Matsu

4 Quatro — Souguu


Notas iniciais
Olá e boa leitura. :)

A única coisa que era capaz de se lembrar bem é que nem sequer havia agradecido o auxílio de Zeniba, que preenchia os seus pensamentos como se sua voz estivesse presente.

Ela estava adormecida ainda, podia sentir que o ar era leve demais e seus movimentos estavam muito além do que poderia normalmente realizar. Por brincadeira, fez uma acrobacia no ar.

— Cresceu, mas ainda é criança.

Surpresa com a intervenção de seu sonho, Chihiro parou de se movimentar, esperando que aquela figura fosse somente uma brincadeira de seu inconsciente culpado, pois deveria ter a agradecido e não somente se embebido de recordações.

— Você não vai falar comigo? Achei que fosse mais educada, Chihiro.

Zeniba nunca tivera a oportunidade de chamá-la por seu nome até aquela noite, até momentos antes de atravessar pelo espelho. Quando contou a ela que não era Sen, lembrava-se da expressão maravilhada que a bruxa carregava.

— A senhora está aqui, obaa-san?

Com um sorriso nos lábios, a anciã respondeu com um aceno de cabeça. Logo em seguida, encarou o que estava em torno de Chihiro. Ela parecia ver um lugar além do mundo imaginativo da menina.

— Chihiro, lembre-se: o elástico é um objeto confeccionado por pessoas que se importam com você. Se precisar de algo em que confiar nesse mundo em que está, lembre-se dele. São os amigos que nos mostram a saída das piores situações.

— Certo, obaa-san, muito obrigada!

Antes que Zeniba pudesse partir, Chihiro fez uma longa reverência, em agradecimento por aquela mensagem e por tudo que já havia feito para ajudá-la. Mesmo que a agradecesse por horas, nunca seria o suficiente.

▬▬◘▬▬

Acordando de súbito, Chihiro percebeu que sua cabeça estava apoiada em alguma coisa fofa. Ela não soube identificar, até que percebeu a almofada cheia de ornamentos elegantes e em formato de dragões. O resto de seu corpo jazia acima de alguma cama feita de nuvem.

Aquilo pegou Chihiro desprevenida, era a segunda vez que pegava no sono desde que havia chegado a mundos que não eram o seu e, embora quisesse negar a si mesma, sentiu o seu estômago reclamar de fome.

Ainda que não tivesse dito nem uma palavra e nem se levantado, observou que, acima de si, aparecia uma dourada e bem esculpida bandeja de ouro cravejada com pequenas pedras azuis triangulares. Surpresa, observou que quem a estendia, em talvez uma oferta de paz, era o mesmo homem de cabelos arroxeados.

— Olá, hime[1].

Chihiro, o mais rápido que pôde, sentou-se e se empertigou o mais afastada possível daquele ser. O outro, por sua vez, observava-a admirado, sem perder qualquer movimento com os olhos escuros como o cair da noite. Apoiava um de seus cotovelos na braçadeira da poltrona rústica, tão dourada e cravejada de pedras quanto a bandeja que era oferecida.

Suas roupas eram tradicionais, um quimono escuro cobria-lhe quase todo o corpo, menos o peito que estava desnudo e visível aos olhos de Chihiro. Ele parecia tão encantado e perdido nas curvas da menina, que não a percebeu olhá-lo espantada e envergonhada.

— Quem é você?

Por um momento, o grande homem riu com tanto gosto que fez as bochechas, já quentes da menina, pegarem fogo. Contudo, a sua risada cedeu ao sorriso, assim que percebeu a verdade nas palavras da jovem: ela realmente não fazia ideia de quem ele era. Então, o que uma bela dama como a que estava em sua frente fazia ali?

— Meu nome é Watatsumi[2] — apresentou-se, respeitosamente, embora mantivesse um sorriso oblíquo. — E quem é você, hime?

A moça perdeu a voz por um segundo. Outrora, quando criança, embora ficasse perdida e assustada com as figuras que apareciam, ela nunca se sentia incomodada, pois não tinha muito noção de quem eram as deidades que encontrava.

No presente, Chihiro se sentia cada vez mais perdida.

— Você é o Ryuujin? O grande imperador dragão? — gaguejou, aturdida, sentindo que qualquer atitude sua poderia ofendê-lo, como a forma de tratá-lo, naquele momento. Contudo, recordou-se de um fato importante, acima dos demais. — O senhor não deveria viver no oceano?

Acenando com a mão, respondeu-a:

— Você sabe, os homens poluíram demais o oceano — afirmou, sua voz possuía um leve pesar. — Por isso, deixei tudo a serviço da Granmamare[3] e voltei para junto dos meus. Mas você ainda não respondeu a minha questão: quem é você?

— Meu nome é Ogino Chihiro — disse, reverenciando em cima do futon de nuvem, de tal forma que parecia se curvar diante de um rei, ou melhor, de um deus. — Eu vim em busca de alguém que é muito importante para mim. O nome dele é Kohaku. Nigihayami Kohakunushi.

