Meet me on the equinox

1 meet me on your best behaviour,


meet me on the equinox

Há diferentes modos de se lidar com a dor da perda.

O meu, naquela altura da minha vida, foi o de cortar todos os laços que podia ter com as coisas que me prendiam ao meu passado. Às dores da minha família, às memórias convolutas que rebrotavam à superfície sempre que escarafunchadas de muito perto, à sujeirada toda deixada pela morte de meu pai. Ele se fora, deixando pra trás filhos de olhos morteiros, mas deixando, também, uma família enganjada demais em brigar por uma herança que não existia. À altura em que desisti de ver-me metida naquela imundície, creio que se engalfinhavam com unhas e dentes por um terço de faqueiro.

Assim, como pessoa sensata que eu me julgava sendo, fiz as malas e disse adeus ao calor do Rio de Janeiro para me enfurnar na casa duns parentes nossos no interior do Paraná.

Não foi fácil convencer minha mãe de que eu precisava ir.

Com o falecimento do meu pai, ela agora se agarrava aos filhos com tudo o que podia. Quando lhe falei sobre passar um tempo com a Tia Meri, gritou-me nomes que fariam uma puta corar de tanta vergonha. Não foi na segunda, na terceira, nem ao menos na quarta tentativa que consegui fazê-la aceitar que eu precisava deste tempo só para mim. E, para fazê-la ver a razão, usei de todos os artifícios em que pude pensar: disse que queria afastar-me do caos e dos sentimentos do luto; mudar de ares e recomeçar em um lugar completamente novo; seguir uma carreira acadêmica diferente, num ramo tão singular que só deveria de haver por lá. Com muita insistência, um passinho de cada vez, fui ruindo essas montanhas dentro das fortalezas de minha mãe e, por fim, ela acabou cedendo e abençoando minha estadia na casa da madrinha.

Como minha mãe tivesse pavor de aeroplanos, mandou-me num ônibus do Rio a Curitiba e de Curitiba a Pontal, em dezesseis tortuosas horas de viagem. Eram ônibus semileito executivos, mas nada conseguia diminuir o desconforto de andar com outros quarenta estranhos e ter de compartir com eles todos o mesmo banheiro, numa viagem que podia muito bem ter sido evitada. Postos de gasolina, banheiros de rodoviária, o cheiro nauseabundo de vômito de um e outro passageiro, a gordura, o vício, o cheiro de cigarro e de urina. Longas horas ouvindo música num fone que funcionava de um só lado, jogando palavras cruzadas num CodyCross, torcendo por conexão wi-fi, já que sem chances de ter alguma reserva de crédito em meu celular pré-pago.

Por fim, a tortura acabou e me vi descendo do ônibus não para uma nova baldeação, mas sim para o abraço quente de minha madrinha que me saudou com os braços bem abertos. Era bom estar de volta. Era bom estar em paz, pela primeira vez que o inferno todo começara: a doença, as falsas esperanças, os tratamentos. Os custos do sepultamento. A briga pela herança. Os parentes grotescos. Enfim, nos braços de minha tia, havia paz e eu me sentia voltando para casa.

Eu finalmente estava em casa.

— Como é que você está, fia? — Ela me sorriu como quem conta um segredo.

— Ah, tia — E eu contei. Contei todos os poréns. Botei todos os pingos nos “i”s. Não havia nada a esconder. Não havia nada que ela não pudesse saber, nada que fosse contar a ninguém. Quando terminei, minha alma estava lavada.

— Ah, fia, você sabe como os tios são — Não numa tentativa de reparação, mas só como quem atesta um fato — Agora esquece disso e vamos curtir só nós duas.

Havia mais gente na casa da Tia Meri, é claro, mas ela disse só nós duas num tom que era quase de segredo, quase uma piadinha nossa. Eu, por exemplo, ia dividir o quarto com as gêmeas Madu e Manu, e dormiria no chão por quanto tempo durasse minha estada. Havia também o primo Henrique, mas este era reservado e dava as caras só de quando em vez, na hora das refeições. E tinha o Tio Clemente. Não gostava dele como gostava da dinda, mas nossas relações não eram antagônicas. Faziam uma bela família.

