Meant to be.

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Boa leitura!

(POV MARK)

Morrer é fácil. Viver é que é difícil.

Sentado no consultório do meu terapeuta, hoje em particular, eu não me sentia muito confortável. Aquela sessão não estava sendo muito benéfica, ao menos era o que eu pensava. As paredes daquela sala pareciam mais próximas do que o normal, o ambiente parecia mais fechado. Eu me sentia claustrofóbico.

O Dr. Figgins chamou minha atenção com um estalar de dedos.

Fechei meus olhos.

Relaxei os ombros.

Estralei o pescoço.

Respirei fundo.

Inspirei.

“New York.” – foi a primeira coisa que ele falou.

“Addison e Derek.”

“Alguma razão em especial?”

“Nós morávamos lá. Antes de... bem... Derek pegar eu e Addison transando. Foi quando ele se mudou para Seattle... Addison se mudou para cá e eu vim atrás.”

“Você consegue se lembrar de tudo isso com clareza, Mark?”

Eu assenti.

Eu tinha certeza de que o quadro com o cavalo galopando na fazenda estava mais perto de mim do que no dia anterior. Era incontestável que aquela sala estava menor e tal fato estava me deixando aborrecido.

Sorrateiramente, o Dr. Figgins parou de falar e ficou me encarando curioso. Ao notar seu olhar, eu lhe expliquei a situação, enquanto ele anotava alguma coisa em sua prancheta mantendo um olhar sereno; as rugas em sua testa pareciam mais profundas do que nas semanas anteriores, era possível ele ter envelhecido tanto assim em um só dia? Ou será que era eu que estava ficando louco?

“Mark, eu vou te mostrar a foto de uma pessoa em especial e quero que me diga se a conhece, tudo bem?”

Eu concordei e tomei a imagem em minhas mãos. Passei a fitá-la; na foto, encontrava-se um homem velho de cabelos grisalhos e olhos azuis. A foto estava cortada, havia um braço feminino agarrado em seu pescoço. Os dois estavam em um bar, provavelmente comemorando algo. Comecei a focar nos olhos daquele homem... olhos azuis... eu já havia visto esse homem. Teria sido algum paciente?

“O nome dele é Thatcher. Isso te lembra algo?”

Eu mordi os lábios. Aquele rosto, aqueles traços, aquele bar... sim... eu o conhecia. Eu já o tinha visto. Mas, como? De onde eu o conhecia? Quem era ele?

“Thatcher Grey.” – ele tornou a repetir.

Grey... aquele sobrenome era tão familiar. Uma luz começou a iluminar-se no fim do túnel, mas tão instantânea quanto veio, tão imediatamente se foi.

“É o pai de Lexie Grey?” – arrisquei e vi um sorriso surgir no rosto do Dr. Figgins.

Depois da consulta com o Dr. Figgins, fui à procura de Callie. Aquela euforia preenchia tudo ao meu redor e eu precisava compartilhá-la com alguém que pudesse fazer com que eu me sentisse melhor. Avistei-a no fim de um corredor, ela estava com Sofia. Ao me ver, Sofia largou sua mão e veio correndo ao meu encontro. Callie veio logo atrás. Apesar de tentar parecer contida, ela tinha uma expressão deslumbrada. Seus olhos reluziam de uma maneira exuberante.

“Você não parece muito bem.” – ela beijou meus cabelos enquanto posicionava Sofia confortavelmente em meu colo – “assim está bom?” – falou referindo-se à cadeira de rodas. Eu assenti.

“Callie, você não faz ideia...” – eu suspirei.

“Eu não faço mesmo.” – ela arregalou os olhos.

Sorri fraco para ela.

“Vamos, agora que começou, termine!” – ela riu.

“O Dr. Figgins me mostrou uma foto. Um homem. E eu o olhei e o reconheci... Tatcher Grey” – eu parei.

“Mas...?” – ela tentava descobrir aonde eu queria chegar.

Permaneci quieto.

“Escute, Mark...” – ela ajoelhou-se em minha frente – “tudo isso é um processo muito longo, não tem como recuperar tudo o que perdeu de uma hora para outra, é como voltar a ser um bebê: tem que dar passinhos pequenos para no final estar dando passos maiores que suas próprias pernas!” – ela parou para analisar sua metáfora – “mas você vai conseguir. Eu sei que vai.”

