Mayakashi

2 A Presença do Garoto


Capítulo 2: A Presença do Garoto.

Me wo akete nomikonda genwaku
(Eu abro meus olhos e me entrego àquela sensação)

Kowarete yukeru you ni
(Para que eu possa quebrar lentamente)

Há momentos na vida em que um homem fica dividido entre respirar e não respirar.

Axel, naquele instante, havia decidido pelo segundo. Se pudesse também controlar as batidas de seu coração (tão alto, droga), estaria mais seguro, mas...

Alheio à presença de um intruso naquele momento tão particular, Roxas continuava encarando a estátua do homem de longos cabelos ondulados e olhos benevolentes de divindade, cujas mãos estendidas exibiam as chagas de sua morte. Banhado pela argêntea luz do astro lunar, ele parecia até mesmo um daqueles tantos santos marmóreos.

— Eu não gostava dele... Odiava o que ele fazia em mim... Mas nunca, jamais quis matá-lo. Conheço a mim próprio o suficiente para saber que eu jamais seria capaz de... Mas, eu... Ele... Ele não me deu escolha. Não posso mentir e dizer que foi um acidente, mas... Ele não me deu escolha.

O ruivo não achou que aquilo estava acontecendo; tudo, por um momento, ganhou os tons baços e difusos de um sonho.

Imaginou se estivesse tendo um daqueles sonhos que mais parecem recapitulações ou relembranças, levemente (neste caso, extremamente!) editadas pela mente, essa coisa tão misteriosa inerente aos humanos. Mas não parecia sonho... Havia algo ali, algo muito errado, algo que simplesmente o fazia perceber que estava acordado.

E, então, percebia também que estava ouvindo um pecado. Uma coisa que não deveria jamais ter descoberto. Um fardo particular.

— Eu o matei... E, então... Só então, depois disto, depois que pedi por um exame de corpo de delito... Só então minha mãe acreditou em mim.

Um garoto estava ajoelhado em frente ao altar.

Um garoto que estava confessando para Deus, e somente para Ele, que havia cometido um pecado indelével. Uma coisa para a qual não havia nenhuma espécie de perdão. E o próprio loiro, somente pelo rosto — expressão que muito lembrou-lhe a de um prisioneiro encarando a corda onde será enforcado —, também sabia que era algo imperdoável.

Ele só estava, assim, confessando. Limpando, nem que fosse só um pouquinho, de sua alma. E Axel, inexplicavelmente, viu-se no meio de tudo aquilo.

Viu-se, então, importando-se com aquela confissão.

Porque os olhos azuis do garoto...

— Eu fui acusado de homicídio e quase fui preso. Cheguei a ser noticiado no jornal e, quem sabe, ainda exista por aí algum site que me mencione... Mas, como foi provado um caso de legítima defesa, eu fui absolvido...

...Eles não estavam mentindo.

Aquela história, por mais triste e apavorante que parecesse, era uma verdade tão absoluta quanto o fato da Terra girar ao redor do Sol.

— ...Mas, sabe... Deus... Eu não me senti feliz. Nem um pouco... Eu quis... Eu quis ser preso. Eu quis ir para a cadeia. Eu quis ser condenado à prisão perpétua, à morte, por aquilo que eu fiz...

Axel tocou em seu peito, sentindo o coração pulando como aquelas ovelhinhas em cercas dos desenhos animados.

Não sabia o que fazer. Pela primeira vez em muitos anos, desde o acidente dela, ele não sabia o que devia fazer.

Estava escutando a história secreta de um menino cujo corpo foi, durante muito tempo, violado, tomado sem seu consentimento. Um menino cujo corpo adoeceu (uma DST?, pensou o ruivo) por culpa daquela violência. Um menino que, sem escolhas, há um ano atrás assassinou a fonte de seu ódio.

O que fazer, o que dizer, diante de uma história daquele tipo?...

Axel não sabia, porque não imaginava (ou melhor, imaginava sim. Mas não era o tipo de coisa na qual se pensasse) que algo assim pudesse existir fora das TVs.

Grande inocência, a dele...

