem uma recaída tremenda, porque já não tem mais graça o pensamento disso, até o terror de me imaginar seguidamente sendo invadida por comentários e mãos e corpos maldosos, memória tão intrínseca e colada à minha alma.

Para além disso, cresce em mim o pânico do que as pessoas poderiam achar de mim se lessem a conversa real que ocorreu entre nós naquele momento. Já me bastava ter que narrar nas entrevistas, destinadas a leitores humanos, como irmãos se casavam e sobre como algumas filhas tinham uma quedinha (algumas, um precipício) por mim, mas uma fala dessas, tão tranquila e desinibida, tão confiante em sua ignorância, só mostraria que deve haver algo de errado aqui.

Incesto entre irmãos, quando falamos de deuses e criaturas mágicas com linhagens na realeza, até vai, mesmo já sendo um problema com a forma de ser tratado entre os humanos. Incesto entre mãe e filhos… É inaceitável.

Travo tanto no comentário que não consigo mais falar nada com ele, de tamanho desconforto e pânico em ter que lidar com uma situação dessas, ter de imaginar qualquer pessoa me assistindo passar por algo assim diretamente. Não consigo arranjar a força ou a vontade para continuar.

E, enquanto ele chora um pedido de desculpas doído, sentindo que estragara tudo por conta de seu Pecado e sua preguiça de pensar, abrangendo o quanto odiava sua situação e como a Preguiça o fazia se sentir lento e perdido, me contando sobre como costumava estragar tudo por ser lento e não perceber até que o estrago tivesse sido feito, vou me sentindo pior.

Como poderia continuar com a entrevista, seguindo para o meu objetivo principal e inicial de ter ido até ali, sem fazê-lo se sentir mal por ter me feito desconfortável e sem me sentir ainda mais desconfortável por tê-lo deixado mal?

Falo de voltar outro dia para continuarmos com aquilo, mas nem eu mesma quero isso. Até esse momento, ele só disse coisas importantes sobre si mesmo, sentimentos que provavelmente guardava dentro de si por muito tempo, sem conseguir se expressar sobre eles verdadeiramente, até mesmo pela preguiça de sentir.

Peço uma pausa. Naquele pequeno conflito que tínhamos vivenciado, um que não tenho coragem de descrever com todas as palavras, senti tanta vergonha que não consigo nem ao menos pensar. Preciso de um tempo para colocar meus pensamentos no lugar antes de fazer uma decisão verdadeira.

Aviso a ele que vou apenas sair do quarto, mandar uma mensagem de sombras para Luksi, para me acalmar, e que logo volto. Ele então estende a mão gigante à minha frente e me ajuda a descer de sua cama gigantesca, uma em que tinha subido logo no início de nossa conversa, antes mesmo do conflito acontecer.

Já no chão, novamente, me encaminho até a porta e saio do quarto.

Do lado de fora, agacho-me por alguns instantes, tentando colocar a cabeça no lugar. Levo a mão até a quina da parede com o chão, sabendo que ali teria ao menos um resquício de sombra para utilizar de mensageira.

Penso em Luksifer enquanto mentalizo a forma-pensamento de minha mensagem. Quase visualizo sua forma enquanto digo mentalmente que algo tinha dado errado no meio do caminho e que ainda estava pensando em como faria para narrar aquelas cenas sem me deixar ainda mais enojada do que já estava.

Ele, como sempre, logo responde com uma mensagem de confiança e incentivo, que faz com que eu até mesmo respire melhor. Falar qualquer coisa com ele é como finalmente saber o que é alívio, o que é paz, o que é realmente ter segurança. Qualquer uma de suas falas já seria o suficiente para me deixar mais calma.

Abro um pequeno sorriso e me levanto, voltando-me para a porta do quarto novamente, feixes de luz dourada ainda brilhando em sua junção, me mostrando aquele portal imenso, proporcional ao tamanho natural do gigante.

Respiro fundo uma vez. E tento de novo.

Bato na porta duas vezes, acompanhando o som com a minha voz:

— Toc toc.

Não demora muito até que ele abra a enorme porta, bem vagarosamente, o rosto inchado, uma vassoura gigante, adaptada para o seu tamanho e as proporções de seu quarto, em mãos. Algo em meu coração cai e se quebra. Não consigo olhar diretamente para sua face, mas sei que esteve chorando ainda mais enquanto eu estava do lado de fora me recuperando de seu comentário invasivo. Culpa percorre meu corpo quando ele diz, voz morosa e tristonha:

— Eu varri o quarto e arrumei.

— Oi, filho… — digo, hesitante, visivelmente me sentindo mal por causar-lhe aquilo. — Me desculpa por toda essa situação. Eu não queria… ter te feito chorar.

A sensação da culpa queima. Sinto-me, de repente, uma mãe ruim. Eu poderia ter falado de uma forma diferente, agido de forma diferente, não precisava tê-lo feito chorar. Esse tipo de culpa sempre me assola quando algo desconfortável de teor sexual acontece comigo, vindo ainda mais forte quando me posiciono contra ela. Depois de tantos abusos e de tanto ouvir que o meu desconforto pouco importava, deixar os outros se sentindo mal por ter me expressado sobre ele era ainda pior.

— Oi, mãe… — ele responde, também hesitante. — Eu não queria ofender… Perdão. — sinto que está abaixado, sua enormidade mais perto de mim. Sei que ele não disse para ofender, mas fora tão natural que me assustara. Provável que ele estivesse mentalmente cansado demais para pensar nas consequências de sua fala, com preguiça demais para raciocinar possíveis reações. Sei que ele nunca faria por mal.

— Tá tudo bem. — aceno positivamente, abrindo um leve sorriso satisfeito, visivelmente mais tranquila depois de conseguir pensar um pouco. — Eu estou mais calma. Só bateu um desespero de como eu ia contar tudo isso pros humanos da Terra. — deusa me livre ter de contar em detalhes o que aconteceu para os humanos da Terra. — Mas acho que consegui me ajeitar. Tá tudo bem. — se chegamos até aqui, é porque eu realmente consegui me ajeitar.

— Entendi. — declara ele, enquanto entro de novo no quarto, passando pelo gigantesco vão. — Quer sentar na cama? É o que tenho de mais confortável no quarto.

— Quero sim, bebê. Me levanta. — peço, sabendo que a altura de sua cama é pelo menos umas três vezes maior do que a minha, sendo verdadeiramente necessário que alguém me levante até lá. Ninguém melhor do que ele para isso.

