Me Dê Uma Chance
12 Lembranças - Parte I
Notas iniciais
Ruas de Encino, Califórnia — 14:31 hrs
Depois do café da manhã, Michael passou o dia todo no estúdio para trabalhar em algumas produções. Reservou um pequeno período da tarde para sair com Morten e ignorou as reclamações de John Branca por fazê-lo encaixar as compras naquele horário de qualquer maneira. Retornou ao condomínio para buscar seu amigo, iriam disfarçados, iriam de moto. Michael não queria chamar uma multidão para si e não deixaria que Morten fosse acompanhado de outra pessoa. No fim das contas, daria seu jeito.
Colocou uma máscara de pano, óculos escuros e um casaco com capuz. Morten gargalhava ao seu lado.
— Vai roubar quem?
— Você sabe que eu não posso sair por aí de qualquer jeito…
— Na verdade não, nunca saímos juntos. Depois da confusão lá no estúdio, eu preferi encher seu saco em casa mesmo.
Michael suspirou.
— Fique perto de mim, vamos em algumas lojas. Se você achar algo que goste, me avise, okay?
— Claro, “chefe”.
Seguiram em frente. Michael escolheu uma de suas motos, a menos chamativa possível, vermelha e básica, e seguiu com Morten na garupa.
— Não me solta por nada, okay? Se segura…
Ligou a moto e prosseguiu. O trajeto de ida foi muito tranquilo, as pessoas não o reconheceram e não havia jornalistas por perto. Era o falso anonimato perfeito. Michael parou no estacionamento de um dos shopping centers mais luxuosos da cidade, era um lugar óbvio para alguém como ele estar, todavia, também era um lugar de poucos frequentadores, o que permitia um pouco mais de sossego e segurança para seu disfarce.
Desceram e seguiram rumo às lojas. Michael adorava fazer compras, mas Morten nem tanto, seus olhos brilhavam mais por estar vendo tudo aquilo pela primeira vez do que de fato pelo ato de comprar. As vitrines brilhantes, o cheiro de novo e o piso escorregadio eram muito atraentes, ele estava se segurando para não vandalizar todo aquele local com suas brincadeiras pesadas.
— Pelo visto, você gostou do lugar…
Comentou o moreno, sorrindo ao ver aqueles olhinhos azuis cintilarem. Morten olhava para vários lugares ao mesmo tempo, não sabia qual admiraria primeiro.
— Nossa! Uma roupa mais feia que a outra… sabe, se você fosse o estilista desse lugar, eles ganhariam mais.
Michael gargalhou e aquiesceu.
— Eu não duvido disso.
— Hum… aquilo ali são roupas de baby boy?
— BAD boy! E, é, são… tem umas jaquetas legais.
— Vamos lá?
O cantor assentiu e acompanhou o amigo até à loja. Lá, deixou o rapaz à vontade, enquanto foi conferir as jaquetas e os mocassim. Não sabia se tinha tomado a melhor das decisões, mas estava na hora de Morten ser um pouco menos dependente de sua presença. Tentou esquecer um pouco o rapaz, foi atrás de uma jaqueta para si próprio, adorava jaquetas, sobretudo as mais adornadas de pingentes ou emblemas. Passou seu olhar por algumas, até que uma peça vermelha chamou sua atenção.
Era uma jaqueta vermelha de couro sintético. Ao lado, a mesma, porém de cor preta. Michael era prioritariamente um showman, mas tinha um toque no ramo das outras artes e o seu lado estilista começou a atuar ao olhar aquelas peças em conjunto. Uma jaqueta vermelha com detalhes em preto, talvez se realçasse os ombros, talvez se causasse um ar de protagonismo… Ele tentou buscar algum papel e caneta para anotar aquelas ideias, mas não havia nada em seus bolsos. Suspirou, teria que guardá-las na mente.
