Medos

1 Capítulo 1 - Sonho


Notas iniciais
Olá, gente bonita do Nyah!Voltei com mais uma fanfic para a alegria de vocês.Estou lutando para terminar uma longfic. Então resolvi escrever esta para ver se o bloqueio sumia.Espero que gostem.Só para lembrar: capítulo toda a sexta e a fanfic é composta por quatro capítulos.Boa leitura.

“Eu jamais vou querer ter filhos.”
Jogos Vorazes
Capítulo 1 – Página 15

O tempo passa, e tem coisas que ele leva embora. Estas coisas são normalmente irrelevantes em nossas vidas. Como um piquenique ao pôr-do-sol, uma conversa durante a tarde ou até uma eventual discussão pela parte da manhã. Estas coisas o tempo leva embora das nossas memórias. Nós esquecemos isto rapidamente.

Mas tem certas coisas que o tempo não consegue levar embora. Talvez seja pesado demais para ser levado... Marcante demais. E eu aceitaria ficar com cada piquenique, cada conversa ou cada discussão em troca de me livrar das coisas pesadas.

Estas coisas vêm acompanhadas de muitos sentimentos, mas o que mais marca é o medo.

Passar por duas arenas projetadas para seres humanos matarem uns aos outros é uma das coisas que o tempo nunca levará embora da minha memória. Liderar uma revolução contra o governo cruel de Snow é outra coisa.

A lista é grande: matar pessoas ou quase ser morta por elas, perder pessoas que você ama ou perder pessoas com as quais você tem uma dívida eterna. Ser usado inúmeras vezes...

Passar por acontecimentos deste tipo, deixam marcas profundas demais para o tempo levar. E acrescenta o medo.

Eu acredito que este é o motivo de mesmo depois de quinze anos, eu não conseguir aceitar a ideia de ter filhos. Eu sei como Peeta os quer. Eu ouço ele várias vezes me pedir, implorar por isto. Não posso culpa-lo. Ele apenas quer realizar o sonho dele, nada mais justo depois de tudo pelo o qual ele passou.

Mas esta ideia não consegue entrar em minha mente. Não consigo me imaginar redonda, carregando uma criança dentro de mim. Não consigo me imaginar cuidando dela, trocando fraldas e dando banho. E é claro que Peeta não entende isto. Porque ele consegue me visualizar assim. Ele olha para mim e vê a imagem da mãe do filho dele.

O medo persiste o tempo todo. E se eu falhar com esta criança? E se o governo injusto voltar? E se os Jogos voltarem?

Peeta é cego por este sonho e não consegue pensar em todos estes “e se” que eu penso.

Cansei de ter de passar por inúmeras brigas por causa deste assunto. Mas não vou conseguir aceitar isto só por ele. Talvez seja um egoísmo enorme da minha parte privá-lo disto, mas tenho que pensar em como eu vou ficar com isto.

Peeta está desesperado para que eu aceite, afinal, quinze anos já se passaram. Em breve serão vinte, trinta, quarenta,... Quanto menos esperar já estaremos velhos demais para ter um bebê. E eu sei que ele se assusta com este pensamento, já que ele mesmo acabou confessando isto para mim em uma das nossas discussões. E ao mesmo tempo, ele sabe que não pode simplesmente me manter amarrada até que eu aceite o pedido.

Nesta noite brigamos novamente. Este é o motivo de eu ter acordado sozinha na grande cama de casal do nosso quarto. Peeta deve estar no sofá. Estou acordada faz horas, mas não estou com coragem de sair da cama e ter que entrar no jogo do invisível hoje: Peeta não me vê. Eu não vejo Peeta.

Mas sei que não vou poder ficar aqui para sempre, então respiro fundo antes de sair da cama e arrastar meus pés até o banheiro.

Demoro algum tempo no banho. Desço e vejo que Peeta ainda está dormindo no sofá. Talvez eu consiga tomar o café antes de ele acordar e ir para a floresta, assim evitaria o jogo do invisível durante o dia.