Ela me lançou uma piscadela e tascou um beijo em minha bochecha. Após, ergueu-se e pôs-se atrás de minha cadeira, em segundos, começou a me empurrar pelos corredores do hospital enquanto eu conversava incessantemente com Sofia. Minha filha havia deixado de ser apenas um borrão do meu passado; eu começava a enxerga-la com maior clareza do que nunca. As memórias em relação à ela começaram a parecer tão óbvias que eu sentia que era inaceitável sequer ter esquecido algo assim.

“Eu estou grávida, Mark.” – Callie simplesmente cuspiu as palavras sobre mim.

Eu freei a cadeira e olhei-a. Ela apresentava um olhar culpado.

“Depois do acidente, Arizona perdeu a perna e nós duas achamos que tínhamos perdido você... nós precisávamos de algo para nos apegar novamente. Nós precisávamos de algo que nos ajudasse a voltar a ser... nós.” – ela suspirou – “e então fomos à um banco de esperma... eu sei que talvez tenha sido uma decisão equivocada e que devíamos ter pensado mais à respeito. Por favor, não fique ressentido.”

Callie esperava pela minha aprovação? Ela queria que eu dissesse que estava tudo bem... e eu? Eu só queria digerir tudo aquilo. Callie estava grávida? Eu tinha certeza de que Arizona era uma boa pessoa; as vagas lembranças que esporadicamente me vinham dela eram boas... mas aquilo? Eu não me sentia preparado para dar a minha aprovação para elas terem um filho. Aquele não era o meu dever.

Olhei seu olhar ansioso e apreensivo; senti meu coração pesar.

“Se você e Arizona tem certeza de que é isso que vocês querem para a vida de vocês, eu estou aqui para apoiá-las.”

Callie nem esperou eu terminar a frase para pular em cima de mim em um abraço descomunal cheio de beijos. Sofia juntou-se a ela mesmo sem entender o significado daquilo.

Enquanto minha melhor amiga e minha filha me agarravam em meio ao hospital, no final do corredor, um semblante conhecido entrou na minha linha de visão. Rapidamente, o olhar de Lexie foi de encontro ao meu. Ela me encarava com apreensão, sem saber se devia seguir em frente, ou se devia caminhar até aonde estávamos; Lexie fez uma careta e respirou fundo, por fim, ela suspirou e começou a deslizar até onde estávamos. Por uma fração de segundos, senti meu coração acelerar.

Quanto mais ela se aproximava, mas eu conseguia distingui-la. Um lenço rosa envolvia sua cabeça e um sorriso afetuoso estampava seu rosto. Seus olhos brilhavam. Lexie podia quase assemelhar-se à um ser divino. Ela exalava pureza até em seu estágio mais frágil.

No momento em que Sofia colocou os olhos nela, seu entusiasmo foi de uma magnitude que eu jamais vira. Num segundo, ela levantou-se do meu colo e pulou na direção de Lexie que rapidamente se esticou para impedir que minha filha caísse no chão.

“Lessie!” – ela abraçou-a fechando os olhos.

“Sofia...” – Lexie retribuiu o abraço com ternura.

Callie e eu observávamos a cena calados e maravilhados. No momento em que se soltaram, Sofia aconchegou-se nos braços de Lexie e começou a morder seus próprios dedos; nós três a observamos.

“Vocês dois parecem felizes.” – ela sorriu cortando o silêncio entre nós.

“E estamos...” – foi Callie quem respondeu por nós dois, expressando um sorriso alegre.

Lexie nos olhou curiosa.

“Callie está grávida.” – eu falei quebrando o silêncio enquanto sentia um olhar ferino de Callie vindo em minha direção.

“Mark!” – ela me cutucou.

Lexie ficou boquiaberta arregalando os olhos.

“Isso é... isso é... maravilhoso! Antes de tudo acontecer, você e Arizona comentaram a possibilidade...” – em tentativas frustradas ela procurava palavras – “Callie... eu... eu estou muito feliz por vocês.”

Callie mordeu os lábios sorrindo perturbada.

“Mark lembrou do seu pai. Na consulta. Com o terapeuta.”

Dessa vez fui eu quem lançou um olhar perplexo em sua direção. Senti meu coração acelerar drasticamente e comecei a suar frio; meu estômago começou a revirar. Lexie me olhava aguardando uma resposta; esperando que eu confirmasse que tudo isso era verdade; esperando que eu dissesse a ela que eu havia lembrado de algo relacionado nela. Vi uma centelha de esperança brilhar em seu olhar.

