Me Rendo a Coroa
7 Capítulo 7
Notas iniciais
– PAPAI!
Eu corri até ele.
Aqueles cabelos grisalhos, a barba rala. Os olhos cansados, mas o mesmo sorriso encantador no rosto. Esse era meu pai. O rei Guillermo. E eu não cansava de dizer meu pai.
Assim que cheguei perto pulei em seus braços.
Senti-me como uma criança de colo perto da mãe, eu chorava loucamente, fazia uma semana que eu não via eu pai não um mês, mas a sensação que ele me dava era de que tudo não bastava de um problema de matemática que eu não sabia resolver.
– Oh Sanye. Filha... San...
Ele também estava chorando.
– Filha, eu tive tanto medo que pudesse perdê-la.
– E eu tive medo de que o senhor não voltasse mais pra casa, papai.
– Eu preciso lhe contar muita coisa.
– Não se preocupe você terá tempo Sanye.
Soltei um suspiro preocupado.
– Com sua licença soldado Scott, pode ir agora. – percebi minutos antes que o Scott estava ali. Com uma reverência ele se foi. – Filha o que você tem?
– Pai... – tentei achar as palavras certas – É que o senhor sempre diz “você terá tempo”. E eu nunca tenho, nem você tem.
– O que quer dizer?
Estávamos andando pelo jardim.
– Pai, eu lhe amo muito. Mas eu nunca tenho tempo. Eu queria tempo pra poder me decidir, e... Por que eu tenho que casar? Por que o senhor nunca cuida dos negócios de Jordine? Por que pai? – eu havia feito muitas perguntas e o rei ficou incomodado.
– Venha cá Sanye, vamos entrar.
Ele segurou em meus braços e me guiou pra dentro. Ah, que saudades do meu palácio. Saudades de Jordine. Saudades das confusões aqui.
E olha que foram só três dias.
Sentamos-nos na sala de estar, ela era grande o bastante para mais de quarenta pessoas – eu achava aquilo desnecessário afinal, só usamos aquele lugar em festas – Um sofá que rodava a sala era azul escuro, uma mesa de vidro baixa com taças e pratos de porcelana, um lustre em cima de nossas cabeças parecia que ia cair a qualquer momento e eu ria daquilo.
– Sabe que em nenhum momento eu tive escolhas, certo? Já lhe contei essa história. – ele começou a falar e me tirou dos pensamentos.
Acenei com a cabeça.
– Pois bem filha, nós nunca iremos ter escolhas, os nossos pais se decidem. Assim como seus avós de decidiram por mim – ele fez uma pausa – Vou lhe contar uma história.
Eu adorava quando meu pai falava sobre antigamente, era tudo tão mais, interessante.
– Eu não era apaixonado por sua mãe.
Eu pulei do sofá.
– O que pai? Não... Entendi...
– Então. Bem antigamente, muito tempo atrás num país chamado Illéa, existia um sistema esquisito, chamado de castas. Que eram oito. Tais uma melhor que a outra, a oito era a pior delas, a mais pobre. E as pessoas da casta Um eram da realeza. Seus tataravós eram da casta Um.
– Pai vai direto ao ponto, por favor.
Ele riu.
– Calma. Além disso existia outra coisa. A Seleção. Querida, os príncipes quando completavam certa idade teriam que se casar com plebéias.
“Elas eram escolhidas de cada casta, mas sempre as que iam para o palácio eram da casta quatro pra cima, até que uma cinco foi escolhida. America Singer. Filha esta rainha revolucionou Illéa. E ainda ganhou o coração do rei Maxon, mas isso faz muito tempo então...”
– Pai, o que era a Seleção, explique mais.
– Assim, trinta e cinco garotas eram escolhidas de cada casta para se casar com o príncipe, e cada vez mais elas iam passando por provas e provas até o dia da escolha.
– Entendo. Mas como o senhor entra nessa história?
– Bem, a rainha America junto com o rei Maxon acabou com o sistema de castas de um jeito impressionante, de um jeito com que todos acabassem se beneficiando. E com isso Illéa se expandiu criando vários reinos, entre eles...
– Jordine.
– Sim, e eu era o próximo herdeiro e não queria realizar seleção nenhuma, porque eu estava apaixonado por uma mulher, e ela não era da realeza.
Eu sorri. – Pai como o senhor fez isso?
