Medo de Avião
1 I wanna hold your hand
Notas iniciais
Feliz dia dos namorados
Era início da manhã de domingo do dia 13 de fevereiro, véspera do dia dos namorados e Milo retornava de mais um exaustivo plantão no hospital da cidade aonde morava com Camus.
Já era o terceiro que fazia naquela semana e ele estava simplesmente acabado.
E a expectativa de voltar para casa e encontrar ela vazia não melhorava em nada a disposição dele, pois Camus estava em viagem e deveria chegar somente na terça feira.
Não que isso fosse um problema, nada disso. Ele sabia quando casou com um piloto de avião que aquilo seria rotina. Pouco tempo juntos muito tempo lidando com o afastamento que a profissão de ambos exigia.
E essa rotina nos últimos dois anos havia se tornado especialmente cansativa.
Milo, como médico em um grande hospital de Nova York trabalhava incansavelmente a dois anos devido a pandemia que estava espalhada pelo mundo. Camus, como um dos principais pilotos de uma grande companhia aérea especializada em transportes de cargas igualmente voava de um lado ao outro do mundo carregando medicamentos e suprimentos para aonde fosse necessário levar.
Nova York estava especialmente gelada naquela manhã de fevereiro. Dirigir era um grande problema e, para alguém que estava saindo de um Plantão de 48 horas, era preocupante.
Vendo que o sono estava começando a ganhar a batalha naquele carro, Milo liga o rádio em um volume bem alto e abre os vidros, corajosamente se oferendo para o vento gelado, evitando assim de dormir e acabar saindo da pista e sofrendo um acidente.
Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez a tua mão
Um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim
Que coisa adolescente, James Dean
Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez a tua mão
Não fico mais nervoso, você já não grita
E a aeromoça, sexy, fica mais bonita
Ficou pensando que amanhã era dia dos namorados e ele estaria de folga em casa. De folga e sozinho.
Estava com saudades do marido.
Camus já estava a seis dias fora de casa, viajando para países asiáticos e justamente na terça feira, dia que ele voltaria, Milo entraria em mais um plantão de dois dias. As vezes ele tinha realmente vontade de mandar tudo longe, fazer uma mochila e seguir Camus pelo mundo.
O mais engraçado de tudo isso era que, mesmo sendo casado com um piloto ele tinha um medo mortal de aviões. Mas também foi esse medo que o aproximou daquele que seria o grande amor da sua vida...
...
Milo havia se formado médico pela conceituada Harvard Medical School e estava voltando de um curso que fez em Cuba sobre medicina alternativa. Como tinha um medo irracional daqueles pássaros de ferro, comprou uma passagem na primeira classe e ficou bem perto da porta, assim poderia entrar e sair rapidamente do avião caso precisasse.
Tão absorto em seu medo, foi perceber que havia uma pessoa sentada ao lado dele somente quando o avião já estava na pista, taxiando para a decolagem.
— Está tudo bem? – perguntou a pessoa que estava sendo ao seu lado e tudo que ele conseguiu fazer foi apertar mais os olhos e balançar a cabeça de um lado para o outro em negação.
Camus então prestou um pouco mais de atenção àquela figura peculiar sentada ao lado dele.
Ele era inegavelmente lindo e estava com muito medo de tudo aquilo. Sufocando uma risada Camus tocou o ombro dele e falou baixinho para que somente ele pudesse escutar
— Não quer trocar de lugar? Se você tem medo de avião não é muito bom ficar sentado na janela.
Milo, quando escutou aquela voz rouca perto do seu ouvido abriu imediatamente os olhos e olhou em direção a ele. Todo o medo que ele estava sentindo agora vinha acompanhado de um nervosismo que aquele homem ruivo em uniforme de piloto e com óculos aviadores provocaram nele.
Naquele mesmo instante o avião ganhava velocidade na pista para decolar, e quando Milo sentiu o solavanco em seu estômago, típico de quando a aeronave deixava o solo, ele os fechou novamente e só conseguia murmurar “Senhor todo poderoso me ajude”.
— Se você quiser pode segurar a minha mão – disse Camus que naquele momento se encontrava com dois sentimentos. Dar em cima daquele loiro gostoso sentado ao lado dele, sim porque o jeito que aqueles olhos azuis safira brilharam quando ele o encarou entregou todo o jogo para ele, ou ser solidário e explicar que ele não precisava ter medo, nada iria acontecer.
Engolindo o bolo de nervosismo que subiu a sua garganta com aquela proposta, Milo abriu novamente os olhos para observar seu acompanhante mais atentamente.
Notando que era alvo de uma minuciosa inspeção, Camus ergueu seus óculos, pousando eles no alto da cabeça e estendeu sua mão em cumprimento ao homem que estava sentado do seu lado — Camus, muito prazer.
Milo estava um pouco atordoado com aquela presença e com aquela mão forte apertando a sua. Se ele não estivesse tão nervoso com certeza estaria pensando que o homem (e que homem) sentado ao lado dele estava querendo puxar papo. Mas então algo pareceu se acender em sua cabeça e antes que ele pudesse frear a língua acabou perguntando — Se você é o piloto... Quem está dirigindo essa coisa?
— Eu só estou pegando uma “carona”, mas como não queria acabar em qualquer assento disponível comprei uma passagem. Com certeza foi um dinheiro muito bem gasto senhor?...
— Milo... meu nome é Milo – sim, ele estava dando em cima dele, e estava funcionando.
