Eram quase dez horas da noite quando Ryan acordou, meio desorientado e esquisito.

Colocou os pés para fora da cama e ficou sentado por alguns segundos. Julie ia sair... Ele cuidaria de Anna...

Spencer.

Tinha um encontro. Haviam combinado 21h30, mas Julie aparentemente o deixara dormir mais um pouco.

Levantou-se e fitou seu reflexo no espelho interior do guarda-roupa.

Não podia descer daquele jeito, não com a possibilidade de Spencer estar lhe esperando.

Abriu as portas do lado direito e fitou as roupas do cabide.

Pegou uma blusa de gola V, depois abriu outra porta para escolher um jeans.

Deixou sobre a cama e foi tomar banho.

Ryan estava lavando o cabelo, quando ouviu um toque na porta.

─ Posso abrir?

─ Pode.

Enfiou a cabeça debaixo d’água para tirar o xampu.

─ O Spencer está lá embaixo.

─ Unhum. Você já vai?

─ Não, Nick não chegou ainda.

Houve silêncio.

Ryan abaixou a cabeça e viu Julie através do vidro embassado, ela o estava olhando.

─ Ei! ─ ele sorriu.

─ Desculpe ─ falou rapidamente antes de abrir a porta e sair do banheiro. Ryan enfiou a cabeça debaixo d’água novamente, quando a porta voltou a se abrir. ─ Eu gostei da roupa que escolheu ─ e fechou-se.

Ele não pôde deixar de sorrir.

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Já vestido e cheiroso, Ryan saiu do quarto.

Do topo da escada pôde ver Julie à porta. Já nos últimos degraus, olhou na direção dos sofás.

Spencer estava sentado num deles, uma perna cruzada sobre a outra, seu pé balançando suspenso no ar e um braço largado sobre a coxa, a mão tocando acima do tornozelo.

─ Ei! ─ falou Julie, fechando a porta. Ela tinha duas caixas de pizza nos braços; deixou-as sobre a mesinha de vidro, em frente a Spencer.

Ryan aproximou-se, recebendo um sorriso caloroso do outro e um aperto de mão.

No exato momento que suas mãos se soltaram, a campainha tocou.

Julie deu um tapinha na bunda de Ryan ao passar por ele e caminhou até a porta.

─ Desculpe fazê-lo esperar.

Sentou-se ao lado dele.

─ Tudo bem.

Ryan abriu uma das caixas para ver do que era a pizza, depois abriu a outra.

─ Ei! ─ chamou Julie, da porta. ─ Este é o Nick!

Ryan e Spencer deram um aceno para ele.

─ Licença ─ pediu Ryan, levantando-se. Foi até a porta, conversou um pouco com eles.

Julie foi ao sofá pegar sua bolsa; despediu-se de Spencer, dizendo-lhe para cuidar bem de Ryan.

─ Pode deixar ─ sorriu.

E logo eles haviam saído, um silêncio tomando a casa.

─ Vou pegar refri ─ falou Ryan, indo à cozinha.

Estava pegando dois copos no armário, quando Spencer apareceu.

─ Quer ajuda?

Ryan sorriu:

─ Pode levar a Coca e o guardanapo. Ah, eu nem perguntei se prefere outra coisa...

─ Não, eu gosto de Coca.

─ Okay ─ riu.

Pouco depois, Ryan foi para a sala com pratos, talheres e copos. Deixou sobre a mesinha de vidro e sentou ao lado de Spencer.

─ Sirva-se ─ disse a ele.

─ Você vai comer com garfo?

─ Na verdade, não.

─ Então eu também não vou.

─ Tá ─ deixou os talheres num canto.

Ryan ligou a TV.

─ Julie me disse que sua mãe é médica ─ comentou, largado no sofá com um pedaço de pizza na mão.

Spencer fez que ‘sim’ com a cabeça enquanto mastigava.

─ Está de plantão hoje ─ tomou um gole de Coca. ─ Você tem falado com seus pais?

─ Não ─ deu de ombros.

Conversaram enquanto comiam pizza, então Spencer pediu licença para ir ao banheiro.

─ Vou dar uma olhada na Anna ─ disse Ryan, levantando-se também.

Subiu para o quarto e entrou sem fazer barulho. Fitou Anna, que dormia tranquilamente no berço.

─ Me deseje sorte, Anna Banana ─ falou baixinho.

Encostou a porta com cuidado e entrou em seu próprio quarto para ir ao toalete.

Fitou-se no espelho. Até que não estava mal.

Inclinou-se para baixo na pia e lavou o rosto. Puxou a toalha branca ao lado e enxugou-se, depois escovou os dentes.

Olhou-se no espelho novamente, ajeitando o cabelo, então alisou a blusa, pronto para descer.

Spencer estava lhe esperando no sofá.

Nos próximos momentos os dois se encontravam em silêncio, movimentos cuidadosos e calculados, olhares de canto e espera.

─ Ryan...

O outro virou o rosto para fitá-lo. Lentamente os dois se envolveram num beijo.

Pouco depois Spencer fazia com que Ryan se deitasse, ficando por cima dele.

O filme ia passando esquecido na TV enquanto mãos e línguas trabalhavam no sofá.

Spencer sussurrou algumas palavras no ouvido de Ryan – que apenas sorriu – e chupou o lóbulo de sua orelha.

Agora ele atacava o pescoço de Ryan, ambos muito envolvidos e totalmente esquecidos do que se passava ao redor.

O toque do telefone fez Ryan abrir os olhos num estalo, de repente o som parecia muito mais alto do que de costume.

Os dois se desgrudaram rapidamente. Agora podia-se ouvir o choro de Anna vindo de lá de cima.

Spencer disse que cuidaria dela, Ryan agradeceu correndo até o telefone.

─ Alô? ─ falou, ofegante.

─ Ry?

─ Mãe?

─ Filho, você está bem?

─ Estou. Por que está ligando a essa hora?

─ Porque seu celular não atende!

─ Eu devo ter desligado...

Ouviu um suspiro do outro lado da linha.

─ Como você está?

─ Eu já disse, estou bem.

─ E sua prima?

─ Estamos todos bem.

─ Quando você volta?

─ Eu não sei se voltarei ─ falou, frio.

─ Mas você precisa! Aqui é seu lugar, é aqui que você mora, Ry.

─ Não. Atualmente meu endereço tem sido outro ─ revirou os olhos. Ela com suas frases clichês...

─ Ryan, volte e iremos conversar. Nós daremos um jeito.

Ryan suspirou cansado.

Minutos depois, Spencer desceu. Encontrou Ryan sentado no chão, encostado no sofá.

─ Ei... ─ sentou ao seu lado. ─ Está tudo bem?

─ Não muito... Obrigado por cuidar da Anna ─ tentou um sorriso.

─ Não tem problema ─ sorriu passando a mão no cabelo de Ryan. ─ Era sua mãe?

─ Era.

─ Você vai voltar pra casa?

─ Eu não sei.

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