João Guilherme não sabia dizer, exatamente, quando seu amor por Fred tinha mudado. Eles eram melhores amigos desde o jardim de infância, onde se conheceram, e passavam todos os momentos do dia juntos, então a transição entre o amor que vem com a amizade, com a fraternidade, para aquele diferente, que faz a gente perder o fôlego quando olha para a pessoa, foi muito natural.

Se fosse escolher um momento, diria ter sido a viagem para Arraial do Cabo, nas férias do segundo ano. A sala juntou dinheiro o ano todo, fez rifa, sarau, todo tipo de coisa para que todos pudessem ir juntos. Fred quase não conseguiu ir, pois foi na mesma época em que sua mãe quebrou a perna e precisaria de ajuda, mas ela insistiu tanto (e suas irmãs prometeram que cuidariam dela) que ele foi – mesmo sem desgrudar do celular.

Foi durante essa viagem, em um dos muitos nasceres do sol que eles viraram a noite para ver, que João e Fred saíram sozinhos para caminhar pela praia. Eles tinham muitos momentos de silêncio entre si e estavam apenas contemplando a natureza; o céu clareando, as ondas quebrando na areia, o cheiro de mar... conforme o sol nascia e banhava a praia, João se virou para Fred, cuja pele brilhava em dourado e as gotas de mar ainda presas aos cabelos crespos pareciam pequenas joias, e perdeu o fôlego. Ele parecia um ser místico, saído de um conto fantástico.

Então, toda vez que Fred olhava para ele, João corava. Sentia todo corpo em chamas a cada vez que Fred o tocava. Se arrepiava apenas com a proximidade entre os dois. E decidira contar para ele como se sentia. Hoje.

Era véspera de Natal e as duas famílias estavam reunidas na casa de Fred. Dona Ana, mãe de Fred, decorara a casa com todos os itens natalinos que pôde encontrar. Um pinheiro gigante, todo enfeitado, se encontrava no canto da sala; tinham meias de tricô penduradas no batente das janelas e das portas; ramos de visgo pendurados em todas as entradas e papais-noéis vestidos das formas mais bizarras estavam espalhados pela casa toda, que cheirava a chester, pinha e desodorante de ambientes Glade.

João Guilherme saía do banheiro pela quarta vez, tendo ido lavar o rosto novamente para tentar se refrescar – uma coisa impossível no calor de dezembro. Fred estava na cozinha, tentando esconder as uvas passas das vistas de sua mãe, quando viu João passando.

— Dor de barriga? – Perguntou, rindo. Olhando melhor para o amigo, percebeu que ele estava pálido, a boca seca, parecia doente. – Está tudo bem?

— Ah... sim, claro. Melhor do que nunca. – João respondeu, numa falha tentativa de soar tranquilo.

Semicerrando os olhos, desconfiado, Fred pegou na mão de João e o levou para o final do corredor, onde não tinha ninguém. Conhecia-o melhor do que qualquer um e sabia que alguma coisa estava errada.

— Certo, pode falar agora.

— Falar o quê? – João rebateu, sua voz tremida e um tanto aguda.

— O que está acontecendo. A gente já passou por isso, Gui, e você pode ficar enrolando, me forçando a repetir a mesma pergunta uma dúzia de vezes, ou pode poupar nosso tempo e simplesmente desembuchar.

João travou, o estômago em um nó de ansiedade. Abriu e fechou a boca várias vezes, tentando forçar as palavras, mas nada saía além do som de sua respiração. Olhou para baixo, coçando a nuca, tentando regularizar a respiração. Olhou para cima, protelando ao máximo voltar a encarar Fred, quando percebeu algo colorido pela visão periférica.

Acima da porta do quarto, onde estavam escorados, havia um ramo de visgo. Contrariando todas as expectativas, o ramo era natural, seu cheiro característico se fazendo cada vez mais presente. João assistira a comédias românticas de adolescente o suficiente para saber o que aquele discreto ramo de planta significava – e hoje ele ganhara todo um peso diferente. Teria que agir rápido, antes que perdesse a coragem.

Olhou para Fred, que parecia um pouco confuso e irritado, bem no fundo de seus belos olhos castanhos.

Respirou fundo duas vezes.

E simplesmente foi.

Grandes romancistas não descreveriam aquele beijo como arrebatador e incrível. Na verdade, foi bem desajeitado. João tropeçou numa rusga do tapete e acabou lançando Fred contra a parede, o baque fazendo com que o rapaz perdesse o fôlego e com que João abrisse os olhos, se desvencilhando do amigo.

— O- o que foi isso? – Perguntou Fred.

— Não foi nada! Claro, não precisa ser nada caso você não queira, eu entrei em pânico e perdi o jeito de agir como ser humano, sabe, porque faz meses que eu quero te contar uma coisa e nunca consigo e hoje eu queria dizer, mas não sabia como e aí essa merda de visgo... – João teria continuando matraqueando sem parar, se Fred, sorrindo, não o tivesse puxado para outro beijo.

Dessa vez, foi algo mais jeitoso. Fred gentilmente segurou a nuca de João, mantendo-o no lugar, movimentando seus lábios de forma suave. João ainda precisou de alguns segundos para entender o que estava acontecendo, mas quando sentiu a ponta da língua de Fred acariciando seu lábio inferior, ele se sentiu estremecer, fechando os olhos e se entregando ao momento com o qual vinha sonhando há tanto tempo.

O tempo parecia ter congelado. Eles poderiam estar se beijando há horas sem nem perceber, e só se separaram quando já não conseguiam mais respirar. João abriu os olhos bem devagar, como se estivesse voltando de uma anestesia. Fred buscou suas mãos, que formigavam, e entrelaçou seus dedos com os dele. Dava para ver que ele estava tão corado quanto João sentia estar e seus lábios estavam inchados. Ele sorriu novamente, da maneira travessa de sempre, e encarava João nos olhos, uma expectativa silenciosa pairando no ar.

— Você sempre se expressou melhor que eu... – João disse, baixinho, arrancando uma risada rouca dele.

— É, eu também tinha algo para te contar, há um bom tempo já.

Rindo novamente, Fred colocou o braço ao redor dos ombros de João, que o abraçou pela cintura. Juntos, os dois retornaram para a sala de estar, sentando lado a lado no sofá e se juntando às suas respectivas famílias para o brinde de Natal.

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