Ele encosta a palma no chão. Só a largura de seus dedos é quase metade do meu corpo inteiro. Todos os dias me pergunto como pude tirar tantos seres incrivelmente fascinantes de dentro de mim. Em sua época de bebê, embora ele já fosse um bebê bem gordinho e comprido, eu nunca imaginaria que ele ficaria tão grande.

Subo em sua mão, sorrindo para ele, e tomo os segundos que ele leva para me levantar até a cama, como meu elevador pessoal e de carne e osso, para observar seus limites e tentar visualizá-lo pela descrição feita por Luksi.

Alec Huntar’z é colossal. Grande de todas as formas, tem em seu tamanho normal 14 metros de altura, podendo diminuir conforme sua vontade, a partir de um custo energético muitas vezes alto. Seu corpo é gordo, de um tamanho que eu acredito ser mais próximo de um gordo médio que um menor, coberto de pelos, e tem vigor o suficiente para carregar um martelo quase do seu tamanho, braços muito fortes.

Seus cabelos são castanhos, longos e desgrenhados, impossível discernir se liso ou ondulado por estar sempre repleto de fuligem. Sua pele é negra média naturalmente, mas geralmente é bem mais bronzeada, pela proximidade do calor das fornalhas, sendo bastante espessa, principalmente nas mãos.

É um ciclope; então, para além de ser gigante, possui apenas um olho, que se destaca em seu rosto. Hoje este é mecânico ajustável ao seu tamanho, permitindo-o enxergar pela primeira vez na vida, brilho âmbar sendo a íris dos mecanismos, parecendo uma câmera fotográfica. Seu antigo era de um castanho leitoso, muito menos esbranquiçados que os meus, mas tão cegos quanto.

Nesse instante, quero muito poder vê-lo de verdade, para além da minha imaginação. Pergunto-me se me adaptaria bem a um olho mecânico ou se sentiria falta das linhas de energia que correm por tudo que toco, me mostrando o mundo da minha própria forma, do meu jeitinho particular.

Desvio do pensamento quando ele coloca a palma na cama. Por ser proporcional a ele, é gigantesca, podendo muito bem servir de grande salão de festa para algumas centenas de pessoas do meu tamanho em um dia atípico. Tento não me sentir minúscula perto dele; ele ainda é meu bebê, só muitíssimo grande.

— Você tá bem, mesmo? — questiono, preocupada. — Eu juro que tá tudo bem.

— Sim. — responde, calmamente, enquanto saio de sua mão e subo na cama, logo sentindo a movimentação do colchão quando ele também se senta ao meu lado.

— Como você disse, sempre dá para arrumar um lingote que sai errado no começo. — comento, fazendo um esforço fenomenal para me lembrar da analogia certa que ele fez enquanto divagava em sua tristeza mais cedo. — É só colocar no forno e recomeçar. — abro um sorriso confiante para ele, tirando de mim todo aquele desconforto anterior, prestando atenção somente nele. — A minha saidinha foi o colocar no forno. Agora a gente recomeça.

— Certo. — declara. Sinto então o peso sobre a cama diminuir consideravelmente, Alec ficando do menor tamanho possível. Mesmo em sua menor forma, ainda é enorme em seus 2,26m, quase do tamanho do Escanor em seu pico de poder. Todavia, pelo menos agora ele estava mais próximo de mim; eu poderia fingir mais facilmente estar olhando em seu olho, como se o enxergasse também.

— Pode me descrever o seu quarto, filho? — o fito, sentindo meus olhos brilharem de agitação, totalmente despreocupada afinal.

— Meu quarto é quase todo em pedra bruta… — ele se demora a responder, sua falas sendo fluidas, mas ainda assim mais lentas que um discurso normal. Não parece ser um impedimento de fala, como é o caso de Artie, mas apenas a morosidade típica do nosso gigante. — A Andy fala que ele parece uma caverna com janela e eu acho que ela está certa.

— E que mais? Que que tem dentro dele? — tento imaginar uma enorme caverna, alta e escura, com uma janela grande dentro, uma que ainda seria pelo menos duas vezes maior do que eu. Preciso que ele me dê os móveis, ou vou ficar apenas observando os feixes de luz batendo nos limites no alto, sem saber o que realmente tinha naquele ambiente.

— Tem minha caminha, tem um guarda-roupas embutido, uma porta pra forja e tenho uma luminária. Como eu fico pouco aqui, não tem muita coisa. — e quando fica ali, está apenas para dormir, então não importa muito o que tem no quarto ou não.

— Tudo do seu tamanhozão. Pra ser proporcional. — meu tom é tranquilo e levemente brincalhão, a fala muitíssimo natural.

— Não sou tão grande… — diz, meio encabulado, tendo uma reação que eu não imaginava que ele teria em relação ao seu tamanho normal.

— Filho, você tem quantos metros no tamanho normal? — pergunto, já sabendo a resposta, porém querendo que ele entendesse que ele realmente é enorme e que não há problema algum nisso. — Catorze?

— É… — ele responde, vacilante e incomodado.

— É bem grande, em comparação a mim, que já me acho alta com 1,73 metros de altura. — comento. — Mas você é um gigante. É o esperado, não? — pelo que me lembro de gigantes, ele ainda é bem pequeno em comparação aos outros, que vão em média dos 19m aos 27m de altura, maiores e mais velhos que Alec, muito acostumados com sua altura e a forma mais lenta e intensamente trabalhosa de viver.

— É… — se encolhe, contraindo o corpo, tímido com o tamanho dito. — Sim…

— Por que tá tímido? — sei que é por causa dos comentários sobre o seu tamanho, mas meu cérebro não consegue entender como ele poderia se sentir assim. — Tem vergonha de ser um gigante? — questiono, talvez sendo direta demais. — Desculpa. — corrijo-me na hora. — Agora quem deve estar sendo invasiva sou eu.

— Tá tudo bem. — me tranquiliza. — Só não gosto muito, sabe… De ser um.

Novamente sinto como se meu coração caísse e se quebrasse. É doído perceber que um de seus filhos não gosta de ser o que talvez é o mais característico dele, não gosta de ser o que é, uma condição irremediável no fim das contas. Se ele me dissesse que não gostava de ser cego, talvez não doeria tanto, porque, com a tecnologia desenvolvida por Regulus, esse problema poderia ser facilmente resolvido. Ele desejar deixar de ser o que simplesmente era? Não.

