Me ensina a sonhar de novo.

1 Me ensine a sonhar de novo.


Notas iniciais
Oi, gente, mais uma história! É como se fosse uma continuação de Cold... melosa e doce do mesmo jeito. Hehehe! Boa leitura! ✨

A noite chegava devagar, arrastando suas sombras pelo quarto.

E com ela, aquele arrepio fino correndo pela nuca. O calafrio que surgia antes mesmo do frio real. O peso no peito, o medo antigo e pontual, fiel como um relógio cruel que nunca esquecia de marcar a hora da angústia.

As cicatrizes da pele já haviam fechado há muito tempo. Marcas claras, linhas quietas, memórias gravadas onde antes existira dor. Mas o abismo no centro de tudo... aquele espaço invisível deixado pelas guerras, pela culpa e pelo eco das noites em que ele não foi dono de si... esse ainda estava sendo reconstruído. ​Tijolinho por tijolinho — e o pedreiro, era nada mais nada mais que o cavaleiro de cisne.

Antes que a lua tomasse seu lugar no céu, Shun ouviu a porta se abrir.

Ele ergueu o rosto, despertando de seus próprios pensamentos. Hyoga entrou no quarto sem canecas fumegantes ou bandejas de chá. O que trazia consigo era um sorriso largo e uma manta jogada displicentemente sobre os ombros.

Shun estava encolhido na cama, quase desaparecendo em baixo das camadas de cobertas. O casulo de tecidos escondia quase tudo, deixando à vista apenas os pés descalços e a ponta do nariz, tingida de rosa pelo frio.

​Hyoga parou diante da cama e cruzou os braços, observando a cena com uma sobrancelha erguida.

​— Impressionante — comentou, com um tom de documentarista. — Um espécime de casulo raro em seu habitat natural...

— Vá embora — resmungou Shun, tentando esconder o sorriso atrás do cobertor.

​— Negativo. Como seu guardião oficial, preciso alertá-lo de um perigo iminente.

Shun piscou os olhos, curioso:

— Qual perigo?

Hyoga apontou, com um ato performático teatral, para os pés expostos do amigo.

​— Você não tem medo do bicho-papão puxar seus pés para fora da cama? Eles estão completamente desprotegidos. Uma falha estratégica terrível para um Cavaleiro de Atena.

Shun encarou o teto por um segundo antes de responder baixinho:

— O bicho-papão não mora debaixo da minha cama, Hyoga. Nem dentro do armário.

​Hyoga percebeu a mudança súbita na frequência da conversa. O brilho divertido em seus olhos suavizou-se, tornando-se algo mais profundo e atento.

​— Não? — perguntou ele, a voz baixando para encontrar a de Shun.

Shun apertou o cobertor entre os dedos, querendo se esconder de novo em baixo das camadas de tecido.

​— Ele mora dentro da minha mente.

Hyoga não respondeu com o olhar de piedade que Shun tanto temia, nem com frases vazias de autoajuda. Ele apenas se aproximou e sentou-se na beirada da cama; o colchão cedeu com seu peso, criando um centro de gravidade que puxava Shun de volta para o agora.

​— Entendi — disse Hyoga, cruzando os braços. — Uma situação tática muito mais complexa.

​Shun lançou-lhe um olhar lateral, por cima da borda do cobertor.

​— Extremamente complexa.

Hyoga assentiu, mantendo uma seriedade absoluta por dois segundos antes de declarar.

​— É uma pena. Se ele morasse debaixo da cama, eu já o teria escorraçado na base da paulada.

​Shun arregalou os olhos, o susto cortando a melancolia.

​— Hyoga!

​— É sério. Com uma vassoura, um chinelo ou uma espada, o que estivesse à mão. Eu sou um guerreiro versátil. — Hyoga continuou, percebendo os ombros do amigo tremendo conforme ele ditava suas técnicas de defesas.

​— Você é ridículo — Shun murmurou, mas já havia um misto de diversão em sua voz.

​— E se ele morasse no armário... — Hyoga levantou-se e caminhou até o móvel e bateu duas vezes na porta de madeira, como um oficial fazendo uma inspeção rigorosa. — ...eu já o teria trancado lá dentro com passagem só de ida para Nárnia. Sem passagem de volta.

