Matsu

1 Um — Wasureru


Notas iniciais
Esse é o primeiro capítulo de uma oneshot que deu errado e se tornou grande demais. A história faz parte do desafio de janeiro do grupo Caneta Tinteiro. Boa leitura.

Nunca nos esquecemos das coisas,
apenas nos deixamos de lembrar delas.

Os finos traços faziam curvas, sutis e majestosas, como o corpo gigantesco que cobria quase que por completo o papel. O lápis marcava alguns espaços preenchidos por novos rabiscos; outros apagados pela borracha jaziam esquecidos. A menina estava completamente concentrada na obra prima à sua frente. Mais um retoque de caneta em cima do que outrora fora só grafite, logo, todos os traços estariam feitos e a imagem do grande dragão estaria completa.

Exceto as cores; faltava-lhe tons de branco, talvez de dourado ou vermelho. Ogino Chihiro não sabia muito bem como pintá-lo, mas sabia que tinha de fazê-lo. Ao seu lado, estava o estojo com todas as cores possíveis de se encontrar até mesmo nas duas cidades próximas a sua.

Os dedos dela buscavam a cor ideal, passearam pelos amarelos, vermelhos e marrons. Nenhuma daquelas cores fortes e quentes servia para o desenho à sua frente. Vagou nervosamente com o olhar sobre as outras tonalidades, passando do branco para o cinza e depois ao preto, que faria as sombras do desenho. Nenhuma delas também!

Em seguida, seus olhos se perderam entre os tons de azul e verde, em uma cor específica que não sabia identificar em qual das duas cores se encaixava. Lembrava-lhe o cheiro do rio; também lhe trazia conforto.

Quando Chihiro levantou a mão para pegar o lápis, uma voz estridente ecoou ao seu lado:

— Ogino Chihiro! — exclamou contente a sua melhor amiga, Tomoko[1], enquanto se sentava à sua frente e admirava o seu mais novo desenho. — Você é tão talentosa, por que você não faz parte do clube de artes ao invés do clube de história? Seria mais produtivo para você!

Chihiro balançou a cabeça com um sorriso nos lábios, questionando-se se seria possível conseguir uma proeza daquelas. Sempre soube que era boa em certos tipos de desenhos, porém, se tentasse fazer algo além de sua capacidade, acabava sendo uma folha perdida e uma bronca por perder tanto tempo com algo banal.

— Você sabe que a Yoshiko-sensei não gostaria de alguém no clube de artes que não consegue desenhar um simples cachorro, Tomoko-chan. — A menina voltou a encarar o papel, contemplando a forma do belo dragão que tinha desenhado. As palavras saíram devagar, sem que Chihiro percebesse. — Ainda não entendo porquê desenho tão bem personagens mitológicos, mas sou um desastre em qualquer outra coisa.

— Eu lembro daquele cachorro que você fez, realmente foi terrível. — Ao dar uma risada leve, a amiga encarou a desenhista, que parecia cada vez mais perdida na obra fantástica que tinha feito. — Será que isso não ocorre por que os deuses são mais interessantes para você do que o que está aqui à sua volta?

— Eu não desenho todos os deuses bem, só alguns. Outro dia, eu tentei desenhar Izanami[2] e foi um fracasso completo. Eu percebi que o melhor que faço são dragões, eu não consigo entender o motivo, mas sempre vejo em sua beleza certa tolice e bondade.

Com o cenho franzido, a amiga se perguntou em que parte de um dragão Chihiro era capaz de ver aquelas características, mas preferiu se silenciar, observando a outra garota perdida em seus próprios sonhos e devaneios. Se estivesse certa em sua perspectiva, diria que Ogino já havia se perdido naquele mundo fantástico há muitos anos e, embora a sua forma física tenha voltado, ainda vagava pelo mundo dos espíritos.

Contudo, aquilo era impossível.

— Chihiro, faz quantos anos que nos conhecemos?

Parando de analisar o seu desenho, a menina fitou a amiga por algum tempo sem entender o motivo de ter sido questionada sobre aquilo, no entanto, para não perder qualquer segundo, passou a fazer cálculos mentais rápidos. Antes que pudesse parecer que demorava demais a responder, disse:

— Já estamos no último ano do kokou[3], cheguei quando tinha dez anos... — Levou o dedo indicador aos lábios, os olhos perdidos no vazio em uma expressão pensativa. — Acredito que tenham se passado sete, ou melhor, quase oito anos. Por quê?

— Porque você continua perdida do mesmo jeito!

Chihiro piscou algumas vezes, incrédula, antes de dar uma risada e depois outra. As duas, em uníssono, preencheram as quatro paredes da sala que, aos poucos, recebia os alunos de volta do intervalo. Nenhuma das duas era adepta de circular pelos corredores, embora, vez ou outra, Tomoko tivesse de sair para comprar algo para comer ou beber. Ogino, no entanto, quase nunca sentia fome ou sede.

