Mayen - A Águia Negra
1 Capítulo 1 - Banquete para águias
Aninhada junto às gárgulas, a filha do rei observava a cidade do alto, enquanto o sol padecia por trás das montanhas.
Imaginava que em algum período, as águias de pedra tivessem tido um semblante altivo, mas sob a irrefreável ira de mil anos de sol, pouco se restava a ser admirado.
— Mayen Doraster — ouviu uma voz alarmada chamá-la. — Onde estás?
Esticou-se para o lado, abraçou uma gárgula, pendurou-se por um momento e colocou um pé após outro no peitoril da janela, até se fazer ser vista, emoldurada pelas luzes mórbidas do entardecer.
— Aqui, Dária.
— Céus! Céus! Princesa, já falei para parar com isso. Céus, pensa que é uma águia? Se seu pai soubesse...
— Ele não se importaria, por bem se agradaria se eu caísse — disse, sem entusiasmo.
— Não diga isso, May.
Mayen Doraster deu de ombros. Não era a filha mais querida. Tinha plena consciência de que o pai nutria preferências pelos irmãos, que eram belos e altivos como ordenava o sangue da águia.
— O jantar logo será servido.
Atirou-se na cama, como um saco de batatas.
— Agradeço por comunicar.
— Não estou comunicando — a ária fez uma expressão de consternação. — Deve banhar-se e ficar bela, sua presença é esperada.
Bela? Perguntou por quanto tempo esperariam até que ela ficasse bela.
— Ninguém espera que eu saía daqui, Dária. Comerei aqui, como sempre. Pode acender a lareira por favor?
Obediente, a aia atirou algumas toras de madeira na lareira e fez fogo a partir de óleo e uma pederneira que guardava consigo. Aproveitou para acender também meia dúzia de velas, trazendo ao aposento uma luz muito bem-vinda.
— A lenha está podre — ela constatou a aia, contrariada. — Te enviam o que há de pior. Terei uma conversa com o intendente e farei chegar aos ouvido do rei se ele não resolver isso.
— O rei tem assuntos mais importantes a tratar do que a qualidade da madeira enviada a sua filha — retorquiu.
Dária afagou seus cabelos desalinhados com ternura. A aia não gostava quando ela constatava a dureza da realidade, mas já não debatia ou tentava convencê-la do contrário. Já não pode negar, pensou.
— Olhe só estes cabelos — Dária disse. — O que o rei pensará ao vê-la assim no jantar de hoje?
— Ele irá? — perguntou, exultante.
Dária deu-lhe um sorriso enviesado.
— Certamente que sim. Ficará bela para ele? Um banho, um pente e um belo vestido será o suficiente.
Mayen não acreditava que apenas isso seria o bastante para fazê-la bela, ainda assim anuiu com veemência.
Tinha sua própria banheira — de ferro —, e um sistema de encanamento que a enchia com a água fria do rio. Dária aqueceu algumas pedras e atirou-as na água. Demorou um pouco, mas logo tinha um banho morno a sua espera.
Despiu-se e imergiu na água. Parte da água ainda estava frígida, mas não esperava que fosse diferente.
A aia a ensaboou e lavou-lhe os cabelos descorados com um sabão que prometia combater a oleosidade dos fios. Por fim, quase adormecia contemplando as montanhas do outro lado da janela, mas Dária lhe instigou a se apressar.
A aia empurrou-lhe para dentro de um vestido com as cores de sua casa. Ele lhe apertava na barriga, mas Dária disse devia se habituar com as dores da beleza. Em seguida ela lhe penteou os cabelos, dando-lhe volume, e usou um pó para esconder as primeiras espinhas que cresciam em seu rosto.
— Está linda, veja no espelho — a aia disse-lhe.
A Mayen Doraster que lhe fitava em nada parecia com a que conhecia. Parecia uma linguiça vestida com pompa. Os cabelos cor de noz selvagem queriam cair sobre seu rosto, escondendo-lhe o rosto redondo, o queixo franzino, o nariz largo e os olhos miúdos.
Mayen achava que o escultor que a esculpira tivera muita má vontade em sua concepção, guardando talento para esculpir os irmãos.