“Mark? Isso é... isso é verdade?” – ela sequer piscava. Seu olhar começou a me deixar angustiado. Callie olhou para nós e rapidamente pegou Sofia do colo de Lexie sumindo com ela pelo corredor.

“Mark?” – ela tornou a repetir, aproximando-se de mim.

Eu assenti.

“Teoricamente” – engoli em seco – “não foi uma coisa totalmente clara, Lexie. Eu me lembrei de partes destroçadas da história, mas lembrei.”

Ela sorriu.

“Isso já é um começo, não é?”

Eu sorri de volta.

Depois de alguns minutos, Callie inventou uma desculpa esfarrapada a fim de deixar Lexie e eu a sós. Em seguida, demos meia volta e seguimos em direção ao quarto de Lexie, ela sentia-se extremamente cansada. Durante nosso percurso, tivemos tempo para conversar, em especial, sobre o câncer de Lexie. Segundo ela, o tumor estava praticamente controlado e agora, sua quimioterapia era feita apenas através de uma quantidade exorbitante de comprimidos que a deixavam “imensuravelmente sonolenta”, foram essas as palavras que ela usara. Ela também sentia muita saudade de seu trabalho e de seus pacientes, mas aparentemente, Meredith havia impedido que ela retornasse ao trabalho pelo menos pelo próximo mês. Vez e outra eu via um sorriso formar-se no canto de sua boca enquanto ela falava e a pegava olhando disfarçadamente para mim com o rabo de olho.

Durante o tempo que parávamos seja para conversar com algum conhecido ou apenas para admirar o dia através das janelas do hospital, ela discretamente apertava seus próprios dedos, como se fosse um vício antigo; algo para esconder o nervosismo e a ansiedade. Eu tentava absorver cada pequeno detalhe dela, cada uma de suas manias, a fim de usar posteriormente nas sessões que eu teria com o Dr. Figgins. Quem sabe de que maneira aquilo poderia me ajudar?

Quando finalmente chegamos na porta de seu quarto, Lexie estava exausta. Sua respiração estava arfante. Num momento de idiotice, tentei me exibir para ela pensando que conseguiria sair de minha cadeira ajudando-a a chegar até sua cama, no entanto, minhas pernas começaram a oscilar e eu conseguia ouvir claramente a voz de Callie em minha cabeça soltando um irônico “eu te avisei”; sim, ela havia me avisado que eu devia ter seguido com a fisioterapia para ter forças nas pernas depois de tanto tempo deitado, mas eu estava tão acomodado e acostumado com minha cadeira de rodas que mal lhe dei ouvidos. Em minha cabeça, eu conseguiria andar no momento em que eu quisesse. Eu quase podia ouvir sua gargalhada em minha cabeça.

Respirei.

Agarrei o metal da cama e vi Lexie se aproximar rapidamente de aonde eu estava segurando meu braço. Ficamos há poucos centímetros um do outro. Eu conseguia sentir sua respiração colidir contra a minha pele quente.

Lentamente, virei minha cabeça em sua direção e encontrei os seus olhos me encarando prontamente. Sem querer, me peguei olhando no fundo seus olhos.

Olhos negros como o céu numa noite sem estrelas.

Aqueles olhos que eu já vira incontáveis vezes, aqueles olhos que me perseguiram em tantos sonhos, aqueles olhos que eu secretamente desejei durante anos.

Deitado na minha desconfortável cama do hospital, eu me sentia atordoado. O silêncio dos corredores fazia com que eu me sentisse sozinho e a solidão me dava tempo de sobra para pensar. Pensar em tudo. Pensar em nada. E, em especial, pensar nela.

Lexie Grey.

A mulher dona dos olhos negros como o céu numa noite sem estrelas. A mulher dona daquele olhar que eu tinha tanta certeza de que já me encarara tantas vezes antes quanto a certeza de que o sol era amarelo.

Lexie Grey.

Era possível amá-la sem ao menos conhece-la? Meu coração batia mais forte perto dela e isso era incontestável. Minhas lembranças à respeito dela eram vagas, praticamente inexistentes e mesmo assim, eu tinha certeza de que o sentimento estava ali. Eu sabia que o sentimento sempre estivera ali.

Eu não sei como, simplesmente sabia.

Minha cabeça começou a doer. Forcei os olhos tentando pensar em algo que me fizesse lembrar; qualquer lembrança seria satisfatória e, no entanto, tudo que me vinha à mente era Lexie Grey... seu sorriso, sua risada, o contorno ao redor de sua boca...