Coloco a água para ferver rapidamente com este plano em mente. Mas ouço os passos dele vindo para cá. Suspirei, sabendo que era tarde demais. Mesmo assim, me viro para trás para confirmar e vejo Peeta caminhar em direção à cozinha com a mão coçando os cabelos loiros desgrenhados. Me viro para frente novamente, me ocupando em arrumar o bule de café.

Peeta não pronuncia nenhuma palavra, apenas senta à mesa, fazendo desenhos imaginários nela com o dedo. Eu me viro para ele, esperando a água ferver, mas olho para a mesa. Mesmo assim, pelo canto do olho, o vejo dando um rápido tapa na mesa antes de levantar e buscar pão no armário. Passa na geladeira e busca geleia e queijo, colocando tudo sobre a mesa. Eu termino de preparar o café e me sirvo. Peeta faz o mesmo.

Comemos em meio ao silêncio, ouvindo a mastigação um do outro. Este é o único som que distrai nossos ouvidos.

Eu termino e levo a louça que usei para a pia a lavando. Mesmo após terminar o rápido serviço, continuo enrolando ali na pia, até Peeta suspirar alto.

– Katniss... – ele me chama baixinho, mas eu finjo não escutar, já que o jogo do invisível costuma funcionar assim – Você pode ao menos olhar para mim? – ele pede, mas eu não cedo. Ele se levanta, empurrando a cadeira para trás com as pernas e caminha até mim, abraçando minha barriga – Droga, Katniss! Eu não gosto disto. Não gosto de estar brigado com você.

– Eu não estou pronta... – eu começo a dizer.

– Eu sei. – ele diz descansando a cabeça no meu ombro – Mas você diz isto já faz quinze anos.

– Mas eu ainda não estou pronta para isto. – eu retruco.

Ele me força a virar para frente e segura meu rosto entre as mãos encostando nossas testas.

– Por favor. – ele pede sussurrando.

– Peeta...

– Só um, Katniss. Só um bebê. Eu juro que não peço mais nada para você.

Eu odeio quando ele faz isto. Ele faz eu me sentir um monstro horrível deste jeito. Me faz sentir como se eu fosse o dragão que protege a torre onde a princesa está aprisionada.

Eu abaixo suas mãos com as minhas e deito minha cabeça em seu ombro.

– Eu não posso. – sussurro de volta.

Ele me abraça e afunda o rosto nos meus cabelos.

– Então me avise quando puder. – ele logo se afasta, apesar de eu estar gostando do nosso contato – Eu preciso ir para a padaria.

– Tudo bem.

Ele sobe e eu termino de arrumar a cozinha. Peeta desce logo em seguida, quando eu estava dobrando os cobertores que ele havia deixado no sofá.

– Você pode levar o café do Haymitch pra mim? É que eu já estou atrasado.

– Eu levo. – respondi.

Ele corre até mim e me puxa pela cintura, selando nossos lábios.

– Obrigado. Tchau.

Não tenho tempo de devolver o seu “tchau”, pois ele sai correndo pela porta. Termino de arrumar o sofá e arrumo a nossa cama. Depois desço e preparo o café do Haymitch. Saio de casa e caminho até a casa de meu antigo mentor, que hoje não ajuda mais crianças a vencerem os Jogos Vorazes, mas passa os dias bebendo até não poder mais. Entro na casa e logo sinto o cheiro repulsivo e marcante do álcool. Greasy Sae limpou a casa dele durante um tempo, mas desistiu já que por mais que ela limpasse, a casa parecia voltar ao que era no outro dia.

Haymitch não pensa em se alimentar. Se alguém não trouxer a comida até ele, ele simplesmente passa o dia sem comer. Vou direto para a sala, já que ele sempre está roncando na poltrona imunda dele. Obviamente ele está dormindo lá. Dou três chutes na poltrona que um dia foi marrom claro, mas agora está preta.