Minhas três malas couberam apertadas no bagageiro do celtinha vermelho da Tia Meri. Ela bateu o porta-malas, entrou pelo motorista e sinalizou para que eu pusesse o cinto. Pontal tinha um total de duas pessoas andando nas ruas, mas era assim com a Tia Meri: segurança em primeiro lugar. O tempo estava fechado, num calor abafado, e as nuvens que se avolumavam sobre nossas cabeças versavam sobre tempestades futuras. Partimos, rodando devagar pelas ruas mansas até os bairros mais afastados do centro, quando chegamos à casinha de veraneio onde moravam os Gomes Sampaio. Quando estacionamos, a madrinha fez a gentileza de pedir ao Henrique que buscasse minha mudança e, embora de fones de ouvido e impaciente, o menino, que dava o dobro do meu tamanho, atinou com a razão e obedeceu.

Abraços. Daqui e dali. Madu e Manu, Manu e Madu. Tio Clemente. Um meio abraço pro Henrique. Um peteleco no nariz das cachorrinhas Bela e Bena. Um olhar atravessado pro gato arisco que era o Tigrão.

Minhas coisas ficaram dentro das malas e mochilas, amontoadas num cantinho do quarto das gêmeas. Meu colchãozinho já estava estirado no chão, junto dum lençol e um travesseirinho de estampas florais.

E tudo isso era bom, porque eu estava cansada.

Encostei a porta e fucei nas bolsas para encontrar qualquer coisa que fosse mais confortável que o jeans e camiseta que vestia. Troquei-lhes por um pijama. Apinchava-me para dormir, quando Tia Meri bateu à porta:

— Dora, você precisa de alguma coisa?

Meu nome é Isadora. Mas me chamam tanto de Isa, quanto de Dora, pelo lado carinhoso dos Sampaio.

— Não, Tia, obrigada.

— E não vai jantar? Não está com fominha?

— Preciso dormir primeiro. Quando levantar, eu não me aperto.

Fui deixada a sós e dormi.

Ao levantar, havia um burburinho na cozinha. Tio Clemente e Tia Meri discutiam o noticiário. Eram notícias locais, a que remendavam com seus próprios pontos, suas próprias informações, de modo que a manchete se tornava mais e mais completa. Fui me servindo de pão, queijo e leite e, ao sentar-me à mesa para comer, já havia ouvido mais da metade de toda a conversa. Não pude segurar a língua ao perguntar assim:

— Isso é tipo um assassino em série?

E Tia Meri teve de rir.

— Não, menina, não tem disso pra essas bandas. Mas já é o segundo caso que vemos assim em alguns meses.

A história toda, versada de frente para trás e de trás para o começo, era a de que, certa feita, aparecera um corpo na orla do cais, bem no píer do farol, parecendo drenado de toda vida e pálido como se houvesse morrido há vários dias. Atribuíram o inchaço à água, a palidez ao tempo de morte, mas não souberam dizer bem ao certo porque não havia nenhum pingo de sangue dentro do dito cujo. Primeiro pensaram que fosse só a deposição por gravidade seguindo seu curso natural, mas, por fim, descobriram que não havia restado sequer uma gota dentro do corpo. E, agora, outra vez, o assassino havia atacado pelo mesmo modus operandi. Já eram dois, num espaço de seis meses. Não havia isso por essas bandas uma ova, se querem saber minha opinião.

— Mas tem alguma ligação entre as mortes? — Perguntei entre as bocadas no pão.

— A polícia disse que não. Um era um velho, morava sozinho, aposentado. A outra, mocinha universitária. Se não me engano fazia engenharia-qualquercoisa.

Terminei meu café em paz e essa conversa foi banida para algum canto da minha mente. Só voltaria a pensar nela muito, muito tempo depois. Agora, as preocupações do dia que estava por vir me assomavam e não havia espaço para pensar em muito mais do que tentar entender quais documentos deveria levar à escola e a quem os deveria entregar. Assassinatos escusos nas águas de Pontal teriam que ficar para uma outra hora.

O dia seguinte veio e se foi assim como a semana depois dele e as semanas depois dela. Foram dias bastante indistintos, apesar de eu ser uma garota de fora, da agradável e clara Rio de Janeiro, tão convoluta e agitada com seus quase sete milhões de habitantes, tão diferente da pequena Pontal do Paraná, com nem bem trinta mil. Havia mais pessoas morando no meu bairro no Rio de Janeiro do que havia em toda a cidadezinha de Pontal. Aqui, todas as pessoas se conheciam; sempre fulano era parente de alguém, conhecido de ciclano, suas famílias conhecidas por gerações. No Rio, as pessoas mal tinham tempo de olhar-se no rosto; era o dinamismo pulsante e insistente da cidade grande. Cada pessoa tinha que cuidar do seu e os dias eram pequenos, o tempo era escasso; cada pessoa tratava de seu próprio umbigo. Mas aqui, em Pontal, havia um outro clima, uma identidade de tribo: a vida do meu vizinho também é minha vida. Cuida-se da comunidade, e cuida-se das formigas. Era um tantinho invasivo, se querem saber minha opinião. Não me acostumei de cara com esse escrutínio todo em cima de mim. No começo, mandei algumas pessoas à boa bosta. Só passadas semanas foi que comecei a entender que esse era o jeito daqui. As pessoas não eram maldosas ou mexeriqueiras. Era, simplesmente, o único jeito que sabiam como ser. Mas até lá muito rádio foi queimado por atrito.

