Notas iniciais
As 5 frases que aparecem no começo da história é a tradução da música Kaifu Emaki cantada pela Hatsune Miku, é o tema de encerramento de Yami Shibai (sim, é só 26 segundos). Quem quiser ouvi-la, não fará mal. https://www.youtube.com/watch?v=vO8UW4TXxlg - Fic não betada, mas estou tentando corrigir algumas coisas, sou um pouco atrapalhado e você pode encontrar a mesma palavra duas vezes na mesma frase, se isso acontecer puxe minha orelha que eu conserto.

Frio, apenas o barulho de ventos fortes podia ser ouvido, era relaxante até, mas incomodava por não ouvir mais nada além de ruídos. Escuro, mas conseguia enxergar por onde caminhava.

Estava vestido e pouco deu importância para o que trajava ou calçava. O rapaz sentia que não era bem vindo naquele lugar, reconheceu as pilastras do santuário, paisagem o qual estava tão habituado desde criança. O mármore e as pedras encrustadas, das escadas talhadas nas próprias rochas, poderia saber a quantidade de degraus decorada se já tivesse contando antes. Um local sagrado e preservado por tantas eras por santos e guerreiros não podia estar dessa forma como estava, escuro, silencioso e tão...

“Macabro”

Teve a impressão que o som dos ruídos dos ventos tivesse formado uma palavra semelhante a algo tão profano de se descrever para o santuário. Macabro... Medonho...

Não ouvia nada além do som do vento, nem seu sapato tradicional de soldado fazia som de pegadas no solo. Sentia cada brisa passando por ser corpo e sumindo em seguida, tinha a total certeza de cinco dedos deslizando suavemente pelos seus braços, pernas, rosto, cabelo, peito.

A parte por onde caminhava se tornou mais escura, desistiu de continuar andando virando-se em direção a favor do vento bagunçando todo seu cabelo loiro e jogando em seu rosto. Cada vez mais andava e agora sentia claramente a certeza de várias, não. Dezenas de mãos percorriam por seu corpo empurrando e deslizando para que ele caminhasse mais rápido, a sua frente parecia tão iluminado, como uma noite comum iluminada pela luz fraca da lua, em suas costas tudo parecia tão negro e difícil de distinguir o que é céu e o que é o chão.

Algo interrompeu seus passos. Um manto no chão? Estava sendo levado pelo forte vento, mas continuava embrulhado como se tivesse algo enrolado em si. Era de tecido marrom brilhante, quando chegou mais perto viu que parecia mais dourado do que marrom claro. Pegou com uma mão e notou um peso. Abaixou para ver o seu conteúdo, pele branca, pequena, cabeça pequena e redonda com um corpo grande e bracinhos e perninhas bem finos do tamanho de dois dedos, lábios e olhos grudados como se nunca tivessem sido abertos.

– Um bebê?

Indagou-se, era a primeira vez que olhava um pessoalmente, pegou-o no colo entre o tecido. Nunca tinha visto um de verdade, parecia que cada vez mais que o tocassem, tinha a sensação que algo quebraria se não tivesse cuidado. Bem de perto viu que o bebezinho tinha um ralo cabelo em sua cabeça, os bracinhos que estavam encolhidos quando o encontrou agora estavam pendendo para fora dos braços grandes e aconchegantes do mais velho.

Parecia estar dormindo, para julgar pelo horário e escuridão que podia ser bem tarde da noite. Pela pele tão branca quando o mármore deixava o pano dourado que o acolhia parecer bem escuro. Se pudesse dar um jeito de segura-lo com um dos braços e usar a outra mão para fazer um pouco de carinho... Pensado e feito, não sabia como segurar um bebê no colo, nunca fizera isso, mas da maneira que estava não parecia ser de forma incorreta.

Um dedo foi até sua bochecha, com a pontinha, começou a circular a maçã do rosto do pequeno, era incrivelmente macia... E fria. Igual ao vento.

O vento!

Não tinha notado, mas agora estava tudo negro, nem lua, nem chão, nada ao seu redor. Apenas aquele bebê em seus braços. Sua espinha gelou, o estomago esfriar e seus pelos se arrepiaram de resposta ao medo que sentia.

O vento mudou de direção e jogava seus cabelos para cima ficando cada vez mais intenso. No impulso agachou-se no chão e viu que a cabeça do bebê pendeu para o lado, uma sensação de algo estar errado o tomou por completo, o que estava acontecendo? Por que isso? O vento o empurrou para o lado encostando sua perna toda no chão.