O homem empertigou-se na poltrona, surpreso com a resposta cedida pela menina. Há muito tempo, o nome de Chihiro havia sido proferido naquelas paredes, mas tinha sido um sopro que mal se recordava, até aquele momento. Nigihayami era um de seus mais devotos, sábios e poderosos filhos, recordou-se de que ele, assim que chegou, agradecia imensamente uma mortal por estar livre das possessões de uma bruxa no mundo dos espíritos.

O nome dela era Ogino Chihiro.

A moça que possuía os mais sinceros sentimentos de seu querido filho.

— O que pretende com Nigihayami?

A pergunta tão direta surpreendeu a jovem, que deixou o ar sair pela boca antes de responder. Chihiro poderia dizer inúmeras frases, mas nenhuma carregaria completamente o sentido que buscava. Falar algo como amor, desejo de vê-lo ou que estava cansada de esperar não lhe pareciam suficientes. Se nem mesmo para a moça pareciam, poderia sentir que nada daquilo faria sentido ou seria o bastante para o homem bem à sua frente.

— Eu não sei — respondeu-lhe com franqueza. — Eu gostaria de vê-lo para decidir o que pretendo.

Um riso ficou preso na garganta do humorado deus dos mares. Ele poderia prever terremotos e maremotos, inclusive, tinha o poder de causá-los; mas nada se assemelhava a resposta que tinha recebido. Os olhos determinados da jovem pareciam completamente antagônicos às suas expectativas.

— Você deseja vê-lo, então?

— Sim.

Mesmo sem saber os desejos de um dos seus mais jovens filhos, para aquela menina era considerável atravessar todos os mundos possíveis somente para vê-lo. Nem mesmo um dragão seria capaz de se contentar com tão pouco, imagine uma humana?

Sem lhe fazer mais questionamentos, Ryuujin levantou-se da poltrona confortável que estava. Chihiro não parecia à vontade com sua solene presença, ainda que a bela jovem encantasse o viril dragão.

No passado, poderia tomá-la para si e fazê-la de espólio conquistado, porém, após tantas peripécias que seu filho tinha sofrido, até mesmo um pai nefasto se compadeceria de suas dores. Ele não seria diferente.

Contudo, se Nigihayami não estivesse interessado nela, não negaria a si mesmo os prazeres de que a carne humana poderia deleitá-lo. As curvas formosas seriam um deleite para seus dedos e seus lábios que se contentariam, ao menos que um pouco, em acariciar a pele alva.

Afinal, a melhor serventia dos mortais era, literalmente, servi-lo.

▬▬◘▬▬

As horas passaram como se fossem dias, os dias como se fossem meses. A comida veio somente três vezes, até aquele instante, porém, a Ogino sentia fome constantemente e especulava que estava presa naquela torre por, pelo menos, uma semana.

Chihiro não tinha certeza de fato, sentia suas mãos soarem e tremerem, seus pés não paravam quietos e tinha que contar de novo, porque – outra vez – perdeu a contagem do tempo. Ela estava tão ansiosa que o segundo poderia ser um ano e nem sequer perceberia que o exagero era seu.

Também não entendia como funcionava o tempo naquele mundo. Seus pais estariam buscando por ela? Os seus amigos lembrariam que não poderiam voltar àquele lugar? O que estava acontecendo e por quê, de uma vez por todas, Kohaku não aparecia para vê-la?

Engoliu em seco, sentindo seus olhos arderem. Ela começou a notar, pelo que podia observar à sua volta, que todos os seus esforços foram precipitados demais. Seus sentimentos começaram a digladiar com seus pensamentos em uma batalha tão atroz que, independente do vencedor, despedaçaria Chihiro.

Um sentimento de claustrofobia a alcançava nas alturas e, definitivamente, a jovem precisava escapar daquele quarto que mais parecia uma prisão. Foi somente no momento de decisão que percebeu o elástico, mais uma vez, brilhando em um roxo acetinado. Com mais força do que nunca.

Contudo, o que fazer com um elástico mágico?

A Ogino questionou-se enquanto mirava todo o ambiente, em busca de alguma saída que não lhe causasse alguma morte. Sair pela porta da frente seria óbvio demais, provavelmente, havia algo lá fora para impedi-la. Olhou para as únicas duas janelas restantes, uma que dava para a imensidão das nuvens e dos dragões e a outra, para dentro do castelo, ao que parecia, estar presa.

Chihiro sabia que era um castelo, ela havia visto pela grande e sinuosa janela, também cheia de ornamentos dourados e pedras preciosas azuis, uma parte da estrutura que se assemelhava e muito a um hirayamajiro[4]. Conseguia vislumbrar, do cômodo em que estava, os telhados em duas águas ornamentados com o que lhe parecia ser onigawaras[5], logo abaixo, em diversos gabletes daquele castelo em formato de torre.

Percebeu que toda a estrutura era quadrangular e a sua pintura branca, confundia-se, bem para baixo, com as nuvens. A menina não sabia onde começava a estrutura em que se encontrava, percebeu que também temia descobrir.