— Por quê? — indago, pura preocupação. — Na verdade… — adiciono, o mais rápido possível, antes que ele faça o cansativo movimento de movimentar sua boca para me responder. — Que tal me falar sobre isso depois, na parte de peculiaridades? Eu acho melhor.

— É melhor. — concorda.

— Fica mais organizadinho. — continuo, me ajeitando na cama por um instante e tirando o caderno debaixo do braço, Pinky dentro dele.

Eu já havia tirado o material de dentro da gaveta invisível na primeira vez que entrara no quarto; ficara segurando desde então, algumas vezes apertando com o força o caderno entre os dedos para me perguntar silenciosamente se eu queria mesmo continuar. Agora sei que quero, estando mais confortável.

Então coloco o caderno na cama, ao meu lado, e o abro. Pinky salta de onde estava como se tivesse sido acordada no susto; talvez tenha sido mesmo.

— Bem… — hesito um pouco, com uma dúvida latente na cabeça, uma que não caberia no que está planejado para a entrevista. — Antes… — demoro um pouco para ter coragem de perguntar, porque parece uma curiosidade invasiva, embora ele saiba muito bem quão válida ela poderia ser. De todas as pessoas com quem eu poderia conversar sobre isso, ele provavelmente seria o único que realmente entenderia como queimava não saber. — Pode só me dizer como é enxergar? Do tipo… De verdade.

Há insegurança na minha voz, mas o interesse fala mais alto.

Não é como se eu me lamentasse por não poder enxergar, não. Trilhões de anos com essa condição, aprendendo aos poucos a me movimentar no mundo, a usar do meu poder e da minha energia para me localizar e sentir as pessoas ao meu redor, me ensinaram a ser (quase) totalmente independente. Ainda preciso que me descrevam os lugares, os objetos e as pessoas; que me digam as cores para além do que enxergo energeticamente; que me falem os detalhes que eu não posso sentir quando toco, cheiro, escuto, saboreio. Todavia, consigo fazer tudo o que me é importante sozinha. Com os auxílios de minha magia e do que construí com ela, posso ir sem sentir medo de me perder ou de me meter em uma enrascada por não poder ver.

No entanto, de vez em quando, eu ainda queria saber como era enxergar esse mundo mágico que eu posso muito bem chamar de meu. Enxergar as crianças, o Castelo, Luksi e Luci. Visualizar as cores intensas do meu jardim de flores, as formas de cada pedrinha às margens de meu lago secreto, o fundo dele, os peixes que nadam por suas águas. O fato de enxergar no meu corpo físico, na minha prisão de carne na Terra, só aumenta esse meu desejo intenso de poder ver a minha vida real, poder presenciá-la com todos os meus seis sentidos.

— É estranho. Tem cor. — ele diz, como se só se lembrar de como é ver o mundo lhe doesse. — E dói a cabeça.

Simplesmente não consigo imaginar como é o movimento de uma hora não enxergar nada e, em outra, tudo ver. Deve doer como sair do escuro da caverna de Platão, olhos (no caso dele, um só) desacostumados à claridade e à percepção da luz.

— Ah, eu enxergo a cor. — comento, porque eu realmente sei diferenciar os brilhos que correm pelas paredes e pelas auras de cada um deles. — Só não enxergo a forma. Ou o lugar. Ou qualquer outra coisa. — chega a ser frustrante, às vezes, como eu queria tanto ver as feições de cada um de meus filhos, embora eu só pudesse ver como cada um tem uma corzinha diferente. — Você, por exemplo, é um marrom ferrugem. Sua aura. Do tipo… Seus limites.

Esse é um desses momentos em que a frustração cresce em meu peito.

— Eu só via as formas com as ondas. — o contato de seus pés gigantes e descalços com o chão o ajudava a conseguir perceber as ondas de movimento, as formas que impediam a propagação delas.

Estou tão abalada por meus próprios pensamentos que mal presto atenção real em sua fala, continuando de onde havia parado:

— Quando você cresce, eu sei que cresceu por causa da aura que cresce também. Mas não sei como você é. Sei a descrição do seu pai, que é o que eu costumo escrever e imaginar. Mas… — paro, meu tom claramente mais baixo, mais triste, de repente. — Às vezes eu queria poder ver. — momentos assim, em que a sensação de tristeza por minha condição me percorre tão forte, são raros, mas sempre doloridos.

— A Andy, que é muito afeiçoada pelo mundo carbonado, diz que eu sou parecido com um herói. Ou era. Não lembro o nome. — tento imaginar um herói, da minha lista de poucos heróis terrestres conhecidos, que se pareça com Alec; não me lembro de nenhum. Como ele também não lembra seu nome, não perco o tempo perguntando quem poderia ser. — Eu tenho passado mais tempo de olho fechado do que aberto. — ele continua. — Dói ficar muito tempo.

— Eu imagino que doa mesmo. É muita informação de uma vez só. — novamente poderíamos fazer a analogia da caverna de Platão agora. Imagine passar muito tempo sem enxergar nada – não é como se enxergássemos preto, só não enxergamos – e, de repente, luz, cor, forma, mundo, um milhão de informações entrando por um sentido que você nunca teve. É de deixar qualquer um desnorteado.

Pergunto-me então se talvez não seria realmente melhor sair da caverna, ver o que há do lado de fora, o que é que dá as reais formas às sombras na minha parede. O questionamento me deixa ainda mais triste.

— Mas… — hesito um segundo. — Eu fico pensando se vão me deixar ver vocês, sabe? — abaixo a cabeça, sentindo lágrimas teimosas formando em meus olhos, sentindo-me uma boba por de repente ter ficado assim, forçando-me a não deixar cair nenhuma lágrima. — Quando eu voltar pra casa, digo. Porque aqui eu enxergo. Aqui na Terra. — ainda há muito tempo para isso, até que eu possa me desprender da matéria densa do corpo de carne e voltar para meu lugar de verdade. — Fico imaginando se eu poderia voltar pra casa enxergando, quando voltar. Nem que fosse por… — respiro fundo, engolindo em seco, como se estivesse engolindo meu choro por completo.

É um motivo bobo para se chorar quando já vivo essa condição há tanto tempo. Não tem porquê eu ficar me lamuriando como estou fazendo.