Agora podia ouvir claramente vozes de uma criança, não. De várias crianças, vozes finas que só podiam vir do vento que o prendia num semi-redemoinho, elas cantavam em coro com vozes infantis. O rapaz procurou pelos lados e nada, não havia ninguém ali. De onde que saiam essas vozes?

“Por dentro é uma criança preste a estourar.

Empurrões e encontrões sangrentos.

Apegos que só levam ao choro.

Mau humor faz o bebê chorar.

Poderia ser a fonte da inveja?”.

O que essas palavras queriam dizer? Qual o significado? Elas não repetiram o que disseram um movimento foi sentido em seus braços.

A cabeça do bebezinho se ergueu, pareceu que acordara, mas algo estava ficando perturbador. A cabeça da criança começou a aumentar de tamanho na região da testa e lateral deixando as bochechas e queixo menores. Os olhos foram abrindo revelando que não havia íris neles ficando cada vez mais esbugalhados.

Não teve tempo para pensar no que acontecia, do que iria acontecer e porque estava acontecendo. A cabeça do bebê explode empurrando uma corrente de ar direto na cara de quem o segurava. Fechou os olhos por reflexo, mas o susto permitiu que seus braços deixassem que o “bebê” caísse no chão.

Seus braços recebiam uma corrente elétrica que subia aos ombros. Estava com o estomago gelado e sentia os batimentos cardíacos em sua língua, a respiração arfante e com o peito suado. Suas mãos foram as primeiras a se movimentarem, sentiu a textura do lençol que o cobria e em sua cabeça estava pousada no travesseiro. Demorou algum tempo para perceber que havia acordado de um pesadelo. Sentiu agora um alivio em saber que tudo que aconteceu não fora nada mais do que um sonho ruim.

Mesmo deitado não conseguia mais voltar a dormir e ficou com os olhos abertos na escuridão. Deveria ser de madrugada e seu irmão estava dormindo, olhou para a direção onde ficava a cama do mais novo imaginando ele dormindo tranquilamente e tendo um sonho bem mais tranquilo do que tivera. Por um instante, menos de um segundo o quarto se iluminou revelando que a cama de Kanon estava vazia e ficando escuro novamente.

Assustou-se com o clarão, levantou-se da cama ficando deitado com as pernas esticadas, olhou a sua volta, nada que desse algo para iluminar, uma lamparina ou vela. Apenas a janela que dava uma mínima luz de fora. Aquela sensação que sentira estava começando a voltar...

Um alto som ecoou como um estrondo gigantesco. Saga comprimiu-se na cama fazendo um barulho na mobília tampando seus ouvidos e fechando com força as pálpebras de seus olhos. Levou alguns segundo para que o barulho do trovão passasse, foi como se ele tivesse caído bem ao lado da sagrada casa de Gêmeos. Percebendo que o som havia diminuído. Afrouxou sua mão de seus ouvidos devagar. Podia ouvir o barulho de chuva caindo, mas não tão alto quanto do trovão.

Supôs que deveria ser de madrugada e não sabia que horas devia ser mais ou menos. Mudou de posição na cama e esfregou os olhos, foi ai que percebeu que estavam bastante úmidos. Chorara durante o sono, seu nariz ainda fungava um pouco.

– Saga?

Ouviu uma voz idêntica a sua, sabia de quem era e arregalou seus olhos tentando inutilmente procurar por ele no escuro. Se ele não estava na cama, estava no quarto. Mas onde?

– hm...

– Está acordado?

– Acordei agora... Kanon... – Olhara para a direção da janela.

Outro relâmpago apareceu. Dessa vez iluminando todo o quarto por uma fração de segundos, foi o suficiente para achar o seu irmão sentado num banco em frente à janela fechada debruçando-se nela. Estava com o rosto centrado na cama observando seu irmão.

Assustado com o clarão, Saga voltou a fechar seus olhos e tampar seus ouvidos por reflexo apos o clarão. Sentiu a intensidade do trovão segundos depois. Estava tremendo.

Novamente foi aos poucos afastando as mãos dos ouvidos fazendo o mesmo com seus olhos.

– Saga...? Ta tudo bem ai?- o mais velho voltou ao local onde olhara seu irmão na janela. Imaginou que ele estivesse na mesma posição.

