Maxwell Richardson E A Batalha Infernal
1 Algo cheira mal, e não é o cachorro.
Notas iniciais
Maxwell Richardson sempre teve uma vida conturbada, e apesar de que mesmo para ele estava acontecendo aquele raro período em que se tem um pouco de paz para seguir a rotina e ser você mesmo, mas provavelmente não duraria tanto quanto ele esperava. Ele andava na floresta em paz como sempre fazia, claro que muitos desaprovavam essa atitude, pois a floresta do acampamento meio-sangue com certeza não era um local seguro. Sim, o acampamento meio-sangue morada dos semideuses, e outros seres mitológicos, carregando histórias lendárias a alguns séculos, enfim.
Realmente era um local perigoso, devido aos diversos monstros espalhados por lá para treinamentos, aventuras ou simples suicídios dos campistas. Porém considerando que ele nunca ouviu muito a nada que outros lhe disseram isso não mudaria agora, além disso, ele precisava de algum tempo para pensar depois de tudo o que lhe acontecia. Entre as diversas diferenças que haviam entre Max e outros campistas, uma delas era que vários campistas moravam fora do acampamento e vinham nas férias de verão, já ele morava no acampamento e a partir desse ano, passaria o verão fora de lá com o seu pai, mas sua preocupação é que só vira seu pai pessoalmente uma vez, e foi um acontecimento um pouco estranho para ele, que temia o que viesse a acontecer em seguida. Mas seu pai apesar de ser quem era nunca pôde ser acusado de esquecer seu filho, dando-lhe vários presentes como seu chalé, o equipamento exclusivamente para ele e... De repente um barulho na floresta, Maxwell se vira, mas não teve chance de reação e foi derrubado. E então o que ele mais temia aconteceu, as três cabeças de seu monstro de estimação lhe lambiam e as patas pondo o forte peso sobre os ombros do semideus lhe impediam de evitar.
— Etairos! Etairos para! SENTA! — E o enorme cão de três cabeças sentou-se. Etairos fora o primeiro presente dado por seu pai, que foi criado exclusivamente para ele, sendo este uma versão em miniatura do próprio Cerberus, mas apenas este poderia chamá-lo de miniatura, pois de pequeno o cão não tinha nada, sendo que este chegava a dois metros de altura sem falar do peso e outras coisas mais.
Maxwell limpou seu rosto, apesar de estar feliz de ver seu cão. Etairos era completamente o contrário de seu dono, enquanto Max era fechado e sombrio, Etairos era dócil e extrovertido, tanto que mesmo para um cão de três cabeças ele era até querido no acampamento, brincando com os campistas mais novos enquanto não estava na companhia de seu dono. Etairos significa parceiro, nome dado ao cão por Maxwell, cujo motivo é auto-explicativo.
Max pensou bem e saiu da floresta, algumas lambidas lhe foram o suficiente para esquecer os problemas, pelo menos por enquanto. Ele parou no lago de canoagem para limpar seu rosto, ele se ajoelhou na margem, levando a água a sua face enquanto via as três cabeças de seu cão darem lambidas desastradas que jogavam água para todos os lados, porém saciar a sede de três bocas deveria ser mesmo algo complicado. Tudo estava tranquilo até ele ouvir um grito à distância e ver que está havendo algum conflito na área de chalés, duas cabeças do seu cão se levantaram e as orelhas mais ainda para ouvir enquanto a outra não se cansava de beber água do lago mesmo molhando tudo. E ele que já estava indo por aquele caminho, foi ver o que era, dizendo ao seu cão que ficasse ali.
Uma das habilidades naturais que Max mais gostava era a de poder passar despercebido por quase qualquer local que quisesse e funcionou dessa vez, pois na sombra entre o chalé de Hécate e o de Dionísio, ele se manteve fora da visão de outros, mas podia ver claramente o que acontecia ali, uma briga claramente injusta entre dois campistas enquanto os outros apenas olhavam. Não eram tantos, mas mesmo assim poderiam ajudar, apesar do fato de que campistas não costumavam se envolver em conflitos alheios, principalmente os que envolvem filhos de Ares como nesse caso, nem os próprios irmãos se ajudam pelo excesso de orgulho e mesmo que ajudassem, não era o filho de Ares quem precisava de ajuda.
O que ele viu foi o seguinte, um garoto magro se levantando com dificuldade do chão, ele usava um chapéu coco preto, tinha estatura média, mas não expressava muita firmeza ou força. Ele estava se levantando do chão.