— Um dia só. Só pra eu ver o rosto de todos vocês, ver como são lindos, e finalmente entender como caralhos o corpo da Andy funciona! — digo, num tom de revolta de mentirinha, brincando com minha frustração, mesmo triste. O simples fato de eu conseguir brincar com isso já mostra que meu estado mental está saudável, no momento. — Não sei se faria isso de colocar olhos mecânicos, igual você colocou um. Mas… — aperto minhas mãos com força uma vez, então as solto, deixando-as livres em meu colo, como se desistisse da perspectiva. — Seria legal enxergar.

— O tio Jay diz que as dores é porque minha cabeça não entende bem que eu vejo agora, e porque só tenho um. — comenta, explicando sobre sua condição. Quase consigo sentir as dores em mim mesma, a cabeça latejando em confusão por não compreender cem por cento que um sentido completamente novo ao corpo havia sido adquirido, corpo estranhando a novidade.

— Entendo… — aceno positivamente. — Bem… Era essa minha curiosidade.

— Agora… O que vem? — diz, no meio de um longo bocejo, como se apenas falar durante aquele tempo todo fosse o suficiente para deixá-lo cansado.

— Ah… — pego Pinky no ar, apenas para fazer um carinho em seu pompom, um aviso de que iríamos começar. — Agora vem a entrevista de verdade, né. — rio baixinho. A caneta se movimenta agitada na minha mão.

— Ah. — solta, realmente surpreso com o fato de que ainda havia mais coisas.

Solto a caneta senciente cor de rosa, vendo-a se levantar e se movimentar em cumprimento ao Alec, pompom se dobrando em uma pequena reverência ao gigante.

— Pinky escreve sozinha. Não sei se ouviu falar dela. — apresento-a a ele, explicando. — Mas tipo… Eu pergunto, ela copia. — como ele não faz nenhum comentário em relação a isso, continuo. — As primeiras perguntas são: nome. E títulos.

— Alec Huntar’z. Eu sou Deus da Terra, da Forja, Protetor dos ferreiros e armeiros, criador das Armas Sagradas. — responde, muito calmamente, enquanto Pinky percorre a página em que eu havia escrito o nome dele, ainda antes do nosso pequeno conflito, transcrevendo cada uma de suas palavras.

— Tá faltando um, não? — questiono, antes que a caneta pudesse terminar.

— Deus dos Gigantes e Ciclopes. Desculpe. — diz, meio lento, parecendo perdido em seus pensamentos, cansado ou com preguiça demais para se lembrar de tudo. Na folha do caderno, o título é adicionado à frente dos demais.

Então, tenho que fazê-lo se lembrar do mais importante naquilo tudo, o que mais o marcava, o que ele dissera que o machucava enquanto chorava um pedido de desculpas por sua fala não-pensada:

— Ainda tá faltando um, filho. — insinuo.

— Qual, mãe… — ele diz, não perguntando de verdade, parecendo ter a mente rodando com o máximo de poder e energia que conseguia, que não era muito, para tentar se lembrar de outra de suas características básicas que ele não parece gostar.

— Você não é o Pecado da Preguiça? — questiono, por fim.

— Sim. Pecado da Preguiça… — dá para sentir a vergonha em seu tom de voz, acanhado por ter se esquecido, encabulado por não ter conseguido pensar nisso.

— Era desse que eu tava falando. — digo, vendo Pinky finalmente terminar de escrever todas as informações no caderno, sentindo que, depois disso, poderíamos partir para o próximo.

Alec Huntar’z.

Deus da Terra, da Forja, Protetor dos ferreiros e armeiros, criador das Armas Sagradas, Deus dos Gigantes e Ciclopes e Pecado da Preguiça.

Antes que seguíssemos, porém, pego a caneta ativamente e folheio o caderno até as páginas finais para riscar mais um dos Pecados, já tendo mais um nome designado:

PECADOS CAPITAIS

1. Luxúria (Katerina)

2. Orgulho (Escanor)

3. Gula (Merlin)

4. Inveja

5. Ganância (Arthuria)

6. Ira

7. Preguiça (Alec)

— Ah. — solta Alec de novo, enquanto risco seu pecado na lista.

— Enfim. — volto a olhar para ele, colocando na página de sua entrevista novamente, soltando Pinky no ar para que voltasse a agir por conta própria. — Acho que são esses. Se lembrar de mais algum, vai me dizendo, okay? — peço, já insinuando que iríamos para a próxima pergunta.

— São só esses. — explica. — Tem gente que tem muitos títulos. Eu só tenho esses. — sua voz é tranquila, não há um pingo de rancor em não ter mais deles.

— Entendi, meu bem. Tá tudo bem. — digo, para terminar o assunto. — Agora… Gênero, pronomes, sexualidade e status de relacionamento.

— Raça também? — pergunta.

Entendo que ele está falando de sua espécie, que seria gigante, e de sua raça, ciclope. Não tenho certeza se ele entende do que está falando, ou se sabe a diferença, mas não tomo tempo explicando. Sei mais ou menos o que ele vai responder nisso.

Levo a mão ao queixo, pensativa, movendo os dedos em direção um ao outro, me perguntando por que não coloquei essa pergunta antes e então o respondo:

— Hm, eu não coloquei nas perguntas, mas todo mundo tem falado antes do gênero. Então sim. Raça também. — folheio o caderno até as páginas iniciais, onde estão as questões, e mentalizo para que a caneta cor de rosa com pompom escreva no caderno. — Vou anotar aqui. — e Pinky escreve “Espécie/Raça” antes da questão sobre gênero e pronomes.

— Eu sou um ciclope, sou macho, gosto de quem gosta de mim… Isso conta? — ele pergunta, visivelmente sem saber como responder sobre sua sexualidade, tão pouca experiência que tem no âmbito, mesmo que já tenha tido um relacionamento estável o suficiente para ter uma filha. — E estou namorando a Andy desde ontem. — ele termina, e a caneta o segue, copiando as palavras exatas dele, mesmo que eu não gostasse de algumas delas, adicionando conclusões que faço mentalmente.

Ciclope macho

Gosta de quem gosta dele (não sabe definir)

Namorando a Andy

— Não uso a palavra macho nas entrevistas. — toda uma discussão sobre gênero e nomenclaturas da Terra que ele provavelmente estaria cansado demais para escutar, com preguiça demais para entender. Não entro nos critérios sobre isso com ele, apenas pergunto: — Eu poderia usar maksi?

— Mãe… Se quiser que eu fale como os Maos, chamam minha raça de Ecksi. — ele me corrige, e eu começo a ver um padrão nas nomenclaturas de gênero da língua dos demônios, o Mao.