– Sim Kanon... O que está fazendo? — disse pausadamente evitando não denunciar que estava com medo.

– Olhando os trovões — disse com normalidade — Os relâmpagos também, são legais.

– Não, não são. — deixou escapar sua negação denunciando sua situação.

– E por que não são? – Perguntou com uma surpresa. Conhecia Saga muito bem para saber que não estava bem para falar nesse tom.

O gêmeo mais novo estava sem vontade para dormir. Mesmo sendo de noite e bem tarde, não sentia sono. Estava entediado já que era obrigado a manter-se escondido na casa de gêmeos, e quando chegava a essa hora da noite, não era permitido fazer qualquer tipo de barulho. E com isso, Kanon encontrou um hobbie em observar relâmpagos e sentir a força de um trovão que conseguia ser mais forte e mais alto que um rugido de leão. Cada trovão dava impressão que caia próximo ao santuário, como se Zeus estivesse desafiando Athena e seus cavaleiros a algo em plena madrugada.

Dito isso e um relâmpago cai e ilumina todo o cômodo que os gêmeos ali dormiam. Kanon viu com clareza o rosto de seu gêmeo mais velho, ponta do nariz vermelha e olhos inchados.

–Ei, Saga. Você está chorando?

Nenhuma resposta vinda do irmão e o trovão vêm em seguida e o susto de Saga respondia a sua pergunta.

– Fala sério Saga. Você está com medo dos trovões? — falou debochado.

– P-pare, não estou... – Gagueja, tudo que Saga queria no exato momento era que os relâmpagos e trovões cessassem agora esperando que esse fosse o último que cairia.

– E o que foi isso? Eu vi o seu rosto chorando. — Kanon endireitou-se na cadeira da maneira que ficasse de frente da cama onde os dois dormiam.

– Não foi... Nada. – Mesmo no escuro, Saga estava com as duas mãos bem próxima aos ouvidos com os dedos apenas aguardando cair um trovão para tampa-los com força antes que o mesmo chegasse.

– Me poupe Saga, você já é um cavaleiro de ouro e tem medo de trovões. Nunca imaginei que você, meu irmão tivesse medo de algo tão... Estúpido. — Kanon demorou um tempo para descrever os trovões e relâmpagos, gostava de observa-los, mesmo conhecendo seu irmão desde o berço, nunca percebeu que o mesmo não gostava deles. – E nem adianta mentir que eu vi sim você chorando.

– Pare com isso Kanon, não é nada. Eu estou assim porque, eu acordei de um... De um pesadelo!- Saga gaguejava e se enrolava nas palavras, tinha o rosto vermelho já de vergonha que passava.

– Pesadelo, é? – questionou. — Quer dizer que o cavaleiro de ouro de gêmeos ainda acorda chorando por causa de pesadelos...?

– Kanon, pare!

– Tudo bem irmão — levantou as palmas das mãos apaziguando a situação, mesmo que Saga não as enxergassem. — Não vou mais falar nada... Mas ainda acho que, como você já é um cavaleiro de ouro, os medos que tinham que ter medo de você, e não você deles.

Kanon levantou-se da cadeira fazendo um barulho dela se arrastando no chão, e novamente um relâmpago caia, ajudou o geminiano a encontrar a lamparina que havia deixado na mesa junto com alguns fósforos. Riscou dois para ascender o fogo que iluminava o quarto com a pouca luz que era suficiente. Caminhou até ao lado da cama de Saga vendo ele ainda enrolado no cobertor.

– Ei, irmão, conte-me como foi o pesadelo. — Kanon iluminou o rosto idêntico ao seu, olhou o nariz rosado e os cílios molhados de Saga junto com uma cara emburrada, um pouco sonolenta, mas o gêmeo mais velho estava mais do que bem acordado.

Saga percebeu que não se lembrava de absolutamente nada do que ocorreu no sonho, como se tivesse tido uma lavagem cerebral, demorou algum tempo para responder seu irmão, mas só lembrava-se do escuro e do medo que sentiu.

– Eu não lembro direito... — Kanon bufou ao ouvir isso – Ele era horrível, como se eu estivesse em apuros, e não tinha ninguém para me salvar. Senti-me sozinho no meio de tanta escuridão... Tinha várias sombras avançando em minha direção, alguns vultos e, eu estava com medo...

– E por que não usou o seu poder no sono? Poderia muito bem vencer qualquer ameaça.

