Maçã com mel
1 Único
Notas iniciais
Era a véspera de Ano Novo, e a cozinha parecia um campo de batalha. Potes de plástico agrupados no canto com versões pequenas de sobremesas variadas, colheres sujas espalhadas na pia, receitas abertas em páginas manchadas de chocolate, entre outras tantas coisas que faziam daquele homem o centro do caos.
O avental vermelho estava coberto de marcas de mão e respingos doces, sua mão trêmula ao agarrar a pequena colher para provar a vigésima quinta doçura do dia — um mousse de limão. O sabor lhe agradou no primeiro momento, não estava azedo nem muito doce, a textura agradável ao paladar e o cheiro único de limão.
Sua expressão se derreteu por um instante, assim como as tentativas anteriores, mas algo no fundo de sua mente dizia que ainda não servia, que não era o sabor certo para Sasuke. No mesmo instante, o mousse perdeu o gosto e Gaara encarou a bancada como se ela o tivesse traído pessoalmente.
— Não é isso — resmungou, fechando o pote e passando a mão pelos cabelos, frustrado.
No momento seguinte, percebeu um feixe de luz laranja refletindo na prata da colher e notou que o Sol estava se pondo devagar, uma manhã e tarde inteira em pé na cozinha, pensou quase rindo, quase chorando. Ainda assim, não era uma surpresa, estava tão entretido que não notou o tempo passando, a diferença era que tinha começado confiante, até animado com as opções que tinha pesquisado.
Porém agora, se sentia mentalmente cansado e fisicamente dolorido de fazer os mesmos movimentos. O olfato quase sumindo por estar há tanto tempo envolvido com cheiros doces. O olhar percorreu toda a bagunça feita, com uma vontade silenciosa de desistir, se não fosse seu orgulho o mantendo firme e irredutível em largar aquela ideia, assim não descartou o mousse, guardando-o com o restante.
— Limão abre o apetite, vou deixar como entrada — disse, pegando o livro de receitas e procurando outras opções, até encontrar uma receita que não envolvia doçura diretamente. — Maçã… — Seus olhos se abrem para ler com mais atenção. — Maçãs assadas com mel… pode ser a sobremesa principal e…
Sua voz ecoa na cozinha novamente enquanto lia os ingredientes. Se movendo no espaço com uma rapidez suave, preferindo ignorar a frustração para dar vida a outro prato. Entre fazer um pedido no aplicativo do mercado, receber e cortar cada maçã. Gaara pensava que o problema no fundo não era a receita escolhida, mas a pessoa que iria comer, seu marido… Uchiha Sasuke.
Um homem que simplesmente… não gostava de doce.
Todos os anos, o moreno prefere acompanhar a família com um copo de whisky ou espumante. Nunca se negando a ajudar com as compras ou qualquer outra coisa que Mikoto ou Obito inventasse para entreter a família, mas sempre evitando qualquer doçura que tivesse no meio.
— É um prato agridoce e quente — sussurrou, separando o mel, a manteiga e outras especiarias que usaria. — Talvez ele goste mais desse sabor.
Ao cortar a primeira maçã, o som seco da faca atravessando a polpa firme ecoou baixo na cozinha. O cheiro fresco e levemente ácido da fruta se espalhou pelo ar, misturando-se ao calor que ainda pairava do forno ligado, suavizando o excesso de açúcar que impregnava o ambiente. Conforme as fatias eram dispostas na assadeira e recebiam o mel, a manteiga e as especiarias, um vapor delicado começou a subir, carregando notas quentes e reconfortantes. As íris esverdeadas foram suavizando durante o processo, e Gaara sentiu os ombros acompanharem, relaxando lentamente — como se, entre tantos aromas repetitivos, o caos tivesse encontrado uma forma mais calma de se organizar.
Um sorriso se pintou em seu rosto ao observar as maçãs já temperadas, alinhadas com cuidado. O coração movido pela essência que sentia, de que era o certo. Que não era sobre a sobremesa ou sobre ser a ceia de fim de ano. Era sobre o cuidado. Sobre a ideia silenciosa de que, naquela noite, quando todos se sentassem à mesa, ele queria ver o Uchiha provar algo feito por suas mãos e — mesmo que minimamente — gostar.
Quando as maçãs foram finalmente acomodadas no forno e o cronômetro ajustado, Gaara deixou escapar um suspiro longo ao esticar o corpo. Ao mesmo tempo sentia o calor constante atrás de si contrastando com o ar mais fresco da casa, assim, aproveitou aquele intervalo para recolher a bagunça que havia criado.
Guardou os pequenos potes de plástico na geladeira, alinhando-os com um cuidado, como se organizá-los fosse também uma forma de organizar a própria frustração anterior. Limpou a bancada ainda manchada de açúcar, lavou as colheres, empilhou as tigelas. O cheiro doce foi, aos poucos, cedendo espaço ao aroma quente e suave das maçãs assando, envolvendo a cozinha em algo mais confortável, menos enjoativo.
Quando terminou, sentiu os braços pesados, os pés e o centro da costas doendo pelo tempo curvado.
— Preciso me deitar — disse, deixando a luz da cozinha acesa e caminhando até a sala, onde a penumbra o esperava.
No instante que parou ao lado do sofá, deixou o corpo cair sem pensar duas vezes, seguido de um gemido de alívio. A posição sendo testada de pouco em pouco até escolher ficar de peito para cima, o antebraço repousando sobre os olhos para bloquear a claridade que vinha da janela. O silêncio era quebrado apenas pelo tique-taque distante do cronômetro e pelo som baixo do forno trabalhando.