— Eu não me incomodo de continuar a mesma — respondeu com um sorriso, o riso quase desaparecendo de seus lábios. — É sempre bom manter a jovialidade, não acha? Quando for uma velha chata, não reclame muito, Tomoko.

— Você também vai ficar velha, Chihiro! — reclamou a amiga, petulante. — Nós duas vamos ficar muito velhas, você vai ver! Tão velhas que não vamos conseguir nem mais carregar um livro!

— Credo, prefiro não chegar nessa fase!

Embora rissem, ambas pareciam carregar em suas costas a idade, os problemas e as perspectivas de uma vida repleta de obstáculos. Sonhavam com um futuro tão longínquo que, ao pensar nele, não conseguiam deixar de ver as responsabilidades bem à frente.

— Eu não me importo de chegar lá! — Levantou-se da cadeira, extremamente empolgada. — Serei uma médica e ganharei prêmios maravilhosos pelas minhas pesquisas acerca do corpo humano.

— Para isso não precisa escolher uma especialidade?

— Posso decidir no futuro, depois de cursar medicina por um tempo, sabe que leva muito, muito tempo — murmurou em um muxoxo, voltando a se sentar de frente para a amiga, com os braços apoiados nas costas da cadeira. — E você, vai ser alguma estrela da história ou alguma artista famosa? Você nunca diz sobre o que quer ser, mesmo quando a gente fica perguntando.

Chihiro abriu os lábios, sugou um pouco de vento e esperou os sons se formarem e se transformarem em palavras. No entanto, nada saiu. Por anos, tentava formular alguma resposta decente, ainda que tivesse tido mil sonhos e tenha desejado ter diversas profissões, quando questionada, nada saia.

Não é que a menina não tivesse ambições, sonhos e desejos. Ela tinha. Ela tinha como todos a sua volta, porém, ao pensar nisso, fragmentos de imagens vinham à sua mente e um desejo contínuo de abraçar alguma coisa vinha à tona. Contudo, Chihiro nunca sabia o que era, nunca soube quem era, pois conseguia reconhecer as formas humanas da pessoa.

Não olhe para trás; recordava-se.

Mas não olhar para trás do quê? De onde? Um suspiro profundo partiu dos seus lábios e a única resposta que conseguiu formular naquele período de tempo, foi simples e breve:

— Esperar.

Antes que Tomoko pudesse lhe dizer que sua resposta não tinha qualquer sentido, dois de seus companheiros de sala se puseram ao seu lado. Daichi[4], o mais velho entre todos da turma, e Atsushi[5], o seu vizinho e mais antigo amigo, apertaram os ombros de Chihiro, com um sorriso malicioso nos lábios.

O rosto fino e feminino se virou para encará-los, preocupada com o que planejavam às suas costas, literalmente. Nada de bom podia vir daqueles dois, sempre preparados para fazer algo preocupante e que chamaria a atenção dos mais velhos. Enquanto ela os encarava com o cenho franzido, Atsushi observava a beleza genuína de alguém que quase nunca usava maquiagem.

Não que fosse apaixonado por Chihiro, mas era nítido como ela era bonita, talvez linda fosse a palavra certa. Os lábios eram sempre roseados, quase avermelhados, e curvados sutilmente para cima; os cabelos praticamente todas as vezes presos pelo mesmo elástico, quando soltos, traziam madeixas onduladas e de um marrom mais claro que a terra; contudo, nada ultrapassava a pele clara e lisa como a neve e os olhos amendoados, oblíquos e sinceros.

Com certeza, Atsushi acreditava que Chihiro poderia ser uma das modelos mais bem-sucedidas do Japão. Principalmente, ao vê-la de pé e preocupada, com as mãos de Daichi em seu novo desenho, tentando tomá-lo para si. As curvas do corpo de Chihiro fugiam, em certa medida do padrão japonês que Tomoko se enquadrava tão bem, os seios eram um pouco maiores que o comum e os quadris, tanto quanto as coxas, um pouco mais largos – não era à toa que todos os meninos observavam os movimentos que a saia de Chihiro fazia enquanto ela pulava na direção do seu amigo.

Atsushi, preocupado com a atenção que Chihiro recebia sem perceber, tomou o desenho das mãos de Daichi, que estava distraído, observando as tentativas fracassadas da menina mais baixa que ele. Não que Daichi maldasse os movimentos da garota, mas claramente não desgostava deles.

— Atsushi! — exclamou o outro, irritado. — Não estraga a minha brincadeira.

Ao perceber o olhar agradecido de Chihiro, o menino se sentiu envergonhado. Ele não tinha feito aquilo para receber algum agradecimento, mas porquê lhe parecia injusto o que acontecia, ainda mais, o que o olhar via sem o conhecimento da garota. Recebendo um abraço apertado, viu Daichi encará-lo com malícia enquanto ficava com o rosto vermelho.

