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1 Venha Ver o Pôr do Sol
Notas iniciais
Venha Ver o Pôr do Sol
Ela andou lentamente pela ladeira que fazia curvas estreitas em meio a um campo, andando em uma pequena trilha marcada por pneus, um matinho aqui e ali. Enquanto sentia seus pés pesarem nas botas de salto alto, observava distraída o céu manchado de uma aquarela contrastante de fim de tarde e casinhas modestas construídas afastadas uma das outras ao longe. Passou por um grupo de crianças, vestidas a trapos, com as pequenas mãos enlaçadas umas as outras. Cantavam infantilmente uma música da qual tinha vaga lembrança, o único som além do dos insetos ao redor.
Esperava-a encostado a uma árvore cinzenta. Magro e alto, com uma camiseta esfarrapada e jeans. Olhou James com desprezo; como ele ousara fazê-la passar por aquela situação desconfortável? Queria que a dama que agora se tornara vestisse-se daquela forma assim como ele?
— Minha querida Victoria.
Ela arrumou seus cabelos ruivos embalados pelo vento e olhou o moreno com desdém, em seguida voltando para suas botas de couro respingado pelo barral.
— Olhe só para isso! Bem você que é capaz de ter a brilhante ideia de um encontro em um lugar desses! Tens noção de quanto tempo tive que caminhar no meio desse mato?! Tens noção?!
James sorriu brincalhão, malícia presente em sua expressão.
— Quando estava comigo só andava de chinelinhos, não se lembra? Achei que viria com um traje menos... refinado para lembrar os velhos tempos — o jovem tomou as mãos delicadas de Victoria e beijou-as com cuidado, deixando a moça perplexa.
— Vamos! Vamos logo! Estou certa que não viemos falar sobre minhas roupas para vir nessa loucura! — afirmou ela pegando um cigarro dentro de seu sobretudo preto e se afastando um pouco do companheiro. Agora tinha condições.
— Ah, Vic! Você está uma coisa linda, mas ainda não aprendeu que uns cigarrinhos fazem mal a saúde? E então eu fiz mal em escolher esse lugar? — riu mostrando as covinhas. — O que acha?
— Bem que poderia ter escolhido outro lugar, oras. O que é isso ai? Um cemitério? — os olhos brilhantes voltaram para um cercado de ferro corroído lá adiante. Indicou o portão de ferro rodeado de mato. As lápides estavam mais distantes, desalinhadas.
–- Cemitério. Um cemitério abandonado. Não acha legal essa coisa de vivos e mortos? – Ela tragou lentamente, soprando a fumaça na face de James que a observava, atento a suas feições angelicais. Ele sabia que não era bem assim.
— E agora, qual é o plano? Ficaremos aqui parados nessa árvore sem graça?!
James tomou-a brandamente pela cintura, começando a arrastá-la até o cercado.
— É óbvio que não. Eu conheço muito bem tudo isso, minha gente está enterrada ai. Quero te mostrar ali. Mostrar o pôr do sol mais lindo do mundo.
Victoria riu, os lábios vermelhos cheios cedendo.
— Ver o pôr do sol?! Ver o pôr do sol?! Eu não acredito nisso! Não mesmo! Fabuloso, James. Fabuloso!... Você praticamente me implora um último encontro, por dias a fio, me faz parar onde Judas perdeu as botas e diz isso ainda por cima. Ver o pôr do sol em um cemitério...!
James também se permitiu rir, continuando a guia-la. Tinham chegado a um portão. O jovem desenlaçava as grades presas fortemente com um laço.
— Victoria, minha querida. Não faz isso comigo! Eu bem que queria te levar em um lugar melhor, sabe. Só que estou morando em uma pensão horrível. Não chega mais a seu nível. Se estivesse com um apartamento de boa vista...
— Você acha que eu iria mesmo que tivesse um?
— Não, não. Não fique brava. Eu sei que você está sendo fidelíssima — acariciou lhe o braço com os dedos longos e finos. Rugas se formaram em seu rosto. — Você fez bem em vir, querida.
— Mas não podíamos tomar algo em um bar do centro? Perto de sua pensão...
— Estou liso, vê se entende.
— Eu posso pagar! Não quero ficar aqui.
— Pagar com o dinheiro dele? Prefiro beber esgoto! Aproveite esse nosso passeio. Não gastamos nada e é decente. Bonito. Olha só que coisa mais romântica... E essa tranquilidade, então!
Ela olhou de um lado para o outro, um pouco assustada, e puxou seu braço para longe do aperto.
— Eu não te perdoo. Foi um risco tremendo! Ele é ciumento e sabe que já tive casos. Só quero ver o que você vai me dizer.
Momentaneamente começaram a passar pelas lápides arruinadas, ervas daninhas grudavam nas pernas dos dois e alguns túmulos de tijolos embolorados se destacavam em frente.
— Mas me lembrei desse lugar porque não quero que se arrisque, querida. O que é mais discreto que um cemitério abandonado? Ninguém nunca saberá sequer que estivemos aqui.