Foi ali que adormeceu por alguns minutos — não um sono profundo, mas um estado suspenso entre acordar e descansar, em que os pensamentos dão um pausa. A consciência se distancia o necessário para ter um descanso breve, a respiração se tornando mais lenta e então… só havia o som abafado da rua e o tique-taque cortando o silêncio.
Os minutos passaram sem serem notados, até que a porta foi aberta sem alarde.
De início, Sasuke não notou que havia alguém em casa, apenas tirou os sapatos e o casaco, caminhando devagar até a sala. Logo o cheiro foi a segunda coisa que o atraiu, sabia que era maçãs com mais alguma coisa, mas sabia que não era doce. Depois ergueu o olhar, parando no meio da sala ao ver Gaara no sofá, dormindo tranquilamente estendido de forma quase vulnerável no banco pouco confortável, os cabelos ruivos espalhados pela almofada, o avental ainda amarrado à cintura.
Inconscientemente sorriu, deixando as sacolas no chão para então se aproximar.
— Você trabalhou duro — sussurrou, observando-o por um instante mais longo. O olhar negro se aprofundando de orgulho e amor. — Encantador. — Ainda que estivessem casados há 5 anos, sempre que tinha oportunidade de ver o marido além da intimidade, ele parava tudo só para apreciar.
Logo ele se moveu para pegar o cobertor da poltrona ao lado, mas antes que pudesse concluir o movimento, o som do cronômetro cortou o ar. Gaara se mexeu de imediato, despertando com um sobressalto suave, o braço caindo dos olhos enquanto se levantava apressado.
— As maçãs…. — começou, a voz ainda rouca de sono. — estão…
Mas não terminou.
O corpo desperto balançou para o lado, o equilíbrio perdido pela ação e pelo sono. Sua reação foi de se apoiar no sofá novamente até sentir os braços firmes de alguém abraçando sua cintura, impedindo-o de cair. A respiração falha com o pensamento rápido de um intruso, mas se dispersa quando sentiu o perfume familiar do marido.
— Sasuke… — sussurrou, o coração disparado. — Você chegou…
O rosto do Uchiha se acomodou no espaço entre o pescoço e o ombro de Gaara, respirando fundo, como se quisesse guardar aquele cheiro — o dele misturado ao da cozinha. Lembrando-o de casa, família, amor, cuidado.
— Você combina com maçã — murmurou, beijando o pescoço do ruivo. — Eu gosto.
Por um segundo, Gaara ficou ali, imóvel. O sorriso bobo nos lábios enquanto a mente se tornava mais desperta, mais atenta. O corpo relaxando contra a firmeza do outro atrás de si.
— Maçãs… — disse, tocando as mãos do moreno. — Você deve gostar delas assada também — brinca, sorrindo.
Sasuke riu, olhando para a cozinha iluminada à frente e o som do cronômetro apitando ao redor deles.
— Pelo cheiro… acho que já gosto — respondeu, dando espaço ao marido.
Gaara acenou levemente, rindo tímido com o olhar sonolento, mas brilhante.
Sua mão então deslizou até a de Sasuke, puxando-o sem dizer mais nada, guiando-o até a cozinha ainda morna. O forno foi aberto com cuidado, liberando o vapor doce e quente que se espalhou pelo ambiente, maçãs douradas brilhando sob o mel espesso, visivelmente macias e suculentas na bandeja prateada. Devagar, Gaara separou uma delas, como se estivesse colhendo algo muito precioso e frágil para suas mãos trêmulas, e com um suspiro, colocando o pedaço em uma tigela simples.
— Prove, Sasuke. — Estendeu com as mãos unidas, o doce dourado.
Sasuke encarou o marido, via a expectativa no olhar esverdeado, sabia que existia uma cobrança pessoal do ruivo ao cozinhar. Mas preferiu não perguntar o motivo, apenas aceitou sem pressa, mexendo na fruta devagar. Depois, a colher atravessou a maçã sem resistência, a polpa quente cedendo fácil, úmida de mel. Na boca, o sabor agridoce se acentuou, aos poucos se desfazendo, deixando um doce muito suave, uma sensação aveludada e quente.
A expressão do moreno não mudou durante a degustação, mas as mãos de Gaara estavam tão fechadas que os nós estavam pálidos. O coração batendo rápido demais para quase ser ouvido, ainda assim ele se manteve firme, esperando pela resposta do Uchiha. Até o instante que Sasuke ergueu o olhar, deixou a tigela de vidro sobre a bancada sem dizer nada, ainda.
— Não… gostou? — A pergunta escapou em um sussurro muito contido, estridente.
Sasuke sorriu brevemente, quase tentado a provocá-lo. No entanto, conseguia perceber pela louça lavada que aquela forma de maçãs com mel não era a primeira feita pelo marido. Assim, apenas puxou levemente a cintura do ruivo para si, deixando um beijo curto no canto da boca, o olhar fixo nos dele.
— Está delicioso, Gaara.
Gaara bateu no ombro do marido, o alívio cruzando seu rosto seguido de um leve biquinho. — Idiot-
A reclamação foi interrompida por um novo beijo, esse que carregava o sabor da sobremesa na curva da língua e era devolvido ao Sabaku em uma dança lenta, íntima e profunda. Não houve afobação, nem troca de carícias, somente um beijo carregado de respostas — nem tão longo, nem tão curto. E quando se afastaram para respirar, Gaara ainda mantinha os olhos semicerrados, o rubor suave nas bochechas, enquanto Sasuke sorria daquele jeito raro — pequeno, satisfeito. As testas encostadas, deixando que o silêncio falasse por eles.
Fim…
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