Mayakashi

1 A Confissão do Garoto


Notas iniciais
N.A (08/07/2010): Poucas são as UA que realmente me atraem. Sempre, infelizmente, tive um bloqueio com relação a estas estórias, talvez originado do fato de que percebo as UA como sendo somente um “estupro” bem-aceito. Acredito que o In-universe de uma obra é rico e pode muito bem ser trabalhado sem precisar abusar de histórias alternativas que, infelizmente, distorcem (às vezes até demais) a personalidade dos envolvidos.

Entretanto, desde minha primeira fic do fandom, tenho igualmente um bloqueio com fanfics In-universe de “Kingdom Hearts”. Não é a primeira vez que fico ciente do fato, e durante o tempo em que fui escritora deste jogo, percebo que, muito provavelmente, recorro à muitas UA porque justamente sinto que o universo deste jogo é riquíssimo. Rico e completo por si só; ele não precisa de complemento. Ele se sustenta. Por isso, quando vejo que um autor consegue escrever algo In-universe deste fandom, in-character e afins, eu fico ao mesmo tempo orgulhosa e abismada. Tento, mas mais uma vez, não consegui fazer algo do próprio universo de verdade de “Kingdom Hearts”.

“Mayakashi” é, então, mais uma UA, com todos os ‘porém’ (o que eu acho mais condenável é, óbvio, o OOC) que uma UA possui. Perdoem-me por isso. Tentarei ao máximo minimizar as estranhezas, mas uma ou duas liberdades precisarão serem tomadas pela lógica do plot. Eu realmente peço desculpas de antemão.

Mas, porque nem tudo são apenas notícias ruins, chego à parte boa destas notas: “Bitter Virgin”. Desde a primeira vez em que botei o olho neste mangá, era um desejo secreto imitar a idéia básica dele: o mundo visto sob o ponto de vista do sofredor, daqueles ao redor do sofredor. Acho a idéia desta história maravilhosamente aproveitável, e unir dois universos que muito me agradam foi ao mesmo tempo desafiador (por causa da lógica) e prazeroso (por causa do angst).

Infelizmente, àqueles que acaso lerem o mangá após minha indicação, deixo aqui escrito que, sim, o primeiro capítulo de “Mayakashi” e o de “Bitter Virgin” são bem mais parecidos do que deveriam e eu queria que fosse só uma coincidência, mas não é. É mais como uma homenagem particular, acho. Mas as semelhanças acabam aí; meu desejo era, como uma UA, imitar apenas a idéia básica, mas não o plot. Reli apenas o primeiro capítulo para que a cena da capela (e me desculpem se isso for alguma espécie de spoiler. Mas não creio que seja...) ficasse verossímil, mas a partir dela, as duas obras tomam rumos distintos.

Porém, quero ao máximo manter a atmosfera delicada e tormentosa, de conflitos e espiral de desgraça que rodeou a história original, e passá-la para cá, mesmo com as devidas alterações do próprio fandom. E, enfim, espero que o resultado final os agrade. Esta é uma estória onde colocarei muito do meu esforço, então, estejam certos de que ao menos minha parte estarei fazendo.

Obrigada por todo o apoio.

Capítulo 1: A Confissão do Garoto.

Toki ni hada wo saku hodo utsuro
(Às vezes sinto-me tão vazio que minha pele se esburaca)
Zaratsuita kouzetsu
(E minha garganta se fecha dolorosamente)

Ohme não era uma cidade imensa ou maravilhosa — na verdade, era um pedaço tedioso de civilização. Tinha uma linha de metrô que, em menos de meia hora, levava para Tokyo, a Grande-Mãe, tinha um Ensino Médio bom e tinha internet. Para Axel, aquilo estava, apesar dos pesares, de bom tamanho.

Ao contrário da civilização, a noite de Ohme ainda mantinha alguns traços naturais que foram se perdendo em outros cantos do continente. Ainda se podiam ver estrelas no céu; isso já era um excelente começo. O ruivo gostava delas. Achava-as distraidamente fascinantes. Talvez porque, desde há algum tempo, elas fossem as únicas companheiras dele.

