Maya e os Mistérios de Castelobruxo

13 Capítulo 13 - Férias na Bahia


Durante os meses que se seguiram, Maya, Hugo, Juan e Joana ficavam cada vez mais próximos e sua amizade fortalecia. O desempenho de Maya nas aulas de Defesa contra as artes das trevas e o trato de criaturas mágicas, tornou-se cada vez mais exemplar. Na herbologia, com a ajuda de Hugo se dispondo a lhe dá aulas particulares, os resultados da garota melhoraram bastante, chegando a receber até mesmo um "ok garota" do professor Robert. Maya entendia que era o mais próximo de um elogio que ela poderia receber do professor.

Durante o recesso de meio de ano, que acontece no período entre junho e agosto, Juan e Joana viajaram de volta para Argentina, para passar o recesso com sua família. Já Hugo convidou Joana para conhecer a Bahia.

— Você precisa sair da Amazônia um pouco. Ver o mundo lá fora. Tenho certeza que vai gostar de lá. Meus pais vão adorar lhe conhecer.

Maya ficou um pouco relutante no começo. Nunca teve muito contato com trouxas e nunca havia visitado cidades grandes. O máximo de contato que tinha com pessoas era na escola, nas aldeias indígenas e em alguns vilarejos próximos da floresta Amazônica. Sua avó, a diretora Dourado, também ficou um pouco relutante no começo, mas concordou em deixar a neta viajar desde que Tuka fosse com ela, para protege-la. Hugo se sentiu um pouco ofendido, mas acabou aceitando as condições.

Os alunos de Castelobruxo eram trazidos para escola por grandes barcos que cruzavam o rio e os levavam até o litoral do continente. De lá, alguns iam para suas cidades de carros, montarias voadoras ou pelo mar. Para chegar a Bahia, Hugo e Maya embarcaram em um navio que descia o litoral ate a região nordeste. Durante a viagem, Maya teve seu primeiro contato com trouxas que não eram de sua região. Hugo teve o cuidado de passar em uma loja de roupas, antes de embarcarem, e ajudou Maya a escolher uma vestimenta adequada para se misturar entre as pessoas não bruxas. A roupa da preferência da garota foi um longo vestido verde com estampas floridas e sua única bagagem era uma pequena bolsa de couro.

— Que lindo — disse Maya olhando para o oceano sem fim — eu nunca estive no mar. É tão grande.

— É sim — disse Hugo emocionado — Eu amo essa parte da viagem, quando estou vendo o oceano. Fico imaginando, como seria visitar outros países, conhecer outras escolas. Hogwarts seria a número um da lista.

— Tem vontade de conhecer a escola onde houve a guerra bruxa? — perguntou Maya.

— ah. Mas é claro. — disse Hugo entusiasmado — Foi lá onde o famoso Harry Potter estudou e onde ele derrotou o Voldemort. Eu soube que seus filhos ainda estudam lá. Daria tudo pra poder conhecer aquele lugar. É repleto de histórias.

— Castelobruxo também possui muitas histórias — disse Maya.

— Sim. Ainda estou lendo o livro sobre os mistérios de Castelobruxo. Queria muito encontrar a entrada para a masmorra obscura. Dizem que vários objetos valiosos estão escondidos lá.

— Olha só! Tem criaturas saltando ali! — Gritou Maya apontando para um grupo de mamíferos marinhos saltando ao lado do navio.

— Aquilo são golfinhos. São lindos não é?

A tristeza voltou a dominar as expressões de Maya ao notar que as criaturas se pareciam bastante com os botos. Hugo sentiu-se um pouco desanimado também e tentou distrair a garota levando-a para comer um x-burguer.

— Eu nunca vi uma combinação assim? — disse Maya segurando um x-burguer na mão. Sentada numa mesa de frente ao amigo que devorava o seus sanduíche — de que animal pertence essa carne? É de javali?

— Não... Não. — Disse Hugo de boca cheia tentando engolir um pedaço de seu sanduíche — Essa carne é de boi eu acho.

— Boi? Aquele bicho com chifres que os trouxas criam? Eles comem eles?

— Sim — respondeu Hugo — Eles produzem uma carne muito saborosa. Vamos experimente.

Com o olhar desconfiado Maya provou um pedaço do x-burguer, imitando a forma como Hugo comia. Ao saborear o sanduíche, seus olhos arregalaram.

— É muito gostoso! — disse a garota com ar de aprovação — Tem gosto de vegetais e carne e é macio.