— Minha mãe me pediu muitas, muitas desculpas... Eu achei que ela nunca mais pararia de pedi-las... — Roxas continuou, num sussurro que reverberava, dado o silêncio do local, pelas paredes. — E, então, quando nossas vidas tinham finalmente acalmado um pouco... Minha mãe e eu nos mudamos para cá... Ela disse que queria recomeçar comigo, que queria esquecer... Nós dois... Mas...

Um silêncio hesitante, como se o menino procurasse as palavras que iria usar a seguir, deixou Axel em um estado onde ele, sinceramente, não sabia nem se ainda estava respirando. E, mesmo assim, o coração batia tão alto que o ruivo não sabia também como ainda não tinha sido descoberto.

— Mas eu não posso esquecer, Deus. Eu estou sujo agora... Sou um assassino... — ele expirou, tão dolorosamente que parecia que ia quebrar. — É horrível ficar naquela escola. Tenho medo que descubram que eu quase fui para a cadeia, que eu já matei... Tenho medo... Eu tento me afastar de todos, porque... Não acho que eles mereçam a amizade de um assassino. Não acho que eles mereçam serem sujos pelo meu pecado, algo só meu, mas... Há uma menina que fica me seguindo... E dói...

As mãos caíram, inertes, no chão, com um baque surdo, mas Roxas não pareceu notar sua própria dor.

— ...Dói. Porque, mesmo tendo o corpo de um assassino... Minha alma continua sendo a do menino que tinha uma vida antes disso... Sinto falta... Eu queria muito ter alguém com quem sorrir e conversar outra vez... Só um amigo bastava, mas... O Senhor sabe, não sabe? Eu não mereço mais isso...

Continuou observando a estátua marmórea dos santos, em busca de algum sinal.

— O que eu devo fazer agora...? Sei que sou um assassino e não mereço Seu perdão, mas... Só uma resposta. Só uma luz. É só o que peço, Deus...

Axel engoliu em seco, fechando com força os olhos.

Também sentia-se orando, mas para que seu coração parasse de bater daquele jeito. Iria ser descoberto se continuasse assim!

Não sabia o que fazer, nem o que dizer, nem sequer ainda tinha certeza se devia mesmo respirar ou morrer sem ar dentro do patético confessionário.

------ # II #------

Após o que pareceu ser o tempo mais absurdamente longo de sua vida, Axel viu um garoto de cabelos rebeldes e loiros sair da igreja, tão silente quanto entrou, e sem nenhuma das respostas pelas quais tão fervorosamente implorou.

O ruivo, em verdade, continuou parado no confessionário por também um longo tempo após a saída do outro.

Era como se o mundo tivesse dividido-se em dois em sua mente; de um lado, ele seguia em frente, rindo daquela situação absurda e indo para casa dormir (e, claro, avisaria Xion no dia seguinte para que ela se mantivesse longe daquele menino maluco). E do outro, o lado que justamente era a realidade que agora enfrentava, estava ali, patético, a respiração presa e o corpo rígido.

O ambiente daquela casa santa pareceu ser completamente tomado pelos lamentos do tal Roxas. Como se a casa, de fato, houvesse tentado não responder suas perguntas, mas aliviar suas dores.

Axel pensou, então, que ela podia aliviar as dele, também...

Porque aquilo... Doeu.

De uma forma estranha e inexplicável, mas doera ouvir a voz do garoto chorar, enquanto seus olhos nem sequer brilhavam.

Ele, daquele jeito, enquanto tinha na memória todas aquelas palavras que, certamente, iriam fincar-se em sua alma de um jeito que ele jamais conseguiria remediar, voltara para sua casa. Ao ligar a luz, a memória da luz dourada e bruxuleante das velas da igreja assaltou-o, e ele fechou os olhos, massageando a têmpora.

Não deviam ser mais do que dez da noite e, mesmo assim, ele se sentia exausto como se já passasse das três da manhã...

Havia, afinal, conhecido um garoto.

Um garoto que acusava-se um assassino.

Um assassino arrependido.

Um arrependimento confessado somente para Deus.

E um Deus que jamais ia ouvi-lo.

Apenas Axel o fez...

E o mesmo jamais poderia dizer. Porque não parecia certo; porque não era do que o menino precisava; porque ele sequer sabia como encontrá-lo outra vez.

Axel sorriu.

“Encontrá-lo outra vez”? Era seu complexo de irmão mais velho atacando de novo?

