O sol estava particularmente quente naquele dia. Havia três meses que o calor não era tão intenso, e os habitantes agradeciam a Deus por tal pausa. Naquele dia, porém, tudo voltou ao normal, o sol escaldante banhando cada grão de areia da região, e cegando aqueles que atreviam a olhar para sua majestosa luz.

Aparentemente, era um dia como outro no Egito. Temperatura alta, dunas até onde a vista se estendia, e o cheiro de história pura pairava no ar. Nada incomum.

“Tragam água!”

Um grupo de estudiosos acampava no Vale dos Reis, em Luxor, antiga Tebas. Divididos em grupos menores para escavar partes distintas da região, havia cerca de quinze profissionais presentes, dentre os quais arqueólogos, historiadores e um escritor, para registrar cada acontecimento da empreitada.

Um homem corria em direção a uma das escavações, a poucos metros da cabana onde descansava. Segurava nas mãos um cantil de água.

“Graças a Deus você está aqui, Kane.” – o outro homem disse. Este sozinho no grande buraco, escavado milimetricamente, estendia um dos braços para receber a garrafa com água, que ansiava a várias horas.

“Vamos, John, saia já daí!” – disse Julius agachando-se, ficando mais alto que o amigo. – “Você sabe que não vai encontrar nada neste pedaço de terra. Mohammad falou que pode haver mais artefatos por ali – apontou para o leste, onde outro grupo escavava, coletando objetos encontrados na areia – e, sinceramente, acredito que ele tem razão.”

“Acredito nele também. Mas acho que cavamos muito raso. Amanhã chegará mais ajuda, Julius, e estou com fé que vamos fazer história bem aqui.” – John sorriu e bateu na parede de pedra que se erguia acima dele.

Os dois homens ainda conversavam eufóricos, planejando seus discursos em museus e revistas especializadas na história do Egito. Julius era egiptólogo e, nas horas vagas, professor de história em uma escola na Califórnia. Fora convidado para esta escavação pelo amigo John Young, também egiptólogo, que era seu colega desde a adolescência. Ambos partilhavam mais do que a admiração pela civilização egípcia. De tez escura, vestimentas de linho e cabelos curtos, poderiam ser tidos como parentes, até irmãos.

Depois de alguns minutos, Julius levantou-se e ficou virado de costas para John, que retornara ao trabalho de cavar e limpar alguns vestígios de história naquele pedaço de chão. O vento tocava seu rosto e, embora o sol estivesse escaldante, ele se sentia refrescado. “Por Rá, aqui está muito quente.” – pensou fechando os olhos, sentindo os raios solares penetrarem sua pele. Embora houvesse poucos meses desde que completara trinta anos, e Julius ainda se sentisse na flor da idade, vigoroso e forte como um jovem de vinte, ele sentia que passara a vida toda esperando por algo. Havia algum tempo que uma ansiedade se apossara de sua pessoa. Julius convivia com uma eterna “espera”. Espera por algo que ele não fazia ideia do que era.

Uma rajada de vento passou atrás dele e o fez sentir um leve calafrio. Virou-se rapidamente. O acampamento inteiro estava em silêncio. As marretas pararam de bater nas pedras, os passos pararam e todas as cabeças visíveis estavam viradas para o leste. Até John parou de trabalhar e ousou um pulo para fora do buraco onde estava.

“O que aconteceu?” – perguntou Julius, confuso.

“Não está ouvindo?” – disse John, com a voz baixa.

Julius procurou algum som desconhecido. De fato, pareciam batidas que viam da direção para onde todos olhavam. Batidas cada vez mais próximas. Aos poucos, o som pareceu mais familiar. Cavalos, pensou.

De repente, descendo a colina de pedra que escondia o acampamento, apareceu uma mulher, montada em um cavalo, a toda velocidade. O animal parecia estar fora de controle. Finalmente, ela gritou pedindo ajuda. Julius foi correndo até sua direção e, quando estava bem próximo dela, gritou algo e puxo as rédeas que ela segurava. O animal parou repentinamente e bufou.

“Oh, muito obrigado! Muito, muito, muito obrigado!” — a moça agradeceu eufórica, descendo do cavalo. “Achei que não ia parar nunca mais.” – exclamou sorrindo. – “A propósito, aqui é o acampamento de escavação... Kane-Young?”

Julius não soube responder. Estava extasiado com a visão á sua frente. Os olhos azuis da mulher o encaravam procurando resposta para a sua pergunta. Ele estava encantado com a beleza dela, e um sentimento estranho ponderou-se sobre ele. Algo que mais tarde identificou como satisfação. “Encontrei.” – pensou, sorrindo.

“Julius?” – ouviu a voz da mulher novamente.

“Sim. Aqui é o acampamento que procura.” – Julius respondeu finalmente. Percebeu então. – "Espere, como sabe meu nome?" — perguntou, desconfiado.

"Sei lá" — ela respondeu, piscando zombeteira — "adivinhei."

“Ruby Faust! – John gritou do outro lado, interrompendo-o – Chegou mais cedo do que eu esperava! Como vai querida?” – o amigo abraçou Ruby e a segurou pelos ombros.

“Ah, ótima. Achei que nunca os encontraria, já estava ficando nervosa.” – Ruby disse sorrindo, tentando não olhar para frente.

“O que foi aquilo?” – John apontou para o cavalo, que ofegava mascando algum capim no chão.

“Oh, nada. Eu não encontrei quem pudesse me ajudar a vir pra cá e pensei ‘por que não?’” – seu olhar encontrou com o de Julius e ela protegeu os olhos do sol. – “Minha nossa, está quente aqui! Como aguentam?”

“Tenho água.” – Julius estendeu sua garrafa. Pela primeira vez as mãos dos dois se tocaram.

“Bem... Obrigada, Julius.” – Ruby aceitou e bebeu um longo gole, saciando sua sede.

John a apresentou o alojamento e as funções de cada pessoa. Falou sobre a importância da escavação e a apresentou oficialmente a Julius, seu amigo de longa data e, assim como eles dois, era egiptólogo.

Ruby retirou-se, dizendo ir a uma das cabanas para guardar seus pertences e alimentar o cavalo. John e Julius ficaram sozinhos.

“Acho que vão se dar muito bem.” – John quebrou o silêncio.

“É... Também acho.” – Julius respondeu, com o sorriso no canto da boca.

“Sabe... Ruby cisma que tem poderes sobrenaturais. Parece com você!” – Julius gelou ao ouvir aquilo, vendo o amigo gargalhar e ir para longe dele.

“Sério?” – falou arqueando as sobrancelhas, irônico. “Faust, de onde já ouvi esse nome...” – pensou antes de continuar a conversar com John.

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