Não que fosse um isolado, longe disso — pelo contrário, ele tinha mais amigos do que pretendia manter. Mas, justamente por toda aquela agitação, era bom ter um momento só para ele. Olhar as estrelas, pensar na prova do dia seguinte (aplicada por aquele maldito do Ohkawa. Se houvesse algum professor pior que ele naquela universidade, Axel manter-se-ia uns bons e seguros quilômetros afastado do prédio onde ele lecionava), ou simplesmente estar sozinho. A solidão não é boa quando extrema, mas é bem aconselhável às vezes.

E, o bom daquilo tudo é que sua aparência ajudava um pouco em sua missão de manter-se sozinho quando ele queria. Afinal, não é todo mundo que tem coragem de se aproximar de um moço de cabelos ruivos e rebeldes — por mais que seus olhos, orbes de um verde esmeraldino e profundo, fossem um item único do pacote — com tatuagens abaixo dos olhos (em verdade, ele mal se lembrava porque as havia feito. Na época, pareceu divertido — mas, hem, muita coisa parece divertida na adolescência).

O problema só estava residindo no fato de que, às vezes, esta sua mesma aparência deveras brutal afastava os possíveis clientes (porque, afinal, ninguém vai parar e conversar até descobrir que, na verdade, ele era uma ótima pessoa por dentro). Seu chefe já dissera mais que uma vez para ele manter-se afastado da entrada quando estivesse na sua hora de descansar (mesmo que tivesse falado brincando), então, Axel usava a porta dos fundos e escorava-se na parede lá mesmo, porque afinal havia sim uma ponta de fato naquilo tudo.

Engraçado como em Ohme anoitecia cedo naquela época do ano...

Deviam ser um pouco mais de sete da noite, agora. Mas Axel não queria virar-se e conferir o relógio naquele momento. Continuou parado, os olhos fechados e a cabeça vazia (ou ao menos tentando escapar ao máximo de pensar no teste de amanhã).

Mais uma vez, ele abriu os olhos verdes, minutos depois, percebendo que foi em vão aquela sua tentativa de se desligar.

Se não pensasse nem que fosse em seus problemas universitários, iria sem dúvidas parar, de novo, na frente daquela porta de vidro, daquele lugar com cheiro de cheiro algum, onde pessoas de jaleco e óculos caminhavam sem olhar para seu rosto e moças vestidas de branco dignavam sorrisos velados e tão vazios quanto a consciência de...

Axel sacudiu a cabeça, deixando escapar um suspiro involuntário. Se fosse um fraco, certamente teria sucumbido ao vício do fumo. Por obrigação, havia experimentado o cigarro e não gostou. Talvez o fato de ter tido um parente que morreu de câncer de pulmão por ser um fumante tenha ajudado (porque, afinal, a genética podia ser bem sacana nessas horas — e, sem dúvidas, ao se tratar do ruivo, tudo que pudesse dar errado daria).

Mas, uma vez não sendo fraco e, em verdade, de vez em quando sendo até forte demais para seu próprio gosto (isso existia?), ele se contentou em considerar o próprio ato de viver sua fonte de distração.

Irônico como já estava se acostumando com uma situação com a qual, no início, ele não queria se acostumar.

Bem, isso no fim só estava provando mais uma vez sua...

— Axel.

Antes mesmo da menina ter se pronunciado, o ruivo já estava sorrindo numa antecipação tranqüila.

— Ei, Xion.

A garota, como sempre, ainda estava de uniforme escolar (e Axel invejava-a por isso. Na sua época — se bem que isso parecia uma frase de velho, e ele só tinha 20 anos, não era nenhum idoso por enquanto —, o uniforme não era preto). Trazia a mochila à frente do corpo, segurada por ambas as mãos, no rosto, um sorriso único dela.

— Deixaram você vir sem problemas hoje?

— Sim — ela assentiu. — Na verdade, não posso reclamar. Todos são muito legais comigo em me deixarem passar pelos fundos.

Axel riu, lembrando-se de uma conversa de três dias atrás.

— Já até acharam que você é minha namorada.

A colegial sentiu o rosto esquentar.