– Haymitch, acorda! – ele nem sequer se mexe. Sacudo ele várias vezes com força – Haymitch, eu trouxe o café. Acorda logo.

Ele acaba murmurando e abrindo os olhos.

– Obrigado por me acordar com gentileza, docinho. – ele fala se endireitando na poltrona. – O que está fazendo aqui?

– Trouxe seu café. – falo estendendo o prato tampado com um pano.

Ele puxa o prato para si e se põe a comer.

– E o garoto? – ele pergunta enquanto mastiga.

– Está na padaria.

– E conseguiu convencer você?

– O quê?

– Você sabe. – ele dá um gole no café antes de continuar – O negócio do bebê.

– Ele fala com você sobre isto?

– Você acha que ele vem aqui apenas para me alimentar?

Sim, eu realmente achei que ele viesse aqui só para isso. Mas pelo visto não. Ele usa Haymitch como a caixa de desabafos dele.

– E o que ele diz? – pergunto.

– Ele diz que quer um filho, mas você tem medo. Ele diz que o tempo passa e vocês ficam mais velhos a cada dia e ele não aguenta mais esperar por isto. Diz que vê todos os outros homens com seus filhos e se pergunta quando vai poder viver isto também.

Talvez eu não devesse ter perguntado. Deveria apenas ter entregado o café e ido embora. Consigo imaginar Peeta andando até a padaria e vendo pais levarem seus filhos até a escola ou a creche. Se perguntando se algum dia poderá ter o prazer de fazer o mesmo.

– Eu não sabia. – sussurro.

– É claro que não. Peeta não quer magoar você. Ele nunca contaria isto para você. Katniss, se passou quinze anos, por que não dá esta criança logo pra ele?

– Eu não posso, Haymitch! Eu tenho medo.

– Medo do quê? Não tem que ter medo de nada.

– Eu não sei. Eu apenas tenho medo. Eu não consigo fazer isto.

– Eu entenderia se fosse antes, com os Jogos e tudo o mais. Mas agora... Agora não tem nada disso. Não tem Snow, não tem Jogos, não tem torturas... Não há por que ter medo.

– Mas e se os Jogos voltarem? Nunca se sabe. Teve aquela votação sobre uma última edição dos Jogos Vorazes.

– Uma votação na qual você concordou em ter uma última edição dos Jogos Vorazes.

– Você também concordou. – falo, começando a me alterar.

– Isso não importa, Katniss. Iria valer só para as crianças da Capital e além disso, se passou quinze anos desde aquela votação, se fosse ter outro Jogos Vorazes, já teria tido. Peeta está esperando por este filho durante quinze anos. Fala sério! O garoto gostava de você desde que era pequeno, você pode ao menos dar isto a ele.

Sim, eu poderia dar ao menos isto a ele. Mas e eu? Eu não tenho psicológico para cuidar de uma criança, para ter uma.

Fico irritada com Haymitch, porque sei que ele está certo. Totalmente certo. Peeta passou por tanta coisa no passado, ele merece um pouco mas de felicidade depois de tudo.

– Você já terminou? – pergunto rudemente, encarando o prato vazio no colo de Haymitch.

– Sim. – ele responde. Puxo o prato para mim junto com o pano e viro as costas para Haymitch, saindo da casa fedida dele – Pense no que eu falei, docinho. – ele grita antes que eu consiga sair.

Volto para a casa e deixo o prato dentro da pia, apoio o cotovelo na beirada da pia e deixo minha cabeça cair, atordoada com toda esta situação.

Lembro de uma pessoa que pode ajudar. Talvez ele não trabalhe mais, mas não custa nada tentar. Vou até o escritório e sento na grande poltrona preta antes de discar os números rapidamente. Logo ouço a voz no outro lado da linha:

– Alô.

