Medo de Amar
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capítulo 3 – Um deus também pode ter a mágoa da perda.
~*~
Já eram 1h30min da madrugada e eu não conseguia dormir. Eu não havia conseguido tirar aquele idiota da cabeça. Seus olhos intensos, seu estilo aterrorizante, o sorriso que consegue me tirar do sério... Não! Foco. Roxanne, seu foco é odiá-lo. Odiar Phobos. Isso.
Pare de falar sozinha!
Solto um suspiro nervoso. – Por que justo eu?
O vento que invadiu meu quarto, causando-me calafrios, fez-me lembrar da vida real e me tirar de meus típicos devaneios.
Levantei-me da cama e fui até a sacada, começando a fechar a porta de vidro cristalino. Mas um pé com um all star negro impediu-me de completar esse objetivo.
– Merda! – sussurrei já sabendo quem era. Larguei a porta com força e me sentei na cama, com as pernas cruzadas.
– Juro que vim em paz. Fica calma! – disse Phobos em um tom tão calmo que me assustou.
– Estou calma! – falei tentando não falhar a voz.
– Só quero conversar. – argumentou – Pode ser em outro lugar?
– Por quê?
– Não me sinto a vontade aqui. – ele deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos frontais da calça jeans escura e de cabeça baixa, encarando o chão.
Eu estava sem sono. Mas mesmo assim não conseguia compreender porque Phobos estava sendo... Não estava sendo ignorante, como sempre fazia quando me via. Ele parecia um pouco abatido, mas achei que era coisa da minha cabeça e meu sono estava aparecendo aos poucos, causando-me ilusões impossíveis. Não que eu não ache que ele nunca ficaria abatido. Só imaginei que ele nunca estaria abatido na minha frente.
– Tudo bem. – suspirei. – Só irei trocar de roupa.
Ele assentiu com a cabeça e se aproximou da minha poltrona ao lado de uma estante com alguns livros e rabiscos meus de quando criança. Phobos sentou-se na poltrona de couro vermelho, passando o dedo sobre meus livros, de forma curiosa.
Como eu havia tomado banho antes de tentar dormir, achei melhor somente trocar de roupa mesmo.
Alguns minutos depois, voltei do banheiro. Estava vestida com uma calça jeans azul escura, sobretudo bege entreaberto, camiseta branca, cachecol negro, botas acima do calcanhar negras e meu cabelo preso em um rabo de cavalo, deixando minha franja livre. Ela cobria minha testa. A franja.
Phobos sorriu pra mim. – Você está incrível.
– Obrigada?
Ele riu e pegou minha mão, pedindo-me para fechar os olhos. Achei melhor obedecer. E obedeci.
~*~
Depois do deus do medo me “transferir” com ele até uma esquina, caminhávamos pela calçada da rua. E essa rua não era nada agradável de caminhar. Pelo menos, não a esta hora da madrugada.
Pessoas fumando em becos, outras nas pegações em frente á boates, mendigos tentando se aquecer envolta de latas com chamas, latas e bebidas alcoólicas por todos os lados...
– Não é tão ruim assim. – murmurou Phobos caminhando á meu lado.
Acho que a única coisa não ruim aqui era ter Phobos ao meu lado. Ele poderia me proteger, afinal ele era um deus. Muito sedutor a luz fraca dos postes, para ser realista...
Okay. Acho que o cheiro de drogas me afetou. É isso mesmo.
– Oh não. Claro que não. – respondi-lhe com ironia, tentando esquecer o fato de que estava pensando nele segundos atrás.
Ele ignorou minha última ironia e foi em direção a uma boate – a mais calma dali, sinceramente -, e chamou-me; como eu não queria ficar ao redor daquelas pessoas bêbadas, drogadas ou com caras de psicopatas, minha melhor – e única! – opção foi segui-lo contra minha minúscula vontade.
~*~
Depois de acharmos uma mesa vazia – o que não foi difícil -, Phobos pediu ao garçom uma cerveja sem álcool. Eu pedi apenas um refrigerante de qualquer sabor mesmo.
– Por que me chamou aqui? – perguntei tentando chegar ao ponto principal de vez.
– Sabe...