— M-mesmo...?!

— Aham — o ruivo riu outra vez (mas agora tentando se controlar — sem muito sucesso, claro) ao ver o rosto sem-jeito dela.

— Se bem que... Faz sentido, não é...? — ela pareceu ponderar, então. — Digo... Eu estou sempre vindo aqui atrás de você.

Ele, mais uma vez, encarou o céu, e percebeu que Xion fez o mesmo. A menina era órfã de mãe, até onde ele sabia; isso porque ela o conheceu bem no dia do enterro da mesma. Aquela garota que mais parecia que ia se atirar na frente do primeiro carro que passasse pela rua e esta que estava ao seu lado nem sequer poderiam ser consideradas a mesma pessoa. Prova de que Axel não era somente a única pessoa forte dali.

Mais de uma vez teve de desmentir os boatos e brincadeiras que faziam a respeito deles. Mas Xion não era, pelos deuses, sua namorada. Axel não era um pedófilo, até onde se lembrava (por mais que uniformes colegiais pudessem ser uma espécie de fetiche — e ele muito suspeitava que era isso que originou as conversas de seus colegas de trabalho).

Eram apenas amigos; a menina ficou muito apegada à ele desde que se conheceram. Disse que ele se parecia com um “irmão mais velho” (e, ironicamente, ela já tinha um irmão-gêmeo).

— Tudo bem — ele deu de ombros. — Já estamos todos acostumados com você. Além disso, você até compra pizza [1] às vezes.

E Axel, sinceramente, não se importava muito de continuar sendo aquele seu “irmão de brincadeira”. Xion era uma boa menina. Muito tímida e insegura (ele já lhe dera milhares de conselhos nesse aspecto), verdade, mas uma boa menina mesmo assim.

(E começava, de repente, a entender o porquê de acharem que ele era um pedófilo. Será que ninguém mais — nem ele! — acreditava em boas intenções por ali...?).

— Sora adora a pizza daqui... — ela concordou.

— É mesmo? — pensativo. — Talvez porque eu trabalhe aqui há tempos, mas... Tem vezes que até me enjoa ver tanta pizza.

A morena suspirou.

— Isso deve ser mesmo horrível...

— Ao menos, não é McDonnald’s — riu. — Ainda posso comer isso sem culpa.

— Mesmo? — Xion também o fez. — Será que seu bolso, no fim do mês, não fica nem um pouquinho triste quando você come um Mc?

Os olhos verdes reviraram-se, divertidos.

— Aquele dia foi uma exceção.

— Uma bem engraçada.

— Ah, é? Da próxima, vou fazer você comprar! E vou pedir um McLanche.

— Tudo bem, tudo bem! — ela sorriu. — Você venceu, Axel...!

Axel encarou o relógio. Ainda tinha alguns minutos ali fora. Foi bom, agora que percebeu, que Xion tivesse aparecido; ela sempre vinha àquele horário, mas naquele dia, tão distraído como estava, esquecera-se do fato (será que era por causa do teste, ou...?).

Não. Não importavam os motivos.

Enquanto durou sua luta contra aquelas memórias que ele reprimia para o bem da saúde de sua mente — uma luta que pareceu durar séculos —, Xion o encarou, os lábios comprimidos. Axel conhecia aquele gesto nervoso: sempre que ela queria falar algo, mas não sabia por onde começar, ficava daquele jeito.

— O que foi?

— Segui seu conselho, hoje...

As sobrancelhas (ou aquilo que ele chamava disso. Maldita genética, de novo) de Axel ergueram-se, numa aprovação inicialmente muda, e ele cruzou os braços.

— Não brinca — o sorriso quase que paternal voltou aos lábios. — E então?

Xion deixou a mochila no chão, parecendo envergonhada.

— Ele... Meio que me ignorou...

Tudo bem, Axel sabia que a morena não era a pessoa mais ativa e brilhante do mundo — era, pelo contrário, mais tímida do que deveria —, mas era uma boa menina e isso bastava. Não imaginava como alguém poderia ignorá-la, por bem ou por mal, já que sua presença sorumbática (ou algo do tipo) atraía a atenção.