– Eu meio que, não me lembrei de usar na hora. É como se, foi estranho. Pensando assim eu poderia vencê-los. Mas na hora eu estava com tanto medo que nem raciocinei direito.

Saga parecia mais calmo agora após desabafar, até que novamente um relâmpago caia para desarmonizar o rosto do mais velho.

– É só um relâmpago, Saga...

– Eu sei.

– Estou vendo que sabe. — disse sarcástico, o mais velho pareceu irritado com o que seu irmão falava.

O barulho alto do trovão veio em seguida. Kanon observou o seu irmão manter a postura controlada de não demonstrar medo perante ele. Seus lábios subiram num sorriso pensando em irritar um pouco seu irmão em ameaçar contar para alguém do santuário que Saga acordou chorando de um pesadelo e de bônus o seu medo por relâmpagos e trovões, mas o sorriso desmanchou-se ao lembrar que não podia aparecer na presença de outra pessoa a não ser seu irmão ou o Grande Mestre. Bufou com raiva.

– Saga, quer saber de uma coisa? Você deveria parar com isso, relâmpago e trovões nem são ameaças. Não fazem nada. Já temos 13 anos, nem eu e nem você somos mais crianças, e eu entenderia mais ainda se você tivesse medo de animais peçonhentos, daqueles que só uma picada já mata até mesmo um cavaleiro adulto. — Kanon foi interrompido por um relâmpago e só voltou a continuar depois que o trovão passou dessa vez com o barulho foi mais abafado. — Cavaleiro de Athena não deve temer nem a própria morte. Você é um dourado, eu não! — Saga ouvia a discussão de seu irmão como um sermão que entrava pelo ouvido e saia por outro. Se fosse para ficar ouvindo isso, preferia nem ter respondido ao seu irmão o que o incomodava ou simplesmente voltar a dormir, se conseguisse.

– E desde quando eu tenho medo de trovões? Kanon. – rebateu no mesmo tom de sarcasmo do irmão — Medo de Relâmpagos? Eu só não gosto! E eu me assusto fácil com um, eles aparecem do nada e não da para prever quando vem um.

– É por isso que são legais.

– São legais apenas para você! – Kanon se surpreendeu com a resposta de seu irmão. Era raro quando Saga ficava irritado ao ponto de usar esse tom de voz, o geminiano mais novo havia notado há um tempo que seu irmão mudava de aspecto ao falar e agir por alguns instantes e depois retornava a ser o doce Saga que ele conhecia. Outras vezes já vira seus cabelos dourados começavam a ficar negros por momentos. Já tinha percebido isso antes, porém não contou isso para ninguém, e assim resolveu então testa-lo em algumas ocasiões.

– Ta, ta...Tudo bem. Entendi. Vou lá tentar colocar algo na janela pra cobri-la já que você não gosta... Afinal, tudo aqui tem que ser de acordo com o seu gosto, e não com o meu. Fazer o que mesmo... São as regras do Santuário, tenho que apenas obedece-las. – alfinetou Saga sobre o assunto que ele sabia do que tratava.

– Kanon... Não fale assim.

– Falo. Você que é o cavaleiro de gêmeos, e não eu. Por isso que falo sim Saga. Tudo nesse santuário favorece apenas ao gêmeo mais velho! Apenas você!

– Kanon... Você é meu irmão.

– Sério? — ironizou propositalmente, pensou em terminar a sua resposta, porém novamente caiu um relâmpago clareando o quarto. Terminaria agora sua resposta ríspida, mas ela nunca foi dita porque viu no rosto de seu irmão lágrimas escorrendo daqueles olhos azuis. – Hm, quê? Ah Saga... Não...

– Kanon... Dorme comigo, por favor. — Kanon desistiu da ideia de tirar onda com a cara de seu irmão e infortuna-lo por causa do assunto. Saga estava chorando, estava chorando por causa de suas provocações? . Kanon amava Saga, era seu único irmão e único em sua vida, só tinham um ao outro. Mesmo Saga deixando transparecer seu medo apenas na presença de seu irmão, sentiu-se enojado por ter criticado seu medo e não protegido ou defendido. Lembrou-se do cavaleiro de ouro de Sagitário que possuía um irmão menor, com uma diferença de idade grande, e ele sempre protegia o seu irmão mais novo de tudo que o incomodasse ou afetasse. Kanon apenas falava o que pensava, e o que pensava estava correto para si e mais do que óbvio. O geminiano mais novo afirmava a si mesmo que era ele que tinha que receber a armadura de ouro, pois Saga era ingênuo e bondoso demais com as pessoas, além de ser o gêmeo favorito do Grande Mestre. Mas Kanon não conseguia odiar o seu irmão, amava-o demais para sentir isso dele, mas cada vez que o tempo passava sem poder sair da casa de gêmeos deixava o mais rabugento. E quando era pego fora da casa e castigado, descontava sua raiva em Saga. Mas depois ficava arrependido e desculpava-se com o irmão que sempre aceitava suas desculpas. — Que nem quando éramos crianças.