— Sua raça chama Eck e o si seria para representar que tem o mesmo órgão do Rei? — indago antes, para descobrir qual era o padrão certo antes de concluir sobre ele, já imaginando o que esperar dos demais.

— Ec é Ciclope ou gigante. Ksi é por ter o mesmo órgão que o Rei. — explica.

E então as coisas se conectam melhor.

Maksi e matzu são os termos utilizados pelos demônios para representar o sexo entre si. A discussão de gênero no Inferno, para o grande público geral, é uma grande banalidade, visto que a maior parte dos demônios é composta por grupos de criaturas bestiais, muitas vezes sem linha de raciocínio o suficiente para entender que gênero é uma coisa, sexo é outra. Assim sendo, maksi seria o termo para demônio com os mesmos órgãos sexuais do Rei e matzu seria o termo para demônio com os mesmos órgãos sexuais da Rainha.

A realidade da nossa família e de muitos demônios em si mostra que essas nomenclaturas, assim como as que utilizamos na Terra, são falhas e insuficientes para explicar toda a existência. Mas boa parte da população do Inferno está ocupada demais fazendo as livres atividades dos seus pecados mais próximos para conseguir se importar com nomes e conceitos, com teorias e discussões de gênero, mesmo que respeitem quem porventura diz que não se identifica com a nomenclatura, facilmente trocando os pronomes.

Afinal, quem se importa com isso quando todo mundo quer foder, comer, matar, beber, xingar, dormir e cometer todos os excessos que os locais específicos dos pecados poderiam oferecer? Se a pessoa se diz ser matzu mesmo tendo um pênis, qual o problema? Ela que se vire!

(Deixo meus comentários sobre como até mesmo bestas infernais conseguem ser mais respeitosas que alguns humanos na face da Terra para mim; a minha preocupação pelo futuro desse planeta não pode ser tão explícita e gritante assim.)

O mais importante nessa linha de raciocínio, porém, são os radicais utilizados para cada nomenclatura. Como a sociedade Mao foi assim construída, a língua Mao acaba por utilizar-se dos mesmos radicais para designar sexo de outras espécies. No caso de Matzu, “ma” seria demônio, “tzu” com partes como as da Rainha. Porém, existem outros prefixos, cada um nomeando uma espécie. Como Escanor, que é Ziksi, “zi” de anjo e “ksi” com partes como as do Rei.

E agora como Alec, que é Ecksi.

Dá uma súbita vontade de re-aprender toda a língua Mao.

A palavra “macho” se apaga da folha de papel, Pinky escrevendo “ecksi” no lugar anterior, ficando:

Ciclope ecksi

Gosta de quem gosta dele (não sabe definir)

Namorando a Andy

— Entendi. — digo, finalmente, tendo realmente entendido. — Bem… — tento então retomar de onde havíamos parado antes de eu cair nos meus próprios pensamentos. — Acho que isso de gostar de quem gosta de você conta. — ele havia perguntado se contava; não há motivo nenhum para não contar.

— Eu só estive com duas pessoas na vida, mãe. Eu não sei responder isso. — se minha memória não me falha agora, como já me falhou antes, sei que essa conta está errada, mas não comentou por enquanto. A preocupação no momento é com deixá-lo tranquilo sobre saber ou não sobre sua própria sexualidade; em outro momento comento sobre como ele parece se esquecer de alguém nessas duas pessoas.

— Entendo, meu bem. Não precisa ter um nome pra esse tipo de coisa. — explico. — Só se você se sentir confortável.

— É que eu nunca pensei nisso. — declara, como se realmente esse tipo de pergunta nunca tivesse lhe passado pela cabeça.

Definitivamente não o digo que esse tipo de coisa só ocorria com pessoas heterossexuais, que não tinham pressões que não a de reprodução sobre si. Mas não o digo porque sei que isso seria projetar os problemas da Terra nele, que nunca viveu nada assim, e que vive em um ambiente onde qualquer sexualidade é fluida e natural, já que é só uma parte da vida como um todo. O Inferno está ocupado demais com seus próprios pecados e torturas para se preocupar com quem você transa.

Mesmo assim, explano:

— Essas nomenclaturas que a gente se dá só servem pra fazer a gente se sentir melhor. Se você nunca pensou nisso, é porque não te incomoda, e porque se sente confortável de ser assim. Então tá tudo bem. Não precisa pensar nisso. — confirmo minha própria fala assentindo levemente com a cabeça.

Acho que ninguém deveria ativamente ficar tentando se colocar em rótulos e nomenclaturas se não existe a necessidade intrínseca delas para se sentir melhor; os nomes nem sempre são necessários se você só está confortável em ser como é, no quesito sexualidade. Mas aí isso já é devaneio meio.

— Bem… — digo, insinuando ir para a próxima questão antes de lembrar-me de uma coisa. — Ah, espera. Quais são seus pronomes? Só pra deixar claro aqui. — paro um pouco, apontando para o caderno. — No papel, digo.

— Ele? — ele pergunta meio em dúvida. — Não existe Ciclope diferente de Ecksi. Só gigantes. — faço uma nota mental de que, se um dia eu encontrar uma Ectzu, ela será uma giganta e não uma ciclope, já que, por essa informação, não existiriam ciclopes mulheres. E Pinky faz a nota na folha, escrevendo na frente do termo:

Ciclope Ecksi (ele/dele)

— Entendi. — declaro, meneando a cabeça novamente. — Bem… Continuando, então! — digo, animada, visivelmente contente de estar entrevistando-o, partindo logo para a próxima pergunta. — Qual a sua arma mágica?

Não demora até que ele responda e a caneta mágica comece a segui-lo:

Eu tenho duas. Sou o único que tem duas.

Tenho Guideon e Hephaestus. Guideon é um martelo que parece uma bigorna. Eu uso ele como bigorna a maior parte das vezes. Ele é do meu tamanho normal em cabo e a parte que uso de bigorna tem seis metros de comprimento por quatro e meio de largura. Hephaestus é um martelo de ferreiro que cresce e diminui junto comigo. o cabo sempre é três centímetros menor que a minha palma aberta, do dedão ao mindinho e a cabeça do martelo sempre é uma vez e meia meu punho fechado.

Essas são as Armas Sagradas que forjam outras armas. Só dá pra fazer Armas Sagradas com esse equipamento.

