Maya e os Mistérios de Castelobruxo

11 Capítulo 11 - Tiros e Feitiços


Estava quase anoitecendo. A floresta estava ficando escura e a fogueira do acampamento dos trouxas já havia sido acesa. A luz do fogo iluminava as barracas e o vale, e um grupo de homens estavam reunidos ao seu redor, enquanto outros patrulhavam a área. Ao lado das barracas haviam pilhas de caixas de madeira vazias, bagunçadas e jogadas pelo chão.

— Estou com fome — comentou um homem, armado com um rifle enquanto patrulhava — porque esse ensopado está demorando tanto?

— Esse cheiro gostoso já está me enlouquecendo — comentou outro homem que patrulhava ao seu lado — não comemos nada o dia inteiro.

— Culpa daquele maldito moleque. Se não tivesse libertado a onça.

— Aquela onça era nosso almoço? — perguntou o segundo homem surpreso — Eu pensei que era pro contrabando.

— O chefe planejava contrabandiar. Mas como não conseguimos caçar nenhum outro animal pela manhã e nem pescar, ela iria servir pro almoço.

— E o que colocaram no ensopado?

— Cutia, tatu. Pequenas caças que José e Tobias conseguiram mais cedo. O que me deixou decepcionado. Esperava que alguém tão experiente como José conseguisse uma caça melhor.

— Você ouviu isso? — o segundo homem se assustou e segurou o rifle com firmeza — Um estalo.

O outro patrulheiro também preparou seu rifle e andou em voltas olhando para a floresta escura.

— Acho que tem algo ali — apontou o segundo homem para um arbusto entre as árvores.

Um feixe de luz vermelho clareou seu rosto, seguido do som de um tombo. O homem virou-se assustado para o companheiro e o viu caído inconsciente no chão. Antes que pudesse emitir qualquer som viu um novo feixe de luz vermelho surgir em sua direção antes de tudo se apagar.

— Vamos, esconda-os — sussurrou João boto para os jovens bruxos — arraste-os para o mato.

Hugo e Joana puxaram os dois homens caídos pelos pés e os esconderam nos arbustos antes de seguirem João pelas margens da floresta, mantendo-se na escuridão. João fez sinal para que os jovens ficassem em silêncio e usou um feitiço para derrubar outro homem que estava patrulhando a margem leste e manteve esse método furtivo até derrubar todos os patrulheiros próximos a floresta, restando apenas os homens reunidos ao redor da fogueira. João colocou sua varinha próxima ao ouvido, o objeto assumiu a forma de um trompete apontado para as barracas.

— Ouço vozes vindas daquela barraca — Apontou João para uma barraca bem grande no canto Oeste do acampamento — Estão falando sobre bruxos e sobre um garoto de cabelos loiros.

— És meu hermano. — disse Joana ansiosa.

João fez novamente gesto de silêncio.

— Acho que ele está lá dentro — comentou João enquanto tirava a varinha do ouvido fazendo o objeto voltar ao normal — Hugo, prepare-se para fazer o sinal para Maya. Conhecem o plano. E já sabem, não deixem que os trouxas os vejam. Eles possuem armas, tomem o máximo de cuidado.

João passou abaixado pela escuridão e tentou se aproximar com cautela da grande barraca. Ao se posicionar ao seu lado, acendeu a ponta da varinha como uma vela e fez um pequeno aceno para Hugo e Joana. Hugo fez um movimento com a varinha apontando na direção dos homens próximos a fogueira.

Ventus— uma forte ventania soprou sobre os homens derrubando alguns que foram pegos de surpresa. A fogueira quase apagou.

Os trouxas levantaram assustados, pegaram seus rifles e andaram em círculos, mirando suas armas para as árvores.

— Que diabos foi isso? — perguntavam entre si — Isso foi obra das caiporas? O Doutor havia dito que os cachimbos funcionariam. Vocês entregaram todos?

— Sim. As caixas estão todas vazias. — disse outro homem assustado — Elas nos deixaram em paz durante o dia inteiro. Porque estão nos perturbando agora?

Os arbustos se mexeram e os trouxas ouviram o ronronar vindo do escuro. Assustados, apontaram seus rifles na direção dos arbustos e caminharam lentamente em sua direção. Um dos caçadores acendeu um iluminador e jogou próximo a mata. A luz vermelha do iluminador revelou a imagem de uma onça, com olhar feroz e espumando pela boca, fitando os caçadores, prestes a ataca-los. Os homens iniciaram disparos contra o animal que correu pelo acampamento, derrubando bancos, copos, garrafas, caixas, barris e barracas pelo caminho.

Dois homens saíram da grande barraca assustados com os disparos e se uniram aos demais na caçada pela onça. João aproveitou a oportunidade para invadir a barraca. Passou pela entrada e logo avistou o jovem Juan amarrado em um tronco. O bruxo se aproximou do garoto e usou sua varinha para desfazer o nó das cordas que prendiam o menino.

— Você é o Juan não é? — sussurrou olhando para o garoto.

— Sim. Quem é você? — perguntou Juan com o olhar cansado e a boca suja de sangue.

— Me chamo João. Sou amigo de sua irmã e de Maya e viemos tira-lo daqui. — sussurrou se levantando — vamos! Me siga!

Ao se virar João deu de cara com uma pistola apontada para seu rosto. Um homem bastante forte e de cabelo curto o encarava com um olhar agressivo e satisfeito.

— Largue a varinha bruxo! Ou farei uma mágica com sua cabeça, verá ela sumir! — disse o homem enquanto apontava a pistola com firmeza na direção de João.

João soltou a varinha, Juan pareceu apavorado e não se levantou de onde estava. O homem fez um gesto para que João se afastasse da varinha e ficasse ao lado de Juan. O homem se abaixou e pegou a varinha de João. Um outro homem, vestido como um pesquisador, entrou na barraca.