— Eu já disse que foi um acidente, me deixa em paz! — Enquanto se recompunha ao mesmo tempo em que se afastava de seu oponente, um dos mais mal encarados filhos de Ares, Joseph Volkenzo . O sujeito era extremamente alto e branco, tendo o cabelo raspado e olhos claros como um perfeito soldado, às vezes tinha um leve sotaque russo devido à sua descendência, e tinha o péssimo hábito de sempre exibir seus músculos ao máximo, usando sempre camisas com um número um pouco menor que o dele. Ele parecia nervoso, cerrou os punhos e seu rosto ficou vermelho.
— Acidente?! Você jogou isso na minha cara, tem idéia de quem eu sou?! — Ele mostrou uma bola de vidro azul em sua mão, não, era cristal. Maxwell sabia identificar qualquer minério que visse e aquilo era uma bola de cristal, claramente o objeto que acertou o filho de Ares. O garoto gaguejava tentando se explicar.
— N-não foi de propósito... A magia de levitação deu errado s-só isso, não é tão fácil controlar... Me — meus poderes assim... — Ele dizia olhando para baixo. Naquele momento acontecia algo que provavelmente nunca tinha acontecido a Max antes, ele queria acabar com aquilo. Mas ele normalmente nunca se envolvia em assuntos alheios, ele mal falava com outras pessoas. Porém aquele conflito não era justo aos seus olhos. Porém se controlou e deixou que continuasse. Joseph gargalhou.
— Hahaha, é claro que não! O filho de uma deusa menor, mal deve ter poderes para controlar! Ainda mais uma deusa do mundo inferior... — Dizia ele enquanto se aproximava do campista assustado que apesar disso, pareceu se irritar com o comentário já não mais tentando se afastar do valentão.
— N-não diga isso da minha mãe! Hécate é uma grande deusa! — E nisso os dois ficaram a dois passos de distancia um do outro, frente a frente.
— Então você vai me enfrentar? Haha! — E num movimento com o punho pronto para socar violentamente o filho de Hécate. Max não se segurou, olhou para uma pedra que estava ao seu lado e com apenas um movimento de sua mão ela voou sozinha indo de encontro com o punho do filho de Ares. Impedindo assim que seu golpe tivesse sucesso, todos olharam de onde veio aquela pedra enquanto Maxwell saía das sombras. Joseph segurou o grito de dor ao ver Max indo na sua direção enquanto o filho de Hécate afastou-se ficando atrás de Max.
— Algum problema com deuses do submundo Joseph? — Max falava friamente, de modo que pôde-se perceber a reação de medo de alguns que estava em volta vendo a briga. Joseph recuou um pouco, mas não daria o braço a torcer somente por isso.
— Não brinque comigo, isso não é da sua conta! Se não... — Ele tentava demonstrar raiva e superioridade, mas o medo estava estampado em seu rosto. Max se aproximou um pouco mais.
— Se não o que? — Ele tirou os óculos escuros, Max os usava o tempo todo na verdade, alguns ali nem sabiam dizer a cor dos olhos dele pois Maxwell nunca tirava seus óculos ray ban, e também a jaqueta de couro preto sempre fechada por cima da camisa do acampamento. Mas Joseph agora conhecia os olhos frios e negros de Maxwell olhando diretamente para o filho de Ares que ficou quase que num estado de paralisia. — Não tente se fazer superior comigo, ou eu mesmo lhe mostro quem é inferior! — Max então colocou novamente seus óculos e foi andando, na mesma direção de onde veio sem olhar para trás ignorando quaisquer que fossem as reações do valentão acéfalo ou seu grupo de curiosos, assim não sabendo o que aconteceu depois de sua saída, passando pelo seu cão Etairos e o chamando para que o acompanhasse com dois estalares de dedo, mas enquanto andava ouviu mais passos do que apenas os seus ou os do seu cão. Mas já sabendo do que se tratava, ignoraria aquilo por enquanto, pois não era nenhuma ameaça. Ele caminhou então para a arena, pois depois da loucura que cometeu nada melhor que a sensação de matar alguém para acalmá-lo.
Max estranhou, mas a arena estava completamente vazia. O que na verdade o agradou, ele pegou duas espadas médias no armário de armas para treinamento. Seu cão se deitara no chão, um pouco entediado. Depois de um pequeno trabalho organizando alguns bonecos de treinamento, Max estava cercado por bonecos de treinamento empalhados com espadas e escudos de madeira malfeitos presos aos braços de cabo de vassoura, eram cinco no total.