— Quem é essa pessoa? — perguntou, verdadeiramente surpreso.

— Um aluno novo que começou este semestre... — respondeu. — Ele se mudou para Ohme há pouco... Veio de Tokyo.

— Da capital, hein? — suspirou. — Deve ter tido um motivo muito sério para ele sair de lá e vir para... Esse lugar! Qual o nome dele?

— Roxas...

— Bem diferente — comentou.

— Ele não costuma falar com ninguém, nem com os professores. Não fez amigos até hoje, então, pensei em ser amiga dele...

— E não deu certo, pelo visto — continuou, pensativo. — Ele parece ser mesmo bem diferente do tipo normal de colegial daqui...

(Será que era influência da cidade?, pensou nesta hora).

— Sim... Eu tentei falar com ele, já que é um aluno novo. O pessoal da minha sala já está anestesiado com minha presença e, então, achei que o Roxas fosse ser um bom começo... Do jeito que você me disse, Axel — ela suspirou, pesadamente. — Mas o Roxas me ignorou totalmente... Eu tentei falar com ele, ao fim da aula, mas ele pegou a mochila e foi embora correndo. Nem me olhou direito.

— Hum.

— Ele parecia bem tenso quando fez isso, mas...

— Não quer insistir, Xion?

Surpresa, a garota de olhos azuis pousou os mesmos no rosto pálido do amigo mais velho, sem entender exatamente o que ele quisera dizer.

— Hein...?

— Por que você, amanhã, não chega nesse tal Roxas de novo e insiste? Convida ele para irem... Não sei, em um karaokê, ou aqui mesmo — ele riu da propaganda inconsciente que fizera. — Acho que esse menino é tão tímido quanto você, isso sim.

A morena riu, um tanto nervosamente:

— Isso não é bom... Somos os dois desse jeito...

— Dê o primeiro passo — Axel aconselhou, descruzando os braços. — Acredite, vai fazer você e o tal garoto sentirem-se melhores.

Ela assentiu, parecendo pensar na alternativa. Era sempre assim; Xion, no fim, apesar de tudo, reuniria toda a sua coragem (que era bastante, o mais velho precisava admitir) e faria o que seu “irmão mais velho” aconselhou. Até porque, de acordo com as palavras dela, seus conselhos “valiam muito a pena”.

— Certo... — suspirou, enfim. — Amanhã, vou tentar de novo.

— Isso mesmo.

E, erguendo-se e limpando a roupa, Axel olhou para o relógio na parede de novo. Bem na hora de entrar.

— Bom, eu vou indo. Hora de trabalhar — revirou os olhos. — Vá logo para casa, viu? Seu velho deve estar preocupado.

— Ele não vai voltar cedo hoje — ela negou. — Mas o Sora deve estar...

Eu deixei o celular no silencioso... Se eu o pegar agora, provavelmente vou ter mais de cem ligações não atendidas dele.

— Seu irmão é uma figura, hein? — riu.

— Ele é... — concordou, também sorrindo.

------# I #------

Xion respirou profundamente uma vez. Expirou.

Duas vezes. Expirou de novo.

Fechou os olhos, e tentou respirar fundo uma terceira vez. Expirou o ar devagar, saboreando a sensação de ter seus pulmões livres do ar. E suas mãos tremera, também livres de qualquer coragem.

Axel havia dito isso, não é? Que ela devia insistir mais. A garota sabia do fato, também, mas era difícil. Muito difícil para alguém como ela, sem nenhum atrativo e cuja timidez só ajudava a piorar o que já era ruim.

Lembrava-se, como que marcado à ferro e fogo na memória, de como o aluno novo levantou-se, assim, sem nenhuma palavra, e correu para longe dela.

Nem sequer olhou para trás...

Xion ficara parada ali, na sala vazia, sem acreditar no que acabara de acontecer. Quase teve o impulso de se abaixar e recolher os cacos de sua coragem despedaçada.

Após aquela visita à Axel, na noite anterior, ela voltou para casa pensativa.