— É um risco enorme. Já disse. Pare com essas brincadeiras, por favor. E se chegar um enterro?
— Enterro de quem, sua louca! Victoria, Victoria, não quero mais repetir isso. Há séculos ninguém é enterrado aqui. Sem vestígios, nada. Vamos, não tenha medo. Estou contigo.
O mato agora dominava tudo, subindo nos rachões dos mármores, cobrindo a morte com sua vida. Passaram por sepulturas com medalhões esmaltados vagarosamente.
— Que gigantesco, não é? Vamos embora James, vamos, vamos.
— Pare com isso, Vic. Olhe para essa tarde! Olhe! Olhe o crepúsculo sem se queixar, quer maior presente?!
— EU NÃO GOSTO DE CEMITÉRIOS! Ainda mais cemitérios abandonados!
— Você me prometeu um último fim de tarde, esqueceu?
— Eu fiz mal. Não quero me arriscar.
James rodou os olhos e suspirou.
— Afinal, ele é tão rico assim? Dá-te tudo isso mesmo?
— Milionário, meu bem. Vou para o Oriente. Olha que só que chique! — Victoria sorriu provocante e balançou seus cabelos ruivos sedosos que estavam cobertos por uma faixa do sol que baixava na linha do horizonte. O cheiro de ervas enchia-lhe as narinas e o ar tornara-se mais fresco.
— Eu também te levei para passear naquele dia. Não se lembra, hã? O passeio de barco, também em fim de tarde...
Ele viu algo que já tinha perdido a esperança de ver no olhar da bela mulher. Victoria parecia abalada, a testa franzida em confusão. Como ele tinha saudade de tocar aquela pele branca aveludada!
James puxou-a para um abraço de lado apertado enquanto continuavam a caminhada com um pouco de silêncio, a luz do entardecer entre estava entre os túmulos. Até que ela tomou iniciativa. Sua voz era baixinha e melancólica.
— Sabe, James, apesar de tudo que aconteceu eu tenho às vezes um pouco de saudade daquele tempo. Foi o melhor ano! Ó, que ano que aquele foi! Como eu aguentei um ano com alguém?
— Não deveria perguntar para mim. Eu nunca sei de nada, não é? Mas você estava frágil, acho que tinha lido aquele livro... Aquele romance que adorava. Você ainda lê alguma coisa, Vic?
— Nenhum — respondeu ela, apertando os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma lajota despedaçada: — A minha querida esposa, eternas saudades — fez um muxoxo. — Ahá. Durou pouco a eternidade.
— O abandono na morte que faz encanto, minha querida. Não há mais a estúpida intervenção dos vivos, um descanso eterno seria melhor que essas férias que a gente tira hoje em dia. Sem ninguém para atrapalhar o tão esperado cochilo. Espera-se a vida toda para a morte — apontou para uma sepultura coberta por musgo —, ai está a morte perfeita. Não há nome. Lembranças. Nem saudade sequer.
Victoria aconchegou-se mais a ele e deu-lhe um beijo na bochecha.
— Está bem. Mas agora eu já me diverti muito. Só você para fazer isso. Chega, James, quero ir embora.
— Mais alguns passos, minha querida.
— Esse cemitério não tem fim! Andamos quilômetros aqui já! Eu vou ficar exausta, James, vou ficar cansada demais.
— Que mordomia. Agora está preguiçosa. — Ele impeliu-a para frente: — Dobrando aqui há o túmulo de minha família. Lá nós veremos o magnífico pôr do sol. Sabe, Victoria, eu andava aqui de mãos dadas com minha prima, também falecida, quando vínhamos trazer flores para meu pai aos domingos; e arrumar nossa capelinha.
— Sua prima já está morta?
— Todos estão, oras. Sim, morreu cedo. A Valentina. Com apenas dezesseis anos. — James tomou o rosto dela com as mãos grandes e olhou fundo em seus olhos. — Toda a beleza dela... Vocês são tão parecidas, agora que paro para realmente notar. Que semelhança...
— Você amava ela?
— Ela só me amou. A única.
Victoria voltou a tragar um cigarro, desta vez dando-se o trabalho de virar para o lado.
— Eu gostei muito de você, James. Juro por tudo.
— E eu te amei. E ainda te amo. Ai está a diferença entre passado e presente.
Um corvo piou. Ela estremeceu. Estava ficando mais escuro.
— Esfriou, não? Quero ir embora. Ele deve estar furioso...
— Já chegamos, minha querida. Aqui jaz minha família inteira.
A capelinha estava com a pintura descascada e era feita de pedra. Os resquícios do que outrora parecia ter sido uma cruz estava bem na frente das grades da entrada. A estreita porta rangeu quando James abriu-a sem pressa. A luz encontrou pelo cubículo fedorento, iluminando a vista dos jovens para alguns vasinhos sem flores, teias de aranha e uma outra porta aberta, dando para uma escadinha também de pedra, em forma de caracol que ia para a catacumba.
