Mau Presságio
1 Capítulo único
Não conseguia pensar que houve, por toda a sua vida, dia mais feliz do que aquele.
Houve, sim, dias felizes. Os dias em que estavam juntos. Eram pequenos nessa época e ainda havia o fato de a outra estar sempre por perto para atrapalhar. Fora, porém, feliz, mesmo passando por tudo o que passou (vieram a ficar juntos novamente quando adultos, mas aquela época foi conturbada demais).
Não se lembrava também de quando foi que começou aquele seu amor incondicional, desenfreado, desesperado. Nem de como começou, mas parecia-lhe que esteve sempre ali, desde tempos remotos. Amor que foi motivo de ódio e de lágrimas, mas também foi o motivo que a manteve de viva, em certas vezes — não fosse por ele, não teria motivos para continuar resistindo.
Agora era visível sua felicidade: não apresentava mais a expressão séria e emburrada que lhe era de costume.
Era quase um sorriso.
Quase.
Não é que não estivesse querendo sorrir, era que sorrir não era muito de seu feitio. Preferia guardar seu sorriso para si mesma, só mais um pouquinho, porque, mais tarde iria dar o sorriso mais alegre de toda a sua vida.
“Eu aceito.”
Simples assim.
Anos e anos se passaram e, somente agora, para sua surpresa, a união entre as duas nações fora aprovada pelo chefe de seu amado. [1]
Nada mais os impedia.
De agora em diante, seriam só os dois e mais ninguém. Tornar-se-iam um só.
Mais um pouquinho e seus dias solitários estariam acabados!
Só faltavam agora uns enfeites nos cabelos e, em breve, estaria no altar. A odiosa de sua irmã é quem estava lhe ajudando com os retoques finais e, pensava Bielorrússia, devia estar se mordendo de inveja por dentro. A vitória fora sua no final!
“Você está linda, minha irmãzinha! Nunca esteve tão radiante!”
Quanta falsidade dela.
Mas não deixava de ser verdade. Os olhos da mais nova brilhavam ao ver no espelho o vestido branco com o qual tanto sonhara. Caía-lhe tão bem!
E era isso o que murmuravam quando chegou a hora. Parecia uma princesa, uma bonequinha. Ela caminhava em passos nervosos para o altar, onde seu noivo lhe esperava, ansioso.
Nas fileiras de bancos, via gente com quem não simpatizava muito e mal falava, mas pouco importava, porque todos estavam ali, apoiando ela.
Estônia (nunca fora muito com a cara dele, mas o outro, o molenga, foi às lágrimas quando soube do casório) a levava pelo corredor da igreja, de braços dados, e Letônia carregava as alianças.
O noivo ajudou-a, quando chegou ao altar, estendendo-lhe a mão para que subisse o degrau. Ele tinha no rosto um sorriso tenro e seus olhos lilases encaravam os azuis dela como se, naquele mundo inteiro, ela fosse única. A única que amava e que era dele e só dele.
A bielorrussa esqueceu-se do mundo por um momento, perdendo-se no brilho dos olhos dele. Será que, por todo aquele tempo, ele havia recusado seu amor por lealdade ao chefe? Então, no fundo, ele desejava estar junto dela tanto quanto ela própria?
Ele já não vestia mais aquele cachecol pútrido que cismava em usar em todos os lugares, como se fosse um amuleto ou algo parecido. Sempre achou que ele ficaria mais bonito se parasse de usá-lo, mas nunca pensou que ficaria tão melhor sem ele. Vestia um terno branco com uns detalhes em violeta, que pareciam combinar muito bem com o rapaz.
O padre removeu o véu que cobria o rosto da noiva e entregou a cada um uma vela — costume tradicional do casamento russo, cerimônia que a própria Bielorrússia fizera questão de que fosse realizada. Depois disso, o sacerdote entrou num discurso no qual a loira não prestou muita atenção, porque atentava mais agora em controlar as próprias lágrimas, com medo de que sua maquiagem borrasse: não queria, de forma alguma, que Rússia a visse daquela forma.
E, quando chegou a hora de seu noivo responder a pergunta pela qual havia esperado pela vida inteira, sentiu o coração acelerar desenfreadamente.
“Eu aceito” — respondeu ele. — “Minha amada.”
Teve certeza de que foi ali que começou a chorar. Ele respondeu-lhe com uma voz tão aveludada e apaixonada, que não podia acreditar.
— Eu também aceito! — respondeu a loira, antes mesmo que o padre lhe perguntasse. — Eu aceito! Por Deus, eu aceito!
Chorou como uma criança, numa felicidade que não podia ser descrita em palavras.
E acordou.
“Pipipipi”. Sempre achou aquele despertador irritante, mas hoje o odiava com todas as forças do coração.
Esticou a mão até o criado-mudo. Alcançou o relógio e lançou-o numa das paredes do quarto, fazendo o barulho parar.