(Claro, antes disso houve seu irmão Sora, que jogou um sermão quilométrico nela quando a garota chegou em casa, sobre como uma menina não deve sair por aí sozinha à noite, e de como ele estava tão preocupado, e... Enfim, ela só ouviu mesmo até aí, mas concordava com tudo e pediu desculpas para o irmão. Ele era uma excelente pessoa, só um pouco cuidadoso demais — do tipo que mata uma flor de tanto regá-la).

Enquanto preparava-se para dormir, ela reviu seus passos naquela fatídica tarde onde foi totalmente ignorada.

Pensou, então, que talvez Roxas fosse mesmo uma pessoa tão tímida quanto ela, e não tivesse gostado (ou tivesse se assustado) de ver-se sozinho com uma menina estranha na sala. Ela sentiu-se muito envergonhada quando pensou nisso porque, minha nossa, fazia muito sentido aquilo...

Dessa vez, então, por consideração ao menino (e passando por cima da sua insegurança em relação à multidões), Xion estava tentando fazer amizade com ele no recreio, com algumas pessoas ao redor.

Talvez, fosse um ambiente um pouco mais encorajador, não é?

— Certo... — respirou fundo outra vez. — Desta vez, irei conseguir.

Caminhando com passos firmes, a morena aproximou-se da classe do novo colega.

Ele sentava-se mais ao fundo (e lembrou-se de ter visto algo parecido com alívio quando o professor, no primeiro dia dele, disse que aquela seria sua classe), e mesmo assim, tudo ali parecia ter vindo de outra dimensão.

O uniforme escolar era negro, mas ele usava alguns acessórios que deixavam suas vestes ainda mais... Qual era a palavra? Assustadoras?

Xion tinha certeza de que o perfume daquele menino chamava-se “solidão”. Porque era isso que ele exalava.

Roxas estava encarando a janela, sem necessariamente ver o que acontecia lá embaixo. Estava bastante pensativo; era uma visão ao mesmo tempo bonita e triste. Alguma coisa na aura do aluno novo forçava todos a afastarem-se dele; inclusive a própria morena. Mas ela tinha uma missão naquele dia. Não ia desistir tão cedo.

— Olá — ela o saudou.

Como quem acaba de ser baleado, o semblante do menino loiro contorceu-se num misto inacreditável de dor e horror.

Xion afastou-se um passo, temendo que tivesse pisado no pé dele ou machucado-o de alguma forma.

— Ah... Oi de novo. Ontem você fugiu — ela arriscou outra vez, agora sentindo muita da coragem de antes esfacelar-se como areia. — Então, Roxas... Não é? Você gostaria de...

Os olhos azuis do garoto piscaram, incrédulos.

E, então, ele levantou-se, num brusco movimento que chamou a atenção dos mais próximos. A colegial pôde apenas observá-lo, de novo, sem nem ele dignar-lhe nenhum outro olhar, sair correndo porta afora.

Roxas tinha até mesmo esquecido sua carteira na classe, então a desculpa de que ele havia só ido comprar algo com muita pressa lá embaixo seria uma completa mentira.

Ele havia fugido dela mesmo. De novo.

------ # I #------

Naquela tarde, o humor de Axel estava relativamente bom.

Tudo bem, o OL [2] estava cheio naquele dia, uma moça pisou em seu pé com um salto do tamanho do mundo (e doeu) e, claro, o trânsito até a universidade estava um inferno particularmente infernal naquele dia.

Mas, bem, era porque Murphy sempre disse que, quando você tem um compromisso importante, coisas ruins acontecerão.

O bom daquilo tudo é que o ruivo percebeu que suas preocupações eram vãs: o teste foi, na verdade, mais fácil do que ele imaginou (o que foi uma sorte, porque sinceramente ele não iria agüentar passar o dia trabalhando enquanto pensa na provável nota ruim que irá ganhar; se bem que já acontecera dele pensar que ia ir bem e, no fim, não foi). Ao contrário de Demyx, que ficou no seu modo “estou lamentando minha nota”, Axel fizera sua parte.

Mas, porque Murphy é Murphy, ele não teve tempo de almoçar depois da sua última aula e, portanto, estava com muita fome. E, quando estava com fome, o próprio sabia não ficar lá um exemplo de amabilidade.