— Ah, olha só. Então realmente vieram salvar o garoto — Disse Alberto — Parabéns capitão. O senhor realmente entende das coisas — disse dando um tapinha amigável no ombro do homem que rendeu o bruxo — Sua estratégia funcionou perfeitamente. E olhe! Mais bruxos! — Apontou para entrada da barraca quando avistou Hugo e Joana entrando rendidos por mais dois homens armados com rifles.

— Estavam segurando esses gravetos senhor — um dos capturadores entregou duas varinhas a Alberto.

— Não são gravetos, mas eu entendo sua ignorância. — disse Alberto virando-se para os garotos — Essas coisas são armas. Armas que não somos capazes de usar. O que é lamentável. — Alberto fez sinal para colocar Hugo e Joana próximos a João e Juan.

Juan e Joana se olharam emocionados e se abraçaram ao se encontrar, mas não puderam demorar muito pois um dos trouxas os separaram. A barraca estava iluminada por lampiões. Havia uma mesa de madeira e quatro cadeiras a sua volta. Alberto puxou uma cadeira e sentou-se de frente para os bruxos.

— Então, jovens bruxos. Eu me chamo Alberto e como perceberam eu sou um trouxa, lá do jeito de vocês. Eu preciso de um de vocês ou todos vocês para fazer um pequeno trabalho pra mim. Se realizarem com sucesso, eu e meus homens iremos embora desse fim de mundo e não iremos expor sua antiga escola mágica. Caso contrário, iremos revelar seu mundo a pessoas mais ambiciosas que virão aqui e provavelmente queimarão tudo ao redor de sua preciosa escola.

— O que você quer? — perguntou Joana não conseguindo conter a curiosidade.

— Já ouviram falar de uma pessoa chamada Rebecca Gar..?

Um clarão iluminou todo o acampamento e um imenso calor invadiu a barraca chamando a atenção de todos que estavam lá dentro. Alberto virou-se e viu que o pátio e várias barracas estavam em chamas. Correu para fora e viu os homens atirando em todas as direções. Alguns flutuavam e caiam no chão, outros tropeçaram no vento, alguns eram arrastados por nada.

— O que está acontecendo com eles? — perguntou o capitão — Isso é bruxaria?

— As caiporas estão nos atacando — comentou Alberto.

A onça estava no meio do acampamento. Atacava alguns homens armados, derrubando-os, mordendo-os e nocauteando eles com patadas. Alberto olhou para a onça e que também o encarou. Maya reconheceu aquele homem, andou lentamente em sua direção e assumiu a forma de uma jovem índia.

Expelliarmus— a garota fez um gesto rápido e brusco com a varinha fazendo a pistola do capitão, ao lado de Alberto, girar pelo ar até desaparecer na mata.

O capitão se preparou para puxar uma faca mas foi impedido por Alberto que segurou seu braço.

— Eu conheço você — sussurrou Alberto para Maya — O guardião das ruínas. Ou melhor dizendo, guardiã. Não sabia que era uma garotinha indígena.

— Eu também conheço você — disse Maya apontando a varinha para o homem — Você invadiu o território do meu povo e tentou me matar.

— Não foi minha intenção atirar em você. Você é quem me atacou, eu me defendi. — Alberto olhou para a varinha na mão de Maya — Essa varinha não pertence a você.

— Também não pertence a você! — disse Maya. Ao seu redor o vale pegava fogo e os homens de Alberto estavam correndo ou atirando para as árvores — Você vai me dizer agora como conseguiu essa varinha e aquele papel.

— Papel? Que papel?

O fogo se espalhou e atingiu a grande barraca. Os homens que estavam lá, vigiando os bruxos, se distraíram e foram atacados. Alberto se virou e foi atingido por uma coronhada no peito por João. Quando Alberto caiu, João se apressou em tomar as varinhas de seus companheiros e as devolveu aos seus donos. Entrou em luta corporal com o capitão que havia o rendido, tentando recuperar a sua varinha, e gritou para que os jovens corressem. Alguns homens perceberam os jovens correndo na confusão e disparam contra eles.

Protego! — Gritaram Juan e Joana repelindo os projeteis disparados em sua direção.

Nebulus! — Gritou Hugo conjurando um nevoeiro ao redor do vale.

Maya apontou a varinha para o homem que estava lutando com João mas não lançou nenhum feitiço com receio de atingir o amigo. Por sorte, João conseguiu derrubar o capitão e correr, Maya o seguiu. Ambos estavam correndo em direção a mata quando ouviram um disparo em sua direção. João cambaleou na frente de Maya e caiu no chão. A garota virou-se e viu que o capitão havia pego uma arma e atirou contra eles. As costas de João ficaram vermelhas de sangue sobre o corpo imóvel.

Estupefaça! Estupefaça! — gritava Maya enfurecida pela dor e pelo ódio. Lançando feitiços contra o homem.

O capitão se jogava para os lados evitando os feitiços e disparava contra Maya, errando os disparos por pouco. Uma árvore flamejante caiu entre os dois e evitou que um pudesse ver o outro. Maya sentiu uma mão tocar em seu ombro e empurra-la para trás. Era o professor Tiago, junto com outros professores que acabaram de chegar no vale e, com suas varinhas, lançaram jatos de água nas áreas em chamas, alguns partiram para cima dos trouxas. A fumaça havia se misturado ao nevoeiro, Maya não conseguia mais enxergar e nem respirar, apenas ouvia barulhos de disparos de armas de fogo, sons de feitiços sendo lançados, galhos estalando com o alastramento do fogo e gritarias. Tudo ficava cada vez mais confuso até de repente escurecer de vez.