– Doutor Aurelius. É a Katniss.

– Katniss Everdeen, que prazer ouvir sua voz novamente. Passou-se muito tempo desde nossa última conversa.

– Sim, eu sei.

– E qual o motivo de sua ligação?

– Eu precisava conversar com o senhor sobre algo. Não sei se ainda trabalha, mas preciso de ajuda.

– Entendo. Não trabalho mais, mas posso ajuda-la sempre que precisar. Então, diga-me o que atormenta sua mente desta vez. É algum pesadelo?

– Não. Nada de pesadelos. Peeta quer um filho.

– Ah, sim. Compreendo. Todo o homem sonha com a paternidade. Perfeitamente normal. Então, qual o problema com isto?

– O problema sou eu. Eu tenho medo disto. De ter uma criança. Não sei explicar muito bem, mas sinto um medo enorme só de imaginar. – explico afoita enquanto sacudo as pernas.

– Bem, é normal você ter muitos medos, Katniss. Ainda mais por tudo que passou. Estes medos são relacionados com o quê?

– Normalmente com os Jogos Vorazes.

– Claro. Você acredita que um dia os Jogos voltarão, certo?

Como ele pode saber disto se eu não falei? Será que aplicaram alguma coisa em meu cérebro sem eu saber e podem saber o que penso?

– Bem provável.

– Tudo bem, Katniss. Escute: os Jogos nunca mais existirão, não precisa se preocupar com o fato do nome dos seus filhos estarem na colheita, porque não tem chance disto acontecer.

– Eu sei, mas ainda tenho medo, doutor.

– Então pare de deixar este medo ser maior que você. Vença ele. Tenha esta criança, porque depois de tê-la você vai se perguntar como conseguiu passar quinze anos sem ter uma.

– Tudo bem. Obrigada. – respondo.

Ele se despede e eu desligo.

No final, ele não me ajudou. Só me disse coisas das quais já estava ciente. Não vou fazer o que o doutor Aurelius disse. Não vou ter um filho se sei que não vou ter a capacidade de cuidar. Não consigo vencer o medo.

Às vezes me coloco no lugar de Peeta, me imagino sonhando com algo durante anos e este algo nunca vir. Mas não posso simplesmente ter esta criança e deixar apenas aos cuidados de Peeta. Ele ainda tem – mesmo que não muito constante – os flashbacks. Seria perigoso ter uma criança por perto dele quando ele está perdido nas memórias falsas.

Apoio os braços na grande mesa e deito a cabeça. Choro por ser fraca demais para conseguir realizar o sonho de Peeta. Ser esta mulher cheia de medos e ressentimentos que deveriam ter ficado no passado. Mas que ao invés disto, trouxe comigo até hoje. Choro por não ser tudo que Peeta precisa para viver.

– Katniss? – ouço a voz de Peeta perto de mim. Levanto o rosto e vejo um par de olhos azuis me olhando de forma preocupada. Ele está agachado ao meu lado, passando a mão pelas minhas costas – O que houve?

Vê-lo a minha frente e lembrar da quantidade de vezes que Peeta me pediu um filho, me faz chorar mais. Eu pulo em seu colo, abraçando ele.

– Desculpa. – murmuro – Desculpa. Desculpa. Desculpa.

– O que foi? Pelo que está se desculpando? – ele pergunta, se sentando no chão e me puxando para cima do seu colo.

– Por não poder... Não conseguir... Fazer isto... Não conseguir... Te dar um filho. – falo em meio aos soluços, com o rosto mergulhado no pescoço dele.

– Não precisa se desculpar por isto. Está tudo bem. – ele me embala em seu colo, tentando me acalmar.

Não, Peeta. Não está tudo bem. Eu queria dar este filho para você, mas não consigo. Enquanto eu não conseguir fazer isto nada vai ficar bem.

– Mas... – eu murmuro, mas o resto da frase nem eu sei qual é.