— Entendi. E como se sente em fazer todas essas armas? — indago, curiosa, olhinhos brilhando por ouvi-lo fazer do processo que o leva a fazer as Armas Sagradas. Não sei como um martelo e uma bigorna poderiam ter criado luvas tão finas quanto Destruidora e Criadora, partes duplas e complementares da minha própria arma, fortes potencializadoras do meu poder natural, mas parece interessantíssimo conhecer seu processo e como ele se sente ao fazê-lo. — Pera! — digo, antes que ele comece a falar. — Essa é uma pergunta que eu deveria fazer junto com a próxima.

— Certo. — ele apenas confirma, sem nem ter começado a fazer o movimento para responder, sem se importar com a minha intromissão à mim mesma.

— Então… Antes de você me responder, responda essa junto com: qual a sua relação com seus poderes e suas peculiaridades? Já que isso de fazer Armas Sagradas é uma das duas peculiaridades. — questiono, e lanço meus olhos brancos e curiosos em sua direção, admirando a possibilidade de ouvi-lo falar tanto sem ter desmaiado de sono no meio da nossa conversa, adorando ouvir sua voz enquanto fala qualquer coisa. Deixo que a caneta copie tudo sozinha, sem olhar nem uma vez para ver se estava certo, apenas confiando nela e admirando-o.

Bem... Meu poder é a Terraforming. Eu posso manipular a terra e os minerais metálicos da terra pra qualquer coisa. É assim que eu consigo o material utilizado para a produção das Armas Sagradas. Uso uma mistura de Titânio, Carbono e Maoum. Esse último só tem no Inferno e aqui, em Alpha-Marine.

Geralmente eu pego um refratário que tenho de Argila e coloco as porções dos materiais até que ele fique líquido. Aí eu pego, com a mão, mesmo, adiciono sangue do dono da arma, meu sangue e um frasco com a energia desse indivíduo. Aí despejo o líquido no molde e formo um lingote. A partir daí vou martelando até que ele fique como uma folha. Quando faço isso, o Maoum no lingote me desenha qual a arma daquela pessoa e eu levo de volta pra forja, aí sim começando de fato a forjar.

Às vezes pode ser uma luva ou algo que não dê pra fazer só na forja, aí eu deixo com o formato no Guideon e concentro toda minha magia no Hephaestus, despertando todas as propriedades mágicas do objeto.

Quase suspiro de admiração quando ele fala sobre o processo, parecendo até mesmo animado, por baixo do seu tom cansado, lento e preguiçoso, enquanto explica o que faz para criar cada arma.

Sobre eu ser um pecado... Bem. É ruim. Dá sono, não tenho vontade de nada e me cansa a ideia de fazer qualquer coisa. É por isso que demoro pra fazer tudo. Tudo me dá preguiça e tudo é motivo pra eu querer dormir. Dormir é bom. De vez em quando eu durmo aleatoriamente... As pessoas não entendem e acham que estou cansado. Evito gente porque tenho preguiça de interagir e falar tanto tá me dando sono.

Ele não se lembra de falar sobre seu problema com ser gigante, mas tampouco eu, então apenas sigo com as perguntas que complementariam sua fala, dando mais sentido a tudo que ele faz na minha cabeça.

— Você não consegue controlar seu pecado? — pergunto, porque todos até agora pareceram desejosos por mudanças em suas respectivas entrevistas. — Ou a preguiça é tanta que não quer nem pensar em controlar?

— Os dois. — ele afirma, simplesmente.

— Pode me falar mais de como isso te afeta em suas relações? — ele havia falado disso mais cedo, por isso o questiono novamente, incentivando-o a analisar sobre seu problema antes de tudo.

— Dá uma preguiça… — responde, o tom moroso. — Aí não faço.

— Quando… — hesito um pouco, tentando não trazer a sensação de desconforto novamente para a conversa — aconteceu aquilo mais cedo, você disse que perdeu tudo, amizades, a Luna, por perceber tarde demais que tinha estragado tudo. — lembro-o, pois sei que seu cérebro já deve ter perdido essas informações no meio de sua prostração mental. — Você ainda se sente assim? Se sente assim com a Andy? — a primeira pergunta é por preocupação; a segunda, por curiosidade.

— Eu me sinto assim com quase todo mundo… No fundo, só estou esperando ela ficar triste comigo e ir embora. Até lá, eu fico feliz dela estar comigo. — dá para sentir a tristeza se derramando pelo marasmo, a sensação de ter perdido tudo – e saber que vai perder mais – por causa de seu pecado.

— Ow, meu bebê… — faço um biquinho, comovida, sentindo sua tristeza como se fosse minha, mas sem saber o que poderia fazer em relação à isso. — Eu não acho que ela vá embora. — declaro. — Ela parece queimar por dentro quando está com você. Pelo menos, é o que ela disse. — Andy nunca sentira algo assim, nunca me contara de sentir algo assim; agora que sente, duvido que queira se desfazer disso.

— Eu entendo… Mas todo mundo sempre vai embora.

— Todo mundo: as duas pessoas com quem você se relacionou na vida inteira, para além da Andy. — o corrijo, apenas para que ele saiba que, embora sua mente o diga que todos se vão; a realidade não é o que seu cérebro lhe diz, nem a sensação que ele tem, de perda constante e eterna de pessoas que ama.

— Contei a Andy.

— Seus traumas em relacionamentos passados não falam sobre o seu atual. — declaro, continuando a tentar tranquilizá-lo, antes de estranhar o número que ele diz, novamente. Franzo a testa em confusão. — E a menininha com orelhinhas?

— É. Esqueci. — confessa, como se tivesse retirado a memória para não gastar tanto espaço e energia em sua cabeça.

— A orelhinha de esquilo? Gatinho? Não lembro. Que você namorou no Instituto. — isso faz bastante tempo; tem alguns acontecimentos na vida de alguns filhos que é mais fácil de lembrar, eles estando mais próximos de tempos em tempos. Mesmo que não memorize nomes externos, sei o mais que o básico do que acontece com alguns.

— Mas todo mundo. Amigos… — ele continua, ainda triste, antes de me responder sobre a dúvida. — Esquilo. — e para de falar.