Não podia se envolver nos problemas daquela criança.

Roxas era... Perigoso. Ele era um vórtice: sugaria a todos ao seu redor, se acaso alguém se aproximasse. Rasgaria a lógica e envolveria quem quer que fosse para sempre em seu abraço cheio de dor.

Roxas sabia disso, provavelmente. E, por isso, estava sozinho.

Perdido e sozinho.

Porque nem mesmo Deus estava com os assassinos.

Quando percebeu, o ruivo viu-se sentado em frente ao computador, e a página que abrira pareceu se descobrir sozinha.

------# II #------

— Xion-chaaan~!

A inconfundível voz de seu irmão — sempre tão animado, como conseguia? — fez Xion tirar os fones de ouvido e desviar sua atenção da revista que estava lendo.

Sora chegou sem bater em seu quarto, um velho hábito que ele não parecia sequer perceber para consertar. No fim, a morena não se importava tanto assim como já ligou no passado. Aliás, naquela família, parecia ser uma tradição apenas varrer problemas para baixo do tapete e deixá-los assim, esquecidos.

— O que foi, Sora? — ela perguntou-lhe, sentando-se na cama.

O garoto e aqueles seus inconfundíveis cabelos rebeldes e castanho-aloirados (eles eram mais escuros no passado, mas parece que, junto com altura e feições um pouquinho mais maduras, Sora ganhara também uma nova cor de cabelo), entrara no quarto, o sorriso tão brilhante e vivo como sempre.

— Você esqueceu seu celular lá na cozinha!

— Ah — ela sorriu. — Esqueci completamente dele mesmo...

Entregando em mãos (as dele estavam meio úmidas. Provavelmente, Sora andara lavando a louça do jantar), o garoto ergueu a sobrancelha.

— Você recebeu um e-mail do Axel, aliás.

— ...E você bisbilhotou, seu intrometido? — Xion também ergueu a sua, mas ambos estavam apenas sorrindo.

Ela sabia que, por mais que preocupasse seu irmão-gêmeo aquele fato dela ser amiga de um universitário (“ainda mais um estranho como ele!”, completava o garoto), Sora não era do tipo que iria simplesmente vasculhar todos seus segredos.

Apenas dava todos os dias conselhos de auto-defesa (aprendidos de seu senpai, “Riku” ou algo assim) e a ordem expressa de voltar cedo para casa.

— Não! — ele afastou-se um passo, cauteloso. — Juro que não.

— Eu sei — ela colocou o celular sobre a cama. — Obrigada, Sora.

— Não precisa agradecer, Xion-chan.

...Em verdade, a menina sempre achou que sim, que devia sempre estar agradecendo e pedindo desculpas ao seu irmão por alguma razão.

Uma razão que ela bem sabia qual era, mas...

— Vá dormir logo, viu? Você tem aula cedo amanhã! — ralhou-lhe.

— Olha quem fala! — ele também riu. — Você também tem, Xion-chan.

— Tudo bem, vou só terminar isso aqui e vou dormir.

O moreno ergueu um pouco seu pescoço, tentando entrever aquele curioso amontoado de papel atrás da garota de pijama azul-escuro.

— ...Não está estudando?

Ela negou. — Hoje não.

Sora sorriu.

Um sorriso que Xion, desde muito tempo atrás, sentia como sendo o mais sincero e o mais doloroso que ele podia dignar-lhe.

— Essa é minha irmã!

Mas, ela apenas sorriu-lhe igual. Ou tentou.

— Tá bom, vai... Vá dormir!

— Sim, senhora!

E, dando meia volta, o garoto saiu (e não se esqueceu de fechar a porta, bom).

Suspirando, a morena pegou seu celular outra vez, imaginando que tipo de mensagem Axel podia ter mandado àquela hora da noite.

Ele geralmente estava já dormindo naquele momento (já que reclamava que estava sempre cansado), mas...

Erguendo, desta vez, ambas as sobrancelhas, Xion releu a mensagem, apenas para ver se havia entendido direito.

Insista, Xion. Insista até a exaustão.

E traga o garoto aqui, quando conseguir. Pizza grátis.

— Mas o que...?