Tudo que conseguiu exprimir, observando aquela tentativa vã de beleza, foi um monocórdio e deprimente:
— É...
Mayen achou que o jantar se realizaria na sala de refeições privada do rei, adjacente a sala de reuniões e a sala do trono. Sentiu-se satisfeita por Dária tê-la conduzido para uma direção oposta, distante do Trono de Ouro. Nunca gostara da sala do trono e seu ar claustro e mortuário. Desceram um lance de escadas e seguiram por um corredor infindável, ouvindo os passos de Sar Edwird em seu encalço, escoltando-lhe em segurança. Perguntou-se quem naquele castelo teria a coragem de causar algum mal a filha da águia.
Cruzaram por diversos guardas, cavaleiros silenciosos, trajados com armaduras douradas que reluziam à luz dos archotes. Guardavam portas e corredores, pátios e passagens. Não é um castelo, é um vespeiro, pensou.
Um guarda abriu uma porta, reverente, e ouviu-se a melodia suave de um alaúde. Dária estacou diante do guarda e desvencilhou-se de seu braço, se achegando para o lado, abrindo-lhe passagem.
— Não virá comigo? — seu tom era quase desesperado.
— Não poderia, alteza. Tenha uma boa refeição, verei-te mais tarde em seus aposentos — respondeu a aia.
Mayen Doraster respirou fundo e adentrou o cômodo, esperando encontrar o pai a aguardando para o jantar, mas sentado à mesa, o único que a aguardava era o irmão detestado.
Urfain, pavoneado em seu gibão aveludado, com anéis de ouro a brilhar nos dedos e uma agulha de ouro a cair-lhe da orelha, sorriu-lhe com malícia. Seus cabelos eram negros como as sombras, conforme ordenava o sangue da águia.
— Irmã, que adorável surpresa, pensei que a muito houvesse morrido — ele disse, com um gesto caricato. — Parece um pouco... inchada. Vamos, sente-se, antes que estoure.
O bardo tocava em um canto da sala, solene como uma estátua. Mayen o reconheceria até mesmo na escuridão. Eruel, o Colibri era o que o pai trouxera de melhor para dentro do castelo.Mayen desviou o olhar quando o bardo lhe fitou e, hesitante, escolheu a cadeira mais distante do irmão. Um servo lhe puxou a cadeira e a empurrou quando ela se sentou.
— Coma um figo, estão magníficos — sugeriu o irmão, fingindo gentileza.
Enfie-os garganta abaixo e se engasgue, pensou.
— O pai... onde está?
— Sua majestade? O rei tem assuntos mais importantes a tratar do que nos dar o ar de sua graça, evidentemente. Não me diga que o esperava — ele riu de uma maneira artificial. — Ah, irmãzinha, és mesmo tão cômica quanto aparenta.
Dária, sua mentirosa.
Por um momento, sentiu-se atirada em um poço e deixada para se debater até perder as forças e afundar como um prego. Não se achava capaz de suportar Urfain sozinha.Mas, então, a porta voltou a se abrir. Virou-se abruptamente, esperando com todas as forças vislumbrar o pai, mas não foi um rei que atravessou os umbrais.
O comandante da guarda era um homem alto, com o rosto bem escanhoado, o queixo firme e um olhar de orgulho nobre. O cabelo cortado rente era preto, como se esperava de um Doraster.
— Urden!
— Alteza — ele fez uma reverência. — É bom revê-la. Como vão os estudos?
A verdade era que Mayen nunca dera grandes atenções ao que os mestres lhe ensinavam. Tinha pouco apreço por heráldica, história, contas...
— Excelentes — respondeu. — E como estão nossos domínios?
O cavaleiro franziu o cenho.
— Bem, até onde se espera. Surgiu mais um pretensioso "rei do povo" ao sul de Alta Tempestade. Não passa de mais um fidalgo com desejos de realeza, nada capaz de nos ameaçar, mas ele tem ganhado força e angariado a simpatia de algumas Casas menores.
— Estes tipos têm surgido aos montes desde que a Guarda da Manhã cavou um buraco e se enfiou dentro — disse Urfain de seu lado da mesa, refestelando-se com um figo. — Corte-lhe a cabeça e a de seus seguidores.
