Math For Love
52 Invasão
Notas iniciais
As circunstancias que me fizeram acordar nessa manhã foram poucas. O calor e sol de primavera que invadia a janela de vidro perto da cama e o som irritante do transito em minha rua do Brooklyn foram suficientes para que eu acordasse ainda mais cedo do que havia planejado.
Eram cerca de oito horas da manhã e as ultimas dez horas de sono não compensaram todo o esforço da noite anterior. A doação de sangue, as descobertas no jantar e o encontro com Daniel Harris me fizeram implorar por uma noite de descanso, sem despertadores, sem exigências de horário. O sol brilhava como uma linda manhã de sexta-feira e nada fazia parecer que o inverno acabara de ir embora.
Ainda me espreguicei na cama. Esticando cada tendão e nervo de meu corpo, logo a sensação de relaxamento me invadiu. Não pretendia sair de casa nesse dia, esse seria exclusivamente para o caso Schuester, mais do que nunca, precisava de argumentos para a primeira audiência do processo que já se aproximava.
Caminhei até a sala de estar. O apartamento, como de costume, estava vazio àquele horário da manhã. Katie provavelmente estaria em uma das ultimas provas do semestre na NYU, motivo pelo qual estudou durante praticamente todos os dias da última semana.
Em cima da mesa, um estranho envelope marrom me chamou a atenção. Segurei-o com a mão direita e li o adesivo branco que continha meu nome como destinatário. Sem dúvidas, rompi o lacre e de lá tirei as folhas impressas. Ri ao ver uma cópia do documento de identidade de Alex Schuester, com uma foto nada agradável. Anexada, havia a sua certidão de nascimento, emitida em Minnesota. Era estranho ver um nadador que nasceu em uma cidade tão fria. Além dos documentos, haviam exames médicos da mãe de Schuester e de sua avó. Ambas tinham taxas descontroladas e entradas no hospital com suspeitas de ataque cardíaco.
Então era mesmo verdade. Por mais que o porte e a condição de atleta lhe proporcionem uma maior saúde, os ataques cardíacos poderiam sim ser de origem genética.
Levei os documentos até o meu quarto, depositando-os em cima da minha escrivaninha de trabalho. Abri o guarda-roupas e de lá tirei uma toalha branca, limpa. No caminho, liguei o aparelho de som na primeira estação de rádio que encontrei e deixei tocar algo que parecia uma música do Maroon 5.
Caminhei até o banheiro e liguei o chuveiro, deixando que a água quente tocasse meu corpo e meus cabelos. De olhos fechados, finalmente pude relembrar a noite passada. Uma preocupação exaustiva me fazia pensar em Jhennifer, no seu estado agora. Pretendia ligar para Paul e pedir notícias. Por mais que não reconhecesse, ela ainda era minha irmã. E, para completar, o olhar marcante de Daniel Harris não saía de minha cabeça. O que teria passado pela cabeça dele naquele momento? Será que sentiu o mesmo que eu senti? Aquela vontade de poder voltar no tempo e o abraçar e beijar sem que fosse algo estranho? Não importava. Ele parecia bem acompanhado, e aquela mulher de pele morena e longos cachos podia chamar a atenção de qualquer pessoa. Essa sensação de inferioridade e ciúme que me tomava conta... Será isso uma besteira? Será que eu continuo sendo aquela garota infantil de cinco anos atrás?
Desliguei o chuveiro, me enrolando na toalha. Penteei os fios pretos que insistiam em me deixar mais pálida, optando por deixá-los secarem naturalmente. Quase pulei ao sentir um vulto de preto atravessar o corredor ao meu lado. Me agarrei à toalha enrolada em meu corpo e dei um passo para trás, esbarrando num corpo alto. Por impulso, me virei e os encontrei. Os olhos mais lindos que algum dia já vi.
– Daniel? — Perguntei, nervosa. — O que faz aqui?!
A expressão na face de Daniel Harris demonstrava que nem ele mesmo sabia o que estava fazendo ali. Ele respirou fundo e dobrou as mangas de sua camisa social preta até os cotovelos, revelando a pele dourada de seus braços.