Kanon analisou o tamanho da cama onde Saga deitava. Desde que os dois entraram na puberdade, a cama dos gêmeos foram trocadas e separadas, de uma cama grande foi para duas de solteiro afastadas uma da outra. Os dois não eram mais crianças e eles numa cama dessa não iam dar certo se fosse analisar a altura dos dois juntos.

– Dormir?

– Eu não posso pedir para que você pare de ser o que você é ou pensa. Você está certo, mas eu ainda não quero enfrentar esse medo agora. Mas tarde. Mas quero voltar a dormir, só que não consigo.

Kanon passou mais um tempo em silencio pensando no que ele queria dizer de parar de ser o que era. Percebeu o que Saga queria dizer, mas não estava errado, estava só dando um conselho para seu irmão que não deveria ter medo de algo tão banal. Sim, Kanon tinha um medo, mas ninguém, nem mesmos eu irmão sabia disso. O geminiano mais novo lembrou de que quando um dos irmãos tinha um pesadelo, o outro dormia abraçado. Mas já faz tanto tempo que nem comentou sobre.

– Esta bem... Eu durmo sim Saga.

Mesmo não estando com sono, Kanon levantou-se da cadeira e voltou para a janela, fechou as cortinas e retornou para cama. Apagou a lamparina pondo-a em seguida encima do criado mudo. Contornou a cama e sentou-se na posição que fizesse que Saga ficasse deitado de costas para a janela. Já não eram mais crianças, tinham quase ou mais de 1'70 de altura e o tamanho e a largura da cama não ajudava muito.

– Afasta Saga. — mal se deitou na cama e já sentia encima de seu irmão.

– Não dá, já estou na ponta!

Não tinha jeito, Saga inventava cada uma e Kanon que pagava. Aninharam-se na cama com as pernas entrelaçadas. As duas cabeças dividindo o mesmo travesseiro e os braços encolhidos entre os dois. Exatamente da maneira que dormiam quando crianças, Kanon teve uma doce sensação de um dejavú.

Um relâmpago caiu, Kanon sentiu Saga estremecer-se à sua frente, mesmo tentando fingir não ter se assustado, e o trovão veio em seguida, mas dessa vez mais abafado. A tempestade deve está terminando.

– Saga, eu já estou aqui. Não precisa fica assim. – disse o mais novo com voz tão baixa que saiu quase como um sussurro.

– Eu sei Kanon... Só estou feliz.

– Feliz?

– Por você estar aqui comigo, meu irmão. Sem você aqui, não saberia o que seria de mim. Mesmo com as condições e as regras do santuário, você nunca deixará de ser meu irmão, e eu nunca deixe e deixarei de te amar, nem por um dia...

Kanon surpreendeu-se com as palavras de seu irmão. Saga era gentil, amável e conseguia ter um sorriso e a bondade que só um anjo poderia ter. Conseguia facilmente a amizade e confiança das pessoas. Com ele era diferente, ele era o gêmeo com o coração corrompido, o gêmeo que representava a catástrofe de sua constelação protetora, mas só Saga que conseguia fazer Kanon sentir a luz em seu peito.

– Eu também Saga... Eu também estou feliz. — Kanon soltou os lábios para um sorriso terno. Mesmo encabulado, confiava em seu irmão.

– Sabe... – Saga deu uma pausa e só voltou a falar quando seu irmão confirmou que estava o ouvindo. – Aioros também descobriu que eu tenho medo disso.

– O que? – Kanon despertou uma ponta de ciúmes, acontecia toda vez que seu irmão comentava sobre o cavaleiro de sagitário. Já o vira algumas vezes de prontidão, mas nunca o vira de perto, mas dessa vez ficou chateado por Aioros saber do medo de seu irmão primeiro do que ele.

