Matina e Vésper
1 Matina e Vésper
Notas iniciais
MATINA E VÉSPER
Eram duas meninas que eu via, a todas duas a vida sorria, a todas duas a vida encantava. Eram duas flores distintas nascidas na mesma alegria, banhadas de igual esperança, metades de um mesmo dia, dois universos opostos, unidos no mesmo céu.
Vésper se vestia de lua, de noite, de solidão e silêncio; Matina se vestia de sol, de sorrir e de se dar.
Vésper olhava calada, profunda a pensar o mundo; Matina girava com ele, correndo à frente, ligeira.
Vésper todas as coisas sentia e seus olhos secretos passeavam sobre o céu, deslizando serenos e atentos atrás do entendimento; Matina todas as coisas olhava e sentia da terra o vigor e a urgência, sedenta de conhecer.
A elas, um dia se fez pouco, e Vésper estendeu seus desejos até bem depois do seu dia, enchendo de calmaria os passos que os minutos davam. Matina queria o antes, queria o mundo de agora, desde a primeira hora, queria despertar os longos braços do sol com seu próprio fogo e ardor, e ela correu a acordar o sol, acordar a casa e tudo mais que havia se esquecido de começar a viver.
\"- Sai... Me deixa... Estou dormindo agora...\" – Vésper se queixava amuada da pouca hora da menina, e jogava travesseiros na outra até que ela se findasse com seu fogo abrasador daquele pequeno universo estendido sobre as duas.
\"- Acorda, Vésper!! É hoje!! É nosso dia, é hoje! Levanta daí e vem!! – A euforia dela não tinha fim que chegasse.
\"- Deixa, eu sou só do amanhã\"– Vésper resmungou.
\"- É hoje!! Nosso dia é hoje!! Levanta e vem!\"
E ela puxou as cobertas com força e abiu as janelas todas e clamou a vida para dentro daquele universo escuro e quieto que a tudo parecia abrigar.
Então Matina sorriu uma alegria grande, dominando os espaços e alcançando com suas mãos quentes todas as janelas e portas, e Vésper controlou as horas, e enlaçou o tempo, e seu silêncio preencheu os cantos, misturando as sombras e as sensações.
E aquele dia que eu via correu assim aos meus olhos: Matina incendiou os risos e Vésper embalou os sonhos.
Por vezes, naquele dia, diante de mim elas se cruzaram e o domínio de tudo se fundiu para elas. Eu ri calma com as duas de muitos sonhos que tive, e chorei sentida um pouco da minha felicidade perdida, mas Matina e Vésper deslizaram suas vidas diferentes sobre tudo novamente, acordando o sentido das coisas, recriando minha vontade de acreditar.
*o*o*o*o*o*
Para Naly e Misty.
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