– Você está ocupada?
Só podia ser brincadeira. Será que a minha cara de perplexidade não era óbvia? Desviei o olhar para a toalha em meu corpo e percebi que ele também o seguia. Senti meu rosto esquentar e pude envolver o corpo com meus próprios braços.
– Não sei se percebeu, mas eu estava tomando banho. — Respondi, evitando seu rosto. — Como entrou assim? A Katie deixou a porta aberta?
– Não... — Ele respondeu, coçando o próprio couro cabeludo. — Quero dizer, ela me passou a chave, mas eu chamei antes de entrar, o som estava alto.
O som. Só então percebi que não havia mais música alguma desde que eu entrara no chuveiro.
– Como pôde entrar aqui desse jeito? — Perguntei, explodindo meu nervosismo.
Daniel revirou os olhos, colocando as mãos no bolso. Ele parecia ignorar minha pergunta?
– Tem alguma noção de como isso é errado?
– Eu só queria conversar com você.
– Conversar? Invadindo meu apartamento? Você não tem o direito de fazer isso! Olha só como eu estou vestida, poderia ser muito pior! — Respondi, abrindo os braços.
Daniel fitou o meu corpo e eu logo me arrependi de tal comentário. Envolvi novamente o meu corpo, ignorando o sorriso malicioso que surgia em sua face. Como eu sou idiota!
– Eu nunca vi você tão linda.
Minha pulsação de repente acelerou, mas eu a ignorei, revirando os olhos. Daniel parecia se divertir com a minha reação. Tudo o que eu queria era me trancar em meu quarto e fingir que isso nunca aconteceu, mas a porta pareceu muito distante quando tudo o que senti atrás de mim foi a parede lisa enquanto o corpo do homem ali presente parecia me prensar.
Meus olhos arregalaram e buscaram qualquer ponto que me desviasse dos dele, mas seu olhar me buscou em todas as direções, e eu não pude evitar o encarar.
– O-O que está fazendo? — Gaguejei, tremendo por inteira.
Daniel sorriu e tocou meus cabelos molhados com a mão direita enquanto se apoiava na parede com a outra.
– Estou cansado de esperar o destino trazer você para mim. Eu preciso de você de novo. Preciso como quando você me resgatou de minha vida de fraudes há quatro anos atrás, como quando você me fez sentir o que realmente é amor e como quando me ensinou a encontrar a felicidade e o sucesso no meu próprio talento. Ninguém em todo esse tempo conseguiu suprir a falta que você me fez e agora que está tão perto, não vou te deixar fugir de novo. E eu sei que você também quer isso. Sei pelo seu rosto avermelhado e sua pulsação acelerada que esse sentimento não é unilateral.
Respirei fundo, nervosa.
– Daniel, eu...- Sussurrei, ainda sem acreditar no que acabara de ouvir.
Eu estava sonhando? Acreditar que ele estava ali, na minha frente, era muito difícil.
Ele sorriu.
– Você não precisa falar mais nada.
Os lábios quentes de Daniel Harris tocaram os meus, e o choque térmico ali ocorrido me fez deslizar na parede, mas suas mãos fortes seguraram firmemente o meu quadril. Meu corpo parecia fervilhar e nunca nenhum beijo havia sido daquele jeito. O sabor de seus lábios era o mesmo, e eu segui o ritmo que seu beijo estabelecia. Fechei os olhos e me perguntei o quão real era aquilo tudo. Por mais cética, madura e fria que eu tentasse ser nos últimos anos, aquelas palavras me fizeram derreter por inteira. Era como se cada barreira criada por mim em meu Eu Interior caísse por terra, alcançando de vez esse sentimento soterrado pelo tempo. O toque de Daniel em mim parecia me roubar o ar, e eu fui obrigada a empurrá-lo quando ele começara a distribuir beijos pelo meu pescoço.
Respirei fundo, buscando o oxigênio que parecia inexistente naquele corredor. Daniel me olhava com um sorriso doce nos lábios.
– Calma. — Pedi, respirando fundo. — Eu vou me trocar. E aí a gente conversa.
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