— Bem… É… — vacilo por um instante, sem saber o que falar. Num caso desses, não há como tranquilizá-lo cem por cento; o Pecado nem sempre é uma maldição, mas, se não há vontade, nem capacidade de controlá-lo, não tem muito a ser feito. — Bem difícil manter relações quando se tem preguiça de até mesmo pensar nos amigos, não? — comento, não para que se culpe ainda mais do que já faz, mas para que entenda que nenhuma amizade se mantém sem uma preocupação mútua. Se uma das partes não se movimenta por preguiça, mesmo que esse seja um problema crônico, é compreensível que a outra se vá. — Desculpa, não estou te dando rala ou algo assim. Estou analisando. — digo, para que saiba que não é minha intenção fazê-lo se sentir mal.

— Mãe… Eu quase reprovei por falta. — a minha surpresa é em ele não ter reprovado. — Só passei a ir quando aquela menina vinha me buscar. Ou a Andy vinha.

— Entendi, filho. Bem… É um problema. — aponto. — Que você teria de aprender a lidar, mas… Se você não tem vontade de fazer agora… Não sei o que fazer sobre isso. — se o seu problema é exatamente a Preguiça e você tem preguiça de lidar com ele, o que fazer? Não sei o que dizer a ele a não ser que não sei como ajudá-lo.

Com os demais, parecia mais fácil encontrar força de vontade para controlar suas condições. Com ele, por ser um tipo de Pecado que o deixa inerte por natureza, a força que deve fazer para lutar contra isso é milhares de vezes maior.

— Enfim! Acho que terminamos sobre isso. — proclamo, sem conseguir pensar em mais nada para falar; ele provavelmente nem queria pensar. — Próxima pergunta! Como são seus treinos? — indago, seguindo com a entrevista. Pinky se coloca a postos.

Eu treino com a Merlin. Ela tá me ajudando com o Controle Fino do meu poder. Eu faço coisas grandes, mas pequenas é difícil. Teve um tempo que eu treinei com o Escanor e fizemos um ataque combinado. Foi legal. De vez em quando o Melo pede pra eu ajudar ele nos treinos no Inferno, mas eu não gosto muito porque sempre fico me sentindo como se estivesse pisando num formigueiro.

— Entendi, meu bem. Aquele seu ataque com o Esc é incrível de fodido de forte. — admito, lembrando quão impressionante era aquela enorme rocha, maior que todas as montanhas do planeta Terra, descendo, flamejante, poderes de Escanor e Alec combinados para formar um meteoro que acabaria com um planeta grande em apenas uma tacada. — Acho que ontem serviu pra gente descobrir que você é realmente muito forte. — para além do ataque combinado, sua própria força levantava mais de um quilômetro de terra no ar, gigantesca bola de pedras indo em direção à Nero, em um descontrole da raiva.

— Mãe… O Escanor faz todo o trabalho. Eu só bato na pedra. — insiste.

— Mas você bate numa pedra fodida de grande. — retruco. — É muito forte, sim. Ontem o que você fez, você fez sozinho. — se não tivessem me chamado, provavelmente não restaria Castelo algum para ser lar de todos os pequenos e crescentes deuses infernais; provavelmente não restaria deuses infernais.

— Mãe. Eu só empurro. Bater em pedras é o que eu faço a vida toda. — se opõe, logo se encolhendo na cama, abraçando as pernas, triste e envergonhado. — É… Desculpa… — dá para sentir o incômodo dele, a culpa de ter se deixado levar pela raiva e quase acabar com tudo, tamanho o impacto.

— Filho… Por que está assim? — eu sei porque ele está assim, mas pergunto; esse tipo de coisa deve ser falada. — Bem… Eu meio que sei como é se sentir assim, então eu meio que sei porquê. Mas… — eu sei como é sentir culpa, como é me sentir insuficiente, como é duvidar das minhas capacidades por nunca ter explorado elas completamente. O meu problema é a falta de autoestima, e não a preguiça, mas consigo empatizar com a forma como ele demonstra se sentir no momento.

— Eu quase fiz purê dele… Destruí a floresta da Mau e deixei a senhora brava… — eu realmente tinha ficado brava, mas porque a briga fora por um motivo idiota, e não porque ele havia feito todas essas coisas. Florestas se reconstroem, a minha raiva passa. O problema teria sido eles se matarem por não saberem lidar com seus relacionamentos amorosos.

— Não foi você que me deixou brava. — afirmo, para deixá-lo mais calmo. — Foi o Nero caçando briga por não conseguir se controlar. Não foi culpa sua. — paro um pouco, para que ele entenda essas palavras. — Se você está sendo constantemente atacado e alguém soca seu olho, você reage. É comum. Conseguimos parar antes de você fazer purê dele. — parece o certo dizer a ele que tudo bem ele reagir em uma situação estressante; o problema é como. — E eu não fiquei brava com você. Eu juro. Eu só fiquei surpresa porque não sabia que conseguia fazer ataques daquele tamanho.

Talvez eu tenha ficado mais surpresa de ter usado Destruidora em seu ataque e ele não ter sumido por completo, por conta de seu tamanho. Se fosse algo menor, teria funcionado; nem com toda a força energética dentro de mim consegui fazer o serviço sozinha. Eu teria me sentido falha e insuficiente – como me senti por alguns segundos – se não fosse por Luksi me contando que aquela pedra era um trambolho colossal.

— Eu tenho preguiça de usar meu poder, mas eu estava bravo. — menciona; eu já poderia ter imaginado que esse era o motivo de não termos visto algo assim antes.

— Entendo, meu bem. É um bom motivo pra estar bravo. — postulo, me movendo na cama mais uma vez, olhando de relance para o caderno. — Bem… Agora… Última pergunta. — declaro, para deixá-lo sabendo e para que a caneta senciente se prepare. — Uma memória base, que você acha que é essencial e formativa para o que é hoje.

Não demora para que ele responda e para que Pinky comece a transcrever:

Antes eu não conseguia nem ver através de vibração. Não sabia reconhecer o espaço bem e nem nada do tipo.

A técnica que se tornou meus olhos eu aprendi em segredo. Nunca contei isso a ninguém, mas o papai me ensinou umas técnicas de movimentação de projeção marcial em segredo no Salão do Tempo. Demorou bastante, mas aprendi. Eu não aguentava mais ser tão dependente e aprender isso me deu mais que olhos...

Ter como me mover sozinho me deu uma vida. E no lugar que aprendi a ver com a vibração, fiz minha forja. Já eu via cada coisinha com um carinho enorme. Lá eu transformava meu poder e minha visão em armas que abasteceram todo o Inferno. Lá fiz cada umas das Armas Sagradas, com exceção da Excalibur. E eu fiquei muito feliz por isso. Sei que cada arma foi uma memória essencial pra mim, mas ver e forjar a próprio punho as primeiras armas foi o que me deu a oportunidade de ser quem sou.