— Obrigada, Atsushi.

— Não foi nada, Chihiro — disse, sorrindo um pouco envergonhado. — Fiz isso porque achei certo.

Ela assentiu, sem prolongar o assunto. O amigo fez uma expressão triste em sua direção, como se Atsushi tivesse perdido alguma chance ou oportunidade de fazer algo. Contudo, ainda que soubesse o quão bela Chihiro era, também sabia que jamais teria qualquer chance com a menina que se sentava de novo e reposicionava o desenho de dragão na mesa.

Passaram-se anos e, em nenhum momento, ela pareceu querer alguma coisa com alguém. Em nenhuma vez, Tomoko comentou sobre seus interesses românticos ou ela percebeu qualquer investida a sua volta. Chihiro Ogino tinha o coração fechado para o amor – talvez porque já estivesse apaixonada por alguém quando chegou na cidade, com dez anos de idade.

Recordava-se daquela época. Não era nada além de uma menina quieta, madura e franzina. Os seus olhos sempre buscavam o céu, como se esperassem que algo viesse dali. Quando questionada o quê, nunca sabia, somente dizia que tinha que esperar. Mas esperar o quê? Tanto quanto a garota, nunca teve a resposta.

Sorriu, esperando que ela um dia encontrasse o que tanto queria.

— Atsushi, você parece que está com algum problema hoje — comentou Daichi, debochado. — Chihiro, Tomoko, que tal vocês virem com a gente em um passeio? Vai ser divertido!

— Um passeio? Com vocês dois? — questionou Tomoko, encarando o mais velho da turma com os olhos crispados. — Se vem do coisa ruim, boa coisa não pode ser; já dizia a minha avó; e, como eram raras as ocasiões, o meu avô sempre concordava.

— Lá vem a sábia se fazendo de esperta¹! — Daichi se abaixou o suficiente para encarar Tomoko de frente, mirando atentamente a expressão dela se desmanchar em escárnio. Assim que viu a amiga desistir de olhá-lo nos olhos, pois nunca fazia por muito tempo, sempre rindo em seguida, virou-se para a outra companheira de turma. — Vamos no túnel velho que dá para o parque temático abandonado. Você quer vir com a gente, Chihiro?

A menina piscou algumas vezes, antes mesmo que pudesse abrir os lábios para responder. Tomoko, com os punhos fechados, batia em um dos ombros de Daichi, que se afastou um pouco para encarar a amiga de Ogino.

— Você está louco? Você sabe que as pessoas somem naquele lugar e ninguém nunca mais ouve nem sequer falar delas! É extremamente proibido ir até lá! Chihiro, diga para ele que isso é uma loucura completa, que não podem ir. Eles sempre escutam você, não importa o quanto eu esteja certa.

A menina não respondeu de imediato, algo borbulhava dentro de si e sua cabeça latejava um pouco, com uma leve dor no centro do crânio. Ela entendia porquê os meninos queriam se desafiar naquele dia, naquele lugar. Era o último ano, um dos únicos dias que sairiam mais cedo, cada um tinha o destino traçado e uma universidade escolhida. Quantas chances a mais de cometer loucuras teriam?

Chihiro, não somente por aquelas razões, mas por algo muito mais profundo, estava tentada a dizer que sim. Ela queria ir naquele lugar. Contudo, antes que pudesse verbalizar seus anseios, a janela ao seu lado se abriu um pouco e soprou um vento estranho e reconfortante.

Seu prendedor afrouxou e o seu cabelo se soltou quase que por completo, fazendo-a colocar a mão imediatamente no penteado. Seu coração parecia acelerado, só não sabia se era pela adrenalina de dizer sim a algo perigoso; se era pelo vento estranho; ou pela possibilidade de perder o seu elástico precioso.

Quando comprou aquele elástico? De quem tinha ganho? Não lembrava.

Não disse nada enquanto arrumava, mais uma vez, o cabelo. Tomoko não insistiu, de novo, em convencê-la a jogar aquele prendedor fora; ela já tinha certa noção de o quanto aquilo era importante, mesmo Chihiro não sabendo explicar o motivo. Seus amigos, percebeu, eram muito compreensivos com suas maluquices.

— Vocês podem não ir, mas nós vamos! — Pondo a mão no peito, Daichi disse pelos dois. — Nem que seja a última coisa que façamos.

[1] Significa “criança sábia”; o que faz referência a fala dos amigos que vem a seguir.

[2] Deusa da criação e da morte, esposa e irmã de Izanagi.

[3] O mesmo que o nosso “ensino médio”, porém, para conseguirem entrar, os alunos precisam fazer uma prova de admissão como o vestibular.

[4] Significa “o grande primeiro filho” ou “grande terra”.

[5] Significa “cordial”.

Notas finais
Wasureru significa "esquecer".