​Desta vez, Shun não conseguiu segurar. O riso brotou pequeno, para logo em seguida tornar-se claro e cristalino, preenchendo o quarto.

​Hyoga voltou para a cama com uma expressão de satisfação triunfante.

​— Pronto. Já estamos vencendo por um a zero.

​— Vencendo o quê? — Shun perguntou, tentando recuperar o fôlego.

​— O monstro. Ele odeia quando você sorri. O barulho da sua risada é como veneno para o bicho-papão da mente.

Shun abaixou os olhos, o sorriso ainda estampado em seus lábios, aquecendo seu rosto.

​Hyoga, então, retirou a manta que trazia sobre os próprios ombros e a abriu com um movimento amplo, cobrindo os dois como se erguesse um teto improvisado, um santuário particular de lã e calor.

​— Hoje eu vim devidamente armado. — ele ajeitou-se ao lado de Shun.

​— Com uma manta? — Shun arqueou uma sobrancelha.

​— Com uma barreira térmica de alta tecnologia e presença estratégica. Vou ficar aqui até o seu bicho-papão redigir uma carta de demissão e ir embora.

​Shun mordeu o lábio inferior, lutando contra o impulso de sorrir ainda mais.

​— Isso pode demorar muito, Hyoga.

​Hyoga endireitou-se mais ao lado dele, os ombros se tocando de forma firme e calorosa.

​— Não tem problema — respondeu ele, a voz tornando-se suave e carinhosa. — Eu tenho a noite toda. E a próxima também.

Shun riu, o som leve escapando entre os cobertores e a manta. Depois se virou de costas, procurando instintivamente o calor atrás de si.

Hyoga compreendeu o convite sem que fosse preciso um único som. Aproximou-se até que não houvesse mais espaço entre eles, envolvendo Shun em um abraço protetor. Um braço deslizou pela cintura do menor, enquanto a outra mão repousou sobre o peito dele, sentindo o ritmo ainda inquieto do seu coração.

Os dois ficaram encaixados com perfeição tranquila, trocando calor em silêncio. Pareciam dois seres enroscados em sua própria geometria secreta, ignorando o mundo lá fora. Por alguns minutos, o único som no quarto era o dueto de suas respirações e o lamento suave do vento contra o vidro da janela.

​— Hyoga... — a voz de Shun surgiu pequena, abafada contra o travesseiro. — Posso te pedir um favor?

Hyoga o apertou de leve contra o peito, a resposta veio rápida;

​— Você pode me pedir qualquer coisa, Shun. O que estiver ao meu alcance... e o que eu tiver que inventar um jeito de alcançar também.

​Shun sorriu no escuro, sentindo o conforto daquelas palavras.

​— Tudo isso?

​— Absolutamente tudo. Quer a lua? Eu posso laçá-la do céu agora mesmo. E, ao contrário do Gru, eu garanto que não vou deixá-la encolher.

​Shun soltou uma gargalhada tão alta, que vibrou contra o braço de Hyoga.

​— Silêncio! — sibilou Hyoga brincando em uma dramatização teatral e surreal. — Ficou maluco? O bicho-papão é altamente sensível a gargalhadas a noite. Você vai atrair o monstro.

​Shun continuou rindo, o corpo tremendo nos braços dele enquanto tentava se controlar.

​— Desculpa... eu esqueci as regras.

​— Não aceito desculpas — Hyoga retrucou, mantendo a encenação. — Apenas discrição absoluta.

​Ele apoiou o queixo no ombro de Shun, mudando para um tom conspiratório e baixo:

​— Mas, se a lua não for do seu agrado, talvez você prefira o sol.

​— O sol? — Shun repetiu, curioso.

​— Posso dar um jeito nele também. Talvez uma surra educativa para ele aprender a não abandonar o céu. Se ele apanhar um pouquinho, garanto que fica lá para sempre. Sem noite. Sem sombras. Sem nenhum susto para você.

​— Você daria uma surra no sol, Hyoga? — Shun ergueu as sobrancelhas risonho.

​— Com toda a elegância que o meu treinamento na Sibéria permite.