E só fiz isso porque me inspirava em ser tão incrível quanto a senhora e porque o papai me deu a chance de aprender. Eu queria ser um cego independente... Me tornei um ferreiro. Agora que vejo... Honestamente? Tenho vontade de tirar esse olho pois já realizei meu sonho... Eu já olhei pra senhora...

A minha única reação, como já é esperado, é começar a chorar. Movimento as mãos freneticamente, quase em negação, abaixando a cabeça, sentindo as lágrimas vindo, envergonhada por estar chorando, mas sem conseguir deixar de pensar em como aquilo era simplesmente lindo demais para meu coração transbordante.

— Desculpa, mãe. Eu falei algo de errado? — questiona, visivelmente preocupado.

— Não, filho… — sussurro, então soltando uma risada, porque obviamente essa reação iria assustá-lo. Ele não é acostumado com minhas crises de choro por qualquer motivo igual Katerina é. — Não. Você não falou nada errado. — o tranquilizo. — Eu só sou um bolinho que derrete quando tá emocionado. — passo a destra por meu rosto, limpando as lágrimas que haviam escorrido. — É só… muito lindo. Eu não tenho nem palavras. — rio um riso emocionado, ainda tentando fazer os brancos olhos pararem de marejar.

— Ah… Desculpa. Se eu soubesse que ia chorar pensava em outra coisa? Eu acho… — ele parece incerto se deveria ou não ter falado aquilo.

Não consigo me expressar em meio de tanta emoção, mas quero que ele saiba o quanto estou grata de tê-lo comigo, de tê-lo como filho. Que saiba o quão orgulhosa estou dele. Ainda não consigo demonstrar corretamente, sentindo o coração transbordar de amor, mas digo:

— Esse é um choro de felicidade. É que eu sou muito sentimento, filho. — rio baixinho novamente. — Eu sou um poço de sentimento. E às vezes transborda. — paro um pouco, limpando as lágrimas teimosas. — Assim, muito constantemente, na verdade. — dou de ombros, sorrindo. — Eu estou chorando porque isso foi lindo. Eu amo você.

Espero um momento, para ter certeza que não vou me derreter em choro, novamente. Quando sei que meus olhos apenas marejam, sigo o fluxo da emoção e declaro, voz baixa, cheia de um calor amoroso.

— Eu fiquei muito emocionada no dia em que você colocou o olho. E viu pela primeira vez. E pediu pra ser eu a estar lá, segurando a Solzinha. — a lembrança me aquece; o calor e o peso de Soluna, já crescidinha, em meu colo; o brilho âmbar e visivelmente mecânico de quando ele abriu o olho, me atingindo com força. — Aquele dia eu fiquei muito emocionada, também… — fito minhas mãos, sorrindo orgulhosa, sem olhar para o tom marrom enferrujado de sua aura, para não começar a chorar de novo. — Mas fingi não chorar enquanto você ficou com o olho aberto, que não foi muito tempo, porque, eu acho, doía muito. E você tava cansado, também. — limpo o olho direito antes que uma lágrima teimosa caía. — Mas depois eu chorei muito. — admito, rindo de mim mesma. — Mas esse é um choro de coração quentinho. E de que eu te amo. — termino, finalmente olhando para ele, sorriso enorme no rosto, olhos brilhando de emoção.

— Eu te amo, mãe… — ele diz, sorrindo levemente, parecendo cansado.

— Também te amo, bebê. Muito. — repito, porque é um sentimento que explode.

— Quer ajuda pra descer ou tem mais alguma coisa? — ele pergunta, prestativo.

Eu paro um momento, pensando em algo marcante para lhe dizer, algo que conectasse tudo até ali. Pego Pinky no ar e a coloco dentro do caderno, fechando-o enquanto falo:

— Me desculpa pelo começo difícil, mas obrigada pelo recomeço. Acho que hoje aprendi que a gente realmente pode fazer coisas muito boas se a gente coloca o lingote no fogo de novo e tenta outra vez. — coloco o caderno em meu colo, segurando-o com as duas mãos. Espero que ele consiga ver em meus olhos cegos a minha gratidão; sei que o olho dele está aberto, brilho de energia âmbar entrando em mim.

— Sim. Sempre dá pra reforjar. Às vezes fica até melhor. — sorrio ainda mais largamente quando percebo que ele entendeu.

— Sim. É uma boa lição. Obrigada por isso. — me levanto, ficando em pé em sua enorme cama, me preparando para sair. — Bem… você quer dizer mais alguma coisa? — não espero uma resposta antes de terminar — Se não, eu quero ajuda pra descer, por favor.

— Não tenho nada a dizer… — diz, tranquilo, saltando da cama e voltando ao tamanho normal. Sua aura cresce junto com ele e ainda me assusto com seu tamanho. Embora seja pequeno em comparação aos demais gigantes, ele ainda é enorme. — Vem, mãe. — declara, colocando a mão na cama para fazer de elevador para mim. Subo nela sorrindo abertamente.

— Bem… É isso, então.

Ele me desce, colocando a mão no chão para que eu pudesse sair. Pulo de sua palma enquanto ele abre a porta de tamanho descomunal para que eu saia.

— Obrigado… De verdade. — consigo sentir verdadeira gratidão em sua fala. Espero que eu consiga passar a mesma sensação na minha.

— Eu que agradeço, meu bem. Mesmo. — enfatizo o “mesmo”. — Você e seus irmãos me salvam de mim mesma todos os dias e mal percebem. — sorrio, orgulhosa deles e dos meus movimentos para me salvar. — Agora vou indo, okay? — caminho até a porta, acenando para ele, alegre por ter terminado mais uma entrevista.

— Obrigado, mãe… A senhora é incrível. É minha inspiração! — comenta, de um jeito ao mesmo tempo animado e moroso. — Agora… — boceja, continuando o ato ao falar: — Eu vou dormir… — não seguro um risinho; é óbvio que vai dormir.

— Bons sonhos, meu bem! — digo, somente, saindo do quarto e ouvindo a porta se fechar pouco tempo depois.

Abraço o caderno, com todas aquelas preciosas informações sobre meus pequenos, e saio pelo corredor, caminhando até meu próprio quarto, dando pequenos saltinhos, quentinha e feliz por ser mãe de seres assim tão incríveis.