Capítulo I:

Lady Camille Adderley era Condessa de Wallstrof há quase três décadas, ou seja, desde que se uniu em matrimônio com o agora falecido conde Basil Adderley; no entanto, o que ela mais estava ansiando era que seu filho mais velho arranjasse uma substituta para ela.

Não é que a condessa detestasse seu título, sua posição social e suas funções, mas é que a partida eterna do marido havia roubado muito de seu vigor. Antes de ser Lady Adderley, Camille fora miss Abby, uma jovem demasiado álacre que coloria todos os salões e arrebatava até os mais carrancudos corações. E embora Basil tenha sido o amor de sua vida e a tenha feito feliz e satisfeita, as obrigações sociais, os agitados filhos e a perda do marido transformaram Camille em uma mulher muito diferente daquela moça alegre que fora um dia. Até mesmo os mais próximos e aparentados já não mais a reconheciam por trás do semblante cansado e melancólico que agora predominava por sua formosa face.

O filho mais velho e atual conde, Lorde John Adderley, servia agora de arrimo para a mãe e as três irmãs, Josephine, Mary Anne e Janette. John de fato fazia o possível e o impossível para cuidar delas, das propriedades e do legado do pai, sem falar na ilustre cadeira que o aguardava na Câmara dos Lordes –um dos lugares onde ele mais detestava estar, logo atrás de um salão de baile cheio de donzelas com matronas casamenteiras.

A condessa sabia bem que era dever do filho casar e dar um herdeiro para o título e não iria poupar esforços até vê-lo devidamente amarrado pelo santo laço conjugal. O problema é que John não tinha interesse em possuir uma esposa tão cedo. John via o constante padecer da mãe pela perda do homem amado, ele não queria ter de passar por semelhante sofrimento e por isso havia decidido nunca entregar seu coração a uma mulher.

Muitas temporadas haviam se passado sem que o menor boato de interesse do conde por alguma moça fosse sequer sugerido e, por fim, surgiu um consenso geral de que o Conde de Wallstrof seria um perpétuo solteirão. As matronas já haviam sido levadas a acreditar nisso e já não mais o atormentavam tentando convencê-lo de que suas filhas, primas e sobrinhas eram as moças mais encantadoras da Grã-Bretanha. Nada obstante, Lady Adderley ainda não havia perdido as esperanças de que em breve teria uma nora.

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Maddeline Forest era filha natural de Lorde Eugene Lindsey, o infame Marquês de Souphanton, e de uma pobre costureira que por ele fora enganada. O marquês aparecia em sociedade como um homem honrado e bem-casado, mas na verdade era alguém vil e que somente faltava possuir um harém, pois usava as mulheres como objetos a seu constante dispor.

A mãe de Maddie, Lucile Forest, antes de morrer devido a uma epidemia de tifo, deixou a filha com a tia desta, Olive Bettinham, a qual assumiu a criança como sua e deu-lhe especial afeto. Olive era casada com um baronete e progenitora de Matt e Eveline.

Eveline odiava a prima por achá-la mais bonita que a si própria e tratou de transformar a infância de Maddie em um pequeno inferno. Em contrapartida, Matt adorava a prima e seria capaz de beijar o chão que ela pisava.

Miss Forest, a qual se tornou miss Bettinham, apenas soube que era filha bastarda de um marquês quando debutou e só soube disso porque ouviu atrás da porta uma conversa entre seus tios. Desde aquele dia Maddeline desenvolveu um profundo ódio por Lorde Lindsey e seu maior desejo tornou-se o de fazê-lo se arrepender por ter desdenhado da mãe dela e dela própria. Não importava o que teria de fazer, Maddie faria o que fosse necessário para mostrar para o marquês que ela era muito mais nobre do que quem ostentava tal título.

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Apesar de ser amplamente respeitada nas mais altas rodas, Lady Florence Nottly era suficientemente humilde para acolher em seu magnífico salão pessoas cujas relações sociais eram de natureza mais baixa, contanto que elas sempre contribuíssem para boas conversas.