Havia chegado em Pontal em março. Agora, já era começo de junho.

O pouco tempo bom que eu havia aproveitado – quente, úmido e com pancadas de chuva aqui e acolá – agora se transformava pouco a pouco num inverno rigoroso que se arrastava pelas soleiras das portas trazido pelo vento frio do mar e que arrepiava até a mais bem agasalhada das nucas. Foi nessa feita que a UFPR do campus de Pontal resolveu visitar o terceiro ano do Hélio Antônio de Souza.

Queriam oferecer uma visitação às unidades do campus, trazer esse terceiro ano indeciso e de futuro incerto para dentro de uma instituição acadêmica. Quem sabe assim nossos olhos se abrissem para as possibilidades que estavam logo ali, dentro de casa.

Mas, bem, vocês conhecem os terceiros anos.

Grande parte de minha classe sequer tirou os fones de ouvido. Os que ouviram, ouviram por um lado e soltaram pelo outro. Se um ou dois dos que estavam presentes se interessaram de verdade pelo discurso dos universitários, então foi muito.

E eu fui uma delas.

Minha Tia Meri ficou visivelmente mais empolgada do que eu quando lhe contei sobre a visita. Disse que era uma grande oportunidade de conhecer o campus de perto e de ter um vislumbre de alguma profissão que intentasse seguir. Fazia gosto de que eu estudasse por ali mesmo, em alguma das áreas do centro de estudos do mar. Não escondia que, desde mocinha, seu sonho era o de ter se tornado oceanógrafa. Mas então veio o marido. Depois do marido, os filhos. O tempo foi passando e outras coisas foram se tornando mais urgentes que os sonhos; estes, foram ficando pra lá. Por mais que se falasse que nunca é tarde para se correr atrás de nova vida, Tia Meri sentia como se fosse tarde demais para ela. Mas, para mim, aí já era outra história. Eu deveria ir e ela fazia muito gosto de que eu lá fosse estudar. Falava em custeio de material didático e tudo. Animei.

Assim, na data marcada, as turmas dos diversos terceiros anos da cidade se juntaram, (meia dúzia de gatos pingados) e, num misto de agitação e curiosidade, entramos nas dependências da Universidade. Era tudo muito lindo por dentro, pintado em tons navais, adornado de colunas brancas e lisas como faróis. As áreas eram espaçosas, limpas e nada pesava demais na vista: havia um minimalismo suave amparado com uma decoração que se insinuava costeira. Fomos apresentados à cada área e aos professores líderes de cada uma delas. Era uma nova sensação estar assim tão perto de um ambiente universitário; era completamente diferente do que eu vivenciara, até então, tanto no Rio, quanto em Pontal.

[ Complementar ].

Foi feita, então, uma pausa para que fôssemos à cafeteria e aproveitássemos para fazer um lanche e tomar um suco. Embora grande parte dos estudantes houvesse se movido nessa direção, fiz o movimento contrário. Não tinha fome, mas tinha um grande interesse pela praia e pelas áreas adjuntas a ela. Havia uma abertura que dava para o famigerado píer, mas ainda não era o tempo de lembrar-me das estórias escusas contadas sobre ele. Meus pés se viram guiados para lá e, sem nem pensar duas vezes, estava eu no cenário de todos aqueles crimes hediondos, passeando por entre as vigas e as madeiras como se, por baixo de toda aquela areia e sal, não houvesse também a tintura do sangue.

— Não está um pouco longe dos outros para andar por aqui sozinha?

O rapaz que falou comigo era um pouco mais velho, talvez um estudante universitário.

Tinha a tez muito branca e sua palidez se confundia com as nuvens cinzentas de tempestade. Seus olhos eram escuros, seu nariz era teso, seus lábios, finos, e neles reinava um sarcasmo travesso. Havia um traço pálido de sardas sob a ponte abaixo dos olhos e uma cicatriz muito fina cortando a sobrancelha. Ele era alto, delgado e sob as roupas escuras os músculos eram breves e delineados. De imediato, eu o achei muito gato.

