Eu acordo cedo todos os dias. Tomo um banho quente e me arrumo. Passo a maquiagem que eu sei, para tentar ficar um pouco mais bonita. Pelo menos me sentir assim.

Nem sempre consigo.

Saio de casa rumo ao colégio, onde encontro meus amigos. Pessoas que só de ver ao longe já me fazem sorrir. Pessoas que eu sei que posso contar para qualquer coisa, pedir qualquer ajuda que eles estarão lá por mim. Bem, é isso que eu penso. Nunca de fato uma situação em que a amizade seria testada aconteceu. Então eu gosto de pensar neles como meus amigos para o que der e vier.

Volto para casa e cumprimento meus pais. Esses que suam o dia inteiro para termos comida e alguns luxos para passar o tempo. Esses que eu sou e sempre serei grata, eternamente. Não almoçamos juntos. Sem grandes motivos para isso. Faço minhas tarefas e durmo cedo.

Acordo para mais um dia produtivo. Me arrumo e reparo no defeito do meu rosto que tenho certeza que todo mundo também vai reparar. Tento disfarçar com maquiagem, mas não sou capaz de grandes milagres. Aceito que hoje não estou bonita e sigo minha vida.

No colégio, me ocupo com os problemas das minhas amigas. Me preencho com preocupações de outras pessoas e tento encontrar caminhos alternativos para ajudá-las.

Sempre tento ajudar da maneira que posso. Estou sempre com elas. Se quiserem desabafar, vou ouví-las. Se quiserem chorar, vou abraçá-las. Se quiserem sair, digo que tenho muito tempo livre. E quando rimos juntas, é como se fosse o ponto mais alto do meu dia. Eu esqueço da minha aparência, das minhas insatisfações comigo mesma e apenas vivo aquela alegria. A alegria que eu quero que dure o resto da minha vida. Eu as amo e quero que fiquemos juntas para sempre.

Isso só dura algumas horas.

Em casa ainda fico animada. Efeito das boas risadas, o que contagia o humor da familia e parece prolongar aquela felicidade. Almoço em frente do computador. Assistindo série, anime, vídeo no youtube, lendo fic, qualquer coisa que eu gosto. Faço minhas tarefas e vou dormir.

No dia seguinte, me sinto melhor. Não que me agradasse com meu rosto, nem com meu corpo. Eu percebia meu aumento de peso, minhas espinhas aparecendo em lugares estratégicos para chamarem a atenção. Mas isso é a adolescência, eu entendo.

Vou encontrar minhas amigas. Me deixo levar por suas histórias emocionantes de jovens moças vivendo um amor complicado e começo a achar meios práticos para resolver os problemas delas.

Esse é meu defeito. São problemas delas. Eu acho formas que eu faria. Maneiras que eu aguentaria as consequências. Mas esse tipo de problema não acontece comigo. Eu sei.

Em casa eu assisto minhas coisas favoritas na internet apenas para não acumular. Eu sei que não terei saco para ver tudo depois. Vasculho minhas pendências que me divertem até me atualizar em tudo. Termino minhas tarefas e são só quatro da tarde. Me deito e escutando música adormeço.

Levanto com fome em dobro. Me arrumo e paro de me preocupar em tentar ficar mais bonita. Nem sempre consigo.

Meus conselhos de ajuda para minhas amigas se resumem em "Faça o que te trará felicidade"

Isso é o certo a se fazer, não? Mas não é óbvio? Eu deveria ter que dizer isso? Eu precisava dizer? Eu tinha que esquentar minha cabeça com isso?

Depois de almoçar fico um tempo nas minhas redes sociais. Já me atualizei em tudo ontem, o mundo não tinha nada novo pra mim?

Nada que de fato me fizesse perder horas.

São três da tarde. Eu já não tenho nada pra fazer. Sem tarefas, sem series, sem leitura, sem sentimentos. Apenas um extenso e demorado nada.

Em mais um dos meus gloriosos dias, eu começo a refletir. Sobre mim, meu corpo, meus amigos, minhas pequenas felicidades diárias, tudo.

Não vou ficar bonita só de pensar, vou me esforçar pra isso. Mesmo que eu não obtenha resultados, pelo menos seria pior se eu não tivesse feito nada, certo? Vou começar uma dieta e exercícios, mesmo que eu saiba que vou parar duas semanas depois por alguma desculpa que inventarei. Mas pelo menos eu tentei, né? Eu me dei e fiquei isolada com amigas que precisavam de mim e afastei os outros. Eu sempre os afasto. Eu não me esforço para ter todos por perto. Eu não sou uma boa amiga para todos eles.

Eu dou algumas risadas assistindo animes, lendo, vendo meus youtubers, meus idols que eu tanto amo. Até que minha mente se volta a uma única questão que eu tento afastar ao máximo: "Eu estou feliz?"

É, eu entro numa crise existêncial enquanto espero meu café da manhã ficar pronto. Eu penso em como eu mudei algumas pessoas e se meus conselhos realmente ajudaram alguém enquanto estou no ônibus. Penso se alguém realmente gostaria de mim se eu não fosse aquela amiga para S.O.S.

Eu estou sempre com eles. Tudo que eu puder fazer para ajudá-los e aumentar a autoestima eu vou fazer.

Queria ter alguém assim pra mim também.

Eu sou egoísta e invasiva por me meter nos problemas alheios. Sim, porque eu não tenho isso.

Não tenho relacionamentos amorosos complicados. Eu prefiro não deixar chegar a esse ponto. Não tenho novidades em minha vida, não que sejam relevantes para contar às minhas amigas.

E então eu percebo, enquanto tomo banho, que sou vazia.

Eu tenho tantas coisas desinteressantes a oferecer. Em contrapartida, tudo e todos à minha volta estão tão animados, tão divertidos, fazendo tantas coisas.

Para ser sincera eu enrolei quanto a escrever essa... fic? Oneshot? Não sei como chamar. Isso é real meu. E eu tive medo. Eu sou covarde. Não queria adimitir que não sinto o que a maioria sente. Eu nunca me apaixonei e isso é um problema? Não sou bonita e não me dedico a mudar, isso é um problema? Que seja, ninguém estaria aqui para me responder.

Vou continuar vivendo minha vida, dia após dia. Seguindo em frente. Esperando minhas amigas terem um novo conflito em suas vidas pessoais enquanto tento me reaproximar de quem eu mesma afastei.

Só devo sorrir e dizer que está tudo bem, eles não se importam o suficiente para ver que tem algo de errado, certo?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!