Em um dos suntuosos bailes de Lady Nottly, a Condessa de Wallstrof obrigou seu filho a participar. Nem é preciso dizer que John passou as primeiras horas do evento em um canto mal iluminado, entediado e contando os minutos para poder ir embora e visitar os amigos em um exclusivo clube para cavalheiros.

Enquanto observava seu relógio de bolso e reclamava de si para si que os ponteiros pareciam não sair do lugar, o conde ouviu um barulho de vidro se estilhaçando vindo do jardim e, vendo que mais ninguém notara o misterioso som, resolveu ir lá fora averiguar.

Nos primeiros momentos, Lorde Adderley não viu nada além de abetos, violetas e bancos debaixo de nodosos carvalhos. Porém, quando estava pensando em voltar para o salão, o rapaz avistou um vaso de vidro quebrado e uma moça tentando ingenuamente reconstruí-lo para dar a parecer que ainda estava inteiro.

Ao ouvir uma risada baixa atrás de si, a jovem senhorita virou-se de pronto e teria fugido como uma lebre assustada se o dono da risada não tivesse dito o seguinte em sua agradável voz de barítono:

-Se eu fosse a senhorita, não partiria da cena do crime sem se certificar de que a testemunha é confiável e fará ouvidos surdos se alguém tentar acusá-la.

-O senhor certamente não dirá nada.

-Como tem tanta certeza de que não direi?

-Porque não pode dizer a verdade quem dela nada sabe.

-E o que é que não sei?

-Por certo não serei eu a tola de contar-lhe. E já é tarde, acredito que é a hora de eu partir. Adieu, senhor. –Disse ela, abanando um lenço de forma trocista.

-A senhorita é uma ladra? Será possível que o mundo chegou ao extremo de uma dama ter de submeter-se a tão indigno trabalho?

-Com que direito o senhor ousa acusar-me desse modo?

-A princípio pensei que fosse apenas uma ingênua moça que havia quebrado um vaso de flores e tentava embalde esconder o dano que causou, mas agora percebo as marcas de que houve algo mais aqui. Veja, senhorita, a janela logo acima de nossas cabeças é a única que está aberta, há também uma escada de jardim que foi deslocada de seu lugar habitual para dar acesso à janela e há marcas de que alguém pode ter se desiquilibrado e caído em cima desse vaso, o qual a senhorita estava tentando fingir que não quebrou. E para acabar com minhas suspeitas, vejo que sua mão está cortada e só pode ter sido pelos pedaços de vidro, visto que as feridas são recentes.

-Bravo! O senhor está pronto para se onerar do cargo de detetive! –Exclamou a moça, esbanjando fel.

-É meu papel de convidado ir avisar os anfitriões de que há uma ladra em sua propriedade e é isso que irei fazer agora mesmo.

-Não! O senhor não pode fazer isso! O senhor não me conhece, não sabe em que circunstâncias está me encontrando e não pode me julgar com tanta antecedência. Não sou nenhuma larápia, sou uma dama.

-Uma dama que invade os aposentos de uma das famílias mais proeminentes de Londres secretamente enquanto ocorre um baile na casa?

-O senhor está fazendo suposições erradas com base em provas reais. Não nego que invadi o quarto de Lady Nottly, entretanto não sou uma ladra. Por mais que os fatos apontem contra mim, juro que não sou essas coisas horríveis que o senhor está pensando de mim. Por favor, não conte a ninguém o que viu! Prometo que não fiz nada de errado, deixe-me ir sem mais acusações.

Fitando aqueles olhos delicados e do mais límpido azul, John não conseguiu resistir e acabou deixando a moça partir. Depois que ela foi embora ele percebeu que talvez tenha sido conivente com um crime, no entanto, ao recordar aquele rosto de traços tão suaves e aliciantes, ele decidiu ignorar a culpa. É verdade que ele nunca fora de colocar a beleza acima do caráter e jamais permitira que um rostinho bonito o fizesse perder a cabeça, mas dessa vez ele percebeu que seria inútil fingir que aquela moça não mexera com o âmago dele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.