Me Rendo a Coroa
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Odiaria ficar mais um dia em Scárvia, que droga. Mas era para minha própria segurança. Depois daquele ataque dos rebeldes sulistas no aeroporto eu achei que iria morrer. Achei.
Logo que me perdi do Rupert e da Rachel, pensei que eles estariam mortos.
Enganei-me. Ainda nos braços do Príncipe Ethan, avistei uma multidão ao longe. Como alguns guardas nos cercavam tive que me esticar para olhar por cima do ombro de um deles. Varias pessoas... Iam e vinham... Crianças abraçando seus pais, pais desesperados procurando seus filhos. Provavelmente a família do homem morto chorava ao lado do corpo...
Detive-me a ir lá.
Até que tive um sinal do Rupert. Suas roupas estavam rasgadas e ele segurava a Rachel no braço. Ele estava chorando eu acho, soltei-me do Ethan e passei pelos guardas. Empurrei algumas pessoas pra poder chegar até eles.
Rupert caiu de joelhos, ainda com a Rachel nos braços. Eu não queria acreditar que era o que eu estava pensando.
– Ru-Rupert... O-o que? – gaguejei ao olhar o braço dela. Havia sangue, muito sangue. E também em sua testa.
Rupert a pôs deitada e eu olhei para a perna dele, que também estava machucada, mas não tanto como o braço da Rachel.
– Rupert, o que aconteceu com vocês? – passei a mão nos cabelos negros de Rachel que pareciam perder o brilho.
– Senhorita... – ele engolia o choro – Enquanto nós... Enquanto nós corríamos... Demos de cara com um rebelde, ele matou uma mulher que corria a nossa frente... A bala... Atravessou e bateu na Rachel...
– Calma Rupert, calma... Continue.
– E daí... Ela gritou de dor... E caiu. Bateu a testa no chão e desmaiou. E... A minha perna... Foi... Eu cai em cima da mulher morta e bati meu joelho, nada demais.
O Ethan veio até nós com uma cara de preocupado.
– O que houve? – ele perguntou se abaixando.
– Eu te explico depois, temos que levá-la a algum hospital. Por favor, Ethan, eu amo muito a Rachel... Não quero que ela...
Quando cai por mim estava chorando. De preocupação. Ele me abraçou.
– Calma, há uma ambulância ali na frente. Vou mandar levá-la ao melhor hospital de Scárvia.
O Ethan correu até os guardas e em fração de segundos alguns paramédicos chegaram com uma maca, puseram-na em cima.
– Rupert, você também tem que ir. Sua perna... – apontei pra ela.
– A senhorita não deve se preocupar... Não é nada demais.
– Senhor, siga os conselhos da princesa. Vá. – Ethan falou.
Ele se curvou com dificuldade e foi levada por um dos paramédicos. Me virei para o príncipe.
– Ethan... Eu tenho que ir... Com eles...
– San, não vá. Não é seguro. Vamos ao palácio e lá você descansa. Assim que estiver recuperada vamos visitá-los.
– Não, eu não quero descansar. Não quando a minha amiga pode morrer.
– Sanye...
Ele me segurou nos braços.
– Não Ethan, não. Eu preciso ir... Me deixa ir... – eu gritei depois me afundei em lágrimas nos braços dele.
– Diz que ela vai ficar bem...
– Ela vai ficar bem, e ficará melhor sabendo que a senhorita descansou... E que vai visitá-la em breve.
Um guarda apareceu ao nosso lado.
– Princesa, este é o guarda Scott, ele vai levá-la ao palácio. Enquanto isso eu irei ficar por aqui pra tentar entender o por que disto tudo. Fique bem.
Ele beijou minha testa e saiu. Segurei nos braços do guarda Scott. Ainda assustada.
– Algum guarda se feriu? – perguntei olhando pra ele, não o via bem. O chapéu escurecia seus olhos.
– Graças a Deus não princesa.
– Hum. – fiquei pensativa – Você sabe o porquê desse ataque?
– Talvez, senhorita, sua presença aqui. Seu reino não é bem-vindo no nosso país.
– Mas... Por quê? Ninguém nunca me disse nada...
– Desculpe-me, mas acho que não sou a pessoa certa para lhe contar.
– Tudo bem...
Ele me guiou para dentro do carro, sempre, escuro por sinal. Eu fiquei no banco de trás, mas ainda conseguia ver o rosto do guarda pelo visor do carro. Ele tinha tirado o chapéu, tinha os olhos castanhos... Simples... E o cabelo era loiro escuro, o cabelo parecia ser longo, mas talvez ela tenha cortado antes de se alistar, era arrepiado. Tinha a pele meio clara, mas também escura.
Ele percebeu que eu o olhava e virou mais o visor. Talvez estivesse envergonhado.
A rua estava movimentada, mas ele parecia conhecer um atalho ali. Chegamos rápido ao palácio. Ele pôs de novo o chapéu. E saiu do carro para abrir a porta pra mim, mas eu já havia aberto e já estava fora.