– Tudo bem, vamos nos levantar. – nos levantamos e ele me conduz até a cozinha – Vamos lavar este rosto. – ele abre a torneira e me dá passagem para lavar meu rosto. Assim que o lavo ele acaricia meus ombros – Está tudo bem.

– Eu não queria privar você do seu sonho. – murmuro de cabeça baixa, um tanto envergonhada.

Ele ergue meu rosto pelo queixo até forçar que eu olhe em seus olhos.

– Eu amo você, Katniss. Você ainda lembra disto? – ele pergunta.

– Lembro. – sussurro sem desviar meus olhos dos seus. – Eu também amo você.

– Então nada mais importa. Se você não puder me dar um filho... Tudo bem. Eu aprendo a conviver com isto. Afinal, já convivo com isto durante quinze anos. Se você continuar aqui, eu vou estar feliz. Porque meu lugar é ao seu lado, entende isto?

– O que você quis dizer com isto?

– Qual parte?

– A parte de se eu não puder te dar um filho.

– Eu não vou mais pedir isto pra você.

– Não?

Sim, eu estava surpresa. Sempre achei que Peeta lutaria por este desejo até o fim da vida. Nunca me passou pela cabeça que um dia ele desistiria de ter um filho. Ver ele ali na minha frente, dizendo em alto e bom som que nunca mais insistiria na história dos filhos foi um choque para mim.

– Não. – ele respondeu baixo.

– Por quê?

– Porque é muito óbvio, Katniss. É muito óbvio que nós nunca teremos este filho. Quer dizer... Puxa vida! Passou quinze anos! Estou tentando convencer você disto durante quinze anos e se não consegui convencer até hoje, então não vou conseguir mais. Eu desisto.

“Eu desisto.” Nunca ouvi Peeta falar esta frase. Eu deveria estar feliz e, de certa forma, aliviada. Então o que pode explicar o fato de eu estar decepcionada? Eu não estou feliz e muito menos aliviada. Estou frustrada e não consigo sequer entender o motivo. Afinal, eu venci a batalha, não é? Nós não vamos ter um filho. Seremos apenas eu e ele. Nada de bebês.

– Você não quer mais ter um filho?

Eu deveria apenas agradecer e deixar o assunto morrer, mas por algum motivo não deixava. Eu estava tentando entender o que estava acontecendo.

– Não seja boba, Katniss. Eu sempre vou querer um filho. Mas não posso e não vou forçar você a fazer nada. Se for pra você me dar um filho sem querer tê-lo, então eu opto por não tê-lo. – eu não sabia mais o que dizer, fiquei olhando para o mar azuis de Peeta com cara de boba – Está tudo bem. – ele sussurrou com um pequeno sorriso nos lábios.

Quantas vezes ele já falou hoje que está tudo bem? Mais do que o normal, com certeza. Porque não está tudo bem. Ao menos não para ele. Ele está triste, decepcionado e frustrado por ter que desistir do maior sonho dele. E a culpa disto é minha. Totalmente e absolutamente minha. Por isso não estou aliviada com a decisão dele. Estou me sentindo culpada.

– Eu fiz você desistir do seu maior sonho. – sussurrei rancorosa.

Ele se aproximou de mim e abraçou minha cintura, apoiando a cabeça em meu ombro.

– Não diga isto. Você é meu maior sonho, um sonho que consegui realizar. Eu sou muito feliz com você, sabia? Muito feliz... – muito feliz, mas não totalmente, pensei comigo – Eu vou fazer o almoço.

Eu o ajudo durante o almoço e deixamos uma conversa qualquer fluir enquanto comemos.

– Delly virá amanhã, não é? – perguntei.

– Sim, amanhã. – responde Peeta.