— Sim, alteza, logo chegará o momento que eu terei que tomar essa atitude. Mas esses parvos são como hydras, cortar uma cabeça só faz com que duas cresçam no lugar — retorquiu Urden Doraster.
Urfain cuspiu uma semente no prato e perguntou:
— Os domínios das terras trovejantes estão sob o estandarte do urso. O que o Lorde Highbear tem feito enquanto um usurpador conspira para tomar o lugar da águia?
— Alegado que Joshué, o Grifo, como se declara o patife, fora visto na verdade nos domínios dos Elgarden — disse Urden.
— E por que o Lorde Elgarden não toma providências? — Mayen perguntou, orgulhosa de si mesma por estar se envolvendo em assuntos do reino.
— Porque os Elgarden agora não passam de uma página nos anais da história, irmãzinha. Os dragões fizeram da abençoada cidade de Bersolar seu ninho. Onde tem enfiado a cabeça para não saber disso? — Urfain desferiu-lhe aquele sorriso enviesado e continuou: — Uma praga apropriada, por terem tomado o lado daquele clero de pombas brancas.
Mayen sentiu o rosto corar.
— De toda maneira — disse Urden, em tom régio — resolveremos esse entrave tão logo o rei me autorizar reunir uma tropa e marchar para Planalvos, Alta Tempestade, ou seja lá onde estiver esse canalha. O grifo de pau-oco cairá pelas garras da águia de ouro antes do próximo verão, garanto-lhes.
A voz do primogênito de seu pai tinha um efeito letárgico sobre ela. Se sentia inspirada ao ouvi-lo, muito diferente de como se sentia ao ouvir o outro irmão. Para ela, Urden era feito do mais reluzente ouro e Urfain não passava do mais baço cobre.
E eu, o que sou?
— Irmão, jantará conosco? — perguntou.Urden Doraster anuiu.
— Certamente, nem só pela espada vive um cavaleiro.
— Também pelo prazer do paladar e todos os demais, correto? — disse Urfain saboreando um morango.
O comandante da guarda real puxou a própria cadeira e retorquiu, com um sorriso amplo e iluminado:
— Pela família, irmão. Por quem luto e morro, se preciso for — voltando-se aos servos, disse: — Quando trarão alguma carne? Não somos esquilos para comer figos e morangos, somos águias.
Mayen riu abertamente, chegando ao ponto de sua traquéia fazer um som engraçado que divertiu Urden, mas acabou por dar munição ao irmão do meio.
— Engana-se, Sar Urden — inquiriu Urfain. — Nossa irmã certamente é um porco revestido em penas deixado a nossa porta para nos entreter.
E riu, como o pomposo irmão riu.
Quando o faisão assado e as tortas de frutas chegaram, tudo que Mayen queria era enfiar-se dentro de uma delas e fazer ali seu ninho. Mas isso apenas traria mais divertimento ao perverso irmão, por isso comeu moderamente e sem vontade, mais atraída pelas canções do bardo do que pela conversa que se arrolava entre os irmãos; conversa essa que não lhe dizia respeito.Até que em dado momento, as sombras que dançavam nas paredes pareceram tomar a forma de inimigos.
Sobressaltou-se, engasgando com a torta. Tomou um trago de água para empurrar tudo pra baixo e respirou fundo recuperando o fôlego.
Urden perguntou-lhe se estava bem, enquanto Urfain articulava mais uma piada infame.
— Apenas me engasguei — disse.
A música havia parado, mas assim que ela se recuperou, lívida, Eruel voltou a tocar.O bardo, ao dedilhar as primeiras notas da nova canção, lhe dirigiu uma piscadela discreta. Mayen sentiu-se nas nuvens, como uma verdadeira águia.
Mais tarde naquela noite, quando Dária lhe colocasse na cama e lhe perguntasse sobre o jantar, diria que fora magnífico e pediria para que convocasse o Colibri para lhe tocar algumas canções antes de dormir. Quanto ao pai, esperava vê-lo em algum momento, antes que algum mal recaísse sobre a família.
Por que tenho essa sensação de mal presságio? Perguntava-se. Os Doraster reinam há mil anos e reinarão por mais mil.
Fale com o autor