Matrimônio
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Victor Nikiforov tinha 27 anos e o mundo estava na palma de sua mão. Ele não era cego e muito menos inclinado à falsa humildade, então, apesar de não necessariamente se gabar, admitia a si mesmo e aos outros que era um homem charmoso, bonito e bem-sucedido. Para a Rússia era um herói, para o resto do planeta terra um dos solteiros mais desejados, no mundo da patinação artística era tido como um gênio e, para seus amigos e companheiros, era o divertido, por vezes desvairado, Vitya.
Em seus 27 anos de vida, porém, Victor jamais se apaixonou e não importava que estivesse no topo do mundo, fama e dinheiro nenhum seriam capazes de dar isso para ele. Nunca teve um amor platônico, um amor não-correspondido, um amor à primeira vista, um amor recíproco ou um amor da sua vida. Victor sabia associar a nomes distintos mais de 20 tonalidade de azul — Royal, Tiffany, Celeste, Turquesa, Cobalto, Ciano, Denim, Violeta, Capri, Klein, Índigo e por aí vai — poderia explanar com complexidade porque lã fria é melhor que linho para o verão, tinha na ponta da língua mais de 10 adjetivos negativos para a aparência do poliéster e uma opinião grosseira a respeito de estampa camuflada, mas não sabia o que era sentir indisposição, quase uma náusea, ao olhar o alvo de sua afeição, não sabia o que era a inquietação da distância ou o arrepio do toque, não importa quantos romances lesse. Aos 27 anos conhecia melhor o fundo do seu guarda-roupa do que o fundo do coração.
Aos 28 anos estava noivo.
Para o casamento pensava em lírios brancos e acácias amarelas, nude para as toalhas de mesa, porta-guardanapos dourados se enroscando como videiras no pano delicado com as bordas rendadas em motivo floral. Pensava na textura dos convites, na letra cursiva anunciando a união formal de Yuri Katsuki e Victor Nikiforov, no tapete vermelho que se estenderia infinitamente até o altar, onde Victor assinaria o papel mais importante da sua vida. Pensava em todos os amigos e familiares que ele e Yuri possuíam, quem seria mais adequado para ministrar a cerimônia, quem seriam os padrinhos ideais, como iriam organizar a despedida de solteiro.
Ele comentava cada detalhe ou dúvida que passasse pela sua cabeça com Yuri, ou Yurio, ou Yakov, ou Georgi e Mila, na verdade, com qualquer um que estivesse perto o suficiente para ouvir. Os ternos serão brancos. Ou off white? Ou brancos? Ou off white?
— Victor, talvez você esteja exagerando um pouco — Yuri lhe disse certa vez. Eles tinham acabado de treinar até a exaustão, como faziam quase todos os dias desde que Yuri se mudou para São Petersburgo, mas o cansaço físico não impediu Victor de falar por meia hora, sem intervalos, sobre pano rústico e a cor taupe enquanto eles tomavam uma ducha e arrumavam suas coisas no vestiário.
Yuri, claramente, não estava tão engajado quanto ele na decoração do casamento, Victor concluiu. Na verdade, Yuri não parecia se importar com nenhum tipo de decoração. No apartamento em que viviam juntos vários pertences e quinquilharias do japonês se espalhavam por todos os cômodos, mas sem qualquer ordem ou bom-gosto. Yuri não passava horas escolhendo cadeiras para a sala de estar, não se importava com as cores das paredes ou a simetria das janelas. Yuri chegava em casa com uma pintura de 800 rublos comprada no meio da calçada durante uma corrida matinal, decidia pendurar a dita cuja em um cômodo qualquer e para ele isso era decorar.
Yuri não se importava com decoração, com a moda, com redes sociais e nem em ter estilo. Estilo, para Victor, era o alimento da sua alma. Ou pelo menos ele pensara que era.
