Me desfaço e me refaço
1 Capítulo único

A exaustão é visível em meu exterior. Os meus olhos estão cansados,
e eu me sinto exatamente assim por dentro.
Estou em meros pedaços que tentam se juntar para formar
alguma coisa que já teve mais brio.
Eu já joguei tantas pedras no lago para ver se
elas ao menos não afundavam tão rapidamente,
que agora não há mais nenhuma para fazer a última tentativa.
Já apostei tantas fichas na roleta, e apenas adquiri uma
dívida maior porque a sorte não jogou no meu time novamente.
Há momentos na vida que se insiste tanto e não consegue o que quer,
que se cansa de tentar porque não há mais motivação,
e muito menos mais um pingo de força para isso.
É a mesma sensação de não conseguir vencer a deficiência.
Eu sou tão inconstante quanto o tempo em São Paulo.
Ao longo do dia meu nível de humor vai caindo.
Até não restar mais do que a maldita melancolia.
Eu preciso de uma dose de amor nos romances.
E alguns copos de poesia de Carlos Drummond.
Eu vou me embebedar de Machado de Assis.
Até cair no chão com a Clarice Linspector.
Os meus sorrisos são meros disfarces para a dor.
Ela está aqui bem escondida e você não vai ver.
Eu sei disfarçar muito bem.
Não é de hoje que eu uso máscaras.
Represento no palco uma vida perfeita.
Mas atrás das cortinas é revelada a verdade.
Eu estou esgotada e parece que o arco Iris não aparece mais.
Nem o pôr do sol pode me alegrar.
Nem o chocolate faz efeito como antes.
Droga nenhuma me tira desse buraco negro.
Estou presa e de mãos atadas, sequer consigo lutar.
Fui muito ferida no campo de batalha, e abandonada lá.
Só consigo mergulhar na escuridão.
A luz está sempre muito distante agora.
Mas eu sigo assim a vida, me desfaço e me refaço.
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