Cada feição no rosto daquela mulher.

Cada detalhe nela me encantava.

Era possível amá-la sem ao menos conhece-la? Era.

A dor de cabeça começou a intensificar e comecei a me sentir frustrado. Essa coisa de amnésia e de não lembrar absolutamente nada era uma grande merda. A única conclusão que eu conseguia tirar disso tudo é que eu devia ser uma bosta de ser humano para que Deus quisesse me castigar desse jeito.

Senti a ponta dos dedos do pé latejarem e pensei em bipar Derek ou Callie. Seria aquilo um sintoma? Olhei o relógio. Era tarde e eu sabia que ambos não estavam de plantão hoje. Respirei fundo e tentei relaxar, em vão.

A claustrofobia que havia sentido mais cedo naquele dia na sala do Dr. Figgins estava me sufocando novamente.

Senti um formigamento nos dedos da mão. Aquela sensação era péssima.

Eu precisava de ar.

Precisava sair daquele quarto apertado.

Precisava caminhar ao ar livre.

Fraco e grogue, levantei da cama e coloquei as pantufas que estavam no chão. Cambaleei até a porta do quarto e notei que o andar estava completamente vazio.

Respirei fundo e calculei mentalmente o caminho que teria que fazer para chegar até o estacionamento. A dor de cabeça interrompeu a minha linha de pensamento e eu simplesmente comecei a andar tropeçando pelos corredores feito um alucinado, esbarrando em macas, aparelhos de raio-x e batentes de portas. Minha respiração fatigada estava bloqueando a parte do meu cérebro que me lembrava como respirar, enquanto flashes que eu não conseguia distinguir cegavam parcialmente minha visão. Eu sentia minhas costelas doerem. Tudo parecia pequeno demais ao meu redor. Tudo parecia diferente do que eu me lembrava. Tudo girava.

Eu senti que precisava... eu precisava de ajuda.

Foi quando esbarrei em uma massa loira. Aquela era Meredith?

“Mark?” – sua voz parecia distante.

Definitivamente não era Meredith Grey. Poderia ser Izzie? Não... Izzie era aquela que morreu, certo? Ou fugiu? Tanto faz.

“Mark, o que diabos está acontecendo?” – ela apoiou-me sobre seus ombros levando-me até uma maca próxima.

Claro! Aquela era Arizona.

“Robbins... Robbins...” – finalmente fui capaz de falar.

“Sim, sou eu. Arizona” – ela falou enquanto auscultava os meus batimentos cardíacos com seu estetoscópio. Eu havia esquecido como se respirava e tê-la ali pressionando meu peito não ajudava de jeito algum.

“Alguém traga a Cristina aqui agora!” – a voz de Arizona irrompeu pelos corredores.

Gritos.

Pânico.

Destruição.

Os flashes traziam à tona lembranças que haviam sido esquecidas. Disparavam como raios em uma noite de tempestade.

“Mark. Olhe para mim.” – ela tentava chamar minha atenção – “Mark, fique comigo.”

Arizona estava ali comigo, mas tudo o que eu conseguia visualizar era o seu semblante desesperador na noite em que achávamos que íamos morrer.

“Arizona. A perna... uma fratura exposta muito grave, Robbins. Você precisa tratar.”

Ela piscou incrédula e então pareceu entender o que estava acontecendo e pude jurar por uma fração de segundo que um sorriso se formou no canto de seus lábios.

“O que mais, Mark? O que mais há de errado?” – ela assumiu um tom encorajador enquanto colocava uma máscara de oxigênio em minha cara.

Eu tentava respirar e ficar calmo, mas não conseguia. O suor frio e pesado escorria pela minha testa e minhas pernas. Alguma coisa pressionava contra meu peito. Eu estava ficando sem ar. Eu estava sufocando.

“Tamponamento.” – eu sufocava no ar em que eu não conseguia respirar.

“O que foi, Mark?” – ela fez uma pausa – “O que aconteceu?”

“Arizona.” – fiz uma pausa – “eu lembrei.”

“Do que você lembrou, Mark?” – seu olhar sério estava fixo em mim.

Engoli em seco. Havia um nó se formando em minha garganta.

“De tudo.”

Notas finais
E aí gente? Valeu a pena esperar tanto tempo pelo capítulo? Espero que sim... Se gostaram ou, se não gostaram, deixem seus comentários positivos, suas críticas construtivas ou ideias para melhorar a fanfic. A opinião de vocês conta muito! Em breve posto mais. ♥