------# II #------

A manhã havia chegado, mostrando os primeiros sinais de cinza no céu.

E, durante grande parte daquele dia, Xion estava satisfeita em apenas encarar (o mais discretamente possível) o aluno loiro, curiosa.

Havia recebido uma mensagem de Axel que pouco entendeu, mas que a havia inspirado, de alguma forma misteriosa, a tentar mais um pouco. Ela já estava “marcada” aos olhos do menino, mas agora que já não tinha mais muito a perder, sentia-se, mesmo que um pouco incomodada, melhor pensando daquele jeito.

Ele sempre parecia tão tenso.

Naquela manhã, como o habitual, também o estava. Os punhos fechados mostravam, aliás, um nível ainda maior do que o do incômodo normal.

Era como se só por estar ali na escola já fosse uma tortura, uma espécie de penitência.

Tudo bem, entendia que a escola era ruim. Haviam estudos, haviam professores tediosos e matérias que, às vezes, complicavam demais...

Mas não entendia, sinceramente, aquela aversão tão imensa, aqueles punhos fechados como garras, aqueles olhos que dardejavam tudo e todos, e lugar nenhum, tão indefesos e angustiados... Os olhos azuis — o mais belo azul do qual sua mente lembrava — de Roxas dançavam, sempre nervosos.

Procuravam qualquer meio, qualquer espécie de salvação.

Eles gritavam, tal como a alma do garoto, ‘quero ir embora daqui’. Foi a primeira impressão da morena sobre seu novo colega. Um garoto que ‘não queria estar ali’.

Não de uma forma normal, “saudável”, daquela forma entediada que todos os alunos demonstravam. Era uma angústia existencial, algo que vinha tão de dentro, de um dos recantos mais íntimos de sua existência, que fazia a espinha de Xion querer tremer. A aura dele a contagiava, infectava aquela sala toda.

...E talvez por isso ele não tivesse amigos. Mas, e disso ela sabia, ele não parecia sentir que estava perdendo muito.

Perguntava-se, então, o que ocasionava aquele imenso mal-estar?

Não parecia muito normal...

— Wilde disse, então, que “o assassinato é sempre um erro. Não devemos fazer nada de que não possamos falar à mesa de jantar”.

A aula de Literatura Geral estava em seu ápice, enquanto o professor com o tique engraçado de ficar puxando o tempo todo seus óculos, como uma bibliotecária femme fatalle, falava num tom inflamado. Ele devia gostar do que fazia, mas...

Roxas não estava gostando do que ouvia.

Xion percebeu os punhos de Roxas fechando-se com mais intensidade a cada nova palavra vomitada pelo professor.

— E, de fato — o mesmo ajeitou os óculos ao lugar deles, outra vez. — A violência contra o próximo, o assassinato, é o mais bárbaro e condenável dos pecados.

E surpreendeu-se.

O loiro parecia que estava sendo apunhalado por uma faca de açougue. Parecia estar sofrendo tanto quanto uma dor física permite.

A garota quase teve o impulso de levantar-se e avisar que o aluno Roxas estava se sentindo mal e, talvez, devesse visitar a enfermaria, mas...

Não. Algo na aura dele, de novo, a deixava receosa.

Era como se o menino estivesse querendo aquela angústia. Como se achasse que, de alguma forma, a merecesse.

A aula continuou daquele jeito, o professor e Wilde, Roxas e suas mãos fechadas tão dolorosamente.

Quando o sinal finalmente tocou, e o professor respirou profundamente uma última vez, dando por encerrada a aula e esperando a saudação tradicional dos alunos, Xion viu, pelo canto dos olhos, o menino loiro levantar-se quase que impossivelmente, como uma marionete cujas cordas eram comandadas por um desengonçado iniciante.

E, quando o homem retirou-se, ele voltou a afundar (melhor dizendo, despencou) em sua cadeira como se houvesse desmaiado.

------# II #------

Devagar, Xion.

Ela repetia para si o tempo todo, mas ele parecia tão frágil...

Um movimento em falso, e ele vai...

Tão frágil quanto uma menininha, quanto um filhote, quanto porcelana, ou o que quer que fosse a coisa mais delicada que sua mente concebesse.