Para a sua sorte, de novo (aquele ciclo de sorte/azar já estava começando a encher o saco, sinceramente. Seja lá que entidade estivesse brincando com ele, favor escolher logo o que queria!), aquela prometia ser mais uma daquelas tardes onde nenhuma viva alma entra, e o movimento começaria de novo só a partir das sete ou oito da noite. Uma tarde onde nem pareciam estar trabalhando e, sim, apenas aproveitando uma folga.

Axel gostava, particularmente, destes momentos. Principalmente depois de toda aquela irritação pela parte da manhã.

E gostava porque... Bem, já estava quase chegando o fim de semana.
E fins de semana significavam um momento a sós com ela.

Às vezes doíam, esses momentos, mas no geral, ele os aproveitava bastante. Fazia o ruivo lembrar-se do porquê estava ali, pelo quê deveria continuar batalhando todos os dias. E, principalmente, fazia-o perceber que, mais adiante, num futuro o qual nem ele e nem doutor nenhum podia dizer quando viria, tudo voltaria a ser como era antes. Não, seria tudo melhor. Ele sairia daquele lugar, os dois sairiam...

E, então, o sorriso de ironia brotou em seus lábios pálidos de novo. Tudo bem, sonhar era maravilhoso, mas por enquanto, ele continuava bem em Ohme.

— Ei, Axel!

A voz de um dos colegas de trabalho o chamou, despertando-o.

— O que foi? — ele voltou-se para o mesmo.

— Sua namoradinha tá lá fora!

— Ela não...

A meia-sobrancelha do ruivo ergueu-se, como quem cogita como deve matar a pessoa à sua frente. Mas, no fim, revirando os olhos apenas, ele dirigiu-se à entrada.

— Que seja.

Do lado de fora, Xion, encostada à parede, parecia triste por alguma razão. Bom, certamente ele não esperava encontrar uma menina tão certa quanto ela feliz quando, na lógica, ela devia ainda estar no colégio em uma hora daquelas.

— Xion — ele a chamou, numa saudação. — O que aconteceu? Por que está aí?

— ...Não deu certo de novo.

------ # I #------

Suspirou.

Axel estalou o pescoço, sentindo imediatamente os ombros reclamarem. Foi uma noite cheia, aquela. Típica de uma sexta-feira.

Por algum tempo, porém, antes disso, o rapaz tinha ficado com Xion, convencendo-a de que o fato daquele garoto estranho ter fugido de novo não foi culpa dela. Ele até deu o conselho de continuar tentando, mas ela pareceu hesitante. E ele, sinceramente, entendeu-a; não precisava nem ser tímido para se sentir amedrontado (ou até afrontado) com uma pessoa que foge duas vezes sem explicação de você.

Ao falar, só por cima por uma questão de privacidade para ela, do problema da garota, os rapazes até concordaram em deixar ela, uma menina tão bonitinha que ninguém deveria magoar, comer por conta da casa da próxima (e depois, ele era o lolicon...).

Ela falou qualquer coisa sobre usar a desculpa de que estava muito doente, e conseguiu ser liberada ao invés de só transportada para a Enfermaria. Axel suspeitava que devia ter a ver com suas boas notas; os professores sempre davam mais mimos aos bons alunos, em qualquer escola.

Mas, de qualquer forma, depois daquilo ela despediu-se dele e disse que iria direto para casa. O ruivo sentiu por não ter podido ajudar mais... Mas, melhor que isso, só socando o garoto que fez isso.

Os orbes esmeraldinos encararam a lua. Estava quase cheia. Esperava que até o próximo fim de semana ela pudesse estar imensa e brilhante; ele gostava dela daquele jeito. Era melancólica. Bem digna de um sábado solitário em sua casa, enquanto esperava um domingo que sempre o deixava nervosamente estranho.

Impressão sua ou, ultimamente, ele andava meio melancólico demais?

Um sorriso solitário nasceu, e ele o reprimiu em seguida. Devia ser mesmo efeito das “marés”. Ou só o estresse pós-teste-que-ele-achou-que-fosse-ser-horrível.