Delly se casou há alguns anos atrás, no Distrito 13. Ela disse que não queria mais vir morar aqui, um lugar cheio de lembranças. Ela teve um filho, o pequeno Thomas. Ele deve ter uns três anos atualmente. Delly se separou do marido, ela disse que o pegou traindo e ele se mudou para o Distrito 5 com sua amante. Ela vem aqui algumas vezes à visita junto com Thomas.

Thomas é a pequena paixão de Peeta. Não é a toa que é padrinho dele. E não seria exagero dizer que Thomas corresponde a esta paixão. Os dois simplesmente não se desgrudam quando Delly vem nos visitar.

Mas não há pessoa na Terra que conseguiria ignorar ou rejeitar os encantos de Thomas. Não é a toa que Delly se irrita comigo toda vez que falo que aquele pequeno garotinho lhe dará trabalho quando virar um rapaz.

– Ela vai direto para a padaria quando chegar? – pergunto me levantando com meu prato.

– Sim, é mais perto da estação de trem.

– Eu vou para a padaria com você amanhã então.

– Tudo bem.

Peeta se levanta, deixando o prato na pia. Olho para o relógio preso a parede e solto um suspiro.

– Você precisa voltar para a padaria daqui a pouco. – afirmo.

Peeta se vira para o relógio antes de concordar com um aceno de cabeça.

– Não que ir comigo? Você deve ficar entediada aqui em casa.

– Hoje não. Tenho algumas roupas para lavar e estava pensando em dar uma volta na floresta.

– Ok. Eu vou escovar os dentes. – ele avisa já saindo da cozinha.

Me ocupo em lavar a pequena louça e Peeta volta antes que eu consiga terminar. Ele deixa um beijo na minha bochecha.

– Tchau. – digo enquanto ele se afasta.

– Até mais tarde. – é a última coisa que ouço ele falar.

Em pouco tempo termino a louça e decido subir e pegar as roupas para lavar. Não temos uma cesta de roupa suja, então as roupas que consideramos suja estão sempre em algum canto do quarto e do banheiro. Passo por estes cômodos recolhendo as roupas e desço com a pequena pilha até a lavanderia. Verifico todos os bolsos das calças de Peeta, já que ele tem o péssimo hábito de esquecer-se de esvazia-los.

Claro que havia coisas lá dentro. Tirei pedaços de papéis, recibos e moedas dos bolsos dele. Fui jogando tudo no chão ao meu lado. Quando terminei, liguei a máquina, deixando ela fazer o pequeno trabalho. Me abaixei, pegando as moedas e guardando no meu bolso. Peguei os papéis e os desdobrei.

Um era um recibo de encomendas para a padaria. Sacos de farinha, fermento... O recibo era tão grande que eu não entendia como aquela folha conseguiu entrar no bolso da calça de Peeta.

O segundo papel era menor e estava rasgado. Desdobrei vendo que era a lista que eu fiz de algumas coisas que ele buscou no mercado.

O terceiro era uma folha de desenho dobrada várias vezes. Desdobrei achando ser mais um recibo da padaria. Mas não era.

Um desenho. Uma menina. Cabelos escuros e olhos cinzentos. Abri a boca em surpresa ao notar quem era a menina. Não era uma garotinha qualquer. Era nossa filha, que nem existe! Ele foi capaz de imaginá-la em cada detalhe. Em cada mínimo detalhe. Notei os cabelos e olhos iguais aos meus. Um pequeno nariz igual ao do Peeta. Além de um doce sorriso, aqueles o qual só crianças sabem dar.

O desenho só mostrava a menina dos ombros para cima. Mas deu para perceber que ela usava alguma roupa rosa e possuía uma faixa no cabelo, que não permitia que seus cabelos caíssem no rosto.

Um aperto no meu peito foi o que surgiu depois, acompanhado com meus olhos cheios de água. Deixei a máquina sozinha e corri para a cozinha, deixei o desenho encima da mesa e tentei me acalmar com um copo de água.