Os últimos resquícios da luz alaranjada do sol iluminavam a sala, banhando-a em tons exóticos. Ela parecia extremamente melancólica naqueles momentos, enquanto o silêncio preenchia os corredores como miasma. Xion imaginava se não fosse assim a escola ideal de Roxas.

Ele arrumava suas coisas com vagar, como quem pensa em muitas coisas e em coisa alguma enquanto arruma. Coisas dolorosas.

Isso, quase lá.

Podia já ouvir a respiração dele.

Estranho. Roxas respirava forte, como alguém com medo... Será que estava mesmo se sentindo bem?

Ele sempre deu a impressão de alguém sempre doente, mas...

— Está tudo bem com você? — ela perguntou, então, ao se aproximar.

Não havia jeito melhor de começar, não é? Optou, então, por apenas verbalizar sua preocupação atual.

Surpreso com a voz que do nada apareceu ao seu lado, o loiro (até então distraído) se virou bruscamente e, outra vez, a menina de cabelos negros estava ao lado de sua classe.

Seus olhos, imediatamente, perscrutaram o recanto. Estava vazio. O sol alaranjado entrava pelas janelas, banhando ainda de uma dourada e rubicunda luz a escola quase vazia.

Roxas sempre esperava todos saírem.

Gostava de ser o último. Gostava de se assegurar estar sozinho.

...Ou melhor, não é que gostasse. Mas sentia que devia ser uma obrigação sua agüentar tudo sozinho. Era um fardo dele e somente seu.

Ninguém mais precisaria ter de agüentar a sua presença suja.

— Você...

— Durante a aula, você passou a maior parte do tempo encolhido, parecendo estar com muita dor — Xion observou. — Está se sentindo bem?

— ...Estou — ele respondeu, levantando-se num salto.

Sua mochila... Onde estava sua mochila?

Suas coisas já estavam ali dentro...?

Ele precisava correr. Não podia deixar que aquela menina se aproximasse. Ela não merecia. Ele não devia.

Ele não...

— Ei, hoje você está falando comigo — ela sorriu.

E, então, ele parou de respirar.

— Eu...

— Está mesmo tudo bem com você? — insistiu, preocupada.

— Sim... — Roxas assentiu.

Xion, então, permitiu-se sorrir, mais tranqüila.

— Desculpe por ficar incomodando você.

— Não, eu... — aquilo estava acontecendo mesmo? Ele estava conversando com uma pessoa, finalmente? — Eu também fui mal-educado...

Por que?

Ele havia prometido, não?

Que não ia mais incomodar ninguém.

Por que, então, estava falando com aquela menina?...

— Eu sou Xion. Você já deve saber, né, afinal ouve a lista de chamada todos os dias — ela estendeu-lhe a mão. — Mas enfim... Muito prazer, Roxas!

Por que?

— Prazer...

Mesmo assim, o loiro apertou aquela mão pálida.

E, pela primeira vez em um ano, sentiu-se feliz.

------# II #------

Havia um pensamento sempre cruzando sua mente, nas horas mais impróprias.

Por que?

Aquilo podia significar muitas coisas.

Às vezes, mais coisas do que Roxas conseguia lembrar-se.

Mas, naquele instante, enquanto caminhava pelas ruas de Ohme, sem saber exatamente para onde, uma nova nuance apresentava-se à sua mente.

Por que o matou?

Legítima defesa, como o tribunal alegou?

Ou, lá no fundo, naquela escuridão para a qual evitava olhar, ele sempre quis um banho de sangue para lavar sua honra?

...Será que sempre desejou o estigma de assassino que agora carregava?

Ele havia dado uma explicação muito razoável (razoável até demais, disse o psicólogo) para o doutor que enviaram-no durante o julgamento.

Havia dito que matou porque fora obrigado.

Porque ele sofria e a morte aliviou seu fardo.

Agora estava acabado.

...Um verdadeiro alívio, de fato. Seu corpo nunca mais foi tocado, seu espírito nunca mais foi machucado. Ele estava em paz com o mundo.

(Estava mesmo?).

Por um pouco de paz de espírito.

...Foi por aquilo que ele matou?

Não fazia muito sentido.

Porque, afinal...

A partir de então, passar a viver à sombra do medo e de memórias que ele gostaria de esquecer, ou até mesmo enterrar nos recantos de sua mente.