Ele girou uma das espadas acostumando-se assim ao peso, respirou fundo, fechou os olhos e relaxou... Quando abriu os olhos, fez um rápido movimento para frente e um golpe de perfuração no escudo de madeira de um dos bonecos de treinamento, puxou a espada rapidamente para trás, derrubando o boneco e tendo o escudo preso em sua espada direita como ele planejou, esse mesmo escudo ele estourou na cabeça do boneco ao lado que caiu para trás. Faltavam três, virou com toda a velocidade, girando com as duas espadas destroçando o peito de um boneco, sem perder tempo rolou no chão e deu uma rasteira que derrubou o penúltimo boneco, perfurando sem dó o seu peito com uma espada, quando só sobrava um ele se levantou e de um modo tão rápido que para alguns seria difícil acompanhar com os olhos, ele cortou tanto o escudo quanto a espada de madeira do boneco com uma espada e a cabeça com outra espada. Que voou para o alto no impacto do golpe, e antes que se pudesse notar Etairos já tinha pegado a peça de pano recheada de palha e destroçava-a em pleno ar.
Quando ele olhou pelo vazio que a cabeça empalhada tinha deixado, reparou em algo que já tinha visto antes, mas pela distração havia esquecido. Já cansado daquilo ele segurou firmemente sua espada e a jogou com força na direção do corredor do portão de entrada.
— Aaah!!! — O filho de Hécate não era completamente inútil, apesar de ter sido percebido desde o início enquanto olhava o treinamento de Max escondido, pôde se defender da espada que vinha em sua direção com algum tipo de magia defensiva que fez a espada mudar de direção como se estivesse batendo em uma parede invisível em pleno ar.
— Se quer seguir alguém seja discreto, se é que sabe o significado da palavra... — Disse Maxwell calmamente, como se não tivesse acabado de quase matar o colega semideus.
— você podia ter me-me matado! — Dizia ele recuperando o fôlego pelo susto.
— Relaxe, eu não ia lhe acertar — Max continuava calmo e o campista se indignou.
— Mas é claro que você ia... — Ele foi interrompido por uma espada que veio tão rápido que ele não viu, mas que ficou cravada na parede a dez centímetros de sua cabeça. Maxwell ficou um pouco mais sério.
— Eu disse que não ia lhe acertar. — Depois disso o campista teve que passar pelo processo de recuperação de fôlego mais uma vez. Porém depois disso Max se sentou para descansar do treinamento e o garoto filho de Hécate o acompanhou. Max estava um tanto indiferente, não conversava com alguém já fazia um bom tempo, mas vendo por outro lado, seria bom aproveitar a chance de ter pelo menos uma pessoa com quem conversar. O garoto sentou-se ao seu lado, transpirando insegurança.
— E-eu sou Hector, Hector Smith, filho de Hécate. — O filho de Hécate apresentou-se a Max e lhe estendeu a mão em cumprimento. Max hesitou um pouco, realmente alguém queria lhe conhecer? Falar com ele? Bom, dentre tantas coisas que aconteciam no mundo que o cercava, não faria sentido duvidar logo daquilo, então ele arriscou e retribuiu o cumprimento de Hector apertando sua mão.
— Maxwell Richardson, filho de... — Ele não pôde terminar, pois o forte som de alguém abrindo com força e pressa o portão da arena. De repente entrava um sátiro apressado e ofegante, que entrou e olhou para os lados até ver os dois lá.
— Ah, o que estão fazendo aqui? Não souberam do acontecido? Os conselheiros de chalé estão sendo chamados para a casa grande! — A notícia surpreendeu em muito os dois campistas. — Bem... Eu tenho que checar outras áreas, todas as atividades do acampamento estão suspensas por hoje e todos devem retornar aos chalés! — E assim ele saiu da arena. Maxwell então se levantou.
— É melhor eu ir... — Hector parecia um pouco confuso, se levantou também.
— Maxwell, ele disse que apenas os conselheiros devem ir para a casa grande agora. — Ele parecia nervoso, um clima de tensão e maus pressentimentos tomaram conta da mente dos dois. Quando Max olhou para o céu viu nuvens cinzentas carregadas e escuras que se moviam muito rápido mesmo, e aquilo lhe confirmava o que ele já suspeitava. Algo muito ruim acontecerá e/ou talvez já esteja acontecendo e lhe envolveria. Ele respondeu a Hector.
— Devo me apressar então... — Ele continuava a olhar o céu. — Etairos! Para o chalé! — Ele deu a ordem ao cachorro que saiu correndo da arena, ele desceu da arquibancada enquanto Hector continuava lá. Antes de sair Max fez um ultimo comentário.
— E Hector... Vá para o seu chalé e fique lá, é o melhor a fazer pelo menos por enquanto. Até depois. — Max então saiu da arena, imaginando o que lhe esperava na casa grande, mas já sabendo que era obviamente algo grave.
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