Passeou mais um pouco para olhar outras peças e encontrou um conjunto que lhe agradou. Não fazia muito o seu tipo, mas conseguiu imaginar Morten perfeitamente nele. Era uma jaqueta de couro marrom, uma camisa vermelha de modelo de time, calças escuras e tênis branco. Era charmoso, despojado e jovial. Michael ficou um tempo paquerando aquele conjunto, com as mãos nos bolsos e um olhar vago, até que foi abordado por uma funcionária.
— Senhor, posso ajudá-lo?
Logo despertou de seu transe, e se arrependeu por perceber que Morten estava em seus pensamentos mais uma vez. Suspirou, queria conseguir esquecê-lo ao menos por alguns instantes.
— Eu quero levar aquelas jaquetas e… hum… esse conjunto aqui.
Enquanto isso, Morten estava do outro lado da loja, xeretando a seção feminina. Não queria confessar, mas estava perdido. Algumas mulheres o encaravam com desconfiança, outras, o paqueravam com o olhar, mas ele estava disperso demais para perceber essas coisas. Levou as mãos aos bolsos e caminhou mais um pouco, acabou indo para uma seção diferente das demais, uma seção de artigos de turismo. A temática daquele corredor eram países e continentes, e aquilo definitivamente era mais interessante que escolher roupas, pensou o rapaz.
Seguiu em direção à América do Sul, por algum motivo o país cuja bandeira era verde, amarela e azul radiante destacava-se em sua mente. Morten se aproximou e ficou a observar os objetos temáticos do tal país, encará-los por algum tempo acabou lhe trazendo alguns feixes de lembranças dispersos. Por um segundo conseguiu sentir o calor daquele lugar, mesmo estando muito frio nos Estados Unidos, naquela época.
— Vish…
Ele passou a mão pelos próprios braços, contrariado sobre o que havia acabado de acontecer. A fim de não ter mais sensações estranhas como aquela, Morten evitou suas lembranças adormecidas e buscou a saída daquele corredor, todavia, percorrer por todos aqueles continentes e países resultou em dar de cara com mais um no qual ele queria evitar.
Inglaterra, Europa.
Londres.
Ao contemplar aquela bandeira em tons fortes de azul e vermelho, Morten sentiu uma dor de cabeça intensa. Lembrou-se das terras da rainha, da neve fresca cobrindo toda a calçada, das pessoas agasalhadas de preto, dos flocos dispersos no ar, das multidões o observando, dos ônibus de dois andares, das cabines telefônicas vermelhas...
Era uma dor insuportável, e, quanto mais se lembrava, pior ficava. Passou as mãos nos cabelos, puxou sutilmente alguns fios, aquilo o distraiu um pouco do incômodo maior. Suspirou, precisava reencontrar-se com Michael, decidiu que evitaria as ruas, estar em casa era um pouco menos estressante.
— Michael…
Murmurou, tentando fazer o caminho de volta. Por alguma razão, Michael sentiu, do outro lado da loja, uma angústia em seu peito. Algo lhe dizia que Morten precisava de seu socorro.
— Morten…?
Murmurou.
— Senhor?
Indagou a vendedora, já separando as peças que Michael havia escolhido. Ele discretamente balançou a cabeça em negação.
— Desculpe, não foi nada. Er… um momento, eu vou buscar o meu amigo, volto logo.
Se afastou e seguiu em direção às demais seções. Não sabia exatamente por onde começar, mas loja de alto prestígio não costuma comportar muitos clientes, o ambiente estava praticamente vazio, o que não foi difícil buscar pelo jovem perdido.
— Morten!
Exclamou. Sentiu a angústia apertar o seu peito com mais vigor, sufocou com aquela sensação, até que enfim removeu a máscara de seu rosto e elevou os óculos para a cabeça, sentia que precisava de ar.
— Michael…
O rapaz de fios dourados se aproximou, um pouco atordoado. Michael segurou em seus braços e notou como ele parecia abatido.
— O que foi? O que aconteceu com você?!