Foi para uma coisa daquelas que ele matou daquele jeito?

Ele matou apenas para fugir como um rato assustado de tudo e de todos?

Inocente ou culpado?

Branco ou preto?

Se ele matou apenas para viver e passar por tudo aquilo, sinceramente...

Roxas pensou que, afinal, teria preferido que seu padrasto continuasse vivo. Teria preferido a dolorosa ignorância.

Era uma nuance que, até então, não havia se apresentado daquele jeito.

Mas fazia todo um doloroso sentido...

— ...Mas já é tarde demais — suspirou, derrotado.

— Hum? — Xion virou-se, ainda segurando a mão dele. — Você disse algo, Roxas?

O loiro despertou, e sacudiu a cabeça veementemente.

— Não, não disse nada...

Em verdade, Xion ainda não conseguia acreditar que todo seu esforço havia sido recompensado, por isso, virava-se a todo momento para se certificar de que nada daquilo era uma ilusão: Roxas estava com ela, logo ali atrás, e sua mão gelada (estranho, ele passou pressionando-a a aula toda. Devia estar quente) estava na dela.

Um sorriso passou por seu rosto sem que ela tivesse controle, e para sua infelicidade, o loiro percebeu-o.

— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, então. Havia cautela em sua voz.

— Não — ela meneou a cabeça. — Por que a pergunta?

— Hum... — “É que você está só sorrindo desse jeito e olhando para mim”, ele quis dizer. Mas não queria afugentar a nova companhia. Não agora. — Desculpe, acho que foi só impressão minha mesmo.

— Não precisa se desculpar — ela deu de ombros. — Sei que às vezes pareço um pouco estranha, como você já deve ter notado lá na sala... Mas estou tentando me controlar.

Roxas baixou os olhos, não sabendo como dizer aquilo.

— Você não é estranha.

E Xion quase se sentiu corar.

— Não?

— Bom, talvez um pouco insistente demais, e às vezes bem direta, mesmo que sem querer, mas... Não estranha — completou.

Ela sorriu, e agora tinha certeza de que estava vermelha.

— Obrigada...

Roxas apenas assentiu, também se sentindo sem jeito.

E, virando-se outra vez para frente, Xion pensou, pela primeira vez, na vida que o loiro devia ter na capital, antes de vir para Ohme.

Será que tinha amigos no ginásio?...

Bom, é claro que tinha! Todos têm pelo menos um amigo nessa vida.

Mas, será que ele ainda ligava para esse amigo?

Roxas não parecia que ainda tinha algum elo de ligação com Tokyo. Parecia ter começado uma vida completamente nova por ali. Essa impressão, aliás, a morena teve desde o primeiro dia em que o viu, sendo apresentado pelo professor responsável.

Não que ficou muito satisfeita com aquilo.

Devia ser solitário não ter nenhum amigo em uma cidade diminuta como Ohme. A única opção, e disso Xion sabia por experiência própria, seria escola/casa.

— Roxas?

— O que? — ele, que até então tinha olhos distraídos e voltados para a paisagem, a olhou e respondeu prontamente.

— O que você fez no seu tempo livre?

Ele não pareceu entender muito bem, primeiramente.

— Você diz... Um hobby?

— É, tipo isso — concordou. — O que costuma fazer depois que sai da aula?

O loiro, se possível ficou ainda mais sem jeito.

— Volto direto para casa.

— É mesmo? — bem, Xion não se sentia lá muito surpresa. Apenas confirmara suas suspeitas da solidão do garoto.

— Sim... Já que não tenho nenhum conhecido por aqui. E minha mãe não gosta que eu chegue tarde — explicou. — Costumo ficar lendo. Mas, às vezes...

Ele calou-se, repentinamente, como se houvesse percebido que quase ia dizer alguma coisa muito errada.

Xion apenas sorriu mais um pouco, apertando sua mão corajosamente.

— “Às vezes” o que você faz? — insistiu.

— Bem, eu...

— Não vou contar pra ninguém, prometo.

— Às vezes, eu... Pulo a janela e fico caminhando por aí — suspirou, baixando os ombros em uma derrota visível.

A morena quase teve vontade de rir daquele segredo. Parecia tão grave para ele...