Axel, passou, então, pela frente da velha igreja, e parou.

A pintura estava começando a ficar desbotada, tanto a das paredes quanto a dos santos. Eles deviam cuidar um pouco melhor daquele lugar, verdade. Mas, ao menos, a grama era verde e bem aparada. A casa de Deus sempre teve uma aparência triste quando banhada de sol, mas pela noite, ela era um pouco mais assustadora mesmo.

Mas Axel gostava disso. Porque ninguém se atrevia a entrar numa igreja de noite. Principalmente naquela onde, até onde se lembrava de seu Ensino Médio, lendas sobre fantasmas corriam soltas.

Ele lembrava-se, também, de que ela adorava aquele lugar...

Nunca foi exatamente um católico, mas o ruivo decidiu, talvez por força da nostalgia, entrar ali um pouco. Quase pensou em incensos, mas então se lembrou que Deus não era chegado neles.

O ar abafado da igreja pareceu tremeluzir como luz de velas quando ele abriu a porta, que rangeu e ecoou por todas as paredes. O próprio ruivo temeu acordar alguém, talvez algum padre que morasse por ali (será?) ou algo do tipo com aquele som. Ficou parado, tenso, ali onde estava, as mãos firmemente agarradas à porta, mas ninguém veio. Nenhum ruído. Respirando de alívio, ele adentrou.

Algumas velas brilhavam no altar mais à frente. A única coisa, afora a própria lua argêntea, que fornecia alguma luz àquele lugar medonho.

Perfeito, pensou ele. Do jeito que gostava. Abandonado, assustador e melancólico.

O ruivo teve um impulso vergonhoso de ajoelhar-se em algum daqueles bancos e pedir a Deus para que ela voltasse logo.

Mas, claro, sua consciência renegou aquela idéia aos confins de sua mente instantes depois. Deus não iria ouvi-lo. Estava bem ocupado cuidando de assuntos mais importantes do que o dele (ou, ao menos, imaginava que estaria). E, por mais que lhe parecesse uma idéia fria e absurda, era a mais real de todas.

Censurando-se por aquela idéia ridícula de orar, Axel dirigiu-se ao confessionário, tocando na madeira gelada.

— Então, é aqui o lugar mais divertido da cidade.

Não seria mesmo uma má idéia ser um padre. Tudo bem, viria o vício em vinho, as gorduras extras, mas... Ele devia ouvir cada fofoca daquele povo todo. Aliás, será que alguém ainda fazia algo tão ridículo como se confessar hoje em dia?

Forçando a porta, ele a percebeu, para sua surpresa, aberta. Ora, o padre de Ohme estava ficando muito velho e esquecido.

Um impulso perverso, do tipo que chegava a coçar em si, de entrar ali dentro (mesmo que fosse noite e ninguém mais viria até aquele confessionário) foi reprimido a muito custo. Sim, era divertido e tudo o mais, mas não fazia muito o estilo de Axel ficar de brincadeira em um lugar do tipo.

Ele estava preparando-se para ir embora dali (“Lugarzinho mais chato, esse”), e iria voltar para casa censurando-se o tempo todo por aquele impulso ridículo de pedir a recuperação dela para Deus (que ridículo! Ridículo!), mas o som da porta da igreja o fez desistir imediatamente (e gelar-se).

Sem pensar, ele escondeu-se dentro do confessionário, fechando a porta com toda a delicadeza possível, para que o som da mesma não ecoasse e denunciasse sua posição.

Da abertura, o ruivo pôde ver uma figura menor que ele, de cabelos claros, caminhando pelo corredor central.

Banhado em luz, um adolescente loiro de uniforme escolar estava encarando o chão, como se não soubesse bem o que fazer naquele instante (Axel precisava admitir que estava daquele jeito também, mas apenas numa situação um pouco mais apertada). Ele reconhecera aquele uniforme como sendo do colégio de Xion.

Será que é um colega?” — pensou. Afinal, ele parecia ter também uns dezesseis anos. Não menos que quinze, fato.