Suspirou profundamente antes de encarar a janela que ficava para dentro do castelo em si. Ao contrário das estruturas dos castelos japoneses, o que via ali era muito distinto, o espaço parecia pertencer a outra cultura. Chihiro suspeitou que fosse árabe, mas não tinha certeza, pois pesquisava muito sobre as mitologias e histórias de seu país e não, dos demais.

Entretanto, recordava-se de um filme que havia visto, fazia muitos anos. A janela era construída a partir de treliças de madeira que mais se assemelhavam a uma gaiola de passarinhos[6].

Chihiro definitivamente se sentia presa, sem qualquer capacidade de voar.

Agradeceu mentalmente que a janela auxiliasse o seu trabalho de fugir, pois ninguém do lado de fora poderia mirá-la enquanto escapava, somente se estivessem encarando. Sabia que deveria esperar o momento exato para abrir a ventana o suficiente para sair. Deu um sorriso leve ao perceber que, para facilitar mais ainda seu trabalho, a estrutura abria-se para fora e não, dentro do quarto.

Contudo, como faria para chegar a uma altura de, pelo menos, dois metros e meio? A moça observou tudo a sua volta, das cadeiras douradas até as mesas ornamentadas por joias. Seria um trabalho difícil, mas seria sim capaz de escalar.

Recordou-se, por um instante, de quando se encaminhava pela primeira vez para a fornalha de Yubaba, território de Kamaji. Suas pernas tremiam tanto que tinha receio de nem sequer ser capaz de chegar até o idoso de muitos e longos braços.

No meio de suas memórias, um bilhete de trem surgiu e fez com que mordesse os lábios, contendo o medo. Ela seria capaz de enfrentar quantos obstáculos fossem pelos seus amigos mais preciosos, ainda mais depois de se lembrar de quanto foi corajosa quando criança.

Chihiro ainda tinha aquela criança dentro de si, esperando ser libertada.

Pondo objeto sobre objeto, a menina esvaziou parcialmente o cômodo. Ela tinha receio de que aquela estrutura improvisada fosse incapaz de aguentá-la, porém, não queria pensar nisso. Subiu um objeto de cada vez, como se fossem degraus.

Subiu da mesa para a cadeira, do assento à bandeja dourada e, finalmente, para a outra cadeira. Somente mais uma bandeja e conseguia alcançar a janela! Respirou lenta e profundamente, antes de conseguir subir e, ao mesmo tempo, segurar no parapeito da abertura.

Tudo abaixo de si tremeu. A menina quis renegar que também o fazia, porém era impossível. Doeria muito cair daquela altura e, de todas as maneiras que pôde, mentalizou que tudo estava bem, segurando com força o elástico.

Não entendeu muito bem o motivo de tudo parar de chacoalhar, como foi incompreensível para ela o fato de, ao pegar impulso para subir, os objetos não terem caído um por um contra o chão.

Se tivessem entrado em queda, muito provavelmente, teriam feito um ruído tão exorbitante que até mesmo os dragões, que dançavam nas nuvens, ficariam curiosos para saber do que se tratava.

Engoliu em seco e respirou fundo ao perceber que deixou a janela se mover um pouco para fora. Se algum daqueles que a vigiavam e lhe traziam comida soubessem, o que aconteceria?

Entretanto, Chihiro se surpreendeu ao perceber que não havia vivalma no corredor. Crispou os olhos, desconfiada e esperando que algo saísse das sombras. Qualquer ruído era o suficiente para fazê-la mirar à direção que se encontrava o barulho e temer.

O mesmo ocorreu quando uma figura apressada surgiu no corredor.

[1] Significa o mesmo que “princesa”.

[2] É o lendário deus dragão da mitologia japonesa, que controla o mar. Também conhecido como Ryuujin, como será dito pela própria Chihiro.

[3] A personagem faz parte também do Studio Ghibli, sendo a mãe de Ponyo.

[4] Construção de castelos iniciada durante o Período Sengoku, no Japão. São castelos chamados de "montanha-castelos", construídos em colinas pequenas que eram capazes de proporcionar uma boa visão do terreno. Dentro desses castelos, o governo era administrado e também geria grandes exércitos, possibilitando as muitas batalhas que ocorreram no período. Da torre mais alta era possível vislumbrar todos os arredores do castelo.

[5] Ornamentos utilizados acima do gablete, ou seja, no encontro entre as duas águas no telhado da arquitetura japonesa.

[6] O nome é gelosia, era uma estrutura feita para proteger mulheres ou trancafiá-las, a depender do anfitrião.

Notas finais
Espero que curtam. :) "Souguu" significa o mesmo que: encontro, reunião, associação, festa, entrevista, juntar-se com alguém, tratar, entreter, receber ou lidar com. O significado pretendido aqui, no entanto, é "encontro". A ideia primária era pensar em verbo, mas como souguu é irregular, ficaria "souguu suru" para ter o mesmo sentido que "encontrar". Por estética, deixei como substantivo mesmo. :)