Victoria entrou cuidadosa, se aproximando mais ainda do companheiro.
— Isso me entristece. Nunca mais esteve aqui? Nem você e nem ninguém?
Ele tocou a parede e sorriu melancólico.
— Você preferiria um lugar limpo, muitas flores e iluminação. No entanto, eu já lhe disse que o que mais amo é a solidão desse cemitério. Aqui a morte é absoluta, minha querida.
Victoria andou para perto da porta que descia para a escadinha de pedra.
— O que há ali embaixo?
— Gavetas. Pó, minha querida. Apenas pó.
James passou pela portinha e desceu a escada sem hesitação. Chegou perto de uma gaveta no canto e olhou atentamente para a foto, marada pelo imperdoável tempo.
A moça se inclinou no topo da escada para ver melhor.
— Todas tem gente dentro? Estão cheias?
— Cheias? — ele riu.
Victoria sentiu um arrepio em sua espinha. Queria ir para casa agora mais do que tudo. A preocupação com o então namorado não estava só mais.
— Vamos, James. Me leve embora.
— Está com medo? Não tenha medo.
— É claro que não estou com medo. Não seja bobo. Estou é com frio, muito frio. Vamos embora de uma vez!
Ele a ignorou. Andou até um gavetão e acendeu um fósforo, o único que ali tinha, iluminando outra foto. A de uma adolescente.
— Minha prima. Valentina. Essa aqui, Victoria. Olhe os olhos dela. São os seus olhos! Venha ver os olhos...
Victoria não persistiu, pensando que quanto mais rápido fosse mais rápido iria embora. James estava começando a lhe irritar com aquela persistência extrema. Ela se encolheu para não esbarrar em nada enquanto descia a escada.
— Que frio. E que escuridão. Não enxergo nadinha, James.
James acendeu outro fósforo e entregou-o para ela.
— Pegue. Assim você consegue enxergar bem esses olhos.
Victoria tomou-o com os dedos trêmulos.
— Mal se vê que é uma garota... — antes que a chama se apagasse ela leu em voz alta a inscrição na gaveta, devagar. — Valentina Owen, nascida em trinta e um de janeiro de mil oitocentos e falecida... — o palito caiu de sua mão. Ela ficou imóvel por um instante. — ESSA NÃO PODIA SER SUA PRIMA! Morreu há mais de cem anos, James! Seu mentiroso...
Um baque cortou o cômodo e ela percebeu o quão sozinha estava.
Seu olhar retornou para a escada. James estava no topo e observava-a com o mesmo sorriso inocente e malicioso por detrás da portinha agora fechada.
— Isso nunca foi o túmulo de sua família, seu mentiroso! Pare com essa brincadeira idiota agora mesmo! — Victoria subiu com rapidez a escada e quando ia tocar a portinhola de ferro James deu duas voltas seguidas à chave, arrancou-a da fechadura impacientemente e saltou para trás.
— Venha abrir essa porta maldita! ABRA IMEDIATAMENTE SSA PORTA! Vamos, James. Abra essa porta! — ela ordenou torcendo freneticamente o trinco. — Eu detesto você! Abra isso de uma vez! Vamos, James!
— Uma faixinha de sol vai entrar por essa frestinha — James apontou para a pequena grade — e você terá um maravilhoso pôr do sol. O pôr do sol mais belo do mundo, minha querida.
Victoria dependurou-se na trinca, puxando-a com mais força ainda. Lágrimas vazavam por seus olhos. Queria e precisava sair dali.
— Vamos, James! TIRE-ME DAQUI! VAMOS! ABRA ESSA PORCARIA!
Rugazinhas voltaram a aparecer em seus olhos, abertas em um leque.
— Boa noite, minha querida Victoria! Tenhas bons sonhos.
— CHEGA! CHEGA! ME TIRE DAQUI, SEU CRETINO! DÊ-ME A CHAVE DESSA PORCARIA AGORA MESMO! Agora mesmo! — gritava. Repentinamente se interrompeu ao ver as condições da fechadura, corroída pelo tempo assim como tudo naquele lugar. James sacudia a chave em frente a seu rosto pálido.
— Boa noite, minha querida.
A boca de Victoria secou. Seus olhos passearam pelas órbitas, visão desfocada.
— Não — sussurrou. — ME TIRE DAQUI!
James suspirou e retomou calmamente por todo o caminho percorrido. Seus sapatos faziam barulhos ao pisar nos pedregulhos do caminho.
— NÃO! NÃO! VOLTE AQUI!
Durante algum tempo ele andou. Os uivos ficaram inaudíveis. Passou pelos portões do cemitério de forma tranquila e observou crianças cantarem ao longe, sem fazerem ideia de que afinal ali teria um pouco de vida. Talvez pelos próximos dias. Desceu a ladeira, pés pesados; e observou: como era lindo aquele pôr do sol.
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