– Por favor... – ele abriu o portão e deixou o carro com outro guarda.
Encontramos a Rainha Anabela e ela me abraçou e fez com a mão para que o guarda Scott fosse embora. Com uma reverência ele saiu.
– Ah, Princesa Sanye... Eu soube do ataque... Como está? – ela estava preocupada comigo.
– Fiquei bem rainh... Anabela. – sorri lembrando que ela havia me dito para chamá-la pelo nome – Só preciso descansar...
– Posso acompanhá-la até o quarto?
– Seria uma honra.
Subimos as escadas, ela estava com o braço em meu ombro, senti-me como uma filha que nunca teve uma mãe, e ela surgiu para mim sem mais nem menos.
E isso me fez pensar se haviam avisado a minha mãe sobre o ataque, e ao meu pai. Eu precisava muito falar com ele, mas já com a rainha Ellen... Eu tinha muitas dúvidas.
Entramos no quarto e nos sentamos em cima da cama.
– Sua mãe foi avisada logo após que eu soube do ataque, fiz questão de dizê-la. E seu pai também sabe, ele está voltando de viajem para lhe ver.
Um sorriso se abriu no meu rosto quando ela disse: “ele está voltando de viajem para lhe ver.” Tudo o que eu mais queria.
– Oh, que maravilha! Eu tenho muito que lhe agradecer.
– Não precisa falar nada... Bem princesa, creio que ira ficar mais um dia aqui não é? – ela sorriu.
– Ah sim, mas por tais motivos... Não que eu não gostei daqui, amei esse lugar, mas sinto falta da minha casa e do meu pai.
– Sanye, eu espero não estar invadindo muito sua privacidade, mas e sua mãe? Não sente falta dela?
Essa pergunta me deixou sem jeito, não sabia se devia responder, mas algo naqueles olhos verdes da rainha me fizeram acreditar que ela seria o meu segundo diário.
– Majestade, a questão não seria eu não gostar dela. Ela que parece não gostar muito de mim, eu nunca soube o que fiz pra ela sempre agir de um jeito diferente comigo. Na frente dos convidados eu a chamo de mãe, mamãe... Mas, sempre sou advertida a chamá-la de Rainha, e mãe apenas quando estou a sós. E ela não gosta muito.
Anabela estava pensativa, porém ainda me ouvindo.
– Isso me faz pensar que eu não tenho algum significado pra ela, então... Não acho que deva me preocupar muito.
– Já pensou em outras possibilidades além de “ela não gosta de mim sem motivo”?
Dessa vez eu que parei pra observar.
– Senhorita Sanye, a senhorita é amada, é querida, é a vida, do rei. Talvez a única coisa que sua mãe queira é a atenção dele.
– Mas se ele casou com ela, foi porque ele a ama.
– Ou porque foi obrigado.
Ambas ficamos em silêncio, não sabíamos mais o que falar.
– Ninguém nunca me contou nada sobre isso... – falei baixo.
– Creio que você quer descansar – nos levantamos – Até o jantar.
Me curvei.
– Até.
Ela me deixou sozinha. E pensativa. De repente vários porquês apareceram em minha mente. Por que nunca me contam nada? Por que a rainha me odeia? Por que sou obrigada a me casar com o príncipe? Por que os rebeldes odeiam meu reino? Por que...
[...]
Acordei e duas moças estavam sentadas ao meu lado. Tive um susto quando uma que parecia a mais velha, estava de coque e um vestido nos joelhos. Ele era branco e azul-marinho. Tinha uma tiara na cabeça branca. A outra estava do mesmo jeito, porém era mais nova.
Me sentei na cama.
– Ah... Quem são vocês?
Ficaram em silêncio. E as duas se levantaram e abriram meu guarda-roupa.
– São amigas da Mary por acaso?
Levantei-me e fui até elas, pus a mão na cintura.
– Anda, falem alguma coisa.
– Senhorita. – elas se curvaram – Somos suas empregadas.
– Ah, por isso não falam nada.
A mais nova tirou um vestido bege e pôs em cima da cama, ele era lindo. E simples. Tinha as bordas em renda e de alças, ele provavelmente batia no meu joelho.
– Algum evento?
– Não senhora, o príncipe vai levá-la para ver a senhora Rachel no hospital.
Eu já havia esquecido, suspirei.
– Quais seus nomes?
A mais velha disse:
– Sou a Elizabeth, a minha colega é a Tânia.
Entortei a cabeça.
– Vocês falam mais que a Mary.
Dei de ombros e elas sorriram baixo. Me deixaram no quarto e eu fui me despir pro banho.
[...]
Depois de pronta fiz uma trança no cabelo simples, e pus minha tiara. O que eu odiava. Corri para o espelho e vi que estava chorando, lembrei-me do homem morto, do Rupert machucado e da Rachel inconsciente.
Toc Toc.
Ouvi batidas na porta.
– Entre.
Ethan apareceu com um semblante sério, mas abriu um sorriso ao me ver.