– Filha, caia entre nós – ele chegou perto de mim – Eu fugia do palácio umas vezes sabe.
Eu ri alto.
– Então, eu criei um vínculo impressionante com essa mulher. Nós estávamos tão apaixonados que eu ficava perdido nos deveres do reino, não sabia mais o que fazer, até que um dia como outros eu marquei de me encontrar com ela.
“Foi a melhor noite da minha vida, eu agradecia intensamente pelas castas terem sumido, eu não sabia do que seria de mim sem ela. Passamos a noite juntos e eu havia esquecido de me levantar cedo pra que pudéssemos fugir.”
– Pai, uma pergunta... Vocês... Sabe... Fizeram...
Ele sorriu alto o que me fez corar – que pergunta estúpida.
– Sim, mas isso não vem ao caso. Então, fomos descobertos.
Eu desfiz o sorriso ao ver o rosto do meu pai ficando escuro.
– Os guardas nos acharam em uma das passagens secretas daqui...
– PASSAGENS SECRETAS? – eu falei alto demais e ele tampou minha boca.
– Fiquei quieta e me deixe terminar.
“Os guardas nos levaram até o meu pai. E ele não quis dar pena de morte a ela porque eu me impus à frente, disse a ele que eu me mataria em seguida. Então ele a expulsou de Jordine por alguns anos... Nunca mais a vi, nem tive notícias. Daí fui obrigado a me casar com Ellen, ah filha, eu não queria. Fui rebelde por anos, pigarreava mais e mais até que eu a conheci. E me apaixonei. E o fruto desse amor nos deu você. Soube tempos depois que ela havia voltado, mas não fiz questão de procurá-la.”
Ele sorriu e apertou minhas bochechas.
– Que pena pai, então, é por sua culpa que eu não posso fazer minhas escolhas?
Ele me olhou torto.
– É... Bem...
– Ai pai! – bufei – Ah, mais uma pergunta.
– Diga.
– Por que a rainha Ellen me odeia?
Ele se endireitou no sofá e ficou ereto. E incomodado.
– É só amor depois, e proteção demais. Entendeu?
Fiquei duvidosa, mas assenti.
– Que horas são?
Eu ri o olhei o relógio de ouro no pulso dele.
– Exatamente oito e trinta e cinco.
– Oh meu Deus conversamos por todo esse tempo?
– É o que parece papai!
– Ah querida... – ele me abraçou.
– Papai, não sou sua querida.
Ele me olhou. – O que?
– Sou seu amor! – eu ri e me aconcheguei nele – Não quero que vá embora.
– Eu só volto amanhã, e depois de amanhã estarei de volta, em casa. E passarei bastante tempo com você.
– Que ótimo.
– Agora quero que vá para seu quarto, tenho que conversar com a Ellen, aliás... Já fez isso?
Olhei pro lado e disse que não.
– Deveria.
Ele se levantou e subiu as escadas.
– Boa noite papai.
– Boa noite Sanye.
Altas horas da noite e eu estava sem dormir. Havia conversado com uma das empregadas a respeito da Rachel, mas eu só poderia vê-la amanhã. E teria que conversar com minha mãe amanhã.
Resolvi sair pra pensar já que estava sem sono mesmo.
Pus um casaco branco que me cobria até a coxa, e um short solto. Aqui eu me sentia mais normal. Cabelo bagunçado descalça. Essa era eu.
Fechei a porta devagar, nenhum sinal de gente.
Desci as escadas na ponta dos pés sem fazer barulho, qualquer coisa ecoava pelos corredores daquele lugar. Já estava alcançando o portão quando uma voz rouca disse:
– Para onde pensa que vai alteza?
Congelei e me virei devagar, soltei um suspiro ao ver que era apenas o Scott.
– Ufa, achei que era meu pai! Boa noite soldado.
– Boa noite senhorita, a senhorita não deveria está acordada e sozinha a essa hora. – ele olhou minha mão no portão – E ainda mais fora do palácio.
– Ah, por favor, Scott. – bati os pés.
Ele hesitou por um momento.
– Não pode a não ser, sem estar escoltada.
Eu sorri aliviada e ele também. Abri o portão e corri para o jardim. Me sentei na grama fria. E vários pensamentos me vieram a mente. Assim como:
O que o Ethan estaria fazendo agora?
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