— Eu quero ir embora. Só me tira daqui, por favor…
Michael sequer teve tempo de responder, um burburinho do lado de fora da loja foi o suficiente para chamar sua atenção e perceber que o seu sossego havia acabado naquela hora. Algumas pessoas timidamente se aproximaram, e, à medida que se aglomeravam, mais e mais apareciam. Michael estava exposto, havia sido reconhecido.
— Vamos embora…
Puxou o rapaz pelo braço e o levou até a funcionária que havia o atendido. Pagou aquelas peças rapidamente e foi só quando passou o seu cartão que a mulher confirmou se tratar de Michael Jackson.
— Por favor, nos leve para a segunda saída da loja. Precisamos sair, agora.
— S-sim, senhor.
Era um procedimento padrão, aquelas lojas costumavam receber clientes como ele e aquela situação era, de certa maneira, comum, porém aquela funcionária parecia uma caloura, uma vez que não conseguiu os levar a tempo dado o seu nervosismo. Seguranças do próprio shopping precisaram ser chamados para conter a multidão e a polícia também foi acionada. Michael segurou o pulso de Morten e o jogou para trás de si, a fim de protegê-lo daquele assédio, mas os flashes dos paparazzi já haviam os alcançado. Aquele brilho, aquela bagunça, aqueles gritos eram agonizantes, todavia, haviam provocado uma sensação diferente no rapaz.
— Morten, você está bem?!
Ele não respondeu. À medida que o flash estourava em sua visão, mais lhe provocava feixes de memórias passadas. Ele estava hipnotizado com toda aquela gritaria.
Aos poucos, a voz de seu amigo embargou, tornou-se turva até esvair-se. Os gritos da multidão invadiram o seu consciente. Seu nome era proferido, ouvia-o em todas as direções.
Logo, uma voz familiar lhe chamou.
— Morten…
— Morten…
— Morten Harket!
— A-HA!
Sentiu uma mão segurar o seu braço. Virou-se e notou um rapaz acompanhado de outro. Não viu os seus rostos, mas sentia que os conhecia de muito perto.
— Inglaterra, Morten! Você já se imaginou na terra dos Beatles?!
Disse um deles, com empolgação. O outro aquiesceu, um pouco mais reservado. Morten sorriu e então foi puxado por aqueles rapazes para longe do aglomerado. Entre flashes e gritos, acabaram saindo daquele lugar e indo em direção à limusine que estava estacionada por perto. Quando Morten adentrou, a lembrança dissipou-se, teve um lapso de memória até, enfim, apagar.
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— Então… você vai mesmo?
Indagou o loiro alto, enquanto juntava uma pilha de cadernos, anotações e demos que haviam na sala. Morten estava encostado em uma mesa um pouco distante, enquanto outro loiro, um pouco mais baixo e introspectivo, repousava em um puff ao fundo, com sua guitarra no colo.
— É. Cara, isso não vai dar certo.
— Nossa banda nem foi aceita nas gravadoras ainda e você já quer desfazer as coisas.
Morten deu ombros.
— Ué, não fui eu que cheguei depois? Se for pra só vocês ficarem dando as ordens, então eu não sei o que eu tô fazendo aqui.
— Acontece que você não faz mais nada na banda, você só canta! Você não sabe nem compor uma música e quer dar palpite em outras coisas...
— Tá, já entendi.
Morten deixou uma risada escapar. Ele não achou graça, na verdade estava bem aborrecido, mas costumava rir em momentos como esse, sentia que diminuía a sensação ruim. Lentamente se aproximou para levar aquela pilha de pertences consigo, até que os olhos azuis do loiro alto alcançaram um caderno de capa lisa e, em um rápido movimento, o juntou aos outros pertences na pilha. Morten levou tudo consigo.
— Aquilo ali não era meu.
— Você sabe? Não é meu, nem dele. Se eu fosse você, dava uma olhada. Qualquer coisa, joga fora.
Morten suspirou e aquiesceu, não queria prolongar aquele assunto. Fez suas malas e partiu.
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