– Foi meio que, sem querer deixei escapar. Começou a chover de tarde e trovejar forte. O Grande Mestre também percebeu isso e disse que o que eu tenho é Astrofobia.

– Até o Grande Mestre? Deixa-me ver se eu entendi, eles também falaram as mesmas coisas que eu falei para você.

– Não. É que, quase isso. – Saga riu. – Aioros disse que o irmão mais novo dele também tem medo de algumas coisas, mas ele sempre fala que irá protegê-lo de qualquer coisa. E o Grande Mestre falou tantas coisas que vou tentar me lembrar. – Kanon sentiu a indireta mesmo que não intencionada de Saga. Iria falar a frase “Desculpa se não sou igual à Aioros”, porém o dourado voltou a falar. – Medo são obstáculos que devemos passar e até mesmo pessoas, animais são obrigados a passar por eles, até mesmo o Grande Mestre disse que tem medo de algumas coisas.

– O Grande Mestre tem medo? – disse incrédulo. Por conta do motivo de Kanon ficar o tempo todo na casa de gêmeos, ele perdia muito conteúdo e fofocas do que acontecia pelo santuário.

– Foi o que ele me disse.

– De quê? Do que ele tem?

– Ele não falou de quê, mas ele também falou que até Santos de Ouro podem também ter medo.

– Unf! Não acredito que alguém tão forte e importante como ele possa ter um medo. Aposto que o medo dele é de ficar careca ou banguela.

Saga ia repreender seu irmão pela falta de respeito, mas acabou rindo junto. Kanon se referia ao fato do Grand Mestre ser bastante velho.

– Ele também disse que... – A mania de Saga de continuar falando só depois de receber um sinal irritava um pouco o mais novo. – Sentir medo de alguma coisa, e não ter ninguém para proteger, é se sentir sozinho por duas vezes.

– Hm?

– Se sentir sozinho duas vezes, creio que ele quis dizer que algo de, sem ter ninguém para proteger. Você fica com medo e não tem ninguém, mesmo que não entendam, não ajudam. Ele também disse que alguns medos se perdem com o tempo a medida que crescemos, outros são superados com a força de vontade, e outros que simplesmente só conseguimos perde-los quando estamos perto de uma pessoa que sabe que se sente bem.

– Essa última parte ele referiu-se a mim, não foi?

– Acho que sim. – Saga riu.

Kanon não gostava do Grande Mestre, parecia que ele previa ou já sabia quando o mesmo tentava burlar a regra de ficar oculto e saia da casa de gêmeos, e toda vez que saia, ficava andando pelo santuário normalmente sem levantar suspeitas. Afinal, todos achavam que era Saga sem a armadura de ouro que estava ali. E sua única preocupação era não encontrar Saga ou o Grande Mestre pelo caminho. Mas valia a pena cada vez que cabulava sua obrigação como se fosse uma aventura, um recorde pessoal seu de passar mais tempo fora sem ser pego.

– Saga, eu não vou deixar que você fique sozinho por duas vezes. – Prometeu o gêmeo mais novo. Bem pertinho de seu irmão, Kanon planejava em fugir da casa de gêmeos só para mostrar um local secreto do santuário que descobrira no meio de suas fugas para Saga. Era um local isolado, tinha espaço para treinarem lutas ou passar um tempo juntos fora do templo de gêmeos. Dessa vez o Grande Mestre nem perceberia de nada.

O sono estava chegando para aqueles que não o tinham. Kanon se rendia e fechou seus olho.

A chuva só parou tempos depois que os gêmeos pegaram no sono. E com ela, os relâmpagos e trovões cessaram com uma trégua, e junto com eles, o medo de Saga ia embora ao lado de Kanon.

Notas finais
Fico feliz por ter escolhido ler minha história. ^^ O local que Kanon estava se referindo no final é o mesmo cenário que eles tiveram a discussão que Saga se viu obrigado a prende-lo no Cabo Sunion. Eu meio que usei o Saga como desculpa para me por na história. Tenho 21 anos e 1,76cm de altura e possuo vários medos. Até meus irmãos e pais acham ridículo uma pessoa do meu tamanho e idade ter medo de trovões e outras coisas. Mas agir dessa maneira achando que vai ajudar, só alimenta mais ainda e os engordam. :/ Não é pedir demais, só que, que tal deixar um review? ^^'
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!