As primeiras semanas vivendo juntos foram difíceis, ele e Yuri eram, afinal, muito diferentes. Em verdade (e essa verdade Victor estava disposto a levar até o túmulo) se o dissessem, anos atrás, que viria a se apaixonar por um patinador asiático com ansiedade crônica e que vestia roupas de estações retrasadas, Victor teria gargalhado. Quando adolescente sempre se imaginara conhecendo a pessoa perfeita, talvez uma atriz famosa ou um membro da realeza e que iriam se apaixonar na primeira troca de olhares. Conforme o passar dos anos percebeu que algo do tipo jamais aconteceria. De fato, veio a conhecer muitas atrizes e atores, e até mesmo membros da realeza, o que nunca aconteceu foi o tal do se apaixonar, nem na primeira troca de olhares, nem na segunda, terceira, quarta, quinta...
Victor estava no topo do mundo, então por que será que se sentia no fundo do poço?
Ganhava medalha atrás de medalha, mas suas performances lhe pareciam mais e mais vazias. Deitava-se ao lado das mulheres e homens mais bonitos de qualquer cidade por onde passasse, mas todos lhe pareciam insossos. Seus perfumes e corpos, esculpidos à perfeição, vozes macias e trajes impecáveis falhavam todos na função de lhe cativar. No começo pensava que o problema era não ter conhecido pessoas interessantes o suficiente até que percebera que o problema não era ninguém além de si próprio.
— Para encontrar o amor é preciso se permitir, Vitya — dissera Georgi, anos atrás, mas depois de tanto tempo se dedicando exclusivamente à arte e ao esporte, Victor não sabia como o fazer. Deveria ler mais poemas? Fazer juras de amor? Escrever cartas floreadas com vocábulos extensos e inusitados? Não se sentia criativo o suficiente para tal, para ser sincero.
Sentia-se cada vez menos inspirado. Cada vez mais só. E de repente Yuri Katsuki.
Não sabia explicar, quando o perguntavam, o que via em Yuri Katsuki. Por falta de melhores palavras que definissem seus sentimentos, dizia:
— Belo, benevolente, o melhor, o mais talentoso, um milagre que acaricia toda a humanidade com sua presença, absoluto, pleno, divino, a razão de meu despertar para cada novo dia, intenso, vistoso, a luz que ilumina meu viver, a resposta de todas as minhas orações, o propósito de minha—
— VICTOR!
— ...existência e de tudo aquilo que—
— CHEGA.
Yuri nunca lidava muito bem com isso.
Yuri era tímido, quase sempre recatado, a menos que estivesse dançando, fosse dentro ou fora do gelo. Yuri tinha uma ansiedade tão forte que as vezes o chão parecia estar sumindo bem debaixo dos seus pés e Victor não sabia como lidar com isso. Yuri não precisava de muito para ficar com o coração partido. Yuri não sabia lidar com críticas e nem com elogios. Yuri era um coquetel de dedicação e baixa autoestima, quanto mais ele achava que ia falhar, mais ele treinava, até sagrarem suas unhas e solas.
Para Victor ele foi uma avalanche.
Seu primeiro amor platônico: a forma que um corpo convertia movimento em música.
Seu primeiro amor não-correspondido: o toque que lhe era negado sempre que se aproximava em demasia.
A descoberta de que não existia amor à primeira vista, pois sempre que o via o amava mais e a última vez o mirara nunca fazia jus a emoção que agora sentia.
Seu primeiro amor recíproco: dois anéis.
O único amor da sua vida, para sempre.
Estilo não era, portanto, o alimento da alma de Victor Nikiforov. Obviamente que ainda se interessava na moda, no design, em arte moderna, carros de luxo e toalhas de mesa. E queria que seu casamento estampasse a capa da Vogue Brides Magazine. Mas esse não era o X da questão.
Victor estaria disposto a casar dentro de um depósito, numa cerimônia ministrada por JJ Leroy, vestindo um terno bege e com toalhas de mesa magenta. Ele estaria disposto a pegar um avião para Las Vegas e casar dentro de um carro, passando por um cartório express. Se a Rússia inteira e todo o povo do Japão se unissem contra o seu casamento, ele entraria em um navio pesqueiro e casaria no meio do mar, acompanhado pelo odor dos peixes e a cinetose. Ele casaria debaixo de um despenhadeiro, em cima de um vulcão, na frente de uma manifestação popular e atrás de um cemitério.
Victor Nikiforov tinha 28 anos e seu mundo estava na palma da mão de Yuri Katsuki. Mas até Yuri entender isso, Victor continuaria a ponderar entre off white e branco.
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