— No meio da noite? — mas ela se surpreendeu, de fato, um pouco.

— Sim — assentiu. — A lua aqui em Ohme parece bem mais bonita. E tudo é tão escuro e silencioso. Eu acho o lugar perfeito para ficar andando a esmo.

Não se agüentando, a garota riu. Mas, por respeito ao novo amigo, logo conteve-se.

— Não tem medo de alguém assaltar você ou te surpreender?

— Eu não... — Roxas pareceu sinceramente surpreso com aquela constatação. — Existem assaltos por aqui?

— Uma vez a cada dez anos — ela riu.

O loiro também viu-se rindo.

E, então, de repente, Xion parou diante de um estabelecimento.

— Pronto, chegamos.

Os olhos azuis dele observaram, detalhadamente, a pizzaria à frente deles. “Ora, então aqui tem um Pizza Hut!”, surpreendeu-se. Isso era bom. Não tinha visto aquele lugar ainda. Finalmente, alguma marca que ele reconhecia.

— O que vamos fazer aqui? — ele perguntou, achando sua própria questão estúpida. Mas estava mais interessado em ver o movimento lá dentro.

— Comer, ora essa! — Xion o puxava, com um sorriso no rosto.

— Mas... Não está muito cedo?

— Você costuma jantar mais tarde? — ela o questionou. Não havia pensado nisso; como uma pessoa da cidade, fazia sentido, porém.

— Geralmente, mas...

Não.

Ele tinha conseguido uma amiga e ela estava convidando-o para...

— Pode deixar que eu pago — ele disse, então, ajeitando sua postura.

— Mas eu é que arrastei você até aqui, Roxas... — Xion replicou.

— Eu sei. Mas eu quero pagar, por favor — insistiu o loiro. — Um agradecimento por você ter agüentado dois dias da minha má-educação.

A morena, então, viu-se sorrindo.

— Tudo bem, a conta é toda sua.

Enfim soltando sua mão, ela fez um sinal para que o acompanhasse e, antes de abrir a porta, alisou a saia negra do uniforme. Parecia alguém que estava pronta a fazer uma surpresa, Roxas pensou, mas deu de ombros. Xion era assim meio curiosa mesmo (e lembrou-se daquela sua conversa com Deus na noite anterior. Ele, que havia pedido um sinal, parecia que o estava recebendo agora; e o sinal dizia para não negar aquele momento).

Roxas a seguiu quando ela abriu e deu-lhe passagem, e sentiu um agradável cheiro de pizza. Uma nostalgia, dos tempos em que ele era um garoto normal e o maior programa de todos era convidar Hayner e os outros para sua casa para jogarem alguma coisa e pedirem pizza por tele-entrega.

Tempos que nunca mais voltariam.

E tempos os quais faziam-no sentir saudades e uma insuportável sensação de ter cem anos a mais do que realmente tinha.

— Ei, Xion-chan!

— Chegou mais tarde, hoje!

E, de repente, os funcionários estavam todos falando com a garota, que retribuía os acenos, como se os conhecesse.

(Não devia ser muito surpreendente isso, porém — Roxas só percebera isso agora —, uma vez que aquela era uma cidade pequena. Todos pareciam se conhecer. Sua mãe já havia dito isso à ele, e lembrava-se de que ela achou igualmente curioso um lugar assim).

— Você vem muito aqui? — ele perguntou, cauteloso.

— Bastante — assentiu.

— Não enjoa de pizza? — se bem que... Havia como enjoar disso?

— Por enquanto, não. Eu geralmente não venho para comer — ela deu-lhe uma piscada, encolhendo os ombros.

— Não? — Roxas quase viu-se boquiaberto. — Mas então...

— E aí, Xion? Conse...

E, mais de repente ainda, Roxas percebeu-se frente-a-frente com uma pessoa que o encarava diretamente, com os olhos mais verdes que já viu...

— ...Ei, vejo que conseguiu sim — ele pôs a mão na cintura, e havia algo de satisfeito naquele riso que dera.

— Oi, Axel — ela o saudou, e apontou para o loiro em seguida. — Viu só?

— E aí, Roxas?

...E que sabia também seu nome.

Notas finais
N/A: E como dizem por aí... "Antes tarde do que nunca". o/