​— Isso é completamente ridículo — Shun disse, embora estivesse se sentindo mais leve do que em meses.

​— Ridículo é você subestimar minha capacidade diplomática com astros de quinta grandeza — Hyoga rebateu, sentindo como cada risada de Shun parecia desatar um nó invisível na garganta do amigo. — Posso conseguir estrelas extras também, se quiser. Uma constelação personalizada. Um inverno mais curto. Um verão que não te deixe irritado. Posso até fazer o Seiya falar baixo por duas horas inteiras, embora isso exija o uso de magia negra proibida.

​— Fazer o Seiya calar a boca? — Shun riu outra vez, mais solto. — Isso sim seria um milagre impossível.

​— Nada é impossível quando é você quem pede.

​A frase começou como uma brincadeira, mas pousou entre os dois com uma sinceridade súbita e desarmante. O riso de Shun dissipou-se, dando lugar a um silêncio reflexivo.

​Hyoga também calou-se. O abraço tornou-se mais firme, mais presente, como se ele estivesse ancorando Shun para que os pesadelos não tivessem força suficiente para carregá-lo.

​Depois de alguns segundos, Shun respirou fundo, o peito subindo e descendo com esforço sob o braço de Hyoga.

​— Hyoga...

​— Hum? — murmurou ele, a voz retumbando suavemente contra as costas de Shun.

​— Eu só queria...

​A voz falhou, tornando-se um rastro de som quase nulo. Hyoga não interrompeu, não apressou; ele apenas esperou, sendo o alicerce que permitia a Shun encontrar as palavras no escuro.

​— ... que você me ensinasse a sonhar de novo.

O pedido boiou entre eles, carregado de toda a vulnerabilidade de quem esqueceu como é olhar para o amanhã sem sentir pavor.

Hyoga fechou os olhos, sentindo o peso e a delicadeza daquele pedido. Então encostou os lábios nos cabelos de Shun, num beijo breve e afetuoso.

​— Isso... — começou Hyoga, cheio de ternura. — Isso eu consigo fazer

Sua mão subiu devagar, os dedos perdendo-se nos fios verdes com uma ternura enorme.

​— Primeiro, a gente aprende os sonhos pequenos, Shun. Aqueles que cabem na palma da mão.

​— Como? — Shun perguntou, a esperança começando a descongelar em sua garganta.

​— Amanhã, eu te ensino o sonho de acordar e sentir o sol no rosto sem medo. Depois, o de rir de uma bobagem do Seiya sem sentir culpa por estar feliz. E, então, o sonho de fechar os olhos e simplesmente dormir a noite inteira, sabendo que eu estou aqui.

​Shun escutava cada palavra como quem recebe cobertores novos em pleno inverno; cada frase de Hyoga era uma camada de proteção contra o frio que o habitava.

​— E os sonhos grandes? — sussurrou Shun, permitindo-se olhar um pouco mais longe.

​Hyoga sorriu contra a nuca dele, um gesto invisível, mas sentido em cada músculo.

​— Esses... — ele o apertou um pouco mais firme, selando a promessa. — Esses a gente aprende a construir juntos.

​Shun soltou um suspiro longo e exausto, como quem finalmente solta um fardo antigo sem sequer perceber.

Hyoga passou a mão por seus cabelos, numa carícia lenta. Os dedos deslizaram entre os fios esverdeados, separando mechas com cuidado, massageando o couro cabeludo em movimentos pequenos e tranquilos.

Ele não fingia entender cada labirinto da mente de Shun — talvez ninguém pudesse, nem o próprio Shun as vezes. Mas Hyoga tinha certeza ; se o destino permitisse, ele trocaria de lugar com o amigo sem hesitar. Absorveria cada pesadelo, cada estilhaço de memória e cada sombra, apenas para devolver a paz ao seu doce Andrômeda.

​Porque Shun era seu. Não por posse ou direito, mas por esse pertencimento raro que nasce quando duas pessoas se tornam o único abrigo possível uma da outra.

​Ele beijou o topo da cabeça de Shun, aspirando o perfume familiar de shampoo e o cheiro reconfortante de óleo de coco.