Sempre soubera que boa coisa não era, porque havia comprado-o na mão daquele sujeito esquisito de olhos puxados que seu irmão parecia gostar. (Imperdoável! Um dia, haveria de queimá-lo vivo numa petchka [2].)
Levantou e olhou-se no espelho da pia do banheiro, os cabelos ainda despenteados. Permaneceu parada por um bom tempo, sem saber a quem ou a que dirigiria seu ódio.
Parecia tão real.
... Tão real... Como em todas as outras vezes.
Arrumou-se e preparou-se para enfrentar o inverno lá fora e ir à casa do irmão. Ânimo! Faltava só mais um pouco para aquele dia se realizar.
Um dos chefes dele, o ministro Putin [3], andava falando com ela em tons bem amáveis e se mostrando bem favorável em relação à sua causa. E agora se declarara oficialmente a seu favor.
Só mais um pouco.
Já estava preparada para sair de casa, quando ouviu uma voz que lhe era bem conhecida.
— Aonde pensa que está indo?
Lukashenko. [4]
— Vou fazer uma visita ao meu irmão — respondeu, áspera.
— Sabe que não gosto de você andando com aquele sujeito, não é?
Bielorrússia, que até agora não o olhara diretamente, virou-se para encarar bem o chefe.
— Ele nos ajuda até hoje — sibilou.
— Eu sei disso, mas desperdiçar todos esses anos de luta para se manter de pé por nada é burrice.
Nada? Sabia que aquele homem nunca a apoiara, mas aquilo já era demais! Ele não sabia sobre nem um pouco de toda a dor pela qual havia passado
Empunhou, por impulso, a faca que sempre carregava consigo (porque era tão útil que nunca sabia quando ia precisar).
— E quem você acha que é pra mandar em mim?!
— O seu presidente.
Era verdade.
Abaixou a faca, derrotada.
— Você sabe que isto é um equívoco, certo? [5] — insinuou ela.
— Não tente mudar de assunto — respondeu, pronta e sombriamente. —Ei! Belarus! Volte aqui, ainda não terminei nossa conversa!
A bielorrussa apontou novamente a faca em sua direção, numa de suas tão famosas explosões.
— Cale a boca! Vou aonde eu quiser, quando eu quiser! Já tenho independência o suficiente pra cuidar do meu próprio nariz!
A porta da frente bateu, levando a loira consigo, deixando para trás um Lukashenko furioso.
Não adiantava falar com aquela garota! Era como brigar com uma filha adolescente!
Pensaria no que faria mais tarde, mas...
O dote que receberia, no caso de um casório, iria, de fato, resolver muita coisa, ainda mais agora.
Realmente, pensaria no caso.
E, lá fora, uma bielorrussa enfrentava o frio congelante do inverno.
“Espere só, meu irmão! Já estou chegando! Espere só mais um pouquinho!”
xxxxx
Em algum lugar do leste da Europa, um russo sentia um calafrio assombroso descer-lhe a espinha, sobressaltando-o.
Poderia dizer que era coisa do inverno russo, mas com este ele já estava acostumado.
Com mil demônios! Queria enganar a quem?! Aquilo era um mau presságio, isso sim!
Maldito Putin!
Notas finais
[2] Pechka é um fogão tradicional russo, anexado à parede.
[3] Vladimir Putin, atual primeiro ministro da Rússia, padrinho(?) da Bielorrússia e a mais recente causa dos sonhos mais pavorosos do Rússia(?).
[4] Aleksandr Lukashenko, presidente da Bielorrússia considerado o último ditador da Europa. Está no poder desde 1994 até os dias atuais. Ele é a favor da independência do país, mas, os bielorrussos estão passando por uma grave crise econômica agora, então...
[5] Lukashenko foi eleito pela primeira vez em 1994 e foi re-eleito em 2001. Há fortes indícios de que a re-eleição foi fraudulenta.
- Bielorrússia... o "mais um pouquinho" que você espera já passou do "pouquinho" há décadas atrás, mas... AGORA VAI! AÊÊÊ! O primeiro ministro da Rússia agora está a favor da Bielo.
- Agradecimentos a AnaMachado, que me passou a notícia que deu a ideia pra fanfic e betou (e eu JURAVA que era só eu que gostava de RusBelarus). E a lgirlsclub, minha beta de desde sempre (aw, L-chan... eu aqui sempre perturbando sua paciência).
- Ah, o link da notícia pra quem quiser dar uma olhada: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,putin-apoia-fusao-da-bielo-russia-com-a-russia,752824,0.htm
- E, só pra constar, o casamento tradicional russo não se parece nem um pouco com o da fanfic (nem um pouco), mas finjam que sim, certo? E o dote, se não me engano, é do noivo, não da noiva.
- E... alguém aqui já teve um despertador chinesinho? Daqueles made in China mesmo. Eles são irritantes. Muito irritantes.
- Enfim, espero que tenham gostado e que não tenham se incomodado muito com o tamanho das notas finais.
- Reviews? *-*
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