Um trovão anunciando um começo de chuva ecoou. Ele olhava para a rua vazia, fria e sombria que havia do outro lado da longa janela que tinha ao lado de nossa mesa. Seus olhos já estavam vagos como se lembrassem de algo que não deviam.
– Você me acha ignorante, safado e assustador. – começou sem tirar os olhos da janela – Pensando que eu nunca me apaixonei ou alguém por mim. Mas eu já tive uma paixão, e correspondida. Faz tempo. Muito tempo. Aqui era um restaurante antigo na época.
Ele sorriu. Não consegui descobrir se era apenas um sorriso, ou um sorriso feliz ou um sorriso triste.
– O que houve? – perguntei – Ela morreu de velhice?
Cruzei os braços sob a mesa e apoiei minha cabeça sobre eles, encarando o rosto de Phobos. Ele olhou pra mim. Um brilho tristonho acompanhava seu olhar compreensivo sobre mim. Mas logo depois, ele voltou a olhar para a janela. Havia começado a chover, para deixar tudo maaais dramático do que já estava!
– Quem dera. Seria menos dolorido...
Ele suspirou.
– Não precisa me contar.
– Eu e Emma estávamos caminhando por aqui, tínhamos acabado de tomar um café nesse lugar. Acredita que ela se parecia com você? – sorriu ele – A diferença era que ela era mortal. Os cabelos dela eram negros, assim como quando você fica perto de mim, tipo agora.
Eu dei um sorriso amarelo. Ele continuava a falar:
– Os olhos dela não tinham uma cor fixa, como os seus. Ela tinha a cor castanha, azul e verde nos olhos.
– Phobos...
– Tudo bem. – garantiu o deus – E então... Era inicio do por do sol. Ela disse que iria ao banheiro e voltou para o café. Eu a esperei por meia hora... E quando eu olhei para dentro, vi que tinham policiais lá.
– Céus! – coloquei a mão sob a boca.
– Isso não foi o pior. Eu vi o cachecol que ela usava, parecido com o seu, que era branco... Vermelho. Era o sangue da Emma. Horas depois... Procurando por ela... Eu fui descansar um pouco. Uma semana depois, a policia me avisou que haviam encontrado-a. Morta. Estuprada. Violentada.
Meu estomago se revirou. O ruim de mim, é que qualquer coisa eu fico enjoada. Qualquer coisa.
– A idade... Dela? – perguntei hesitantemente.
– 21 anos. – ele olhava sério pra mim.
– Vou vomitar. – murmurei com a mão na boca.
– Fica calma! – Phobos pegou em minhas mãos, pedindo para que eu respirasse fundo algumas vezes. – Está melhor?
Fiz que sim com a cabeça. Ele balançou a cabeça e voltou a olhar para a janela, sem soltar uma de minhas mãos. A chuva tinha ficado mais grossa.
– Eu encontrei o cara. Que fez aquilo com ela. – disse ele com rancor na voz.
– Você o matou?
O deus riu fraco. – Ele cometeu suicídio. Eu fiz o medo dele se realizar e no outro segundo ele não aguentava mais a tortura.
Revirei os olhos. – Você o matou do mesmo jeito, Phobos!
– Tanto faz. – ele deu de ombros.
– Mas por que está contando isso pra mim?
Ele me encarou. Por segundos curtos, mas pra mim, parecera uma eternidade. Senti-o se aproximar de mim, lentamente. Seu hálito fresco penetrando minhas narinas. Minha franja voava com sua respiração próxima de meu rosto. Meu coração disparou.
– Aqui está. – disse o garçom colando dois copos entre nós dois.
– Obrigada. – respondi, corada por completo.
Agarrei o copo sem beber o líquido, encarando a janela, a chuva. Levei a bebida aos lábios. Quando estava acabando de beber o líquido, vi no fim do copo, um pó que não deveria estar ali. Droga? Calmante? Açúcar? O que? Eu não sabia!
No mesmo instante, senti meus olhos pesarem. Meu estomago revirar dentro de mim. De repente, eu não sentia mais os membros do corpo. O copo caiu da minha mão, na minha vista, em câmera lenta. Fui perdendo o raciocínio da mente rapidamente e quando me dei conta já havia apagado com um baque surdo de cara na mesa.
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