​— Você lembra de quando a gente era criança? — Hyoga perguntou, a voz já ficando sonolenta.

​Shun soltou um riso sonolento, a tensão deixando seus ombros.

​— Lembro. A gente era especialista em aprontar.

​Hyoga riu junto, a memória trazendo um brilho quente aos seus olhos azuis.

​— Naquela época você já tinha um medo terrível do escuro. Vivia tentando não dormir sozinho lá no orfanato.

​Shun abriu um olho, fingindo uma ofensa que não sentia.

​— Os motivos eram outros, tá? O Tatsumi me traumatizou. Ele dizia que quem não dormisse cedo seria levado pelo Homem do Saco ou transformado em sabão pelo Bicho-Papão.

​Hyoga soltou uma gargalhada abafada contra a nuca do amigo.

​— Que método pedagógico impecável. Bem a cara dele.

​— Funcionava! — Shun retrucou, sorrindo. — Eu dormia em pânico, mas dormia.

​— E você lembra do que a gente fazia quando o medo ficava grande demais?

​Shun ficou quieto por um momento, mergulhando no passado. O sorriso que surgiu em seus lábios foi nostálgico e doce.

​— Fazíamos aquela cabana com todos os cobertores que encontrávamos. Ficávamos lá dentro conversando, inventando o que seríamos quando crescêssemos... até o sono vencer.

​Hyoga assentiu, apertando o abraço.

​— Exatamente. E lembra daquela vez em que o Tatsumi entrou no quarto e a gente teve que fingir que estava em sono profundo?

​Shun gargalhou de verdade dessa vez, o som percorrendo o peito de Hyoga.

​— Eu lembro! Você quase ficou azul tentando prender a respiração.

​— Eu estava entregue ao papel. Atuação de método.

— Atuando como uma tora de pau. Ninguém dorme daquele jeito.

— Ingratidão. Minha performance foi avançada para a época.

O riso deles preencheu o quarto, dissipando as sombras por alguns segundos preciosos. Mas, conforme o eco da risada morria, o olhar de Shun voltou a escurecer.

​— Sinto falta daquela época — confessou ele, a voz baixando.

​Hyoga afastou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dele.

​— Por quê? Ainda podemos fazer cabanas de cobertores agora. E o Tatsumi continua assustador, talvez até pior com a idade.

​Shun tentou sustentar o sorriso, mas ele se desfez em uma melancolia mansa.

​— Sinto falta de dormir sem lutar contra o sono. Naquele tempo... eu não queria acordar porque os sonhos eram o meu refúgio. Eu podia voar, correr, rir... tudo era possível. Agora? — Ele fechou os olhos com força. — Agora eu fico acordado tentando sabotar o cansaço. Tentando não sonhar. Porque eu tenho medo de não conseguir voltar.

​A confissão pairou no ar como neve suspensa, fria e densa. Hyoga não respondeu com palavras de imediato; ele apenas apertou-lhe em seus braços, ancorando Shun ao mundo real com o peso do próprio corpo.

​Então, encostou os lábios na têmpora dele e murmurou:

​— Então dorme com a certeza de que sou eu quem vai te acordar amanhã.

​Shun permaneceu imóvel, ouvindo o som do coração de Hyoga.

​— Se você se perder no escuro, eu acendo a luz — continuou Hyoga, a voz serena e absoluta. — Se o sonho ficar ruim, eu fico ao seu lado até ele se dissipar. E se você tiver medo de não acordar... eu prometo te chamar de volta quantas vezes for preciso. Nem que eu tenha que ir buscar você onde quer que sua mente te leve.

​Os dedos dele voltaram a se perder nos fios verdes de Shun.

​— Você não vai atravessar a noite sozinho nunca mais, Shun. Eu sou o seu vigia.

Embalado por aquelas palavras doces, Shun moveu-se devagar dentro do abraço. Ele girou o corpo com cuidado, centímetro por centímetro, até ficar de frente para Hyoga.

​Os olhos verdes, ainda úmidos, encontraram os azuis de Hyoga.

Ficaram ali por um instante longo, quietos, próximo, ao ponto de suas respirações se misturarem, e seus narizes quase se roçarem dividindo o mesmo ar, o mesmo batimento, a mesma promessa de segurança.