(Pensando bem, por que ele se escondera ali dentro?! Era só ter ido embora normalmente, e poderia até ter dado um boa-noite ao garoto estranho que fica entrando numa igreja tarde da noite — se bem que, então, ele próprio também seria um estranho do mesmo nível... Mas, ao menos, um estranho não-encrencado. Até parecia que estava cometendo um crime escondendo-se daquele jeito!).

Finalmente parecendo se decidir (será que o menino ia demorar muito?), o loiro ajoelhou-se em frente ao altar, e Axel pôde ter uma visão mais próxima dele.

O rosto parecia muito triste. Ele imaginou que tivesse levado um fora de alguma namorada e estivesse agora sem rumo (mas entrar numa igreja e ajoelhar-se, francamente. Devia estar muito triste pra isso), ou brigara com algum dos pais. Ainda mais com aquela aparência tão... A palavra “emo” foi a primeira que lhe passou pela cabeça. Explicava muito.

— Eu gostaria de me confessar, Deus...

Axel segurou uma risada.

Só mesmo tendo a alma romântica de um caipira nato para vir ali se confessar para Deus no meio da noite, não para um padre à tarde, depois da missa.

Essas crianças, estavam decepcionando o ruivo cada dia mais!

— Eu não sou cristão, mas o Senhor pode me ouvir?

A cena era quase hilária, para ser sincero. Axel quase achava que, em breve, não iria mais agüentar-se e o menino descobriria seu esconderijo.

— ...Eu me chamo Roxas, Deus. Ah, talvez o Senhor já saiba disso... Mas enfim... Eu... Eu pequei, Deus.

Espere, ele dissera “Roxas”?

O tal “Roxas” que Xion estava tentando fazer amizade?

Bom (isso depois que o ruivo recuperou-se dos breves segundos de surpresa abismada), isso explicava muito. Ele, como um novato naquela cidade, devia estar explorando todos os recantos ou apenas bancando o esquisitão.

(Logo começariam a falar dele e o garoto perceberia que não era uma boa idéia).

Ironia do destino encontrar justamente o tal Roxas num lugar como aquele...

...E, pensando bem, talvez ser um padre não fosse assim tão divertido.

Devia haver um monte de histórias triviais e idiotas, como aquela que o rapaz teria de ser obrigado a ouvir agora (por um motivo ridículo, verdade — ele poderia ter simplesmente ido embora!). Só esperava que acabasse de uma vez...

— Eu cometi um assassinato.

...Para que pudesse ir para casa e dormir.

O que aquele menino tinha falado?

Ouvira direito?

Inconscientemente, Axel deu um tapinha em seu ouvido, não acreditando muito bem naquilo. Talvez fosse a distância do confessionário até o altar cheio de velas.

É, só podia ser isso...

— Quando eu estava no colegial, eu fui abusado por meu padrasto por muito tempo... E, um dia, fiquei doente por culpa dele.

Axel sentiu como se seu corpo tivesse, subitamente, se transformado em alguma coisa parecida com gelatina. Porque sentia-se flácido como uma.

— Mesmo assim...

E o silêncio daquela noite nunca pareceu-lhe tão horrível.

— Minha mãe não quis acreditar em mim quando eu disse que o culpado foi ele... E eu continuei sendo abusado, então.

Não. Estava ouvindo perfeitamente bem.

Ouvindo até demais.

A pessoa há poucos metros dele estava confessando algo tão surreal que Axel mal parecia sentir que ainda estava no mundo real.

— E, então... Há exatamente um ano atrás, hoje...

E, sentindo que aquela seria a pior decisão de sua vida, ele observou (ou tentou) o tal Roxas pelo espaço que permitia a porta do confessionário.

— ...Eu matei meu padrasto.

Notas finais
[1] Eu tinha muitas possibilidades de emprego para o Axel, mas essa de trabalhar em uma pizzaria é, como podem perceber, uma homenagem ao seu Casual Gear, em “Kingdom Hearts 358/2 Days”.

[2] OL é a abreviação da JR East Ohme Line, a linha de trens (dez, no total) que liga a cidade à Tokyo e outras localidades.