— Não se preocupe Milo – Camus falou apertando um pouco mais a mão dele – se acontecer alguma coisa, eu te protejo – e dando uma piscadinha Camus soltou a mão dele e voltou a abaixar seus óculos.
...
Dirigindo pelas ruas congeladas de Manhattan em direção ao bairro aonde moravam Milo sorria feliz lembrando daquela que seria a primeira de muitas viagens de avião que ele faria com Camus.
Ao final daquele vôo ele já estava bem mais tranquilo e mesmo que um pouco envergonhado por ter usado a proposta de segurar a mão durante uma turbulência um pouco mais forte quando eles sobrevoavam justamente a área próxima ao Triângulo das Bermudas, ele aceitou o convite de Camus para um café no aeroporto e naquela primeira noite já estavam juntos no apartamento do piloto.
Faziam seis anos.
Dirigindo por mais alguns minutos chegou em frente ao prédio aonde moravam. Estacionou o carro, respirou fundo e se preparou para subir os 11 andares de elevador. Naquele momento o cansaço pesando sobre o seu corpo, que pedia por um banho quente, uma refeição e cama. Não necessariamente nesta mesma ordem.
Quando girou a chave e abriu a porta do apartamento Milo foi surpreendido por um cheiro maravilhoso de café e banho recém tomado.
Seguiu silenciosamente até a cozinha, torcendo para que não fosse a mente cansada dele pregando uma peça de mal gosto, e que quando virasse e entrasse no cômodo encontraria seu Camus lá, em seus pijamas e preparando o café da manhã para eles.
— Oi – disse um Milo maravilhado com a visão estonteante de um Camus somente com uma calça de pijamas na cozinha arrumando a mesa de café.
— Bom jour mon amour – respondeu Camus, ficando parado no mesmo lugar. Não que ele não quisesse se atirar nos braços de Milo, mas ele sabia que se chegasse perto o marido não deixaria, pois ele estava chegando do hospital e não iria agarrar seu francês sem antes se higienizar.
— Eu vou tomar um banho e já volto – Milo falou apressadamente saindo da cozinha e já arrancando as roupas — não saia daí!!
Entrando apressado baixo do chuveiro, animado de tal maneira que até o sono que estava sentindo parecia ter ido embora, Milo tomou um banho rápido e vestiu somente uma calça de pijama, correndo de volta para a cozinha e encontrando Camus esperando por ele para tomar café. Ambos se jogaram nos braços um do outro, em um abraço apertado e cheio de saudade.
— O que você está fazendo aqui? Não ia voltar só na terça?
— A última tripulação que foi enviada para a China acabou ficando presa lá por 12 dias em isolamento. Nós nem saímos da Alemanha. Voltei direto para os Estados Unidos. Cheguei essa madrugada – e olhando naqueles olhos azul safira continuou – eu estava morrendo de saudades, por mim teria ido direto para aquele hospital, mas resolvi te fazer uma surpresa.
— E você conseguiu! Pelos deuses como eu senti a sua falta essa semana! – Milo falou abraçando apertado novamente o homem pelo qual era perdidamente apaixonado.
— Eu também. Vem, vamos tomar café enquanto ele ainda está quente.
...
Algum tempo depois estavam os dois deitados entrelaçados na grande cama de casal, recuperando o fôlego após terem se amado duas vezes já naquela manhã. A grande janela aberta permitia que eles visualizassem a neve que caia naquele instante, batendo suavemente contra a janela de vidro, que estava levemente embaçada devido ao calor do lado e dentro do quarto.
— Eu estava vindo para cá e me lembrando de quando nos conhecemos – falou Milo quebrando o silêncio confortável do quarto.
— Eu nunca tinha visto alguém tão apavorado por estar voando quanto você naquele dia. Foi hilário “quem está dirigindo esse negócio?” – respondeu Camus imitando o tom de pavor dele naquele dia no avião.
— Ha Ha Ha, senhor piloto. Se aproveitando de um pobre rapaz desesperado pra passar cantada.
— Desesperado mas que se agarrou na minha mão na primeira oportunidade que teve. Vai, confessa, ficou caidinho por mim que eu sei.
— Quer saber? Fiquei sim. E sou caidinho até hoje – a resposta veio seguida de um beijo calmo e suave — Que bom que está aqui comigo. Vai ficar por quanto tempo?
— Tenho uma escala de quatro dias na terça.
— E depois férias?
— E depois férias! E nós vamos passar pelo menos uns três dias sem sair desse apartamento e de preferência com o mínimo de roupa possível!
— Seu piloto tarado!
— Sou tarado por você. Eu te amo Milo!
— Eu te amo Camus.
E então se entregaram ao descanso que seus corpos pediam, dormindo abraçados sob as cobertas, matando a saudade que seus corpos e seus corações sentiam quando estavam longe de casa.
Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez a tua mão
Agora ficou fácil, todo mundo compreende
Aquele toque Beatle
“I wanna hold your hand”
Agora ficou fácil, todo mundo compreende
Aquele toque Beatle
“I wanna hold your hand”
Aquele toque Beatle
“I wanna hold your hand”
Yeah, yeah, yeah
Notas finais
Tudo bem por aí?
Essa história deveria ter sido postada na segunda feira, mas a vida de adulta responsável pegou pesado neste mês de fevereiro.
Bom, antes tarde do que mais tarde ainda
Boa semana lindezas e foca no feriado!
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