​Shun falou primeiro, a voz tão baixa que era quase um sopro contra os lábios de Hyoga:

​— Sabe... desde que me tornei adulto, eu parei de procurar refúgio no sono. Os sonhos mais bonitos que já tive... foram todos acordado.

​— Acordado, Shun? — repetiu ele.

​Shun assentiu levemente, sem desviar o olhar, deixando que Hyoga visse toda a verdade que ele carregava no peito.

​— Porque os sonhos mais bonitos... são os momentos que eu passo com você.

Por um raro momento, o Cavaleiro de Cisne ficou sem palavras. O rubor subiu por seu rosto como se o verão tivesse sido acendido sob sua pele, derretendo qualquer resquício de frieza. Ele ergueu a mão e deslizou o polegar pela bochecha de Shun.

​— Você luta sujo, Andrômeda — murmurou Hyoga, com um meio sorriso.

​— Estou apenas aprendendo com o melhor — Shun retrucou, o brilho nos olhos verdes indicando que a sombra havia recuado.

​Hyoga riu baixinho, um som carregado de alívio. Ele inclinou-se devagar e os dois trocaram um selinho breve, macio e transbordante de cuidado e de amor. Foi um beijo pequeno em extensão, mas imenso em significado; uma promessa selada em silêncio

Quando se afastaram, Shun acomodou-se sobre o peito dele, encaixando a cabeça exatamente sobre o coração de Hyoga. Ali, ele escutou as batidas firmes sob a pele.

Tum. Tum. Tum.

O coração de Hyoga agia como um ímã secreto, ancorando a alma de Shun toda vez que seus pensamentos ameaçavam escorregar para o fundo dos abismos antigos.

​Naquela noite, Shun dormiu.

​Dormiu de verdade, sem sentinelas mentais ou sabotagens. O corpo relaxou, a respiração tornou-se profunda e suave. Os dedos, antes tensos, soltaram-se no tecido da roupa de Hyoga, entregando-se ao descanso.

​E ele sonhou.

Enquanto isso, Hyoga vigiou seu sono. Seus dedos percorriam os fios verdes em carícias lentas, atento a qualquer tremor, a qualquer suspiro inquieto ou sombra que ousasse rondar aquele refúgio. Só muito depois, quando teve a certeza de que Shun navegava por águas tranquilas, permitiu-se fechar os próprios olhos e adormecer, ainda o mantendo seguro em seus braços.

​Quando o amanhecer enfim chegou, a luz entrou tímida pelas frestas da janela, pintando o quarto de dourado..

​Hyoga despertou sentindo um peso suave e reconfortante sobre si. Shun estava deitado em seu peito, os braços dobrados e o queixo descansando bem no centro de seu tórax. Os cabelos esverdeados, espalhados sobre o cobertor, brilhavam sob a luz matinal.

​Hyoga sorriu antes mesmo de abrir os lábios.

— Bom dia — sussurrou, a voz ainda rouca de sono. — Dormiu bem?

​Shun abriu os olhos devagar, as íris verdes encontrando o azul sereno de Hyoga. Ele sorriu daquele jeito manso que parecia nascer exclusivamente para aquele momento.

​— Maravilhosamente bem.

​— Posso saber o motivo?

​Shun ergueu um pouco o rosto, diminuindo a distância entre eles.

​— Porque eu sonhei com você.

​Hyoga arqueou uma sobrancelha, o brilho divertido retornando ao seu olhar.

​— Só isso?

​Shun aproximou-se mais um centímetro, o hálito quente tocando o rosto do outro.

​— E porque, pela primeira vez em muito tempo... eu não tive pressa nenhuma de acordar.

​O sorriso de Hyoga tornou-se luminoso. Ele segurou o rosto de Shun entre as mãos, os polegares acariciando suas têmporas.

​— Então vamos transformar o seu sonho em realidade — prometeu Hyoga.

​Ele o beijou novamente, um toque mais profundo e confiante, enquanto a manhã nascia inteira ao redor dos dois, iluminando cada canto daquele quarto que, agora, já não guardava mais monstros.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!