– Por favor, alteza. – ele se curvou e pediu que eu saísse.
– Estava chorando?
– Estava. – disse.
– Calma, ela está bem. Não precisará se preocupar.
Estávamos atravessando o jardim quando finalmente eu sorri.
– Se ela não estiver, quem vai ficar mal é você por ter me enganado.
– Mais uma vez, fique calma.
Entramos no carro e nenhum de nós iria dirigir, mais uma vez vi o guarda Scott.
Eu estava de mãos dadas com o príncipe, sorri para o guarda, mas ele não tinha expressão nenhuma.
Já no hospital algumas pessoas vieram a nós querendo falar sobre o ataque, outras queriam apenas dizer um oi, e outras queriam simplesmente nos tocar. O que era estranho.
– Sala 256. – disse a enfermeira que passou por nós numa reverência. Apertei mais a mão do Ethan e ele me olhou como sempre pedindo calma.
O corredor era claro, as janelas estavam abertas, deveria ser umas quatro da tarde. Sala 256, olhei assim que virei a esquerda. A enfermeira que estava conosco abriu a porta, o que eu vi foi o Rupert ao lado da Rachel.
Corri até eles e abracei o Rupert, forte até demais.
– Senhorita... Os modos... – ele tentou me afastar e eu fiz isso depois sorri.
– Ah Rupert, quanta saudade. Como está a Rachel?
Andei até ela e segurei em sua mão, ela abriu os olhos e sorriu pra mim, o que me deixou realmente muito aliviada e quis poder voar em cima dela. Senti uma mão no meu ombro e quase esqueci que o Ethan estava ali.
– Ela está bem! – meu sorriso estava de orelha a orelha então abracei o Ethan e voltei a Rachel.
– Você pode falar?
– Com dificuldade... Posso sim. – ela sorriu, ouvir a voz dela me deixou esvaziada de problemas.
– Oh Rachel, nunca mais me dê um susto desses entendeu?
– Ah senhorita não deveria se preocupar comigo, afinal voltarei hoje para casa.
– Jordine?
Ela balançou a cabeça como um sim.
– Ah, eu achei que voltaríamos amanhã.
– Eu irei com ela princesa. – Rupert falou.
– Mas... – suspirei – Hoje mesmo?
Ambos assentiram. Olhei pro Ethan e ele parecia também não saber de nada. Ficamos uns trinta minutos conversando, rindo. Até a hora de ir embora.
– Sentirei saudades. – falei.
– Mas será apenas um dia. – Rachel disse.
– Um dia é muito pra mim.
Rimos e nos despedimos, só um dia.
– Eu disse, ela está bem.
Ethan riu balançando meu braço.
– Disse, porque eu pedi.
– Você não pediu nada.
– Ah, ta. Assuma Ethan, você faria tudo que eu mandasse. – o empurrei com o ombro.
– Nunca.
– Sempre.
– Agora sei por que te mandaram pra cá.
O Scott abriu a porta do carro e eu entrei primeiro fazendo a pergunta.
– Por quê?
Ele entrou seguido do Scott no banco do motorista.
– A senhorita é completamente insuportável.
– Mas você me suporta faz dois dias.
– Eu sei.
Olhei para o espelho e vi o rosto do guarda mais uma vez, ele estava sorrindo. O caminho foi curto e rápido. Chegamos bem na hora do jantar. Scott se curvou e olhou diretamente pra mim, tive a impressão de ficar completamente vermelha, mas ignorei.
Jantar em silêncio, apenas eu, a rainha, o rei e o príncipe.
No meu quarto, uma sensação de felicidade, seguida de uma interrupção.
– Ethan, achei que bateria na porta.
Pus o livro que eu estava lendo no meu lado esquerdo da cama.
– Exatamente, achou.
Ele se sentou no chão olhando pra janela que dava pro jardim.
– Sabe, foram bons esses dias com você aqui.
– Sério? Awn. Achei que era insuportável! – pus a mão no rosto.
– Ainda é. Nunca neguei isso.
Sorri do canto da boca.
– Tenho chances? – ele disse e eu percebi em que ponto ele queria chegar.
– Ainda está longe senhor-futuro-rei. – fui até a porta e pedi pra que ele saísse – Foi um dia longo, quero dormir cedo.
Ele se levantou e passou da porta.
– Tão longe ainda? E você não dorme cedo que eu sei disso. – de repente ele sentiu como se não devesse ter dito aquilo.
– Mas o que... ETHAN.
– O que eu fiz? – ele sorriu.
– VOCÊ. SAI DAQUI AGORA. – eu estava falando e rindo ao mesmo tempo.
Ele se curvou até mim para me beijar e eu virei o rosto, ele apenas beijou minha bochecha.
– Sim, eu te observo. – ele bateu a porta e eu quis correr e bater nele.
Abri a porta e apenas vi a sombra virando o corredor...
Toda minha história apenas começava ali. Numa sombra virando o corredor.
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