— Não é proibido. Além do mais, era hora do café e estou sem fome.

Ele pareceu ponderar por um instante o que eu havia dito. Então, desfez-se desse pensamento como quem abana para longe um mosquito.

— Você não é daqui, não é? — Como se perguntasse sobre o tempo.

— Não, não sou. O que me dedurou? O sotaque? — Por mais tempo que passasse acho que sempre carregaria nos “s”s arrastados. Mania de carioca de falar chiando.

— Não, foi só o seu jeito — Ele era direto e não dava voltas em torno do assunto. — Pareceu como alguém de fora.

— “De fora”. Você faz Pontal parecer um clube vip que só alguns podem entrar.

— E é, de certa forma — Os olhos escuros, tempestade de olhos castanhos, vagavam pelo horizonte — Eu também não sou daqui.

Acho que perdurei no silêncio um pouco mais do que deveria. Quando as reticências de todas as coisas não ditas começaram a pesar entre nós, remendei assim:

— E o que te trouxe pra cá?

Como quem desperta de um cochilo, os olhos dele se voltaram para mim. Eu poderia me perder ali. Eu adoraria me perder ali.

— O clima. — E chutou com o bico dos sapatos um tanto de areia — Não dá pra dizer, mas sofro de uma doença. É muito rara e, infelizmente, é incurável. Não há muito remédio, só tratamentos. Parte do tratamento fala sobre viver num lugar de clima ameno, com pouco sol e muitos dias nublados. — Olhou para o céu, para a tempestade que se anunciava naquelas nuvens tintas de cinza — E essa cidade tem tudo de que preciso. As pessoas são reservadas, os dias são cerrados com bastante nuvens, e tem o mar. — As ondas cresciam e quebravam, cresciam e rebentavam, no vaivém constante das marés — Eu sempre gostei do mar.

Podia simpatizar com a vontade dele de estar perto do mar. Eu era apaixonada pelas praias do Rio de Janeiro e não teria aceitado vir morar em Pontal se esta não fosse, literalmente, dentro da água. Não era de se admirar que ali houvesse tantos cursos como Biologia Marinha e Engenharia de Aquicultura. Mas sobre a doença dele, podem apostar que isso me pegou completamente de surpresa. Ele não parecia doente. A pele podia ser um pouco clara demais, mas quantas pessoas não tinham pele clara, apesar do sol escaldante? Eu própria conhecia muitas assim lá de onde vinha, no Rio, que, apesar de se esforçarem por um bronzeado de sol, máximo que conseguiam eram dolorosas insolações. À parte da pele, nada mais indicava alguma doença. Não havia olheiras sob os olhos, cansaço na postura, até mesmo seu cabelo era luzidio e arrepiado. Incurável? Confesso que tive ganas de perguntar de que mal ele sofria, mas sabia-me extremamente indelicada se o fizesse. Mordi a língua. Fiz que sim com a cabeça, como quem busca dizer que entendera tudo, sem ter entendido nada.

— Também gosto do mar.

Queria ficar mais. Queria me perder naquela tempestade que eram seus olhos.

— Dora, já estamos indo! — Uma voz gritou lá de cima, à distância, chamando meu nome para junto da fila e dos ônibus — Vamos sair em quinze, você tem que voltar!

Eu não queria voltar.

— Vai lá. Eles saem em quinze.

De algum modo, a voz dele quase que me consentia permissão em deixá-lo. Eu me senti estranhamente libertada do desejo de ficar. Olhei mais uma vez para ele, mas ele já olhava para um outro lado, as mãos enterradas nos bolsos, o cabelo zanzando na brisa. Pus minhas pernas para andar, meio que a contragosto.

— Conrado. — A voz repentina e clara veio atrás de mim.
Eu quase tropecei.

— O quê?

— O nome. Conrado. Você não havia perguntado.

Engoli em seco com a minha própria grosseria. Então, respondi:

— Isadora. — E, como se precisasse de maiores explicações: — Você também não perguntou o meu.

O sorriso dele voltou zombeteiro e eu tive dificuldades em deixá-lo para trás, mas deixei.

Refiz todo o caminho até a parte alta no campus e pus-me à fila junto dos outros terceiranistas à espera do ônibus. Fiquei ali ao lado de uns conhecidos, discutindo sobre os pontos altos da expedição, mas não pude evitar que meus olhos vagassem de volta à parte baixa, ao píer, às proximidades do farol, onde eu o vira pela última vez, nem de me perguntar, com uma esperança fugidia, se eu , algum dia, o veria de novo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.