— Eu disse que você já gostar — disse Hugo satisfeito tornando a morder outro pedaço.

— O que são esses coisas que os trouxas estão usando? — perguntou Maya olhando ao redor — Eu estive curiosa desde o primeiro momento que vi. Todos eles usam isso.

— Ah. São celulares — respondeu Hugo — eles usam para conversar com outras pessoas que estão distantes.

— E porque? Os trouxas não sabem falar com os que estão perto deles?

Hugo deu uma gargalhada e engasgou com um pedaço do sanduíche. Maya usou sua varinha, devolvida pela diretora no dia do funeral de João boto, para desobstruir a entrada da traquéia do amigo que, ao se recuperar, abaixou a mão da amiga.

— Não faça mais isso aqui — sussurrou o garoto olhando ao redor — Os trouxas não sabem que somos bruxos e não sabem sobre a magia. Usar magia na presença deles pode atrair a ação do ministério da magia.

— Eu sei que não pode. Mas de que outra forma eu iria lhe ajudar? — perguntou Maya ingenuamente.

— Nem tudo se resolve com magia. Enquanto estivermos entre os trouxas você precisa aprender a resolver as coisas sem o uso dela. Entendeu?

Maya fez um olhar de aborrecida e guardou a varinha dentro da bolsa de couro, voltando a comer seu delicioso x-burguer.

Tuka, a caipora, estava sempre por perto, porém invisível e quieta. Raramente aparecia para ver mais de perto algo que despertasse sua curiosidade, porém, estava aborrecida com a ideia de acompanhar a jovem bruxa indígena em sua viagem. Os trouxas não conseguiam ve-la, mesmo quando a caipora estava visível para Maya e Hugo, mas podiam notar os efeitos de sua bagunça. Coisas que caíam de repente, barulhos estranhos e objetos que pareciam revirar sozinhos.

Ao entardecer, Maya e Hugo desembarcaram na Baia de todos os Santos. Hugo levou a amiga para conhecer um pouco a cidade. Subiram o elevador Lacerda e Hugo mostrou o Pelourinho e o beco onde os bruxos baianos compram seu fardamento e os materiais escolares. Maya conheceu vários lugares onde vendiam produtos mágicos e também provou outra comida baiana dos trouxas, o acarajé. Mais tarde, foram até a loja de uma bruxa que vendia colares mágicos, era uma velha amiga da família Santos. Lá, usaram a rede de fluor para chegarem até a casa de Hugo, no interior. Uma região do serrado.

O lugar era bem isolado. A casa de Hugo era a única que podia ser vista naquela região. Ficava no alto de uma colina e sua estrutura era de pedra, como uma casa dos anos sessenta. Maya e Hugo surgiram rodopiando pela chaminé.

— Ah. Finalmente chegaram — disse um homem alto, magro e com um longo bigode — Você deve ser a senhorita Maya. Muito prazer, eu sou o Antônio, o pai do Hugo.

— Muito prazer senhor — cumprimentou Maya apertando a mão do homem — Hugo me falou bastante de vocês durante a viagem.

Uma bela mulher, usando um longo vestido amarrotado, com um olhar gentil e cabelos crespos saiu da cozinha e se aproximou dos jovens enxugando as mãos em um pano de prato. Maya notou que ela tinha a pele escura e olhos bem azuis, como Hugo.

— Olá Maya — cumprimentou a mulher sorridente — é um imenso prazer recebe-la em nossa humilde casa. Seja muito bem vinda.

— Essa é minha mãe, Célia — disse Hugo sorridente.

— Muito prazer senhora — cumprimentou Maya contente — Hugo também falou bastante da senhora. Agora sei a quem ele puxou. Sem querer ofende-lo senhor Antônio.

Todos na casa deram gargalhadas.

— Na verdade eu fico aliviado que ele tenha puxado a mãe. Se parecesse comigo seria horroroso. — disse o senhor Antônio chorando de ri — Fico feliz que tenha herdado as habilidades da mãe também.

— Ele me contou que o senhor é um trou... Quero dizer... Um não bruxo.

— O que é uma infelicidade. Pois se eu fosse um bruxo sairia voando em minha vassoura pelo mundo inteiro — disse Rindo.

— Já falamos sobre isso querido. Mesmo no mundo da magia existem leis. Você não poderia sair voando para onde quisesse — disse a Senhora Célia — Agora vamos jantar. Os garotos fizeram uma grande viagem, devem estar exaustos.