Ele queria tanto isso que conseguiu visualizá-la. Conseguiu desenhá-la com perfeição. Peguei novamente o desenho com as mãos trêmulas e fiquei por muito tempo admirando o desenho. Fui acordada pelo estalo que a máquina de lavar fez.

Levantei e caminhei de volta para a lavanderia, dobrando a folha e guardando no bolso da calça. Tirei todas as roupas e as levei para a rua, estendendo todas sem prestar atenção em o que estava fazendo.

– Katniss? – ouvi alguém me chamar.

Me virei me deparando com Haymitch caminhando em minha direção.

– Quê? – perguntei.

– Onde você está com a cabeça, garota? A camisa que você está estendendo caiu no chão.

Olhei para o chão me deparando com a camisa amarrotada no chão e logo após para o varal, que possuía os prendedores mas não a roupa. Ajuntei a camisa e estendi ela.

– O que veio fazer aqui? – pergunto, tentando fingir que estava tudo bem.

– Vim atrás de um dos gansos.

Haymitch continuou com seus gansos por todos estes anos. Ele disse ser como uma terapia para ele. Mas ele não tinha um grande talento para cuidar de bichos, então vez ou outra víamos ele correndo atrás de um destes animais.

Ele buscou o ganso dele e foi embora, me dirigindo um olhar inexpressivo. Terminei de estender as roupas e voltei para dentro, sentei no sofá e tirei novamente o desenho do meu bolso.

Voltei a guarda-lo e decidi ir para a floresta, este desenho estava me deixando atordoada, porém não conseguia parar de olhar para ele. Caminhei rapidamente e em pouco tempo adentrei a floresta, caminhei até a campina e sentei no meio dela, olhando para todo o verde ao meu redor. Estiquei as pernas e deitei na grama macia. Mais uma vez olhei para a menina de cabelos escuros da folha e fechei os olhos.

Por um momento consegui vê-la além do desenho feito a lápis. Vi-a na minha frente. Vi ela correndo pela campina com os braços abertos e sentindo o vento no rosto. Vi a garotinha rolando na grama e rindo alto com a brincadeira.

Mas um pensamento invadiu minha mente.

Este não deve ser o único desenho. Ele sonha com isto durante quinze anos e não teria feito apenas um desenho.

Levantei rapidamente e corri para casa, subi ao quarto e dei uma volta completa pensando em onde Peeta teria colocado os outros desenhos.

– O ateliê... – sussurrei para mim mesma.

Voltei ao corredor e abri a porta do ateliê, mas estava trancada. Fiquei um tempo, observando a porta, sem entender. Mas voltei ao quarto e revirei todas as gavetas possíveis. Mas não havia nada.

Onde Peeta esconderia a chave?

Caminhei até o banheiro e procurei pelas prateleiras de lá. Mas nada achei. Acabei chutando a pia de tanta frustração e com este gesto, ouvi algo caindo. Me abaixei e olhei atrás da pia, vendo uma chave prateada no chão. A agarrei imediatamente e corri de volta para a porta do ateliê a abrindo com pressa.

Entrei, mas a principio não vi nenhum quadro de crianças. Apenas quadros que Peeta já havia me mostrado. Mas bastou mover um dos quadros que encarei um par de olhos azuis em uma tela me encarando. O garoto desta pintura, possuía os cabelos loiros que pareciam estar balançando ao vento. Ele estava correndo na campina. Puxei o quadro o olhando com mais atenção, sentindo meu coração se apertar o triplo de antes.

O coloquei no meio do ateliê e procurei por outros. No total, achei quatorze quadros com diferentes crianças, mas todas possuíam características minhas e de Peeta.

Sentei no chão em frente aos quadros e avaliei cada um deles, após isso, peguei o desenho dobrado em meu bolso e coloquei junto deles.

Abracei minhas pernas e apoiei a cabeça nos joelhos.

Há quanto tempo será que ele está fazendo estas pinturas? Uma lágrima escorre do meu rosto até a minha calça.

Sim, eu sou o pior ser humano da face da Terra. Não custa nada eu dar um filho para Peeta. Ele quer tanto isso... Então por que não realizar seu sonho?

– Katniss? – ouço a voz de Peeta – Katniss... Ah, não! Katniss, eu sinto muito! – ele diz pois deve ter notado o que eu encontrei.

Eu me levanto rapidamente e me viro para ele, com nenhuma intenção de esconder as lágrimas.

– Quatorze quadros de crianças... – foi o que consegui dizer a princípio – O que isso significa?

– Que foi um quadro para cada ano. – ele sussurrou.

Um quadro para cada ano. Todos os anos ele desenhou uma criança diferente.

– E o desenho da folha? – perguntei cruzando os braços pois minhas mãos começaram a tremer

– Eu ia fazer uma tela dele enquanto você dormia. Todos eles eu fiz enquanto você dormia. – ele suspira alto e passa a mão pelos cabelos – Me desculpa, Katniss. Não era para você ter visto isto.

– Então você nunca iria me mostrar todos estes quadros?

– Sim... Não!... Eu não sei, eu não faço ideia!

Me abaixei novamente, pegando o desenho da folha e olhando para a menina.

– Eu desisto. – afirmo sem desviar os olhos do desenho.

– O quê? – ele pergunta sem acreditar.

Eu olho para ele e caminho em sua direção, viro a folha para que ele veja o desenho.

– Eu disse que desisto. Se é isto que você quer... – eu falo sacudindo a folha – Então é isto que você vai ter.

Ele me olha confuso, então eu solto a folha deixando cair no chão e me aproximo dele, puxando a bainha da camisa de Peeta para cima.

– Katniss! – ele fala e segura minha mão.

– Está tudo bem. – digo.

Ele tira a minha mão da camisa dele e deixa entre as suas.

– Não! Não está tudo bem. Você não pode fazer isto.

– Mas qual é o problema agora? – pergunto perdendo a paciência. – Você não queria um filho?

– E quero!

– E então?

– Mas você não quer. – ele sussurra baixo sem desviar os olhos do meu. – E se formos ter um bebê, só vamos ter quando você tiver o desejo de tê-lo também.

– Não! Eu já cansei disto, Peeta! Eu cansei de ser egoísta. Eu cansei de ouvir você implorar por isto. Eu cansei das brigas que já tivemos por isto. Já cansei de ser um monstro que impede você de alcançar seu sonho.

– Katniss, você não é um monstro. Como pode dizer isto?

– Porque é verdade!

– Você é a melhor coisa que já me aconteceu. Me escuta: ter um filho, é algo natural para todo mundo. É praticamente uma lei da natureza. A gente nasce, cresce, conhece uma pessoa legal, se casa e forma uma família. E depois morre. Ter um filho não é algo que eu possa querer sozinho, é algo que nós dois precisamos querer.

Peeta se aproxima de mim e me envolve em seus braços.

– Mas eu quero te dar este filho. – sussurro com o rosto mergulhado em seu peito.

– Sim, você quer me dar, mas não, você não o quer.

Mas e se eu nunca quiser, Peeta? Se eu fizesse esta pergunta em voz alta, eu já saberia a resposta antes de ouvir: “Então eu serei feliz apenas sendo você e eu.”

Mas é uma pena que eu saiba que esta resposta não é verdade.

Notas finais
Então, pessoas lindas? O que acharam? Será que a Katniss vai querer ter o filho ao invés de apenar querer dá-lo a Peeta?Espero merecer ao menos um comentário.PS.: Estou publicando Ao Nascer de uma Nova Esperança no Spirit. Mas com o nome de Reaprendendo a Viver. E, além disso, estou postando esta fanfic também no Spirit, então que quiser lá ao invés de aqui é só me pedir o link nos comentários.Para mais histórias minhas: basta entrar no meu perfil. Beijocas da Tia Rafú para vocês!