Já havia anoitecido quando Maya, Hugo e os pais de Hugo, sentaram-se ao redor da mesa de jantar e conversaram sobre a viagem e as aventuras que viveram na escola.

— Não sei se Hugo lhe contou — disse a senhora Célia entusiasmada — Mas eu também fui uma estudante de castelobruxo. Eu e meus colegas amávamos visitar as cataratas da escola. Costumávamos subir a trilha atrás da cachoeira do norte para brincar com os filhotes dos pássaros multicores. Ainda fazem ninhos atrás da cachoeira?

— Na verdade eu nunca fui nessa trilha — disse Maya envergonhada — Mas sempre vejo os pássaros multicores entrando e saindo da cachoeira do norte. Então acredito que ainda fazem Ninhos lá.

— Ah. Que tempos adoráveis. — disse a senhora Célia emocionada enquanto cortava um pedaço de bife.

Os dias que se seguiram, Maya conheceu muito sobre os costumes dos bruxos e dos trouxas naquela região. Durante a noite de São João, comemorado no meio do mês de junho, Maya e a família Santos foram até um vilarejo conhecer a festa junina. Havia muitas fogueiras, bandeiras coloridas, fogos de artifício e principalmente, muita dança e música. Muitas pessoas usavam roupas quadriculadas e chapéus de palha. Maya sentiu-se encantada com tudo aquilo e alguns fogos de artifício ela interpretava como magia dos trouxas. Muito da culinária da festa já era conhecido pela garota como o milho, amendoim e até alguns bolos.

Em meados do mês de agosto, Maya e Hugo voltaram para a cidade de Salvador, capital da Bahia, para embarcarem no navio que os levaria de volta a região do Norte e posteriormente ao Castelobruxo. Quando desembarcaram no litoral, Maya e Hugo sentaram-se em um banco para esperar o barco que os levaria pra a escola.

— Só um instante que vou ao banheiro — disse Hugo saindo às pressas de perto da amiga.

Maya ficou aguardando, sentada sozinha no banco enquanto olhava a movimentação de trouxas e jovens bruxos no porto. Um homem usando um casaco bastante comprido e um longo chapéu, sentou-se ao seu lado.

— Bom dia senhorita — disse o homem.

— Bom dia — respondeu Maya.

— É um belo dia para viajar hoje não é mesmo? — perguntou o homem gentilmente.

Maya fez que sim.

— E a senhorita está ansiosa para rever seus colegas bruxos?

Maya sentiu um forte arrepio ao ouvir essa pergunta e virou-se assustada para olhar o rosto do homem. Sentiu que algo sólido e retangular encostava em seu braço.

— Por favor, não faça nenhum alarde — disse Alberto — isso não é uma pistola de dardos, um disparo e você adormece em segundos. Eu não quero usa-la, apenas quero que me escute.

— O que você quer de mim? — perguntou Maya com um olhar feroz e o corpo trêmulo.

— Apenas quero que me ajude — continuou Alberto em tom sério — Você está com minha agenda. Imagino que a essa altura já saiba o que ela faz.

— Você matou o João, seu maldito! — disse Maya irritada se segurando pra não gritar.

— O que? — Alberto lembrou daquela noite no acampamento do vale — Fala daquela noite? Eu não matei ninguém. Nem participei do confronto entre bruxos e trouxas se quer saber. Eu fugi no meio da confusão e corri para a mata.

— A agenda foi destruída — respondeu Maya — tudo que restou dela foi uma folha. Um artefato mágico. Como você a conseguiu?

— Ah. Agora entendi. Você sabe o que essa folha faz?

— Me responda primeiro! — disse Maya.

— Tudo bem — disse Alberto mantendo a calma — a folha e a varinha de brasiliense pertenceram a minha esposa. Eu fui até sua escola em busca dela.

— Sua esposa? — perguntou Maya pensativa — então você é casado com uma bruxa?

— Isso mesmo — continuou Alberto — e quero encontra-la. Ela está no castelo. Encontre-a para mim. É tudo que desejo. Depois disso jamais pisarei próximo a sua escola de novo.

— Quem é sua esposa?

— Seu nome é Rebecca Garcia — disse Alberto em tom abatido — Quando a encontrar escreva meu nome na folha e me encontre na floresta. Estarei acampado nos montes ao sul da selva do silêncio — disse Alberto se levantando e se misturando a multidão.

Maya ficou pensativa, até que Hugo chegou e a garota lhe contou tudo que acabara de acontecer. Ambos então embarcaram no barco que subiria o rio e viajaram de volta a Castelobruxo.